Sexta-feira, 27 de Abril de 2018

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   O Dr. Telo de Morais é um conhecido médico conimbricense, nascido em 1929, em Viseu. Estudou Medicina na nossa cidade e aqui se radicou, desenvolvendo a sua atividade profissional durante décadas. Além da profissão, o Dr. Telo de Morais, juntamente com a sua esposa D. Maria Emília, sempre teve uma paixão pela pintura portuguesa e pelo colecionismo. Assim, ao longo das suas vidas, juntaram uma coleção de pintura dos mais importantes artistas portugueses da segunda metade do século XIX e das primeiras décadas do século seguinte. Em 1998, decidiram doar à cidade a sua vasta coleção, impondo como condição que as obras fossem depositadas no Edifício Chiado. A Câmara Municipal de Coimbra aproveitou então para reabilitar este histórico edifício, que um dia merecerá uma visita nossa. Depois de recuperado e adaptado, acolheu um dos núcleos do Museu Municipal.

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   Foi esta coleção que visitámos esta semana. Porém, tínhamos uma supresa. O objetivo não era só conhecer a coleção e apreciar os quadros. Na verdade, inspirados num livro de Mónica Baldaque, intitulado «Do Outro Lado do Quadro», decidimos experimentar essa estratégia, inventando histórias a partir de quadros. Esta autora imaginou uma série de pequenas narrativas a partir de oito pinturas e esculturas do Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto. 

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   Foi assim que, organizados em parelhas, devidamente munidos de um pequeno bloco de notas e de um lápis, nos lançámos nesta atividade. As regras eram poucas e simples: em primeiro lugar, passear pela sala, sem correr, sem gritar e sem tocar em nada, apreciando brevemente as pinturas, lendo atentamente as placas informativas dos quadros que mais nos impressionassem e, por fim, eleger um preferido. Depois, pusemos a imaginação a voar. A ideia era inventar uma história a partir do quadro escolhido. No final, juntámo-nos próximo de cada um dos quadros selecionados, para que os pares lessem as suas histórias.

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 A Alice e a Madalena escolheram um óleo do pintor António Carneiro (1872-1930), intitulado Mar da Praia da Foz do Douro, pintado em 1904. Ora leiam:

«Numa tarde de inverno, estava a chover torrencialmente. Nesse dia, encontrei no fundo da gaveta este caderno. Abri-o e escrevi apenas: Não tenho nada para fazer. Não penses que voltarei a escrever aqui. Acho que contar os meus segredos a 120 folhas de papel que qualquer pessoa pode ler é infantil e fútil, principalmente quando se tem a minha idade.

   Hoje passei pela mesma situação: chuva, nada para fazer, .... blá, blá, blá... Só que hoje devia estudar, mas não estou com pachorra para isso.... Foi então que, ao virar a folha, me deparei com uma fotografia da praia onde costumava passar férias. Boas memórias! Lembro-me especialmente do mar... Era azul muito claro e brilhante, as ondas com camadas abundantes de espuma fazem lembrar o céu à noite, pois podiam notar-se pequenos pontos brilhantes que pareciam estrelas. Por cima da bonita paisagem marinha, onde se podiam ver tartarugas e caranguejos, notava-se um ponto luminoso muito forte, era o pôr-do-sol, em tons claros e escuros contrastando com as nuvens brancas e fofas que me faziam lembrar algodão-doce. Ahhhh! Por falar em algodão-doce, acabei de me lembrar que não como há duas horas! Procurar inspiração para esta coisa ocupou-me a tarde. Assim, fecho este caderno e vou comer aquele belo bolo de chocolate que a minha mãe deve estar a fazer. Já me cheira aqui no quadro....»

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    A Laura e a Sofia redigiram uma história que intitularam Curiosos na Floresta, a partir de uma tela da pintora Estrela Faria (1910-1976) chamada Mata e Figuras:

«Nas profundezas nunca exploradas da Amazónia, há uma floresta temida por todos. Até de longe mete medo! O bosque é sombrio e arrepiante. Entre as crianças do bairro, vivia um rapaz muito curioso e atrevido que um dia decidiu espreitar... Ainda não tinha chegado próximo da mata e já estava com vontade de voltar para trás. Mas, uma parte dele queria continuar e, por isso, atirou o medo para as pedras e seguiu em frente. Já entrara na floresta quando olhou à sua volta e percebeu que acabara de cometer um erro: não sabia o caminho de volta! 

   Aflito, pegou no telemóvel para ligar ao pai, quando se apercebeu que não tinha bateria! Meteu o telefone no bolso, andou em frente até avistar uma clareira. Ao seu redor estavam vários animais a brincar e a dormir. Reparou então que, ao contrário dos boatos, a floresta era magnífica. Os animais guiaram-no até casa, e ele contou a sua aventura a todos os seus familiares e amigos.

   Daí em diante, todos fazem passeios pelo bosque, especialmente o menino e o seu pai.»

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José Teixeira Barreto (1763-1810) foi um autor do século XIX, da escola neoclássica, nascido no Porto, que se celebrizou pelos desenhos que produziu mas também pelo seu trabalho como entalhador. Na coleção Telo de Morais existe um seu desenho a tinta-da-china sobre uma história bíblica. A obra tem como título David e Abigail, mulher de Nabão. De acordo com o Antigo Testamento, Abigail era uma mulher muito bela e inteligente casada com um homem muito rico chamado Nabão, que possuía milhares de cabeças de gado, entre cabras e ovelhas. Nabão tinha mau feitio, era muito avarento e tinha uma «natureza ruim». Um dia,  o rei David enviou alguns homens da sua confiança pedir um donativo como recompensa pela proteção que lhe dava. No entanto, foram mal recebidos e insultados. De regresso, David decidiu vingar-se e matar o insolente Nabão. Foi assim que partiu ao seu encontro com um bando de homens armados. Porém, Abigail foi informada do facto e, sem dizer nada ao marido Nabão, juntou as melhores iguarias que conseguiu e dirigiu-se ao encontro de David. Ao chegar junto dele, pediu perdão pela insolência de Nabão, apresentando-lhe as suas valiosas oferendas. O rei aceitou as prendas e as desculpas, ficando muito impressionado com a beleza e inteligência de Abigail. Esta regressou para junto do marido que festejava, embriagando-se. Passados uns dias morreu. David ficou muito satisfeito e aproveitou para casar com Abigail, fazendo-a uma das suas mulheres. 

   Leiamos agora a versão dos nossos amigos. O título é A Boa Senhora. «Era uma vez, na época dos romanos, umas pessoas do povo que passavam muita fome. Apesar de tudo fazerem para obter alimento, eram muito pobres e passavam muita fome. Entre elas, vivia uma senhora que, trabalhando imenso, conseguiu obter muito alimento. Os outros homens, roídos pela inveja, esfomeados e em desepero, apresentaram queixa a um guarda, dizendo que a senhora lhes roubara a comida. Pediam ainda para que o alimento lhes fosse devolvido. E foi isso que aconteceu. A senhora, que nunca fizera mal a uma mosca e que ajudava toda a gente, acabou por morrer. Os homens sentiram-se culpados, mas nunca chegaram a admitir a mentira.»

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   O Tomás e o Falcão escreveram a história mais preguiçosa e mais disparatada de todas a partir de um quadro de Tomás da Anunciação (1818-1879). Até no título hesitaram: depois de pensarem num sugestivo Era uma vez um boi chamado António, acabaram por optar por um título mais comum: O Boi e a Vaca: «Era uma vez um pastor chamado Zacarias que tinha muitas vacas. Uma delas, chamada Josefina, estava grávida de gémeos, e o boi que a engravidou chamava-se Quim (...). Zacarias tinha dado esse nome em homenagem à sua cabritinha que já tinha parido uma cria. Toda a aldeia veio assistir ao nascimento do vitelo, até o Lil Pump, cantou.» 

   Como vêem, a história não tem pés nem cabeça, pois os nossos amigos decidiram armar-se em engraçadinhos... Fica registado o seu sentido de humor...

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    A Ana Eduarda e a Constança escolheram um óleo sobre tela do pintor José Júlio Sousa Pinto (1856-1939), intitulado Apanha do sargaço. Convém explicar que o sargaço é uma alga marítima que as correntes e as marés empurram para as praias, principalmente no norte do país, e que é aproveitada pelos camponeses, que a apanham e secam ao sol, pois é um excelente fertilizante.  A Velha é o título da história das nossas amigas. Ora leiam: «Olá! Eu sou a Ricardina Adelaide e tenho 81 anos. Digo a minha idade para não me perguntarem, pois não é bonita! Eu vivo numa aldeia chamada Bagunça, que tem muito sargaço. Já agora, eu sou sargaceira e todos os dias tenho de ir para a ria apanhar o sargaço com a minha família. Vou contar-vos uma história: uma vez, estava eu na ria, quando deparei com um caranguejo venenoso, que me picou o pé. Pensava eu que as algas me iam curar mas, quando as coloquei sobre a ferida, fiquei com o pé ainda mais inchado. Fui ao hospital, onde tive que pagar 200 escudos. Para minha surpresa, fiquei muito melhor.» 

   Enfim, esta história também saiu um belo de um disparate! O mais intrigante é como é que a velhinha ficou surpreendida com o facto de o tratamento hospitalar ter produzido melhoras! 

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   Continuando com os disparates (mais valia ter chamado à nossa atividade Histórias Disparatadas!), vamos ouvir a história do Miguel e do Sobral, a partir de um belo quadro de Albertino Guimarães (1891-1967): «Era uma vez uma aldeia cheia de pessoas felizes. Aí vivia também uma senhora que era muito má que não se importava com os outros. Um dia, ela acordou e não viu ninguém. Então, pôs-se a rezar e ficou muito infeliz, pois ficou muito doente. Foi então que a solidariedade dos vizinhos se manifestou, ajudando-a até que ela ficou boa. Deste modo, a velha nunca mais foi má para os outros. Até que um dia morreu e ninguém foi ao seu funeral.» Enfim.... quem perceber a história faça o favor de explicar! 

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   Uma Rua em Portugal  é o título de um quadro do pintor Francis Smith, nome artístico de Francisco Smith, pintor português de origem inglesa, nascido em 1881, em Lisboa, e falecido em Paris, em 1961. Eis a história do Manuel e do Tomás, intitulada A Super-Festa: «Certo dia, o senhor Gervásio organizou uma festa que acabou mal. Vamos contar os pormenores. deu-se o caso de o senhor Gervásio bater às portas dos vizinhos, dizendo sempre o mesmo:

- Olá, boa tarde, queria convidá-lo para a festa do ano!

   Todas as pessoas aceitaram. No dia da festa, tocaram música a altos berros. Todas as meninas e todos os rapazes dançaram toda a noite, fazendo muito barulho. Até que chegou um polícia e tudo se complicou. Ele foi falar com o senhor Gervásio que inventou uma desculpa:

- Ó senhor polícia,.... eu estou apenas a tentar vender .... - tentou explicar-se o pobre senhor Gervásio.

- OK, então vou-me embora!

   E assim fez. Mal o viram afastar-se, logo regressaram todos ao baile. Todos à exceção do senhor Gervásio, que foi levado pelo polícia para a esquadra!»

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   Na Serra da Estrela (1932) é o título do guache sobre papel do pintor Thomas de Mello (1906-1990), mais conhecido por Tom. A história do Afonso e do Francisco, à semelhança de quase todas as outras, é um bocado inquietante. Chamaram-lhe O Bem e o Mal: «Hoje em dia, embora não pareça, há duas pessoas que garantem o equilíibrio no Mundo: o Tomás e a Mafalda, que são a reencarnação do Bem e do Mal. Eles vivem na Serra da Estrela, escondidos, pois possuem grandes poderes. Certo dia, decidiram juntar-se aos humanos para ver como era a sua vida. Foi então que o Bem usou os seus poderes para proteger uma pessoa, enquanto o Mal, não querendo ficar atrás, usou os seus poderes para destruir uma casa feita de madeira. Com isto, os aldeãos da montanha queixaram-se às autoridades. uma hora depois, as autoridades chegaram e expulsaram-nos, pois eram uma ameaça para a comunidade, para os humanos que queriam levar uma vida normal. Depois, durante a noite, quando já todos estavam em casa, o Bem e o Mal tiveram uma conversa. Uma semana após, o Mal foi-se embora, para um sítio muito recôndito. O Mal não conseguia esquecer o que o Bem lhe fizera e, por isso, voltou para se vingar. Foi assim que, certa manhã, o Mal, discretamente, foi a casa do Bem e matou-o.»

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publicado por CP às 19:09
Sexta-feira, 20 de Abril de 2018

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   Hoje fizemos a nossa viagem mais curta de sempre, nem foi preciso apanhar o autocarro, bastou atravessar a estrada e, logo ali ao virar da esquina, no quarteirão seguinte, chegámos ao nosso destino: a Galeria Sete. Fomos recebidos pelo Eduardo Rosa, o galerista fundador e proprietário deste espaço. Além de galerista, o Eduardo é também um colecionador e um estudioso, é, em suma, um apaixonado pela Arte. De acordo com a página da internet desta galeria, o nosso anfitrião já coleciona obras de arte há mais de 25 anos! Como é vizinho da nossa escola, decidimos convidá-lo a convidar-nos, isto é, perguntámos ao Eduardo Rosa se nos podia convidar a visitar a sua galeria. Ele nem hesitou, respondeu logo afirmativamente, pois um dos seus objetivos é precisamente contribuir para a educação artística dos seus concidadãos, ajudar a criar públicos na cidade. Ora... esse é também um dos nossos objetivos!

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      Uma galeria é uma loja que vende arte. Esta é a definição mais simples e, embora correta, não é totalmente satisfatória, pois não transmite a paixão que o galerista sente pela arte que vende, nem o valor cultural da sua missão. O galerista, antes de vender, promove e valoriza os artistas que representa, produzindo exposições, acompanhando as suas carreiras. no fundo, considerando que o artista produz para o público e o público procura a produção dos artistas, o galerista posiciona-se no meio, é um intermediário que procura servir os interesses das duas partes, sendo esse o seu interesse.

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   Neste momento, a Galeria Sete exibe uma exposição da artista caldense Eduarda Rosa que, apesar da semelhança do nome com o do nosso galerista anfitrião, não tem nenhum parentesco. A mostra intitula-se Formas primitivas e caracteriza-se por uma grande delicadeza e rigor das formas que gera no espectador uma «sensação de beleza fresca...», nas palavras  do catálogo de apresentação.

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  Esta artista nasceu nas Caldas da Rainha em 1949 e tem um percurso muito curioso. Com uma formação académica na área da Farmácia, tendomesmo obtido o grau de Doutorada e sido professora universitária, dedicou-se à produção artística depois de se jubilar. Estudou numa escola superior especializada e, depois de adquirido o novo diploma em 2012, entrou neste mundo da arte contemporânea. 

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   Além deste trabalho, o galerista também ajuda na planificação e promoção de eventos culturais, reunindo obras dispersas de coleções particulares, valorizando-as e estudando-as. Como exemplo, vimos uma pintura do consagrado pintor Jorge Pinheiro intitulada Discurso para uma Mulher da Palestina, produzida em 1988. Este trabalho, que estava coberto e encostado a uma parede, pois não se insere em nenhuma mostra e estava ali simplesmente em trânsito, impressionou-nos profundamente e serviu de mote para uma conversa muito interessante.

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   Os artistas estão inseridos no seu tempo, sentem os problemas da sua época e refletem sobre eles. Não quer dizer que todos os artistas sintam esta preocupação de veicular nos seus trabalhos os problemas políticos e sociais, mas esta obra de Jorge Pinheiro traduz uma visão do problema da Palestina. Nós ainda somos muito jovens, mas já ouvimos falar sobre os problemas do Médio Oriente e os conflitos entre palestinianos e israelitas. Sabendo que este trabalho data de 1988, constatamos que a sua atualidade permanece, infelizmente, e aquele olhar angustiado, que já deveria ser apenas uma memória, ainda existe naquela e noutras regiões do Mundo.

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   Outro trabalho que nos chamou a atenção foi um de Alexandre Baptista sem título, incluída numa série que ele designou assim: Corpo. Twenty-four Drawings about Somebody (1999). Trata-se de um trabalho intrigante, pois sobre a capa e a contracapa de um caderno pré-existente, ligadas através de uma guita entrançada que envolve um pincel e suspende uma etiqueta, o autor lançou uma pasta terrosa que dá um relevo muito marcante ao caderno. Detivemo-nos por ali uns minutos a olhar e dialogar com esta obra.

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   Esta sala da cave da galeria já não é dedicada à exposição de Eduarda Rosa. Além de Alexandre Baptista, contemplámos outros trabalhos afixados nas paredes, destacando os finos e delhados desenhos de Filipe Romão.

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   Por fim, no depósito onde se armazenam as obras em reserva, agora mais ambientados, desenvolvemos alguns temas interessantes. Um dos detalhes que nos impresssionou foi a influência que os títulos que os autores atribuem exercem sobre o público. É que, como realçou o Eduardo, a obra de arte só se completa no olhar do observador. por outras palavras, a nossa leitura faz parte da obra de arte. E, como ficou provado na nossa experiência, o título condiciona o olhar. Tirámos essa prova quando nos confrontámos com uma estranha obra: nada mais do que duas bolas de futebol. Uma com fundo negro e recortes brancos e outra ao contrário, isto é, branca com retalhos pretos. Parecia uma montra de uma loja de artigos desportivos! Depois do Eduardo nos dizer que aquele trabalho fora produzido por ocasião do Euro 2004 e que o título era Europa, África, ouviram-se uma série de aaahhhhhh! e, logo após, sucederam-se, em jorros explicativos, uma série de análises da obra de arte!

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   O Eduardo conduziu-nos depois numa abordagem a diversos trabalhos pendurados pelas paredes, tentando encontrar aquilo que chamou de marcas autorais. Na verdade, tal como quando atendemos um telefonema e ouvimos a voz da pessoa que nos ligou, indentificamo-la imediatamente, pelo tom, pela expressividade, pela modulação da voz. O mesmo ocorre quando ouvimos músicas de bandas, ou seja, há uma série de características que se mantêm de música para música e que, sem que as saibamos apontar, nos permitem reconhecer o intérprete. É exatamente isto que sucede com os artistas plásticos. Com alguma experiência, começamos a reconhecer técnicas, elementos compositivos, temáticas que permanecem nas diferentes produções dos autores. 

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   Algumas obras são abstratas, outras figurativas, umas muito coloridas, outras mais sombrias.... É tão grande a diversidade que catalogar os artistas em movimentos e correntes estéticas é não só impossível como desnecessário. O que é importante é dialogar com as obras de arte. É muito frequente, principalmente no mundo da arte contemporânea, assistirmos a atitudes trocistas e de rejeição imediata. Porque a arte contemporânea não se caracteriza pelos padrões clássicos de beleza, nem exige grandes apuros técnicos, é muito frequente o público desprezar e desvalorizar as obras contemporâneas. A Liberdade, de produção e de interpretação, é a atitude correta neste diálogo entre o artista e o observador. Dialogar, ou pelo menos fazer um esforço para dialogar, é o mínimo que se pode fazer... E não custa nada.

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   Foi a esse exercício a que nos dedicámos de seguida, com a ajuda do Eduardo. Confortavelmente sentados no chão, fomos lançando olhares e perguntas, trocando ideias, afinando repostas, reparando em pormenores, à medida que o nosso galerista ia fazendo desfilar, à frente dos nossos olhos, uma série de quadros. E, do meio daquela tempestade de ideias, lá se foi fazendo alguma luz. Como as palavras são como as cerejas, e como as ideias de uns despertam ideias de outros, acabámos por gerar ali um ambiente estimulante.

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   Por fim, regressámos à sala inicial. Depois de um assalto aos rebuçados, depedimo-nos do Eduardo Rosa, agradecendo o momento que nos propiciou. Antes de irmos embora, lembrámos que a galeria de arte está sempre aberta, pelo que estamos sempre convidados a entrar. Para ver, para admirar, para conversar, para comprar, para olhar apenas. Estão, pois, todos convidados.... sempre que quiserem!

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publicado por CP às 23:09
Sexta-feira, 13 de Abril de 2018

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   No âmbito da Semana Cultural da Universidade de Coimbra, a Biblioteca Geral organizou na Sala de S. Pedro uma exposição sobre o Padre Manuel Faria (1916 - 1983). Além de um conjunto de painéis alusivos à vida deste importante compositor, a mostra exibe ainda uma parte do espólio que os familiares do homenageado legaram à Biblioteca da Universidade. A Dr.ª Isabel Ramires é a técnica responsável pela secção de manuscritos e foi com ela que combinámos esta visita. No entanto, a nossa guia foi a Dr.ª Cristina Faria, professora de Educação Musical na Escola Superior de Educação, responsável pela formação de muitos professores, e estudiosa da obra desta personalidade de grande destaque na vida artística do nosso país no século passado, no domínio da composição musical.

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   Na verdade, a professora Cristina Faria não é só professora e investigadora, ela é também sobrinha do compositor e corresponsável pela organização desta mostra. A ideia era reservar esta surpresa para o final, mas não foi possível, pois os apelidos e a a brincadeira com um trava-línguas logo denunciaram o laço familiar: «O que faria o Faria ao Faria se o Faria fizesse o que o Faria lhe fez?» Foi portanto a sobrinha de Manuel Faria que nos guiou, o que constitui um privilégio raro que agradecemos. Apesar disto, ninguém conseguiu identificar a nossa guia numa fotografia em que a numerosa família dos Farias posava. Ora, vejam lá se a identificam, não é fácil:

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    Manuel Faria era o mais velho de 11 filhos de um casal de condição modesta, caseiros de uma quinta em Ceide, no Minho. Nasceu em 1916, exatamente no ano em que Portugal entrou na 1ª Guerra Mundial. Naqueles tempos difíceis, os rapazes que pretendessem estudar eram encaminhados para o Seminário. Alguns acabavam por sair, pois não sentiam vocação religiosa, foi o caso de um dos irmãos de Manuel, Francisco, o pai da nossa guia, que acabaria por estudar Direito em Coimbra. Outro dos irmãos não entrou sequer no Seminário, não quis estudar e tornou-se sapateiro. Já Manuel, um apaixonado pelos livros e pela música, concluiu os seus estudos no Seminário e enveredou pela carreira eclesiástica. 

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   Concluída a sua formação inicial, foi enviado para Roma, estudar  música sacra, aí concluindo os seus estudos com distinção. Essa estada na capital italiana coincidiu com outro momento trágico da história europeia, pois a guerra atormentou mais uma vez o continente e o Mundo. A 2ª Grande Guerra eclodira em 1939, e a Itália de Mussolini estava diretamente envolvida. Manuel Faria encontrou-se assim no centro desse gravíssimo conflito. Revelando uma sólida formação humanista, empenhou-se na proteção aos perseguidos do nazismo e do fascismo, acolhendo e escondendo muitos refugiados. As cartas que escreveu durante esse período, apesar de censuradas, são importantes documentos desses trágicos tempos. 

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   De regresso ao nosso país, não conseguiu retomar o seu lugar de docente no Seminário pelo que, para prover o seu sustento, deambulou pelas terras do Norte de Portugal, recolhendo músicas, compondo e tocando. Faria era um excelente executante musical, nomeadamente de harmónio, um curioso instrumento em que o ar é insuflado por pedais movidos pelo instrumentista que, ao mesmo tempo, com as mãos sobre um teclado, pressiona as teclas que libertam o ar pelos tubos, vai produzindo os sons musicais. Antigamente, nos harmónios de grandes dimensões, disse-nos a Dr.ª Cristina, os foles era acionados por uns ajudantes do instrumentista, os foleiros.

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   Essa experiência é fundamental para a obra do compositor, pois além de marcar o início da sua atividade artística, denota ainda uma das fontes de inspiração mais importantes do seu trabalho, a recolha etnográfica, à semelhança do que acontecia com outras individualidades que, nessa época, se notabilizaram por terem empreendido um importantíssimo trabalho de recolha, como Fernando Lopes Graça (1906-1994) e Michel Giacometti (1929 - 1990), um italiano que se apaixonou pela música popular portuguesa.

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   As canções populares que recolheu foram submetidas a um processo de arranjo que lhes conferiu um duplo valor patrimonial, pois são simultaneamente testemunho de uma tradição popular e criação de um artista erudito. Muitas das partituras destas canções ao gosto popular constam desta exposição e foram mesmo cantadas há dois anos atrás, na igreja do Convento de S. Francisco, quando se comemorou o centenário do nascimento de Manuel Faria. Ao longo da sua vida, Faria compôs cerca de seis centenas de obras musicais, sendo que apenas uma parte dessa produção, pouco menos de metade, foi doada à Biblioteca Geral.

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   Uma das suas obras mais importantes foi uma ópera, intitulada «O Auto de Coimbra». Este trabalho foi encomendado por ocasião das comemorações do 9º centenário da conquista da cidade aos mouros. A ópera inclui dois atos: um primeiro dedicado à fundação da cidade e o outro celebrando a conquista pelo rei Fernando Magno, em 1064. Composta em 1963, só foi executada  em 2003, quando a nossa cidade foi a sede da Capital da Cultura em Portugal.

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   Em 1961, Manuel Faria regressou a Itália, agora como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. O objetivo era aprofundar os seus estudos de Composição. Nos anos seguintes, desenvolveu uma intensa atividade, compondo, tocando, ensinando, mas também escrevendo e promovendo importantes eventos culturais. Como reconhecimeto por esse esforço, recebeu o 1.º Prémio do Concurso Nacional de Carlos Seixas, em 1972, troféu que se exibe nesta mostra. É assim uma espécie de Óscar português da música, brincaram os nossos colegas. A verdade é que não andam muito longe da verdade....

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 Em 1983, foi agraciado postumamente com o grau de Comendador de Santiago de Espada, condecoração honorífica concedida pela Presidência da República a personalidades de grande destaque. Esta honra ocorreu já depois do seu falecimento, pois, pouco tempo antes, Manuel Faria não resistiu a uma doença incurável que o vitimou. A Dr.ª Cristina confidenciou-nos um pormenor tocante que revela a paixão deste homem pela música: nos últimos momentos da sua vida, no hospital e já muito doente, ele nunca deixou de compôr, de tal maneira que, com um lápis e uma pauta, passou para o papel, até ao fim, as notas que lhe enchiam a cabeça na esperança de as ouvir tocadas e cantadas.

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   Esperemos que tenham gostado de ler este texto tanto quanto nós gostámos de escutar a Dr.ª Cristina Faria e conhecer a vida e a obra desta personalidade do mundo da Música.  Resta-nos agradecer à nossa guia e aos responsáveis da BGUC que promoveram esta exposição e nos autorizaram esta visita.



publicado por CP às 17:30
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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