Sexta-feira, 25 de Maio de 2018

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    Este ano, em Coimbra, as exposições distribuem-se por vários locais: o Convento de S. Francisco, o Museu da Ciência, o Museu Municipal, a Casa da Cultura e os dois núcleos do Círculo de Artes Plásticas (CAPC). Foi um destes núcleos, no Jardim da Sereia, que nós visitámos esta semana. Aqui, vimos três exposições: uma de Patrick Baz sobre a minoria cristã no Líbano, outra de Ferhat Bouda sobre a situação do povo berbere nas montanhas do Atlas em Marocos e outra de Niels Ackermann sobre as crianças de Chernobyl que já cresceram e são hoje adultos à procura de uma vida normal.

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    Patrick Baz é um fotojornalista libanês, pertencente à minoria cristã desse agitado país do Médio Oriente, que, depois de se retirar da sua atividade profissional, regressou à sua pátria. Em vez de encontrar um ambiente de paz, Baz testemunhou os massacres de que são vítimas os membros desta minoria religiosa às mãos dos radicais islâmicos. Apesar de perseguidos e maltratados, os cristãos maronitas, é esta a designação desta minoria, exibem ostensivamente os seus símbolos e insistem em praticar os seus rituais. 

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    Na sala contígua, Ferhat Bouda regista cenas chocantes da vida do povo berbere, nomeadamente das crianças. Os berberes são os mais antigos habitantes do Norte de África. Desde tempos imemoriais vivem nos vastos territórios que vão da costa atlântica de Marrocos até aos oásis do deserto do Egipto. Falam a sua própria língua e têm uma identidade cultural muito vincada. Todavia, e talvez por isso mesmo, têm sido vítimas de perseguições, sendo empurrandos para as recônditos e quase inacessíveis montanhas do alto Atlas, zonas muito montanhosas de Marocos.

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publicado por CP às 18:36
Sexta-feira, 18 de Maio de 2018

   Há muito tempo atrás realizámos uma visita pela Alta da cidade com o objetivo de confrontarmos os espaços atuais com fotografias antigas. Chamámos a esse itinerário Coimbra que já não existe. Pretendemos transportar a memória desaparecida da cidade até aos nossos dias para, desse modo, avaliarmos as transformações produzidas e conhecermos o património destruído. Na altura tínhamos prevista a realização de uma segunda visita, incidindo sobre a zona ribeirinha e a Baixa. No entanto, por razões muito variadas, vimo-nos forçados a alterar o nosso plano. Semana após semana, mês após mês, fomos adiando. Agora que os dias andam mais solarengos, decidimos realizar esta segunda etapa da nossa visita. Por azar, apanhámos uma chuvada...

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    Começámos o passeio pela zona do Parque da Cidade, mais exatamente no limite do designado Parque Verde do Mondego. Trata-se de uma das maiores e mais recentes zonas verdes da nossa cidade. Até há poucos meses, aqui existiam muitas esplanadas que, no entanto, foram destruídas pelas cheias do rio. Este parque foi inaugurado em 2004 e resulta de um projeto do arq. Camilo Cortesão. Há aproximandamente um século, existiu aqui um campo de futebol, o Campo da Ínsua dos Bentos, que foi palco de importantes encontros, como um célebre Sporting - Porto.

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   Daqui seguimos pelo Parque Dr. Manuel Braga. Manuel Braga nasceu no Brasil em 1868 e faleceu em Coimbra em 1945. Desempenhou vários cargos públicos, destacando-se na presidência da Comissão de Turismo. Foi ele que teve a ideia de adquirir a Ínsua dos Bentos, zona alagadiça e mal cuidada, para aqui construir este jardim que acompanha a avenida Navarro e se desenvolve numa faixa de terreno triangular que une a Ínsua dos Bentos ao Largo da Portagem. Em tempos não muito distantes, a automotora da Lousã atravessava esta zona da cidade, tomando e desembarcando passageiros na estação de Coimbra-A. 

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    Antigamente, muito antes dos transportes rodoviários e ferroviários, o Rio Mondego era a mais importante via de comunicação da zona centro. Era uma via fluvial que ligava a zona litoral ao interior. As barcas serranas subiam e desciam o rio, entre o Porto da Raiva, um pouco para lá de Penacova, e a Figueira da Foz, desempenhando um papel indispensável no comércio da região, pois abasteciam as populações de produtos como o sal. Os barqueiros conduziam estas barcas, aproveitando os ventos e as correntes do rio. Muitas vezes, eram obrigados, juntamente com os tripulantes que o ajudavam, a puxar o barco à força dos braços. Era uma atividade muito dura. Hoje, resta a memória e uma barca colocada no jardim a recordar esses tempos. Infelizmente, talvez porque estavam a montar os expositores para a Feira do Livro, essa barca foi retirada e não a vimos.

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   Nos anos 50 do século passado foi inaugurada a atual ponte de Santa Clara, segundo projeto do famoso engenheiro Edgar Cardoso (1913-2000). Esta ponte veio substituir uma outra de ferro, inaugurada em 1875, que, por sua vez, fora construída para substituir outra que já datava do século XVI, do reinado de D. Manuel I, e que era designada como Ponte do Ó, porque tinha ao meio do tabuleiro uma rotunda com duas rampas que davam acesso ao leito seco do Mondego.

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   O Largo da Portagem tem tido, ao longo dos séculos, diversas designações. O nome indica de aqui serem cobrados os direitos pelas mercadorias que entravam na cidade para serem transacionadas. Aqui esteve implantado o pelourinho da cidade, demolido em 1836. Aqui existiu igualmente uma cadeia, bem como uma capela onde se dizia missa para os presos e que foi igualmente demolida naquele ano. Ao longo do último quartel do séc. XIX muitos melhoramentos e alargamentos foram feitos. Em 1886, este Largo foi renomeado como Largo do Príncipe D. Carlos, em homenagem ao anunciado casamento do futuro rei com D. Maria Amélia de Orleães.

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   A estátua dedicada ao chamado Mata Frades, Joaquim António de Aguiar,  resultou da iniciativa de algumas personalidades republicanas nos anos finais da monarquia, destacando-se Martins de Carvalho e Bernardino Machado. Pretendiam assim colocar-se sob a inspiração dos ideais liberais, com o objetivo de combaterem a monarquia agonizante e fazerem a propaganda da República. 

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A estátua em bronze é da autoria do escultor Costa Mota (tio), sendo o grande pedestal do arquiteto Silva Pinto. Joaquim António de Aguiar empunha na mão direita a pena com que se prepara para assinar o decreto de expulsão das ordens religiosas, gesto considerado como fundador da política anticlerical da República que tinha como um dos seus grandes objetivos a separação do Estado das Igrejas. O monumento começou a ser lançado em 1911, estando concluído dois anos após. 

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   Este mesmo Largo da Portagem, mas do outro lado, na varanda do Hotel Astoria, foi palco de um outro momento importante da nossa história contemporânea e da oposição ao Estado Novo. Na verdade, conforme assinala uma placa evocativa aí colocada, foi aqui que discursou aos estudantes e ao povo de Coimbra o candidato da oposição, general Humberto Delgado, durante a campanha para as eleições presidenciais de 1958. Recorde-se que o general acabou por sair derrotado dessas eleições fraudulentas, vindo a exilar-se fora do país, sendo assassinado pela PIDE, a polícia política da Ditadura, em 1965. As fotografias da época registam o entusiasmo com que o candidato foi recebido em Coimbra, tal como em outras cidades do país, durante a campanha. 

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   O Cinema Tivoli era uma sala de cinema e teatro moderna que, durante décadas foi uma das mais importantes salas de espetáculo da cidade e da região. Inaugurado nos anos 40 do século XX, viria a ser encerrado já nos finais do mesmo século, instalando-se aqui uma grande loja de roupa, pertencente a uma cadeia internacional. Todo o interior foi demolido, restando apenas a fachada. Atualmente, a loja encerrou e o edifício está desocupado.

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 A Estação de Coimbra-A ou Estação Nova, foi construída entre 1925 e 1931, com projeto dos arquitetos Cotinelli Telmo e Luís Cunha, para servir os passageiros do ramal da Lousã que havia sido inaugurado em 1885. 

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   A Avenida Fernão de Magalhães resultou da união de diversas ruas e artérias da cidade, como a Rua das Tanoarias e a Rua da Madalena ou Madanela. O atual arranjo resultou de uma série de deliberações camarárias dos anos 20 e 30 do século passado que, recorrendo a expropriações e demolições, pretendia dotar esta zona de uma moderna artéria que deveria ligar à Praça 8 de Maio. 

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   Rumámos então à Praça 8 de Maio, passando antes pela Praça do Comércio onde se localiza a igreja de S. Tiago. A construção original deste templo data dos inícios do séc. XII, tendo sido um dos melhores e mais importantes exemplares da arquitetura românica de Coimbra. No séc. XVI instalou-se aqui a Misericórdia de Coimbra com a sua igreja, à qual se acedia pela rua de cima, construída sobre a primitiva! Autenticamente, uma igreja encavalitada em cima de outra! Em 1861, a Câmara decidiu alargar a rua e cortou a cabeceira da igreja de S. Tiago. Nessa altura já a primitiva edificação estava muito transformada, como se pode ver na fotografia. No século XX, entre 1908 e 1932, procedeu-se a uma polémica obra de restauro que passou pela demolição quase total do templo e pela reconstrução, sempre hipotética, da traça original.

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    A Praça do Comércio já foi chamada Praça de S. Bartolomeu e Praça Velha. Aqui se localizou o Hospital Real, atualmente uma loja do chinês, e aqui se realizaram alguns autos-de-fé. Pelo menos desde o séc. XIV aqui se instalavam os açougueiros da cidade. Era aqui também que se realizava a cerimónia da quebra dos escudos. Quando morria um rei, um cortejo saía da Câmara e, passando por esta Praça, quebrava-se um escudo de madeira, simbolizando a morte do rei, cerimonial que se repetia noutros lugares.

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   Subindo as Escadas de Santiago, fomos até à rua Ferreira Borges, assim batizada em 1883. José Ferreira Borges (1786-1838) nasceu no Porto e estudou em Coimbra, sendo uma das mais importantes figuras do Liberalismo, tendo sido um dos responsáveis pela Revolução de 1820. Esta rua foi durante muito tempo o centro de comércio mais importante da cidade. Aqui se instalavam as melhores lojas de moda frequentadas pelas damas da burguesia abastada. Por aqui se encontravam as melhores livrarias e os cafés onde se reuniam as tertúlias em animadas conversas. os bancos tinham as suas agências nesta rua, bem como os advogados mais renomados ou os médicos preferidos da burguesia.

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    A Praça 8 de Maio era originalmente chamada Terreiro de Santa Cruz ou Largo de Sansão. Foi no dia 8 de maio de 1834, no final da guerra civil que opôs os Liberais aos Absolutistas, que entraram na cidade as forças do rei D. Pedro. Por isso, em 1874, os responsáveis pela administração da cidade decidiram fixar essa efeméride atribuindo este nome à Praça. Este local, antes da regularização do leito e das margens do Mondego, era frequentemente afetado pelas cheias, como se pode ver pela fotografia. A configuração atual da Praça resulta de um arranjo empreendido pelo arq. Fernando Távora (1923-2005), nos anos 90 do século passado.

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    Concluímos o nosso passeio com a Igreja do Mosteiro de Santa Cruz, um dos mais emblemáticos monumentos da cidade e do país. Sobre ele, para já, nada mais diremos, não apenas porque é sobejamente conhecido de todos, mas principalmente porque será objeto de uma atenção especial para o próximo ano letivo.



publicado por CP às 17:30
Sexta-feira, 11 de Maio de 2018

 

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   «Mes Dessins. O Museu nos Desenhos da Rainha D. Amélia» é o título da exposição temporária que, desde o dia 16 de março, está patente no Museu Nacional Machado de Castro. Trata-se de uma série de desenhos feitos pela rainha D. Amélia de Orleães, a última rainha de Portugal, entre 1893 e 1906. Os desenhos representam algumas das peças mais importantes da coleção de ourivesaria do Museu, incluindo as que outrora pertenceram à Rainha Santa Isabel, e que foram reunidas num ábum. Estas obras foram recentemente oferecidas ao Museu pela AMIC - Liga de Amigos do Museu Nacional de Machado de Castro.

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   Os desenhos representam peças da coleção permanente do museu, outrora pertencentes ao denominado Museu das Pratas da Sé de Coimbra, reunidas pelo bispo D. Manuel de Bastos Pina, amigo pessoal da rainha D. Amélia, que foi inclusivamente confessor dos seus filhos e padrinho do rei D. Manuel II, o último rei de Portugal. Estes desenhos testemunham o gosto e a sensibilidade da rainha de origem francesa.

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A receita da venda destes álbuns destinava-se ao financiamento da «Assistência Nacional aos Tuberculosos», que a própria rainha fundou em 1899. O primeiro volume intulou-se «Mes Dessins. Mes Endroits Préférés» («Os meus desenhos. Os meus Logares predilectos», ou, com a grafia atual, «Os meus desenhos. Os meus lugares prediletos» e foi publicado em 1926 pela editora Le Goupy, com impressão de Daniel Jacomet. Este volume teve uma tiragem de 250 exemplares e conta com 119 reproduções, acompanhados por poemas de Camões, Homero, Gil Vicente, Baudelaire, Victor Hugo, Alexandre Herculano, entre outros.

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O Conde de Sabugosa que prefaciou o livro apresenta as justificações artísticas da obra: «(...) existiam desenhos que eram ao mesmo tempo testemunho do merecimento de quem os fizera, e a mais linda coleção de objetos de arte religiosa ou profana que o lápis de um artista pode encontrar. Custódias, báculos, pixides, imagens sacras ou históricas, cantos recatados de conventos extintos, impressões de muitos anos de peregrinações através de museus, igrejas e catedrais, tornam essa coleção uma verdadeira maravilha (...).»

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   O segundo volume intitulou-se «Arte e Archeologia» («Arte e Arqueologia») e foi publicado em Londres em 1928 pela editora Maggs Bros, tendo uma tiragem de 350 exemplares, ainda que reunisse somente 100 desenhos.

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As capas destes álbuns, em pergaminho natural, ostentam o monograma «MA» («Maria Amélia») nos cantos e, ao centro, a coroa real, no primeiro volume. No outro, podem ver-se as armas dos Braganças, a família real portuguesa, e dos Orleães. Dois atilhos em pele, abotoados por pequenas bolinhas em marfim, fecham os álbuns.

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   Maria Amélia Luísa Helena de Orleães nasceu em 1865, numa localidade nos subúrbios de Londres, vindo a morrer em 1951, em Versalhes, com 86 anos. Teve uma vida muito infeliz, pois assistiu ao assassinato do seu marido, o rei D. Carlos de Portugal, em fevereiro de 1908, na Praça do Comércio, atentado que vitimou igualmente o seu filho mais velho, o príncipe Luís Filipe, e feriu D. Manuel, último rei de Portugal. Como D. Manuel II morreu em 1932, exilado em Londres, D. Amélia assistiu ainda à morte deste seu filho. Exilada em França, testemunhou ainda os horrores da 2ª Guerra Mundial.

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   Como rainha, D. Amélia teve uma influência grande na corte, desenvolvendo uma importante obra assistencial, como a já referida «Assistência Nacional aos Tuberculosos». Patrocionou uma intensa atividade caritativa, promovendo a criação de sanatórios, cozinhas económicas e creches. Outra marca importante foi o patrocínio que deu à fundação do do «Museu dos Coches Reais».

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   Está sepultada no Panteão dos Braganças, no Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa, onde repousa junto do marido e dos filhos.

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Este texto foi redigido a partir das legendas da exposição.



publicado por CP às 17:44
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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