Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018

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   Monsenhor Nunes Pereira nasceu na aldeia de Fajão, concelho de Pampilhosa da Serra, em dezembro de 1906. O seu pai era escultor de santos e faleceu quando Augusto, era esse o seu nome próprio, tinha apenas 9 anos: "Dele herdei este jeito para as artes e um razoável conjunto de ferramentas, com as quais iniciei a minha aprendizagem manual: plainas, serras, formões, goivas e o mais da arte". Foi nessas serranias distantes de tudo que ele viveu até à adolescência, contactando com a vida dura dos camponeses, com as suas tradições ancestrais, os seus hábitos e costumes que tanto o marcariam.

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   Optando pela vida eclesiástica, em 1919 entrou no Seminário de Coimbra, sendo ordenado sacerdote dez anos após. Foi pároco em Montemor-o-Velho, Coja e na igreja S. Bartolomeu, em Coimbra, até se aposentar. Entre 1952 e 1974 foi chefe de redação do jornal Correio de Coimbra, onde foram publicados muitas das seus trabalhos. Monsenhor Nunes Pereira desenvolveu uma atividade muito intensa e diversificada, dirigiu o Museu de Arte Sacra do Seminário, preocupou-se com o património cultural, produzindo muitos estudos e promovendo a sua valorização, investigou especialmente sobre a sua paróquia de S. Bartolomeu, assim como sobre os túmulos e o púlpito da igreja de Santa Cruz, tendo colaborado ainda no inventário cultural de Arte Sacra da diocese de Coimbra.

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   Fundador do Movimento Artístico de Coimbra e da Sociedade Cooperativa de Gravadores de Portugal, foi também sócio da Sociedade Nacional de Belas Artes. Possui numerosos artigos, poemas e ilustrações em jornais, catálogos, opúsculos e monografias. O seu espólio, constituído por centenas de objetos, senão mesmo milhares, segundo nos informou a Dr.ª Cidália Santos que nos conduziu nesta visita, estão depositados no Seminário. Devidamente catalogados e inventariados, estão agora expostos num pequeno museu que foi criado na cave do Seminário.

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 Nunes Pereira, apesar de nascido no interior recôndito do país, era um homem viajado. Andou pela Itália, foi a Paris, conhecia a Alemanha e a Holanda. Essas viagens marcaram-no profundamente, quer do ponto de vista pessoal e espiritual, mas também sob o ponto de vista artístico. No regresso dessas viagens, foi experimentando novas técnicas de expressão artística, como o desenho à pena, a escultura em madeira, a pintura, a gravura em metal, a xilogravura ou a monotipia.

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   Um dos aspetos mais marcantes deste pequeno museu é a exposição das máquinas e das ferramentas utilizadas pelo padre-artista na produção dos seus trabalhos. Na parede, podemos ver algumas fotografias ampliadas de Monsenhor a trabalhar. Nunes Pereira morreu no dia 1 de junho de 2001, aos 94 anos de idade. Disse-nos a nossa guia que, no dia em que faleceu, ainda dedicou alguns momentos à sua arte, podendo afirmar-se que trabalhou quase até ao último suspiro. Assim se entende a enorme obra que nos legou, a exigir um estudo por parte dos especialistas em História da Arte. A Drª. Cidália lamentou o desconhecimento que envolve esta ilustre personalidade, pois não são muitos os que reconheceu o seu nome, apesar de o seu nome ter sido atribuído a uma rua da nossa freguesia, mais precisamente a artéria que passa mesmo em frente ao supermercado do Corte Inglês.

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   A xilogravura foi a técnica de reprodução preferida por Monsenhor Nunes Pereira. É uma espécie de carimbo em que o gravador, utilizando objetos cortantes como um formão ou uma goiva, produz diversos entalhes numa superfície de madeira de forma a obter um desenho. Pode fazer os entalhes em negativo, para que a imagem seja impressa numa folha de papel depois de embebida a madeira em tinta, ou em positivo, para a gravura ser contemplada diretamente. Segundo os historiadores, esta técnica é muito antiga, e terá as suas origens na China, conhecendo grande divulgação no Ocidente a partir do séc. XVIII.

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   Monsenhor Nunes Pereira andava sempre com um pequeno caderninho e um lápis, desenhando constantemente, em qualquer circunstância. Na rua, num autocarro, numa sala de espera, ocupava o seu tempo morto a desenhar e, não raras vezes, surpreendia as pessoas, oferecendo-lhe os desenhos que produzia. Noutras ocasiões, aproveitava pequenos calhaus, ramos e troncos, plaquinhas de osso ou marfim, para, com um canivete ou outra ferramenta afiada, produzir objetos artísticos. Nesta mostra, numa vitrina central, podemos ver alguns desses surpreendentes objetos.

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   Além destas técnicas, Monsenhor destacou-se também à arte do vitral. As suas obras estão espalhadas por várias terras da região. Em Coimbra, na clínica de Santa Filomena, podemos apreciar o seu primeiro trabalho desta arte tão antiga. Quem visitar a igreja de S. José, pode ver o seu derradeiro trabalho e porventura o mais importante.

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   Interessou-se também pela recolha de contos tradicionais da sua região natal, que publicou e ilustrou. O painel que reproduzimos acima ilustra os diversos contos tradicionais que publicou com o título Contos de Fajão, que o Seminário de Coimbra se prepara para reeditar. Achámos particularmente engraçada uma das cenas em que a comunidade aldeã recebe a visita do sr. bispo, uma figura muito importante, ainda mais naqueles tempos e naquele lugarejo. O bispo ia montado numa mula que, ao parar para receber os cumprimentos populares, calcou o pé de um aldeão. Este, muito incomodado e contendo a dor, mas com vergonha de se dirigir à autoridade religiosa de forma menos respeitosa, terá desabafado de forma educadíssima: «Senhor Bispo, Vª. Exª. ainda se demora aqui muito tempo? ... É que a mula de Vª. Exª. tem um pé em cima da minha pata...»

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   Estas xilogravuras dos Contos de Fajão, a par de gravuras de Jesus, de Santos e do culto mariano, constituem o valioso espólio etnográfico e de Arte Sacra do Museu do Seminário Maior de Coimbra que convidamos todos os nossos leitores a visitar, conhecendo uma das mais interessantes personalidades da vida cultural e artística da nossa cidade e região.

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publicado por CP às 19:06
Domingo, 18 de Fevereiro de 2018

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   Postais de Coimbra, Partilha de Lugares e Passagens é o título de uma exposição patente na Sala da Cidade, até ao dia 24 de março, que nós visitámos esta semana. Trata-se de uma coleção privada de postais que a Câmara de Coimbra adquiriu recentemente, integrando-a no acervo da imagoteca municipal e que nos remete, antes do mais, para a função do postal ilustrado. Antigamente, quando se visitava uma cidade ou uma terra estrangeira, era hábito comprar estas fotografias impressas em cartão com imagens de monumentos locais, paisagens ou figuras típicas e escrever uma breve mensagem no verso. Este costume vulgarizou-se na segunda metade do século XIX, quando as classes médias começaram a viajar com mais frequência, sendo uma forma simples e económica de comunicar, transmitindo sentimentos que iam desde a saudade ao enamoramento. Ao longo dos tempos, os postais foram objeto de interesse dos colecionadores que viam nessas imagens, mais do que a mensagem escrita, um documento histórico e um objeto artístico. 

 

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  Atualmente, quase ninguém envia postais, pois os modernos meios de comunicação, como o telemóvel e a internet, alteraram os nossos modos de comunicar uns com os outros. Hoje, enviamos sms e mensagens eletrónicas, usamos o WhatsApp, o Snapchat ou o Messenger, mas infelizmente já ninguém envia postais ilustrados! Nem os namorados!

   Esta exposição distribui por uma série de mesas dezenas e dezenas de postais, organizados por diversos assuntos relacionados com a história de Coimbra, os seus lugares, personagens e figuras típicas. Numa primeira mesa, dispõem-se os postais sobre as festividades da Rainha Santa, a padroeira da cidade. O dia 4 de julho, dia da sua morte, é mesmo o nosso feriado municipal. As festas há já muito que, nos anos pares, se realizam nessa semana, com celebrações religiosas e culturais. Podemos apreciar alguns postais onde é possível documentar a grandiosidade dessas festas nas primeiras décadas do século passado, bem como o fervor e devoção que as populações dedicavam, e dedicam ainda, à memória de Isabel de Aragão.

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    Nesta secção podemos ver figuras da etnografia coimbrã, como a tricana, o futrica, o estudante, a lavadeira, o bedel ou o lente da universidade. Quanto à tricana, ela vestia normalmente uma saia comprida, um pequeno avental, um chambre (uma pequena blusa), um cachené (um lenço que cobria a cabeça e se atava sob o queixo) e um xaile sobre os ombros. A tricana era uma mulher do povo, normalmente representada com um cântaro a caminho da fonte ou do rio, onde ia buscar água. Eram famosas as paixões que suscitava entre os estudantes, bem com as cenas de ciúmes sentidas pelos futricas. Ao fundo da Rua do Quebra-Costas existe uma escultura em bronze que homenageia esta figura outrora tão típica do meio coimbrão. Em baixo, reproduzimos alguns postais que vimos na exposição.

 

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   A mesa seguinte era dedicada às tradições académicas. Destaca-se uma série de postais dedicados ao Centenário da Sebenta, em 1889. Esta festa parodiou as comemorações que, desde 1880 em que se assinalou o tricentenário da morte de Camões, eram frequentes na vida cívica e política do país. Os estudantes lançaram então uma paródia a essas festas cívicas, escolhendo a sebenta como pretexto para a realização de cortejos e saraus. A sebenta era uma compilação das lições dos professores da Universidade. Nessa ocasião, os estudantes começaram a queimar as fitas, como forma de assinalar a proximidade do final do curso.

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   Em 1905, realizou-se o Enterro do Grau , na sequência de uma reforma dos cursos universitários que mantinha os graus de licenciado e doutor, abolindo o grau de bacharel. Esta festa, tal como o Centenário da Sebenta, podem considerar-se os antecedentes da Queima das Fitas.

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   Do Choupal até à Lapa é o título de um conhecido fado de Coimbra e é também o tema de uma secção dedicada ao rio Mondego, carinhosamente tratado pelos habitantes de Coimbra como Basófias, pois no verão, ainda que sendo o rio mais extenso do país, levava muito pouca água, apesar da sua fama de rio caudaloso que, no inverno, transboradava as margens, causando grandes inundações.

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   O assoreamento do rio resultou do entulhamento ao longo de décadas e décadas, obrigando a água a correr em pequenos fios que se ramificavam pelas margens, então ainda não emparedadas. O leito tornava-se então um grande areal, aproveitado como praia pelos habitantes e pelas lavadeiras que aí lavavam a roupa recolhida nas casas dos estudantes e a estendiam depois para secar, compondo um cenário que, durante muito tempo, foi uma imagem muito divulgada de Coimbra.

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   As pontes do rio Mondego são também motivo para muitos cartões postais. Principalmente a chamada ponte de ferro, construída entre 1873 e 1875, com projeto de Matias Heitor de Macedo, e a atual ponte de Santa Clara, projetada pelo conhecido engenheiro Edgar Cardoso, inaugurada em 1954 e ainda hoje ao serviço. Os postais antigos mostram ainda as pontes ferroviárias do Choupal e a da Portela, bem como a ponte rodoviária também neste último local, ainda hoje existente mas já sem trânsito.

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   Na viragem do século XIX para o século XX, a cidade beneficiou de uma série de novos equipamentos, como bancos, escolas, museu ou hospitais. No atual Largo da Portagem, outrora Largo Miguel Bombarda, foi construída a nova sede do Banco de Portugal, da autoria de Adães Bermudes. A Escola Prática Central de Agricultura instalou-se, em 1887, na Quinta do Bispo, dando origem à atual Escola Superior Agrária. Igualmente nos inícios do século XX foi a criação do Jardim Escola João de Deus, com traço de Raul Lino. O Portugal dos Pequenitos, do igualmente famoso arquiteto Cassiano Branco e promovido pelo Professor Bissaya Barreto, é outra das novidades. Na Quinta dos Vales, num terreno cedido pela colónia de emigrantes portugueses do Brasil, e também graças à iniciativa de Bissaya, surge um sanatório masculino para tuberculosos, inaugurado em 1935, e que é hoje o chamado Hospital dos Covões. 

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   Os vários mosteiros e igrejas da cidade, bem como alguns equipamentos e ruas, foram captados em postais, circulando pelo país e pelo mundo. As impressões dos turistas e viajantes, tanto nacionais como estrangeiros, contribuíram para a divulgação de Coimbra e do seu património. Alguns desses locais, pelo seu simbolismo, mereciam uma atençao especial, como o Mosteiro de Santa Clara com o túmulo da Rainha Santa, a Sé Velha, o Seminário, ou a igreja de Santo António dos Olivais.

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   Entrando pela cidade vindo do sul, pelo Largo da Portagem, percorria-se a principal artéria da cidade, formada pelas atuais ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz, chegando ao Largo de Sansão, ou Praça 8 de Maio, onde se encontra a Igreja de Santa Cruz, um dos mais importantes monumentos da cidade do país e um dos mais represantados nos postais de Coimbra. Pegado à fachada da igreja está o edifício da Câmara Municipal que, no século XIX foi edificado para acolher os órgãos do poder concelhio.

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   A Universidade, com os seus edifícios e as suas tradições, os lentes e os estudantes, foram naturalmente das realidades mais fotografadas e divulgadas. São inúmeros os instantâneos do Paço das Escolas, dos Gerais, da Sala dos Capelos e da Torre da Universidade, bem como dos edifícios pombalinos. 

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   Coimbra foi outrora conhecida, embora hoje possa não parecer, como a Cidade-jardim, tantos, tão belos e tão cuidados eram os seus espaços verdes: o Choupal, a Lapa dos Esteios, o Parque da Cidade, a Quinta das Lágrimas, a Mata de Vale de Canas ou o Jardim Botânico. O ambiente romântico da cidade era propiciado pela beleza idílica das margens do Mondego, onde os pares amorosos passeavam e namoravam. Muitos suspiros de amor devem ter sido transportados no versos destes postais!

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publicado por CP às 18:23
Domingo, 11 de Fevereiro de 2018

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   As regras eram simples: 1- Não correr; 2 - Não gritar e 3 - Não tocar em nada. Depois, cada um tinha que escolher uma peça da coleção de escultura do Museu Machado de Castro e manter segredo. O objetivo era, no final e já no pátio central, representar por gestos a figura escolhida, para que os companheiros pudessem adivinhar. Todos tinham ainda que lançar um olhar sobre as etiquetas identificativas das restantes peças para poderem ter uma ideia do que os colegas estavam a tentar traduzir por mímica. Ora vejam lá se conseguiam adivinhar a representação do António e do Tiago?

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   A Laura também se esforçou com o Cavaleiro Medieval. Trata-se de uma escultura do cavaleiro Domingos Joanes, proveniente da Capela dos Ferreiros, de Oliveira do Hospital, da autoria do famoso Mestre Pêro. A Laura insinuou um ligeiro trote, como se montasse a cavalo, e ninguém hesitou, era mesmo o Cavaleiro, uma das obras mais conhecidas do Museu.

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   Também não foi difícil adivinhar a escolha do Canelas. Proveniente do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, o Cristo no Túmulo data dos finais do séc. XIV ou do início do seguinte. É um excelente trabalho, pois não é fácil esculpir um corpo morto. O jacente, tal é o nome dado às figuras representadas deitadas, é uma das melhores peças da nossa escultura medieval. Em baixo, vemos três soldados adormecidos com espadas e escudos. Mas o Canelas fez de Cristo! Ora vejam lá as semelhanças:

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   O João Sobral e o Afonso, meio a sério e meio a brincar, optaram por uma representação de Cristo atado à coluna. É uma obra da autoria do famoso João de Ruão, da primeira metade do século XVI, que pertenceu ao Mosteiro de Celas. Está muito danificada, pois é produzida em calcário de Ançã, como quase todas as obras desta coleção. Este material se por um lado é muito fácil de trabalhar, por outro degrada-se facilmente. Quanto ao quadro feito pelos nossos amigos, nem o Sobral se parece muito com Cristo, nem o Afonso tem cara de coluna, mas enfim, um gesto vale por mil palavras e aquele abraço permitiu uma fácil identificação.

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 A Ana Eduarda foi dos melhores desempenhos e foi o mais difícil de adivinhar. Não por falta de talento, pois a sua gesticulação foi rica e muito sugestiva. Até pedimos para ela repetir no final e, mesmo assim, não conseguimos acertar, pois ela selecionou uma imagem tão discreta que nem me lembrei de tirar uma foto. Uma pena, mas é um bom pretexto para visitarem o Museu e procurarem o Amaro! Para já, fiquem com a Ana!

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   A figura de S. Miguel é originária da igreja com o mesmo nome, em Montemor-o-Velho. Foi provavelmemnte encomendada pelo Infante D. Pedro, regente do trono e irmão do Infante D. Henrique, conhecido pela sua devoção a este santo. Vemos o arcanjo a trespassar um dragão, símbolo do mal, faltando-lhe já a lança. Na outra mão segurava uma balança destinada a pesar as almas, isto é, a comparar as boas com as más ações cometidas por cada um em vida. A imagem é um bocado efeminada, apresentando muitos detalhas requintados, como o diadema que tem na cabeça, o cinto e o debruado do manto. O seu autor foi Gil Eanes, escultor fomado na oficina do mosteiro da Batalha e que não se deve confundir com o navegador homónimo. Os nossos amigos Afonso e Tomás não tiveram muita dificuldade em reproduzir o cenário e o gesto que permitiu uma identificação imediata!

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   O Tomás optou por uma imagem menos teatral e por uma mímica menos exuberante. Foi muito discreto e optou por se centrar no gesto de leitura, pois a imagem que tinha em mente, Santo André, exibe um ar muito concentrado, ostentando um livro aberto na mão esquerda. Ora avaliem lá as semelhanças! A Susana apresentou uma figura com um gesto parecido. Julgo que não era o Santo André, mas sinceramente também já não me lembro qual era a imagem. Fica o registo.

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   O Arthur, sempre meio tímido e distante, não se escusou ao exercício que lhe propusemos e apresentou uma das peças mais impressionantes da coleção do Museu, nada mais do que o famosíssimo Cristo Negro, de todos conhecido. No entanto, e infelizmente, só já o consegui apanhar na fotografia quando ele descia os braços. Fica, apesar disso, o registo da sua prestação.

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   Penso que a Alice figurou a estátua de Santa Luzia, mas já não tenho a certeza. Esta obra deve-se igualmente ao Mestre Pero e mostra a mártir a exibir os seios, uma vez que lhes foram cortados como castigo por não renegar a fé cristã. Esta estátua veio de uma capela de Avelãs de Caminho, localidade próxima de Anadia. O culto de Santa Ágata foi muito popular na Idade Média, tal como outras mártires do Cristianismo primitivo, como Santa Comba, que tem uma estátua mesmo ao lado desta.

 

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   A Madalena teve muita graça, limitando-se a encolher os braços e a esconder a cabeça entre os ombros, pois a obra que selecionou está danificada e não tem cabeça!

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   A Constança, que nos apareceu neste dia mascarada de camponesa do séc. XIX, em parceria com a Sofia simularam o retábulo da Nosa Senhora da Misericórdia, mostrando que retiveram a lição do Raúl Moura Mendes que nos guiou numa visita ao Museu da Misericórdia, há poucas semanas atrás. Nessa ocasião, ensinou-nos que, iconograficamente, A Senhora da Misericórida surge sempre com um manto que protege os diversos representantes do clero, da nobreza e, por vezes, até do povo. A primeira fotografia desta publicação mostra esta cena. Além disso, e porque a Constança é uma das nossas sócias mais diligentes, ainda representou outra imagem. Ora tentem adivinhar qual que eu já não me lembro, pois, por esta altura, já começava a ficar baralhado!

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  Já o Francisco e o Tiago, sempre muito entusiastas, julgo que ficaram impressionados com a história da lactação de S. Bernardo e parece que, com alguma liberdade e desvio iconográfico, encenam o quadro que a todos sensibilizou pelo ineditismo meio bizarro dessa lenda que procurava justificar o brilhantismo intelectual de S. Bernardo de Claraval.

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   Tenho que pedir desculpa à Carlota pois, com toda a sinceridade, já não me lembro qual foi a peça que ela evocou com a sua gesticulação. Fica o desafio: visitem o Museu Nacional Machado de Castro, tentem adivinhar e, se vos apetecer, enviem os vossos palpites!

 

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publicado por CP às 21:12
Sábado, 03 de Fevereiro de 2018

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   Hoje não fomos a lado nenhum, ficámos na escola onde recebemos a Inês, coordenadora do Grupo da Amnistia Internacional de Coimbra (GAIC). O nosso Clube tem como principal objetivo conhecer, divulgar e contribuir para a preservação do Património Cultural. Sejam museus, monumentos, sítios, peças e objetos moveis, bens materiais ou imateriais, tudo nos interessa e preocupa Ao longo destes anos em que existimos, temo-nos esforçado por cumprir esse objetivo, conhecendo monumentos e museus da cidade, visitando exposições e galerias, participando em eventos e conferências, observando esculturas e apreciando pinturas, aprendendo como se restauram livros antigos ou como se colecionam selos. Basta fazer uma pesquisa no nosso blogue e logo se verá que nos temos orientado em diversos sentidos. Tudo isso, e muito mais, é Património e mereceu a nossa atenção. No entanto, há que lembrar, o bem mais importante que temos que preservar é o Homem e os seus Direitos! É tudo muito bonito e muito importante, mas nada do que acima referimos e que constitui a nossa herança patrimonial é mais importante do que os Direitos e Dignidade dos Homens, de todos os homens. Por isso, e porque esse bem é muito ameaçado, em todos os cantos do Mundo, decidimos convidar a Inês para nos dar a Conhecer a Amnistia Internacional (AI) e para nos falar dos Direitos Humanos (DH).

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  A Amnistia Internacional foi fundada em 1961 por um advogado Inglês chamado Peter Benenson. Curiosamente, Portugal está associado à sua criação, pois nessa altura vivia-se sob a ditadura salazarista. Benenson leu num jornal que dois jovens estudantes portugueses tinham sido presos por terem feito um brinde à Liberdade! Isso hoje parece-nos incrível e nem conseguimos imaginar como é que no nosso país isso aconteceu há tão pouco tempo. Foi o mesmo pensamento que atravessou o espírito do fundador da AI e o levou a criar esta organização. Embora a AI tenha os seus escritórios centrais em Londres, está espalhada por todos os países do Mundo, exceto a Coreia do Norte. Foi por aqui que prosseguimos a nossa conversa, pois não só este país tem estado no centro das atenções e dos telejornais por causa do conflito com a Coreia do Sul e os EUA, como se trata de um país muito fechado, em que os cidadãos estão privados de quase todos os direitos. Nem sequer, recordou a Inês, podem cortar o cabelo como lhes apetece!

   De seguida, visonámos um filme que serviu de mote para a nossa conversa. Foi uma conversa animada, deve dizer-se, até falámos demais! A Inês, como é muito simpática e não podia limitar o nosso direito à liberdade de expressão, lá se encheu de paciência, ouvindo e moderando as nossas intervenções. Algumas foram assim um pouco para o disparatado, todos queriam falar e relatar as suas experiências, acabando por fugir ao tema. Mas também não é menos verdade que escutámos opiniões e comentários muito interessantes.

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   Abordámos seguidamente o tema dos Direitos Humanos. Embora a primeira declaração dos Direitos Humanos remonte ao século XVIII e aos tempos da Revolução Francesa, atualmente, quando se fala da Declaração Universal dos Direitos Humanos referimo-nos aos tempos que se seguiram à 2ª Guerra Mundial e ao texto aprovado em 1948 pelas Nações Unidas, compreendendo 30 artigos. Esse documento não tem força de lei, isto é - explicou-nos a Inês -, nenhum país pode ser castigado por o desrespeitar! Isto pode parecer disparatado, mas a verdade é que os países, mesmo os mais ditatoriais, temem que a sua imagem e o seu prestígio internacional sejam afetados por campanhas que denunciem violações. É com isto que a AI conta quando promove campanhas contra abusos dos DH.

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   É o que se passa  atualmente na Turquia, onde o presidente nacional da AI, Taner Kiliç, se encontra preso. Como não podia deixar de ser, a AI desenvolve uma campanha, apelando à libertação deste seu dirigente e ativista. É importante divulgar este caso, para tal podem os nossos leitores aceder a esta página eletrónica e assinar uma petição. Basta um clic e pode-se salvar uma vida! Por favor, divulguem esta iniciativa junto dos vossos pais, familiares e amigos. É assim que a AI trabalha e desenvolve as suas ações.

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   Além de abaixo-assinados e petições públicas, a AI promove muitas outras ações de denúncia e sensibilização, como manifestações, envio de cartas apelando à libertação de presos e condenados, sessões de esclarecimento como esta, ciclos de cinema e até festas. O Grupo de Coimbra da AI também tem lançado muitas ações, como a simulação de um campo de refugiados na Praça da República, reuniões onde se denunciaram violações dos DH em Angola com a presença do conhecido ativista Luaty Beirão, ou marchas contra qualquer forma de discriminação sexual. Afinal, a grande luta é pelo direito à diferença, pela Liberdade, e isso implica que não se aceite nenhum tratamento diferenciado com base na religião, na raça, na cultura, no sexo, na orientação sexual, ou o que quer que seja. O interessante é que os nossos jovens sócios têm mais facilidade em aceitar isto do que muitos adultos que, contra todas as evidências, têm por vezes dificuldade em aceitar o direito à diferença das minorias.

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(fotografias retiradas da página do facebook do GAIC)

   Uma das razões que nos levou a convidar a Inês para este encontro, foi a questão dos DH na China. Na verdade, dedicámo-nos nas últimas semanas a conhecer um pouco melhor a história e a cultura deste enorme país. Visitámos uma exposição no Museu Machado de Castro e tivémos um encontro no Instituto Confúcio. Achámos que era importante mostrar a outra face da China. Na verdade, trata-se de um  país ancestral, um dos maiores do mundo em área geográfica e o mais populoso do planeta. A China tem uma cultura muito sofisticada e uma história milenar. É fácil sentirmo-nos fascinados pela sua cultura e pelos seus costumes. Mas que isso não nos faça esquecer que é um país que desrespeita sistematicamente os DH. Todos os anos são aí executadas milhares de pessoas, e isto é inadmissível. A situação é preocupante em todo o Mundo, particularmente na Ásia, onde países como o Paquistão, o Irão, o Iraque, a Arábia Saudita ou a China apresentam números assustadores!

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   A situação no Tibete é um dos assuntos habitualmente apresentado pela AI. Nessa região, a violência repressiva tem-se vindo a intensificar, face ao alheamento internacional, pelo que as ações da AI adquirem uma importância ainda maior. O Tibete é um território nos Himalaias com uma cultura e uma identidade próprias. Nos meados do séc. XX, as tropas chinesas anexaram o Tibete, obrigando à fuga do Dalai Lama, o chefe político e religioso dos tibetanos. Desde então, as violações dos DH e a recusa da autodeterminação têm sido as orientações do governo chinês, que despreza qualquer negociação ou apelo da comunidade internacional. Para nos sensibilizar melhor para esta questão, a Inês passou-nos um filme que abaixo reproduzimos.

 

    Para concluir este nosso encontro, entregámo-nos a um curioso exercício. Imaginámos que vivíamos num planeta inteiramente novo. Demos-lhe um nome e criámos uma lista de Direitos, uma espécie de carta fundacional onde cada um teve oportunidade de apresentar um artigo. Foi muito interessante, pois sentimo-nos como uma espécie de pioneiros de um novo mundo imaginário, e pudemos verificar que muitas das nossas propostas correspondiam a direitos já consagrados, mesmo os incluídos na chamada 3ª geração, ou seja, os que se prendem com preocupações ambientais e que constituem direitos da comunidade, ou da sociedade, não sendo propriamente direitos individuais. Alguns exemplos da nossa Carta: art. 1º: Direito à não guerra; art. 2º: Direito a um só país no Planeta Património; art. 3º: Direito à Escola; art. 4º: Direito a um ambiente limpo e puro; art. 5º: Direito à Cultura,.... (e outros que eu não consegui registar, eram para aí uns 15!  )

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  Para acabar, a Inês deixou-nos os contactos do Grupo da Amnistia Internacional de Coimbra. O objetivo é que todos se envolvam, utilizando as redes sociais, que participem e divulguem, pois ninguém pode ficar indiferente! Aqui ficam então os contactos:

website: http://grupoaicoimbra.wixsite.com/gaic

facebook: https://www.facebook.com/grupoaicoimbra

twitter: https://twitter.com/AmnistiaCoimbra

instagram: https://www.instagram.com/amnistiacoimbra/

youtube: https://www.youtube.com/channel/UCAbVycGpgSrcdpxpctw9VEQ/videos

gmail: nucleoaicoimbra@gmail.com

telefone: 913988392

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(No final, cada um levou uma fitinha da Amnistia Internacional para colocar no pulso) 



publicado por CP às 17:24
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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