Sexta-feira, 20 de Abril de 2018

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   Hoje fizemos a nossa viagem mais curta de sempre, nem foi preciso apanhar o autocarro, bastou atravessar a estrada e, logo ali ao virar da esquina, no quarteirão seguinte, chegámos ao nosso destino: a Galeria Sete. Fomos recebidos pelo Eduardo Rosa, o galerista fundador e proprietário deste espaço. Além de galerista, o Eduardo é também um colecionador e um estudioso, é, em suma, um apaixonado pela Arte. De acordo com a página da internet desta galeria, o nosso anfitrião já coleciona obras de arte há mais de 25 anos! Como é vizinho da nossa escola, decidimos convidá-lo a convidar-nos, isto é, perguntámos ao Eduardo Rosa se nos podia convidar a visitar a sua galeria. Ele nem hesitou, respondeu logo afirmativamente, pois um dos seus objetivos é precisamente contribuir para a educação artística dos seus concidadãos, ajudar a criar públicos na cidade. Ora... esse é também um dos nossos objetivos!

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      Uma galeria é uma loja que vende arte. Esta é a definição mais simples e, embora correta, não é totalmente satisfatória, pois não transmite a paixão que o galerista sente pela arte que vende, nem o valor cultural da sua missão. O galerista, antes de vender, promove e valoriza os artistas que representa, produzindo exposições, acompanhando as suas carreiras. no fundo, considerando que o artista produz para o público e o público procura a produção dos artistas, o galerista posiciona-se no meio, é um intermediário que procura servir os interesses das duas partes, sendo esse o seu interesse.

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   Neste momento, a Galeria Sete exibe uma exposição da artista caldense Eduarda Rosa que, apesar da semelhança do nome com o do nosso galerista anfitrião, não tem nenhum parentesco. A mostra intitula-se Formas primitivas e caracteriza-se por uma grande delicadeza e rigor das formas que gera no espectador uma «sensação de beleza fresca...», nas palavras  do catálogo de apresentação.

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  Esta artista nasceu nas Caldas da Rainha em 1949 e tem um percurso muito curioso. Com uma formação académica na área da Farmácia, tendomesmo obtido o grau de Doutorada e sido professora universitária, dedicou-se à produção artística depois de se jubilar. Estudou numa escola superior especializada e, depois de adquirido o novo diploma em 2012, entrou neste mundo da arte contemporânea. 

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   Além deste trabalho, o galerista também ajuda na planificação e promoção de eventos culturais, reunindo obras dispersas de coleções particulares, valorizando-as e estudando-as. Como exemplo, vimos uma pintura do consagrado pintor Jorge Pinheiro intitulada Discurso para uma Mulher da Palestina, produzida em 1988. Este trabalho, que estava coberto e encostado a uma parede, pois não se insere em nenhuma mostra e estava ali simplesmente em trânsito, impressionou-nos profundamente e serviu de mote para uma conversa muito interessante.

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   Os artistas estão inseridos no seu tempo, sentem os problemas da sua época e refletem sobre eles. Não quer dizer que todos os artistas sintam esta preocupação de veicular nos seus trabalhos os problemas políticos e sociais, mas esta obra de Jorge Pinheiro traduz uma visão do problema da Palestina. Nós ainda somos muito jovens, mas já ouvimos falar sobre os problemas do Médio Oriente e os conflitos entre palestinianos e israelitas. Sabendo que este trabalho data de 1988, constatamos que a sua atualidade permanece, infelizmente, e aquele olhar angustiado, que já deveria ser apenas uma memória, ainda existe naquela e noutras regiões do Mundo.

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   Outro trabalho que nos chamou a atenção foi um de Alexandre Baptista sem título, incluída numa série que ele designou assim: Corpo. Twenty-four Drawings about Somebody (1999). Trata-se de um trabalho intrigante, pois sobre a capa e a contracapa de um caderno pré-existente, ligadas através de uma guita entrançada que envolve um pincel e suspende uma etiqueta, o autor lançou uma pasta terrosa que dá um relevo muito marcante ao caderno. Detivemo-nos por ali uns minutos a olhar e dialogar com esta obra.

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   Esta sala da cave da galeria já não é dedicada à exposição de Eduarda Rosa. Além de Alexandre Baptista, contemplámos outros trabalhos afixados nas paredes, destacando os finos e delhados desenhos de Filipe Romão.

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   Por fim, no depósito onde se armazenam as obras em reserva, agora mais ambientados, desenvolvemos alguns temas interessantes. Um dos detalhes que nos impresssionou foi a influência que os títulos que os autores atribuem exercem sobre o público. É que, como realçou o Eduardo, a obra de arte só se completa no olhar do observador. por outras palavras, a nossa leitura faz parte da obra de arte. E, como ficou provado na nossa experiência, o título condiciona o olhar. Tirámos essa prova quando nos confrontámos com uma estranha obra: nada mais do que duas bolas de futebol. Uma com fundo negro e recortes brancos e outra ao contrário, isto é, branca com retalhos pretos. Parecia uma montra de uma loja de artigos desportivos! Depois do Eduardo nos dizer que aquele trabalho fora produzido por ocasião do Euro 2004 e que o título era Europa, África, ouviram-se uma série de aaahhhhhh! e, logo após, sucederam-se, em jorros explicativos, uma série de análises da obra de arte!

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   O Eduardo conduziu-nos depois numa abordagem a diversos trabalhos pendurados pelas paredes, tentando encontrar aquilo que chamou de marcas autorais. Na verdade, tal como quando atendemos um telefonema e ouvimos a voz da pessoa que nos ligou, indentificamo-la imediatamente, pelo tom, pela expressividade, pela modulação da voz. O mesmo ocorre quando ouvimos músicas de bandas, ou seja, há uma série de características que se mantêm de música para música e que, sem que as saibamos apontar, nos permitem reconhecer o intérprete. É exatamente isto que sucede com os artistas plásticos. Com alguma experiência, começamos a reconhecer técnicas, elementos compositivos, temáticas que permanecem nas diferentes produções dos autores. 

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   Algumas obras são abstratas, outras figurativas, umas muito coloridas, outras mais sombrias.... É tão grande a diversidade que catalogar os artistas em movimentos e correntes estéticas é não só impossível como desnecessário. O que é importante é dialogar com as obras de arte. É muito frequente, principalmente no mundo da arte contemporânea, assistirmos a atitudes trocistas e de rejeição imediata. Porque a arte contemporânea não se caracteriza pelos padrões clássicos de beleza, nem exige grandes apuros técnicos, é muito frequente o público desprezar e desvalorizar as obras contemporâneas. A Liberdade, de produção e de interpretação, é a atitude correta neste diálogo entre o artista e o observador. Dialogar, ou pelo menos fazer um esforço para dialogar, é o mínimo que se pode fazer... E não custa nada.

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   Foi a esse exercício a que nos dedicámos de seguida, com a ajuda do Eduardo. Confortavelmente sentados no chão, fomos lançando olhares e perguntas, trocando ideias, afinando repostas, reparando em pormenores, à medida que o nosso galerista ia fazendo desfilar, à frente dos nossos olhos, uma série de quadros. E, do meio daquela tempestade de ideias, lá se foi fazendo alguma luz. Como as palavras são como as cerejas, e como as ideias de uns despertam ideias de outros, acabámos por gerar ali um ambiente estimulante.

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   Por fim, regressámos à sala inicial. Depois de um assalto aos rebuçados, depedimo-nos do Eduardo Rosa, agradecendo o momento que nos propiciou. Antes de irmos embora, lembrámos que a galeria de arte está sempre aberta, pelo que estamos sempre convidados a entrar. Para ver, para admirar, para conversar, para comprar, para olhar apenas. Estão, pois, todos convidados.... sempre que quiserem!

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publicado por CP às 23:09
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