Domingo, 18 de Fevereiro de 2018

2011-12-28 13.20.33.jpg

   Postais de Coimbra, Partilha de Lugares e Passagens é o título de uma exposição patente na Sala da Cidade, até ao dia 24 de março, que nós visitámos esta semana. Trata-se de uma coleção privada de postais que a Câmara de Coimbra adquiriu recentemente, integrando-a no acervo da imagoteca municipal e que nos remete, antes do mais, para a função do postal ilustrado. Antigamente, quando se visitava uma cidade ou uma terra estrangeira, era hábito comprar estas fotografias impressas em cartão com imagens de monumentos locais, paisagens ou figuras típicas e escrever uma breve mensagem no verso. Este costume vulgarizou-se na segunda metade do século XIX, quando as classes médias começaram a viajar com mais frequência, sendo uma forma simples e económica de comunicar, transmitindo sentimentos que iam desde a saudade ao enamoramento. Ao longo dos tempos, os postais foram objeto de interesse dos colecionadores que viam nessas imagens, mais do que a mensagem escrita, um documento histórico e um objeto artístico. 

 

2011-12-28 13.12.33.jpg

  Atualmente, quase ninguém envia postais, pois os modernos meios de comunicação, como o telemóvel e a internet, alteraram os nossos modos de comunicar uns com os outros. Hoje, enviamos sms e mensagens eletrónicas, usamos o WhatsApp, o Snapchat ou o Messenger, mas infelizmente já ninguém envia postais ilustrados! Nem os namorados!

   Esta exposição distribui por uma série de mesas dezenas e dezenas de postais, organizados por diversos assuntos relacionados com a história de Coimbra, os seus lugares, personagens e figuras típicas. Numa primeira mesa, dispõem-se os postais sobre as festividades da Rainha Santa, a padroeira da cidade. O dia 4 de julho, dia da sua morte, é mesmo o nosso feriado municipal. As festas há já muito que, nos anos pares, se realizam nessa semana, com celebrações religiosas e culturais. Podemos apreciar alguns postais onde é possível documentar a grandiosidade dessas festas nas primeiras décadas do século passado, bem como o fervor e devoção que as populações dedicavam, e dedicam ainda, à memória de Isabel de Aragão.

WP_20180120_17_14_22_Pro.jpg

 

    Nesta secção podemos ver figuras da etnografia coimbrã, como a tricana, o futrica, o estudante, a lavadeira, o bedel ou o lente da universidade. Quanto à tricana, ela vestia normalmente uma saia comprida, um pequeno avental, um chambre (uma pequena blusa), um cachené (um lenço que cobria a cabeça e se atava sob o queixo) e um xaile sobre os ombros. A tricana era uma mulher do povo, normalmente representada com um cântaro a caminho da fonte ou do rio, onde ia buscar água. Eram famosas as paixões que suscitava entre os estudantes, bem com as cenas de ciúmes sentidas pelos futricas. Ao fundo da Rua do Quebra-Costas existe uma escultura em bronze que homenageia esta figura outrora tão típica do meio coimbrão. Em baixo, reproduzimos alguns postais que vimos na exposição.

 

   2011-12-28 13.21.32.jpgWP_20180120_17_15_00_Pro.jpgWP_20180120_17_14_54_Pro.jpg

2011-12-28 13.20.20.jpg

   A mesa seguinte era dedicada às tradições académicas. Destaca-se uma série de postais dedicados ao Centenário da Sebenta, em 1889. Esta festa parodiou as comemorações que, desde 1880 em que se assinalou o tricentenário da morte de Camões, eram frequentes na vida cívica e política do país. Os estudantes lançaram então uma paródia a essas festas cívicas, escolhendo a sebenta como pretexto para a realização de cortejos e saraus. A sebenta era uma compilação das lições dos professores da Universidade. Nessa ocasião, os estudantes começaram a queimar as fitas, como forma de assinalar a proximidade do final do curso.

WP_20180120_17_16_02_Pro.jpg2011-12-28 13.26.49.jpg

   Em 1905, realizou-se o Enterro do Grau , na sequência de uma reforma dos cursos universitários que mantinha os graus de licenciado e doutor, abolindo o grau de bacharel. Esta festa, tal como o Centenário da Sebenta, podem considerar-se os antecedentes da Queima das Fitas.

WP_20180120_17_17_24_Pro.jpg2011-12-28 13.24.31.jpg

   Do Choupal até à Lapa é o título de um conhecido fado de Coimbra e é também o tema de uma secção dedicada ao rio Mondego, carinhosamente tratado pelos habitantes de Coimbra como Basófias, pois no verão, ainda que sendo o rio mais extenso do país, levava muito pouca água, apesar da sua fama de rio caudaloso que, no inverno, transboradava as margens, causando grandes inundações.

2011-12-28 13.24.22.jpg2011-12-28 13.25.09.jpg

2011-12-28 13.29.30.jpgWP_20180120_17_27_35_Pro.jpg

   O assoreamento do rio resultou do entulhamento ao longo de décadas e décadas, obrigando a água a correr em pequenos fios que se ramificavam pelas margens, então ainda não emparedadas. O leito tornava-se então um grande areal, aproveitado como praia pelos habitantes e pelas lavadeiras que aí lavavam a roupa recolhida nas casas dos estudantes e a estendiam depois para secar, compondo um cenário que, durante muito tempo, foi uma imagem muito divulgada de Coimbra.

2011-12-28 13.20.55.jpg

WP_20180120_17_13_45_Pro.jpg

   As pontes do rio Mondego são também motivo para muitos cartões postais. Principalmente a chamada ponte de ferro, construída entre 1873 e 1875, com projeto de Matias Heitor de Macedo, e a atual ponte de Santa Clara, projetada pelo conhecido engenheiro Edgar Cardoso, inaugurada em 1954 e ainda hoje ao serviço. Os postais antigos mostram ainda as pontes ferroviárias do Choupal e a da Portela, bem como a ponte rodoviária também neste último local, ainda hoje existente mas já sem trânsito.

2011-12-28 13.24.17.jpg

WP_20180120_17_14_01_Pro.jpg

WP_20180120_17_25_26_Pro.jpg

WP_20180120_17_25_10_Pro.jpg

   Na viragem do século XIX para o século XX, a cidade beneficiou de uma série de novos equipamentos, como bancos, escolas, museu ou hospitais. No atual Largo da Portagem, outrora Largo Miguel Bombarda, foi construída a nova sede do Banco de Portugal, da autoria de Adães Bermudes. A Escola Prática Central de Agricultura instalou-se, em 1887, na Quinta do Bispo, dando origem à atual Escola Superior Agrária. Igualmente nos inícios do século XX foi a criação do Jardim Escola João de Deus, com traço de Raul Lino. O Portugal dos Pequenitos, do igualmente famoso arquiteto Cassiano Branco e promovido pelo Professor Bissaya Barreto, é outra das novidades. Na Quinta dos Vales, num terreno cedido pela colónia de emigrantes portugueses do Brasil, e também graças à iniciativa de Bissaya, surge um sanatório masculino para tuberculosos, inaugurado em 1935, e que é hoje o chamado Hospital dos Covões. 

2011-12-28 13.27.19.jpgWP_20180120_17_28_09_Pro.jpg2011-12-28 13.25.50.jpgWP_20180120_17_33_35_Pro.jpg

   Os vários mosteiros e igrejas da cidade, bem como alguns equipamentos e ruas, foram captados em postais, circulando pelo país e pelo mundo. As impressões dos turistas e viajantes, tanto nacionais como estrangeiros, contribuíram para a divulgação de Coimbra e do seu património. Alguns desses locais, pelo seu simbolismo, mereciam uma atençao especial, como o Mosteiro de Santa Clara com o túmulo da Rainha Santa, a Sé Velha, o Seminário, ou a igreja de Santo António dos Olivais.

2011-12-28 13.28.59.jpg

WP_20180120_17_30_38_Pro.jpg

WP_20180120_17_33_57_Pro.jpg

WP_20180120_17_33_11_Pro.jpg

WP_20180120_17_30_56_Pro.jpg

WP_20180120_17_31_28_Pro.jpg 

   Entrando pela cidade vindo do sul, pelo Largo da Portagem, percorria-se a principal artéria da cidade, formada pelas atuais ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz, chegando ao Largo de Sansão, ou Praça 8 de Maio, onde se encontra a Igreja de Santa Cruz, um dos mais importantes monumentos da cidade do país e um dos mais represantados nos postais de Coimbra. Pegado à fachada da igreja está o edifício da Câmara Municipal que, no século XIX foi edificado para acolher os órgãos do poder concelhio.

WP_20180120_17_32_53_Pro.jpgWP_20180120_17_32_32_Pro.jpg

   A Universidade, com os seus edifícios e as suas tradições, os lentes e os estudantes, foram naturalmente das realidades mais fotografadas e divulgadas. São inúmeros os instantâneos do Paço das Escolas, dos Gerais, da Sala dos Capelos e da Torre da Universidade, bem como dos edifícios pombalinos. 

WP_20180120_17_33_20_Pro.jpg

2011-12-28 13.22.01.jpg

WP_20180120_17_33_16_Pro.jpg

   Coimbra foi outrora conhecida, embora hoje possa não parecer, como a Cidade-jardim, tantos, tão belos e tão cuidados eram os seus espaços verdes: o Choupal, a Lapa dos Esteios, o Parque da Cidade, a Quinta das Lágrimas, a Mata de Vale de Canas ou o Jardim Botânico. O ambiente romântico da cidade era propiciado pela beleza idílica das margens do Mondego, onde os pares amorosos passeavam e namoravam. Muitos suspiros de amor devem ter sido transportados no versos destes postais!

2011-12-28 13.24.07.jpg 2011-12-28 13.29.30.jpg WP_20180120_17_24_10_Pro.jpg WP_20180120_17_34_52_Pro.jpg

WP_20180120_17_24_34_Pro.jpg

WP_20180120_17_28_02_Pro.jpg    WP_20180120_17_34_29_Pro.jpg



publicado por CP às 18:23
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
mais sobre mim
Fevereiro 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

12
13
14
15
16
17

19
20
21
22
24

25
26
27
28


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO