Sexta-feira, 13 de Abril de 2018

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   No âmbito da Semana Cultural da Universidade de Coimbra, a Biblioteca Geral organizou na Sala de S. Pedro uma exposição sobre o Padre Manuel Faria (1916 - 1983). Além de um conjunto de painéis alusivos à vida deste importante compositor, a mostra exibe ainda uma parte do espólio que os familiares do homenageado legaram à Biblioteca da Universidade. A Dr.ª Isabel Ramires é a técnica responsável pela secção de manuscritos e foi com ela que combinámos esta visita. No entanto, a nossa guia foi a Dr.ª Cristina Faria, professora de Educação Musical na Escola Superior de Educação, responsável pela formação de muitos professores, e estudiosa da obra desta personalidade de grande destaque na vida artística do nosso país no século passado, no domínio da composição musical.

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   Na verdade, a professora Cristina Faria não é só professora e investigadora, ela é também sobrinha do compositor e corresponsável pela organização desta mostra. A ideia era reservar esta surpresa para o final, mas não foi possível, pois os apelidos e a a brincadeira com um trava-línguas logo denunciaram o laço familiar: «O que faria o Faria ao Faria se o Faria fizesse o que o Faria lhe fez?» Foi portanto a sobrinha de Manuel Faria que nos guiou, o que constitui um privilégio raro que agradecemos. Apesar disto, ninguém conseguiu identificar a nossa guia numa fotografia em que a numerosa família dos Farias posava. Ora, vejam lá se a identificam, não é fácil:

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    Manuel Faria era o mais velho de 11 filhos de um casal de condição modesta, caseiros de uma quinta em Ceide, no Minho. Nasceu em 1916, exatamente no ano em que Portugal entrou na 1ª Guerra Mundial. Naqueles tempos difíceis, os rapazes que pretendessem estudar eram encaminhados para o Seminário. Alguns acabavam por sair, pois não sentiam vocação religiosa, foi o caso de um dos irmãos de Manuel, Francisco, o pai da nossa guia, que acabaria por estudar Direito em Coimbra. Outro dos irmãos não entrou sequer no Seminário, não quis estudar e tornou-se sapateiro. Já Manuel, um apaixonado pelos livros e pela música, concluiu os seus estudos no Seminário e enveredou pela carreira eclesiástica. 

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   Concluída a sua formação inicial, foi enviado para Roma, estudar  música sacra, aí concluindo os seus estudos com distinção. Essa estada na capital italiana coincidiu com outro momento trágico da história europeia, pois a guerra atormentou mais uma vez o continente e o Mundo. A 2ª Grande Guerra eclodira em 1939, e a Itália de Mussolini estava diretamente envolvida. Manuel Faria encontrou-se assim no centro desse gravíssimo conflito. Revelando uma sólida formação humanista, empenhou-se na proteção aos perseguidos do nazismo e do fascismo, acolhendo e escondendo muitos refugiados. As cartas que escreveu durante esse período, apesar de censuradas, são importantes documentos desses trágicos tempos. 

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   De regresso ao nosso país, não conseguiu retomar o seu lugar de docente no Seminário pelo que, para prover o seu sustento, deambulou pelas terras do Norte de Portugal, recolhendo músicas, compondo e tocando. Faria era um excelente executante musical, nomeadamente de harmónio, um curioso instrumento em que o ar é insuflado por pedais movidos pelo instrumentista que, ao mesmo tempo, com as mãos sobre um teclado, pressiona as teclas que libertam o ar pelos tubos, vai produzindo os sons musicais. Antigamente, nos harmónios de grandes dimensões, disse-nos a Dr.ª Cristina, os foles era acionados por uns ajudantes do instrumentista, os foleiros.

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   Essa experiência é fundamental para a obra do compositor, pois além de marcar o início da sua atividade artística, denota ainda uma das fontes de inspiração mais importantes do seu trabalho, a recolha etnográfica, à semelhança do que acontecia com outras individualidades que, nessa época, se notabilizaram por terem empreendido um importantíssimo trabalho de recolha, como Fernando Lopes Graça (1906-1994) e Michel Giacometti (1929 - 1990), um italiano que se apaixonou pela música popular portuguesa.

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   As canções populares que recolheu foram submetidas a um processo de arranjo que lhes conferiu um duplo valor patrimonial, pois são simultaneamente testemunho de uma tradição popular e criação de um artista erudito. Muitas das partituras destas canções ao gosto popular constam desta exposição e foram mesmo cantadas há dois anos atrás, na igreja do Convento de S. Francisco, quando se comemorou o centenário do nascimento de Manuel Faria. Ao longo da sua vida, Faria compôs cerca de seis centenas de obras musicais, sendo que apenas uma parte dessa produção, pouco menos de metade, foi doada à Biblioteca Geral.

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   Uma das suas obras mais importantes foi uma ópera, intitulada «O Auto de Coimbra». Este trabalho foi encomendado por ocasião das comemorações do 9º centenário da conquista da cidade aos mouros. A ópera inclui dois atos: um primeiro dedicado à fundação da cidade e o outro celebrando a conquista pelo rei Fernando Magno, em 1064. Composta em 1963, só foi executada  em 2003, quando a nossa cidade foi a sede da Capital da Cultura em Portugal.

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   Em 1961, Manuel Faria regressou a Itália, agora como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. O objetivo era aprofundar os seus estudos de Composição. Nos anos seguintes, desenvolveu uma intensa atividade, compondo, tocando, ensinando, mas também escrevendo e promovendo importantes eventos culturais. Como reconhecimeto por esse esforço, recebeu o 1.º Prémio do Concurso Nacional de Carlos Seixas, em 1972, troféu que se exibe nesta mostra. É assim uma espécie de Óscar português da música, brincaram os nossos colegas. A verdade é que não andam muito longe da verdade....

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 Em 1983, foi agraciado postumamente com o grau de Comendador de Santiago de Espada, condecoração honorífica concedida pela Presidência da República a personalidades de grande destaque. Esta honra ocorreu já depois do seu falecimento, pois, pouco tempo antes, Manuel Faria não resistiu a uma doença incurável que o vitimou. A Dr.ª Cristina confidenciou-nos um pormenor tocante que revela a paixão deste homem pela música: nos últimos momentos da sua vida, no hospital e já muito doente, ele nunca deixou de compôr, de tal maneira que, com um lápis e uma pauta, passou para o papel, até ao fim, as notas que lhe enchiam a cabeça na esperança de as ouvir tocadas e cantadas.

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   Esperemos que tenham gostado de ler este texto tanto quanto nós gostámos de escutar a Dr.ª Cristina Faria e conhecer a vida e a obra desta personalidade do mundo da Música.  Resta-nos agradecer à nossa guia e aos responsáveis da BGUC que promoveram esta exposição e nos autorizaram esta visita.



publicado por CP às 17:30
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