Sexta-feira, 27 de Abril de 2018

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   O Dr. Telo de Morais é um conhecido médico conimbricense, nascido em 1929, em Viseu. Estudou Medicina na nossa cidade e aqui se radicou, desenvolvendo a sua atividade profissional durante décadas. Além da profissão, o Dr. Telo de Morais, juntamente com a sua esposa D. Maria Emília, sempre teve uma paixão pela pintura portuguesa e pelo colecionismo. Assim, ao longo das suas vidas, juntaram uma coleção de pintura dos mais importantes artistas portugueses da segunda metade do século XIX e das primeiras décadas do século seguinte. Em 1998, decidiram doar à cidade a sua vasta coleção, impondo como condição que as obras fossem depositadas no Edifício Chiado. A Câmara Municipal de Coimbra aproveitou então para reabilitar este histórico edifício, que um dia merecerá uma visita nossa. Depois de recuperado e adaptado, acolheu um dos núcleos do Museu Municipal.

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   Foi esta coleção que visitámos esta semana. Porém, tínhamos uma supresa. O objetivo não era só conhecer a coleção e apreciar os quadros. Na verdade, inspirados num livro de Mónica Baldaque, intitulado «Do Outro Lado do Quadro», decidimos experimentar essa estratégia, inventando histórias a partir de quadros. Esta autora imaginou uma série de pequenas narrativas a partir de oito pinturas e esculturas do Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto. 

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   Foi assim que, organizados em parelhas, devidamente munidos de um pequeno bloco de notas e de um lápis, nos lançámos nesta atividade. As regras eram poucas e simples: em primeiro lugar, passear pela sala, sem correr, sem gritar e sem tocar em nada, apreciando brevemente as pinturas, lendo atentamente as placas informativas dos quadros que mais nos impressionassem e, por fim, eleger um preferido. Depois, pusemos a imaginação a voar. A ideia era inventar uma história a partir do quadro escolhido. No final, juntámo-nos próximo de cada um dos quadros selecionados, para que os pares lessem as suas histórias.

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 A Alice e a Madalena escolheram um óleo do pintor António Carneiro (1872-1930), intitulado Mar da Praia da Foz do Douro, pintado em 1904. Ora leiam:

«Numa tarde de inverno, estava a chover torrencialmente. Nesse dia, encontrei no fundo da gaveta este caderno. Abri-o e escrevi apenas: Não tenho nada para fazer. Não penses que voltarei a escrever aqui. Acho que contar os meus segredos a 120 folhas de papel que qualquer pessoa pode ler é infantil e fútil, principalmente quando se tem a minha idade.

   Hoje passei pela mesma situação: chuva, nada para fazer, .... blá, blá, blá... Só que hoje devia estudar, mas não estou com pachorra para isso.... Foi então que, ao virar a folha, me deparei com uma fotografia da praia onde costumava passar férias. Boas memórias! Lembro-me especialmente do mar... Era azul muito claro e brilhante, as ondas com camadas abundantes de espuma fazem lembrar o céu à noite, pois podiam notar-se pequenos pontos brilhantes que pareciam estrelas. Por cima da bonita paisagem marinha, onde se podiam ver tartarugas e caranguejos, notava-se um ponto luminoso muito forte, era o pôr-do-sol, em tons claros e escuros contrastando com as nuvens brancas e fofas que me faziam lembrar algodão-doce. Ahhhh! Por falar em algodão-doce, acabei de me lembrar que não como há duas horas! Procurar inspiração para esta coisa ocupou-me a tarde. Assim, fecho este caderno e vou comer aquele belo bolo de chocolate que a minha mãe deve estar a fazer. Já me cheira aqui no quadro....»

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    A Laura e a Sofia redigiram uma história que intitularam Curiosos na Floresta, a partir de uma tela da pintora Estrela Faria (1910-1976) chamada Mata e Figuras:

«Nas profundezas nunca exploradas da Amazónia, há uma floresta temida por todos. Até de longe mete medo! O bosque é sombrio e arrepiante. Entre as crianças do bairro, vivia um rapaz muito curioso e atrevido que um dia decidiu espreitar... Ainda não tinha chegado próximo da mata e já estava com vontade de voltar para trás. Mas, uma parte dele queria continuar e, por isso, atirou o medo para as pedras e seguiu em frente. Já entrara na floresta quando olhou à sua volta e percebeu que acabara de cometer um erro: não sabia o caminho de volta! 

   Aflito, pegou no telemóvel para ligar ao pai, quando se apercebeu que não tinha bateria! Meteu o telefone no bolso, andou em frente até avistar uma clareira. Ao seu redor estavam vários animais a brincar e a dormir. Reparou então que, ao contrário dos boatos, a floresta era magnífica. Os animais guiaram-no até casa, e ele contou a sua aventura a todos os seus familiares e amigos.

   Daí em diante, todos fazem passeios pelo bosque, especialmente o menino e o seu pai.»

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José Teixeira Barreto (1763-1810) foi um autor do século XIX, da escola neoclássica, nascido no Porto, que se celebrizou pelos desenhos que produziu mas também pelo seu trabalho como entalhador. Na coleção Telo de Morais existe um seu desenho a tinta-da-china sobre uma história bíblica. A obra tem como título David e Abigail, mulher de Nabão. De acordo com o Antigo Testamento, Abigail era uma mulher muito bela e inteligente casada com um homem muito rico chamado Nabão, que possuía milhares de cabeças de gado, entre cabras e ovelhas. Nabão tinha mau feitio, era muito avarento e tinha uma «natureza ruim». Um dia,  o rei David enviou alguns homens da sua confiança pedir um donativo como recompensa pela proteção que lhe dava. No entanto, foram mal recebidos e insultados. De regresso, David decidiu vingar-se e matar o insolente Nabão. Foi assim que partiu ao seu encontro com um bando de homens armados. Porém, Abigail foi informada do facto e, sem dizer nada ao marido Nabão, juntou as melhores iguarias que conseguiu e dirigiu-se ao encontro de David. Ao chegar junto dele, pediu perdão pela insolência de Nabão, apresentando-lhe as suas valiosas oferendas. O rei aceitou as prendas e as desculpas, ficando muito impressionado com a beleza e inteligência de Abigail. Esta regressou para junto do marido que festejava, embriagando-se. Passados uns dias morreu. David ficou muito satisfeito e aproveitou para casar com Abigail, fazendo-a uma das suas mulheres. 

   Leiamos agora a versão dos nossos amigos. O título é A Boa Senhora. «Era uma vez, na época dos romanos, umas pessoas do povo que passavam muita fome. Apesar de tudo fazerem para obter alimento, eram muito pobres e passavam muita fome. Entre elas, vivia uma senhora que, trabalhando imenso, conseguiu obter muito alimento. Os outros homens, roídos pela inveja, esfomeados e em desepero, apresentaram queixa a um guarda, dizendo que a senhora lhes roubara a comida. Pediam ainda para que o alimento lhes fosse devolvido. E foi isso que aconteceu. A senhora, que nunca fizera mal a uma mosca e que ajudava toda a gente, acabou por morrer. Os homens sentiram-se culpados, mas nunca chegaram a admitir a mentira.»

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   O Tomás e o Falcão escreveram a história mais preguiçosa e mais disparatada de todas a partir de um quadro de Tomás da Anunciação (1818-1879). Até no título hesitaram: depois de pensarem num sugestivo Era uma vez um boi chamado António, acabaram por optar por um título mais comum: O Boi e a Vaca: «Era uma vez um pastor chamado Zacarias que tinha muitas vacas. Uma delas, chamada Josefina, estava grávida de gémeos, e o boi que a engravidou chamava-se Quim (...). Zacarias tinha dado esse nome em homenagem à sua cabritinha que já tinha parido uma cria. Toda a aldeia veio assistir ao nascimento do vitelo, até o Lil Pump, cantou.» 

   Como vêem, a história não tem pés nem cabeça, pois os nossos amigos decidiram armar-se em engraçadinhos... Fica registado o seu sentido de humor...

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    A Ana Eduarda e a Constança escolheram um óleo sobre tela do pintor José Júlio Sousa Pinto (1856-1939), intitulado Apanha do sargaço. Convém explicar que o sargaço é uma alga marítima que as correntes e as marés empurram para as praias, principalmente no norte do país, e que é aproveitada pelos camponeses, que a apanham e secam ao sol, pois é um excelente fertilizante.  A Velha é o título da história das nossas amigas. Ora leiam: «Olá! Eu sou a Ricardina Adelaide e tenho 81 anos. Digo a minha idade para não me perguntarem, pois não é bonita! Eu vivo numa aldeia chamada Bagunça, que tem muito sargaço. Já agora, eu sou sargaceira e todos os dias tenho de ir para a ria apanhar o sargaço com a minha família. Vou contar-vos uma história: uma vez, estava eu na ria, quando deparei com um caranguejo venenoso, que me picou o pé. Pensava eu que as algas me iam curar mas, quando as coloquei sobre a ferida, fiquei com o pé ainda mais inchado. Fui ao hospital, onde tive que pagar 200 escudos. Para minha surpresa, fiquei muito melhor.» 

   Enfim, esta história também saiu um belo de um disparate! O mais intrigante é como é que a velhinha ficou surpreendida com o facto de o tratamento hospitalar ter produzido melhoras! 

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   Continuando com os disparates (mais valia ter chamado à nossa atividade Histórias Disparatadas!), vamos ouvir a história do Miguel e do Sobral, a partir de um belo quadro de Albertino Guimarães (1891-1967): «Era uma vez uma aldeia cheia de pessoas felizes. Aí vivia também uma senhora que era muito má que não se importava com os outros. Um dia, ela acordou e não viu ninguém. Então, pôs-se a rezar e ficou muito infeliz, pois ficou muito doente. Foi então que a solidariedade dos vizinhos se manifestou, ajudando-a até que ela ficou boa. Deste modo, a velha nunca mais foi má para os outros. Até que um dia morreu e ninguém foi ao seu funeral.» Enfim.... quem perceber a história faça o favor de explicar! 

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   Uma Rua em Portugal  é o título de um quadro do pintor Francis Smith, nome artístico de Francisco Smith, pintor português de origem inglesa, nascido em 1881, em Lisboa, e falecido em Paris, em 1961. Eis a história do Manuel e do Tomás, intitulada A Super-Festa: «Certo dia, o senhor Gervásio organizou uma festa que acabou mal. Vamos contar os pormenores. deu-se o caso de o senhor Gervásio bater às portas dos vizinhos, dizendo sempre o mesmo:

- Olá, boa tarde, queria convidá-lo para a festa do ano!

   Todas as pessoas aceitaram. No dia da festa, tocaram música a altos berros. Todas as meninas e todos os rapazes dançaram toda a noite, fazendo muito barulho. Até que chegou um polícia e tudo se complicou. Ele foi falar com o senhor Gervásio que inventou uma desculpa:

- Ó senhor polícia,.... eu estou apenas a tentar vender .... - tentou explicar-se o pobre senhor Gervásio.

- OK, então vou-me embora!

   E assim fez. Mal o viram afastar-se, logo regressaram todos ao baile. Todos à exceção do senhor Gervásio, que foi levado pelo polícia para a esquadra!»

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   Na Serra da Estrela (1932) é o título do guache sobre papel do pintor Thomas de Mello (1906-1990), mais conhecido por Tom. A história do Afonso e do Francisco, à semelhança de quase todas as outras, é um bocado inquietante. Chamaram-lhe O Bem e o Mal: «Hoje em dia, embora não pareça, há duas pessoas que garantem o equilíibrio no Mundo: o Tomás e a Mafalda, que são a reencarnação do Bem e do Mal. Eles vivem na Serra da Estrela, escondidos, pois possuem grandes poderes. Certo dia, decidiram juntar-se aos humanos para ver como era a sua vida. Foi então que o Bem usou os seus poderes para proteger uma pessoa, enquanto o Mal, não querendo ficar atrás, usou os seus poderes para destruir uma casa feita de madeira. Com isto, os aldeãos da montanha queixaram-se às autoridades. uma hora depois, as autoridades chegaram e expulsaram-nos, pois eram uma ameaça para a comunidade, para os humanos que queriam levar uma vida normal. Depois, durante a noite, quando já todos estavam em casa, o Bem e o Mal tiveram uma conversa. Uma semana após, o Mal foi-se embora, para um sítio muito recôndito. O Mal não conseguia esquecer o que o Bem lhe fizera e, por isso, voltou para se vingar. Foi assim que, certa manhã, o Mal, discretamente, foi a casa do Bem e matou-o.»

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publicado por CP às 19:09
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