Domingo, 18 de Maio de 2014

Na passada sexta-feira decidimos passear pelo nosso bairro, a pé, desde o monumento aos Heróis do Ultramar até ao mercado do Calhabé. O título deste relato podia muito bem ser: a pé pelo Calhabé! Estava um dia de calor, o verão já espreita, alguns colegas nossos não vieram pois preparam-se já para os exames que se realizarão nos próximos dias 17 e 19. Desejamos-lhes muito boa sorte, sabemos que vai correr tudo bem, mas nós é que não podemos deixar de passear!

 

As origens do topónimo Calhabé permanecem obscuras, havendo explicações desencontradas. Segundo o professor Nelson Correia Borges "Calhabé era a alcunha do famoso taberneiro do século XVIII, cuja taberna, de  tão frequentada e ligada à boémia coimbrã, mereceu dar o nome ao sítio e inspirar o Calhabeidos, do Palito Métrico." Outros defendem que é um arredondamento da expressão "calha bem", lembrando nomes parecidos, como "Bem fica", "Bem posta" ou "Bem canta", que estariam na base de topónimos bem conhecidos. Outros ainda, por fim, avançam outra explicação: em tempos indeterminados, vivia por aqui um bêbedo que não recusava um copo de vinho e, sempre que lhe ofereciam uma bebida respondia: "calha bem", de onde derivaria o nome do bairro! Uma variante desta versão especifica mesmo que no sítio onde hoje se localiza a agência da Caixa Geral de Depósitos, no cruzamento com a rua do Brasil, existia uma taberna cujo dono era alcunhado de Calhabéu e daí surgiu o nome. Enfim, nada se sabe, pelo que o melhor é escolherem a versão que mais vos agradar!

O nosso percurso iniciou-se pois junto ao monumento aos Heróis do Ultramar, na praça que conserva o mesmo nome, resistindo à renovação dos topónimos desta zona após a revolução de 1974. Na verdade, a Praça Salazar, no topo sul do estádio, é hoje a Praça 25 de Abril, a rua Humberto Delgado, candidato da oposição democrática nas eleições fraudulentas de 1958, assassinado pela PIDE em 1965, chamava-se anteriormente rua Arantes e Oliveira, ministro do Estado Novo, e o Bairro Norton de Matos, grande figura da maçonaria e da oposição à ditadura, era designado Bairro Marechal Carmona, presidente da República até 1951. A Praça Heróis do Ultramar manteve a designação, seguramente por prestar homenagem aos mortos que tombaram na Guerra Colonial, entre 1961 e 1974.

 

As duas fotografias de cima mostram a localização do monumento antes das obras de remodelação da praça por ocasião dos trabalhos de construção do novo estádio. O monumento, com uma evidente intenção propagandística e justificativa da guerra colonial na perspetiva da ditadura, como muito bem explicou o João Tiago, é uma estátua de bronze colocada em cima de um pedestal de pedra. Vemos a figura de um soldado com uniforme de combate, empunhando uma metralhadora G3 numa das mãos, sinal de força e poder militar, e transportando um pequeno indígena aos ombros, como quem diz que a ação militar dos portugueses em África era protetora e civilizadora e não opressora e colonialista. A História provou o contrário, mas o monumento e a homenagem às vítimas da Guerra Colonial permanecem como testemunho de uma época.

 

A estátua é do escultor conimbricense Cabral Antunes (1916-1986), autor igualmente da estátua do papa João Paulo II, na praça com o mesmo nome junto aos Arcos do Jardim, e que foi homenageado com um busto que está colocado no Jardim da Sereia. Cabral Antunes distinguiu-se essencialmente como medalhista, isto é, autor de medalhas comemorativas em bronze que eram vendidas a colecionadores para assinalar efemérides importantes, tradição que hoje já caiu em desuso.

A estátua, que inicialmente foi colocada de costas para a fachada do Liceu Nacional Feminino Infanta D. Maria, está atualmente, após a remodelação da praça, virada de frente para a Escola Secundária Infanta D. Maria. Não são duas escolas, é a mesma que mudou de designação.

Em novembro de 1914 foi criada uma secção feminina junto do Liceu Central José Falcão, que então se localizava na avenida Sá da Bandeira. Só em 1918 foi criado o Liceu Feminino de Coimbra que, no ano seguinte recebe o nome de Liceu Nacional Infanta D. Maria. Na verdade, pode-se considerar que a escola comemora atualmente o seu centenário! O Liceu abrangia toda a região das Beiras e superintendia aos colégios que proliferavam pelo território que vai do litoral ao interior beirão, organizando os exames, certificando os resultados e emitindo os diplomas.

 

Em 1932, o Liceu instalou-se na Quinta da Rainha, onde hoje se localiza o Instituto Maternal Bissaya Barreto, facto que muito desagradava às responsáveis dada a proximidade do Liceu Masculino. Cinco anos após, o Liceu passa para o antigo Colégio de S. Bento, junto aos Arcos do Jardim, edifício que já visitámos quando fomos à Algoteca. Só em 1948 foram inauguradas as atuais instalações, conforme podemos ver numa das fotografias acima publicadas. Aqui, nesta encosta do Calhabé, existia uma quinta pertencente a um tal sr. José Gavino, sítio ermo próximo do campo de futebol o que muito preocupava a reitora Drª. Dionysia Camões que chegou a apresentar queixa e a determinar que as funcionárias acompanhassem as meninas desde a paragem dos transportes públicos até ao portão da escola.

Esta reitora, a mais conhecida de todas as que dirigiram o Liceu, devendo referir-se ainda os nomes de Elisa Figueira e Alice Gouveia, era aliás conhecida pelo seu zelo protetor. Em 1950, assinalou no seu relatório uma censura ao comportamento das meninas que passeavam com rapazes nas redondezas do Liceu, consentindo apenas que o fizessem na companhia dos irmãos e convidando as que desrespeitassem estas indicações a abandonar a escola!

 

Em 1974, na sequência da revolução de 25 de abril, o Liceu passou a ser misto, sendo hoje uma escola secundária muito frequentada. Em 2010, foram concluídas as obras de remodelação e modernização que transformaram o velho edifício totalmente. O mesmo sucedeu com a Escola Secundária Avelar Brotero, situada numa das outras avenidas da Praça Heróis do Ultramar. A Escola Brotero nasceu a partir da antiga Escola de Desenho Industrial, fundada ainda no séc. XIX. Nos finais desse século é elevada a Escola Industrial, instalando-se nos antigos edifícios do Mosteiro de Santa Cruz, que fora extinto, junto ao Jardim da Manga. Um incêndio em 1917 forçou a deslocação para a Quinta de Santa Cruz, onde hoje fica a sede da Direção Geral da AAC, estando prevista a construção de uma escola de raiz na Praça da República.

Como esse projeto não se concretizou, em 1926 a escola fixou-se onde atualmente está a Escola Jaime Cortesão, vindo a transferir-se definitivamente para este local no Calhabé em 1959. Tratando-se de uma escola técnica e industrial, nas suas oficinas se formaram, ao longo de décadas, muitos trabalhadores em diversos domínios como serralharia, carpintaria, eletricidade, construção civil, mecânica, cerâmica, tipografia, etc. Os alunos que aqui estudaram eram muito apreciados pela qualidade da formação que lhes era ministrada e conferiram grande prestígio a esta instituição.

No lado oposto da Praça dos Heróis do Ultramar está implantada a ESEC, Escola Superior de Educação de Coimbra, unidade do Instituto Politécnico de Coimbra fundada a partir da antiga escola do Magistério Primário e da antiga Escola de Educadores de Infância. Durante décadas aqui se formaram os professores primários, designação que antigamente se dava aos professores do 1º ciclo. Na atualidade, a ESEC não forma só professores, mas também muitos outros profissionais nas áreas mais diversas como o Turismo, a Comunicação ou a Animação Socioeducativa. As escolas do 1º ciclo que hoje pertencem ao nosso agrupamento e que foram frequentadas por muitos dos nossos colegas, eram as chamadas Escolas Anexas ao Magistério Primário, nome que alguns ainda usam.

Alice Gouveia, que já conhecemos como antiga diretora do liceu D. Maria na difícil época de transição da ditadura para a Democracia, chegou a ser secretária de estado do ensino básico e secundário, presidindo, em 1985, à comissão instaladora da ESEC. A professora Alice Gouveia faleceu em 1988, tendo sido condecorada pela presidência da República e o seu nome atribuído como patrona de uma outra escola bem conhecida de Coimbra, a Escola Alice Gouveia.

Da Praça dos Heróis do Ultramar descemos pelo Estádio Municipal de Coimbra até à igreja de S. José.  O estádio, ainda hoje conhecido como Estádio do Calhabé, apesar de não ser a sua designação oficial e de já ter tido várias denominações, é o centro de um complexo desportivo que inclui um pavilhão  e um conjunto de piscinas, e que foi construído após a demolição do anterior para a realização de dois jogos do campeonato da Europa de futebol de 2004. O projeto foi da responsabilidade do arquiteto António Monteiro e integra um centro comercial, uma zona residencial e um grande número de lojas e estabelecimentos nas arquibancadas.

 

   

A ideia era criar uma nova centralidade na cidade, mas a verdade é que se descaracterizou completamente esta zona. Os jogos de futebol realizados no estádio, na última época futebolística, apontam para uma média de 3000 espectadores, quando a capacidade é de 30 000 e foi duplicada relativamente ao velhinho estádio do Calhabé! As obras do antigo campo de futebol iniciaram-se em 1946 sendo pré-inaugurado em 1949, num jogo entre a AAC e a seleção nacional, tendo-se registado um empate (3-3). Ao longo da década de 50, o Estádio foi sendo melhorado: piscinas, gradeamento, um parque de campismo, torres de iluminação.

Próximo do estádio está a igreja de S. José, projeto do arquiteto Álvaro da Fonseca que se começou a edificar no dia 19 de março de 1954, dia do Pai e de S. José, sendo inaugurada no mesmo dia do ano de 1962. A igreja foi beneficiada com obras suplementares em 1983 e 2001. A fachada é dominada por três arcos ogivados e com uma alta torre sineira onde avultam quatro relógios, um para cada uma das fachadas da torre.

Sobre o arco central observamos um grupo escultórico com S. José e o Menino Jesus, obra do artista açoriano Numídico Bessone (1913-1985). Nos corredores laterais foram colocados por ocasião das celebrações do jubileu do segundo milénio, dois painéis de azulejos da autoria do pintor conimbricense Vasco Berardo. Um dedicado a Nossa Senhora e outro evocando Cristo Salvador.

 

No interior, merecem destaque os vitrais de Monsenhor Nunes Pereira que não pudemos visitar porque decorria uma cerimónia religiosa na nave da igreja, No entanto, fica aqui uma fotografia retirada de um blogue, cuja ligação podem seguir se estiverem interessados em colher mais informação pormenorizada.

 Aproximando-nos do final do nosso passeio, acusando já alguns sinais de sede e cansaço, rumámos ao mercado do Calhabé. Não podíamos concluir a nossa visita sem ir a este espaço. Pelo caminho, fomos reparando nalgumas pequenas habitações modestas, muitas já em estado adiantado de degradação e mesmo ruína, mas que conservam a memória popular deste bairro. O Calhabé tinha algumas casas solarengas da burguesia abastada, que um dia visitaremos, mas era um bairro popular, de gente dedicada ao trabalho nos campos, ao pequeno comércio e ao trabalho operário, dado que por aqui laboravam algumas fábricas hoje já inexistentes.

  

 O mercado do Calhabé foi construído nuns terrenos oferecidos à Junta de Freguesia por um benemérito chamado Isequiel (assim mesmo!) de Oliveira Baio, segundo assinala uma lápide ali colocada o ano passado. Aqui se abasteciam os moradores dos géneros alimentares, havendo bancas de venda de carne, peixe, pão, frutas, legumes, flores e até outros produtos necessários no quotidiano das famílias, dado que à época em que foi inaugurado, o mercado municipal D. Pedro V era muito distante e não havia as grandes superfícies comerciais.

 

Este mercado foi inaugurado no tempo da Guerra, em 1942, chegando a um estado de abandono e degradação tão grande que obrigou à intervenção da Junta de Freguesia com o objetivo de o recuperar, pois entendeu-se que este local não é só um espaço comercial, mas conserva igualmente a memória desta comunidade do Calhabé, já que era aqui que se realizavam as festas e os arraiais, especialmente por ocasião dos santos populares. Assavam-se sardinhas, saltavam-se as fogueiras de S. João, cantava-se e dançava-se. 

Já cansados pelo passeio que ia longo, e mesmo sabendo que havia ainda outras locais do Calhabé para visitar, o que ficará para uma outra ocasião, decidimos regressar à escola, até porque a hora já ia adiantada. Para a semana há um novo passeio: ao convento de Santa Teresa, das Carmelitas, junto ao Penedo da Saudade. Até lá!



publicado por CP às 07:03
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