Sábado, 24 de Março de 2018

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   No último dia de aulas do segundo período, decidimos rumar ao Penedo da Meditação. A ideia era, para além de chamar a atenção para a degradação deste espaço outrora tão aprazível, saudar a chegada da Primavera e das férias da Páscoa com um dia ao ar livre. Porém, a chuva persistente que tem caído nestes dias, estragou-nos os planos. Não totalmente, pois não é uma chuvita qualquer que nos impede de passear. Não pudemos correr e saltar pelo jardim, como prevíramos, mas não foi por isso que deixamos de assinalar este dia.

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   O Penedo da Meditação, sobranceiro ao vale de Souselas, foi em tempos, juntamente com a Mata do Choupal, a Lapa dos Esteios, o Penedo da Saudade, e mais alguns jardins da cidade e arredores, um espaço escolhido pelos estudantes para se inspirarem, para namorar, estudar e para descontrair. Hoje, o espaço está tão esquecido e degradado que se torna difícil compreender a preferência dada pelos jovens estudantes a este penedo. 

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   Para percebermos como era tão encantador este miradouro, recorremos à leitura de um pequeno excerto de um guia turístico clássico, o célebre Guia de Portugal. Foi uma obra publicada em vários volumes, planeada pelo escritor Raul Proença. A ideia era produzir um roteiro turístico sobre as belezas naturais e artísticas do nosso país. No entanto, o autor faleceu prematuramente em 1941, pelo que os seus amigos assumiram o encargo de concluir o plano da obra. Esse grupo era constituído pelos escritores Afonso Lopes Vieira, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Câmara Reys, Ferreira de Castro, Samuel Maia e o arquiteto Raul Lino, além de Reynaldo dos Santos e Sant'Anna Dionísio. Foi este último que concluiu a obra, que seria publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian. O 3º volume é dedicado à Beira Litoral, incluindo portanto os locais de interesse que os viajantes devem visitar na cidade de Coimbra. Na página 313, encontramos a descrição do Penedo da Meditação. Ouvir, ou ler, este excerto, no local, produz um contraste que não deixe de ser chocante, pois o que foi este miradouro na década de 40 do século XX não tem correspondência com o que é na atualidade. Ora leiam a trasncrição e imaginem-se no lugar do Manuel a meditar no varandim do Penedo:

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    «Ao norte do mosteiro [de Celas], a 30 minutos de passei sem pressa, visita-se o Penedo da Meditação, por um caminho cheio de pitoresco, entre olivais, silvados, muros altos e majestosas árvores. É um dos lugares de solitária romagem dos estudantes mais românticos de cada geração. E o sítio tem, na realidade, o seu quê de wertheriano [uma personagem de obra literária do grande poeta alemão Goethe, normalmente apontada como iniciadora do romantismo literário, caracterizado, entre outras coisas, pelo sentimentalismo e pelo desenvolvimento de uma sensibilidade que se extasia no contacto com a Natureza, como o Manuel na fotografia de cima, uma espécie de Werther do séc. XXI! ] (apesar do alpendre de mau gosto sensível e da fontezinha posta a gotejar de uma rocha, com o indiscreto contador ao lado). Ao fundo, no sombrio e verdejante valezinho, prende-nos a infantilidade da voz murmurosa de um regato enquanto, em volta, o olhar se perde nas sucessivas linhas dos montes dos pinhais bravios que precedem a montanha mal visível do Dianteiro e a profundidade côncava e perene do azul. O acesso ao recolhido lugar está em vias de ser facilitado. Um troço da estrada, em construção, dirige-se em linha reta, em homenagem ao turista que não tem tempo a perder, através da pacífica paisagem das oliveiras, despedindo-se do caminho velho junto do solar do Conde de Fijó. Se se fizer a visita de carro, sempre será aconselhável deixá-lo neste ponto e seguir a pé pelo caminho rústico!»

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    Quão diferente é tudo isto agora! Nem parece o mesmo local. O espaço está votado ao esquecimento, em redor já não se contemplam árvores de porte, nem regatos, nem fontezinhas. Não se escutam murmúrios gotejantes, pois o ruído dos carros em aceleração na autoestrada que rasga o vale, abafa tudo o mais e impede qualquer meditação. As paredes estão grafitadas, os canteiros sujos e adesleixados, o caminho enlameado,.... Ao longe, o monte do Dianteiro ainda se avista, mas os pinhais foram substituídos por construções recente dispersas sem qualquer ordenamento e os eucaliptos, omnipresentes, tomaram conta da paisagem. Nos caminhos, agora asfaltados, os automóveis estacionam de qualquer maneira! Restam duas lápides com dois poemas que testemunham a beleza inspiradora de outrora. Um poema de António Nobre e outro de José Régio inscritos em dois painéis de azulejos é o que resta da beleza idílica que se perdeu!

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   Uma pesquisa breve na internet informa-nos que o nosso patrono, Eugénio de Castro, também por aqui andou em busca de inspiração, tal como Alberto de Oliveira, um outro poeta da geração chamada neogarreistta que, nos finais do séc. XIX e inícios do seguinte, prolongaram o romantismo na literatura portuguesa. É dele o poema que transcrevemos:

 

No Penedo da Meditação

Aprende-se até morrer...

Mas eu fui mais refratário:

Morrerei sem aprender,

vida, o teu abecedário!

 

Nem a Dor, nem o Prazer,

no seu vaivém arbitrário,

Souberam dar ao meu ser

As regras do seu fadário.

 

O céu transborda de estrelas,

Mas é cifrado e secreto

Para mim, que não sei lê-las.

 

Cego, surdo, analfabeto,

De nada entendo o motivo,

Nem quem sou, nem porque vivo...»

 

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    E foi assim, com a alma cheia de poesia mas também com alguma revolta pelo estado de abandono em que encontrámos este local, que rumámos à nossa escola. resta dizer que o dia ainda nos reservava uma surpresa pois, após 20 minutos de espera na paragem do autocarro, fomos informados que os motoristas dos SMTUC se encontravam reunidos num plenário sindical, pelo que as carreiras estavam suspensas! Tivemos pois que regressar a pé! Valeu-nos que a chuva deu uma folga e assuim ficámos com exercício físico para uma semana!

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publicado por CP às 22:40
Sexta-feira, 16 de Março de 2018

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   A palavra Património deriva do latim Patrimonium, termo que, na antiga Roma, se referia aos bens herdados por via paterna. Essa herança, recebida dos antepassados, confere uma responsabilidade a quem a recebe, pois os herdeiros assumem assim o dever de a preservar e acrescentar, passando-a depois aos vindouros. Por este mecanismo de transmissão da memória se assegura a identidade dos grupos, das instituições, das nações e também.... dos clubes como o nosso! 

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    O nosso Clube, com o atual formato e com os atuais responsáveis, já existe há quase uma década, conforme podem comprovar fazendo uma pesquisa no arquivo do blogue. A fotografia que acima reproduzimos data de 2010, ano em que o João Aveiro, o terceiro a contar da esquerda no 1º plano, se juntou ao nosso clube. Ao seu lado direito está o João Tiago e, no plano superior encostado à coluna, podemos ver o Raúl. Foram estes três antigos membros do Clube, atualmente estudantes universitários, que nos receberam hoje à tarde para uma visita às secções da AAC. Observem bem as fotografias de baixo e vejam as diferenças.

 

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  Desde o dia em que esta ideia foi apresentada, os atuais sócios ficaram todos muito excitados, aguardando o momento de conhecer os nossos amigos mais velhos. Mal foram contactados, todos os antigos sócios se mostraram disponíveis. Outros, como o Vítor, o Duarte Silva e o David, também manifestaram vontade em participar nesta visita mas, porque tinham outros compromissos, não puderam estar presentes. Além destes, outros ainda, como o Alberto ou o Duarte Mendes, estudam em universidades fora de Coimbra, pelo que foi de todo impossível a sua participação.

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   Feitas as apresentações e apresentado o plano da visita, a Laura apressou-se a colocar uma questão pertinente ao João Tiago que nos recebeu nas escadas do Teatro Académico Gil Vicente: «Gostas de gatos?»

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   Os "velhos" sócios, que afinal não são tão velhos assim, aceitaram fazer a passagem de testemunho à nova geração num edifício muito simbólico: a Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra. Esta instituição centenária tem um conjunto de secções que completam a formação universitária dos estudantes. Porque ser estudante não é só estudar, a AAC oferece um variado leque de atividades culturais e desportivas, que vão desde o teatro ao cinema, da fotografia ao fado, ou dos desportos ao jornalismo. Os nossos guias pretenderam familiarizar os atuais sócios com este ambiente e com o verdadeiro espírito académico. Por isso, guiaram-nos num breve passeio por alguns departamentos da Associação Académica.

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   O João Tiago é estudante de Matemática, além de praticante de Badminton, o Raúl frequenta o curso de Bioquímica e o João Aveiro estuda Física, sendo ainda colaborador técnico da RUC, a Rádio Universidade de Coimbra. Foi ele que nos guiou. Primeiro fomos à sala d' A Cabra, jornal da Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra. Este jornal tem uma edição em papel, além da edição eletrónica. Tem colaboradores de diversos  cursos e Faculdades, e não só da licenciatura em Jornalismo embora, naturalmente, estes deem uma colaboração especial.

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   Recebidos na sala da redação, ouvimos uma breve apresentação sobre a história e  funcionamento deste jornal. Depois, antes da despedida rumo a outra secção, convidaram-nos a colocar questões. Após uns escassos segundos de hesitação e silêncio, eis que a Laura ergueu o dedo indicador, preparando-se para lançar uma pergunta que promete, doravante, fazer história nas nossas visitas. Na verdade, quando todos esperavam que ela satisfizesse alguma curiosidade ou esclarecesse uma dúvida, eis que, muito séria, a nossa jovem sócia, com uma vozinha muito firme, indagou: «Gostas de gatos?»

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   De seguida rumámos aos estúdios da RUC. Esta rádio da AAC foi fundada em 1986, embora as suas origens mais remotas recuem até aos anos 40 do século passado.  Depois de um período em que as transmissões regulares se faziam apenas à noite, em 1988 a RUC começou a emitir 24 horas por dia na frequência 107.9 FM, onde ainda hoje a podem sintonizar. As emissões da RUC também podem ser seguidas através da internet.

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   A foto da esquerda que publicamos acima é muito curiosa. Foi tirada no dia 28 de outubro de 2011, quando visitámos a delegação da Radio e Televisão de Portugal (RTP) em Coimbra. Se repararem bem, o mais alto dos visitantes, olhando de frente para a máquina fotográfica, sobre o lado direito, é o João Aveiro! Quem diria que, quase sete anos após, o mesmo João Aveiro nos haveria de receber nos estúdios da RUC, sentado na mesa do estúdio principal, na qualidade de diretor técnico! Digam lá que não é engraçado....

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   Antes de irmos embora, a Laura ainda teve tempo de colocar, mais uma vez, a sua pergunta preferida. Desta vez a uma estudante que se preparava para entrar em estúdio: «Gostas de gatos?»

   Depois de mais umas voltas pelos corredores do edifício, ouvimos uns acordes dos guitarristas da Secção de Fado que ensaiavam para a Serenata Monumental que se aproxima, antes de passarmos ao largo do estúdio do CITAC e rumarmos aos jardins exteriores. Atualmente, apresentam-se muito degradados, o que é uma pena, pois este local assistiu a momentos históricos muito importantes na vida da Academia.  Um dia voltaremos aqui para falar dessa crise de 1969. Por hoje, despedimo-nos, agradecendo aos nossos anfitriões a excelente visita que nos propiciaram. Esperemos que, daqui a uma década, os atuais sócios guiem uma visita semelhante aos que agora acabaram de nascer e que, daqui a dez anos asegurarão a continuidade do nosso Clube do Património! Para já, fiquem com uma foto antiga e adivinhem onde estão o Raúl e o João Tiago.

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publicado por CP às 20:54
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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