Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018

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   Monsenhor Nunes Pereira nasceu na aldeia de Fajão, concelho de Pampilhosa da Serra, em dezembro de 1906. O seu pai era escultor de santos e faleceu quando Augusto, era esse o seu nome próprio, tinha apenas 9 anos: "Dele herdei este jeito para as artes e um razoável conjunto de ferramentas, com as quais iniciei a minha aprendizagem manual: plainas, serras, formões, goivas e o mais da arte". Foi nessas serranias distantes de tudo que ele viveu até à adolescência, contactando com a vida dura dos camponeses, com as suas tradições ancestrais, os seus hábitos e costumes que tanto o marcariam.

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   Optando pela vida eclesiástica, em 1919 entrou no Seminário de Coimbra, sendo ordenado sacerdote dez anos após. Foi pároco em Montemor-o-Velho, Coja e na igreja S. Bartolomeu, em Coimbra, até se aposentar. Entre 1952 e 1974 foi chefe de redação do jornal Correio de Coimbra, onde foram publicados muitas das seus trabalhos. Monsenhor Nunes Pereira desenvolveu uma atividade muito intensa e diversificada, dirigiu o Museu de Arte Sacra do Seminário, preocupou-se com o património cultural, produzindo muitos estudos e promovendo a sua valorização, investigou especialmente sobre a sua paróquia de S. Bartolomeu, assim como sobre os túmulos e o púlpito da igreja de Santa Cruz, tendo colaborado ainda no inventário cultural de Arte Sacra da diocese de Coimbra.

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   Fundador do Movimento Artístico de Coimbra e da Sociedade Cooperativa de Gravadores de Portugal, foi também sócio da Sociedade Nacional de Belas Artes. Possui numerosos artigos, poemas e ilustrações em jornais, catálogos, opúsculos e monografias. O seu espólio, constituído por centenas de objetos, senão mesmo milhares, segundo nos informou a Dr.ª Cidália Santos que nos conduziu nesta visita, estão depositados no Seminário. Devidamente catalogados e inventariados, estão agora expostos num pequeno museu que foi criado na cave do Seminário.

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 Nunes Pereira, apesar de nascido no interior recôndito do país, era um homem viajado. Andou pela Itália, foi a Paris, conhecia a Alemanha e a Holanda. Essas viagens marcaram-no profundamente, quer do ponto de vista pessoal e espiritual, mas também sob o ponto de vista artístico. No regresso dessas viagens, foi experimentando novas técnicas de expressão artística, como o desenho à pena, a escultura em madeira, a pintura, a gravura em metal, a xilogravura ou a monotipia.

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   Um dos aspetos mais marcantes deste pequeno museu é a exposição das máquinas e das ferramentas utilizadas pelo padre-artista na produção dos seus trabalhos. Na parede, podemos ver algumas fotografias ampliadas de Monsenhor a trabalhar. Nunes Pereira morreu no dia 1 de junho de 2001, aos 94 anos de idade. Disse-nos a nossa guia que, no dia em que faleceu, ainda dedicou alguns momentos à sua arte, podendo afirmar-se que trabalhou quase até ao último suspiro. Assim se entende a enorme obra que nos legou, a exigir um estudo por parte dos especialistas em História da Arte. A Drª. Cidália lamentou o desconhecimento que envolve esta ilustre personalidade, pois não são muitos os que reconheceu o seu nome, apesar de o seu nome ter sido atribuído a uma rua da nossa freguesia, mais precisamente a artéria que passa mesmo em frente ao supermercado do Corte Inglês.

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   A xilogravura foi a técnica de reprodução preferida por Monsenhor Nunes Pereira. É uma espécie de carimbo em que o gravador, utilizando objetos cortantes como um formão ou uma goiva, produz diversos entalhes numa superfície de madeira de forma a obter um desenho. Pode fazer os entalhes em negativo, para que a imagem seja impressa numa folha de papel depois de embebida a madeira em tinta, ou em positivo, para a gravura ser contemplada diretamente. Segundo os historiadores, esta técnica é muito antiga, e terá as suas origens na China, conhecendo grande divulgação no Ocidente a partir do séc. XVIII.

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   Monsenhor Nunes Pereira andava sempre com um pequeno caderninho e um lápis, desenhando constantemente, em qualquer circunstância. Na rua, num autocarro, numa sala de espera, ocupava o seu tempo morto a desenhar e, não raras vezes, surpreendia as pessoas, oferecendo-lhe os desenhos que produzia. Noutras ocasiões, aproveitava pequenos calhaus, ramos e troncos, plaquinhas de osso ou marfim, para, com um canivete ou outra ferramenta afiada, produzir objetos artísticos. Nesta mostra, numa vitrina central, podemos ver alguns desses surpreendentes objetos.

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   Além destas técnicas, Monsenhor destacou-se também à arte do vitral. As suas obras estão espalhadas por várias terras da região. Em Coimbra, na clínica de Santa Filomena, podemos apreciar o seu primeiro trabalho desta arte tão antiga. Quem visitar a igreja de S. José, pode ver o seu derradeiro trabalho e porventura o mais importante.

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   Interessou-se também pela recolha de contos tradicionais da sua região natal, que publicou e ilustrou. O painel que reproduzimos acima ilustra os diversos contos tradicionais que publicou com o título Contos de Fajão, que o Seminário de Coimbra se prepara para reeditar. Achámos particularmente engraçada uma das cenas em que a comunidade aldeã recebe a visita do sr. bispo, uma figura muito importante, ainda mais naqueles tempos e naquele lugarejo. O bispo ia montado numa mula que, ao parar para receber os cumprimentos populares, calcou o pé de um aldeão. Este, muito incomodado e contendo a dor, mas com vergonha de se dirigir à autoridade religiosa de forma menos respeitosa, terá desabafado de forma educadíssima: «Senhor Bispo, Vª. Exª. ainda se demora aqui muito tempo? ... É que a mula de Vª. Exª. tem um pé em cima da minha pata...»

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   Estas xilogravuras dos Contos de Fajão, a par de gravuras de Jesus, de Santos e do culto mariano, constituem o valioso espólio etnográfico e de Arte Sacra do Museu do Seminário Maior de Coimbra que convidamos todos os nossos leitores a visitar, conhecendo uma das mais interessantes personalidades da vida cultural e artística da nossa cidade e região.

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publicado por CP às 19:06
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