Sábado, 13 de Janeiro de 2018

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O Museu Machado de Castro exibe, até ao próximo dia 28, na sala de exposições temporárias, uma mostra dedicada ao poeta da Clepsidra intitulada Pintores Poetas. Pintura e Caligrafia na Doação de Camilo Pessanha. Organizada no âmbito das comemorações dos 150 anos do nascimento do poeta, a mostra apresenta peças doadas ao estado português, provenientes do sul da China.

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  Camilo Pessanha nasceu em Coimbra, em 1867, filho ilegítimo de um estudante de alta condição social e da sua empregada. Aqui se licenciou em Direito, passando depois a exercer atividade profissional em diferentes localidades do país, até rumar a Macau, pois desde cedo sentiu grande atração pela cultura oriental, nomeadamente chinesa. Ao longo da sua estada nesse território, colecionou vários objetos, reunindo cerca de 370 exemplares, entre porcelanas, metais, marfins, tecidos, madeiras e jades, incluindo pinturas e caligrafia, do séc. III a. C. até ao séc. XIX. Pouco antes de morrer, doou esse espólio ao Museu Nacional Machado de Castro, onde permanece, sendo que parte está depositado no Museu da Fundação Oriente, em Lisboa.

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   Um dos núcleos mais interessantes desse espólio é constituído por obras de pintura e caligrafia, produzidas por 36 artistas. Esta preferência prova que o poeta simbolista tinha um conhecimento profundo da cultura chinesa, nomeadamente da escrita. Na verdade, a escrita chinesa é ideográfica, quer dizer, os caracteres não reproduzem sons, mas referem-se a objetos, imagens ou conceitos, tal como os hieroglifos da antiga civilização egípcia. Isto faz com que a escrita seja muito mais complicada, pois os caracteres são imensos, pelo que nem todos dominam a arte da caligrafia. Os que dominavam o desenho das letras eram sábios muito respeitados e os rolos produzidos eram muito valiosos, sendo transmitidos de geração em geração.

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   Esses rolos podiam ser de mão (shoujuan), de pendurar (zhou) ou álbuns (ce). Estes álbuns reuniam pinturas de pequeno formato. Os rolos exibidos nesta exposição datam das dinastias Yuan (1260-1386), Ming (1386-1644) e Qing (1644-1911) e eram realizados sobre papel ou seda.

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   Alguns dos trabalhos copiam poemas, comentários e pensamentos de autores clássicos, legendando desenhos muito delicados de paisagens, com animais, árvores e florestas, montanhas e outros elementos da Natureza, relegando para um plano secundário a figura humana, que surge em cenas quotidianas, ou personagens mitológicas.

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   Numa vitrina lateral podemos ver dois acessórios para a produção de caligrafia e pintura. Trata-se de um godé utilizado para a lavagem de pincéis e mistura de tintas, feito em porcelana, e um porta-pincéis de porcelana alaranjada decorada com elementos paisagísticos muito pormenorizados.

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  Nos mostruários centrais podemos apreciar vários exemplares muito bem conservados de álbuns com caracteres desenhados sobre um fundo dourado. Em baixo mostramos duas folhas muito belas, onde se pode observar uma relação muito próxima entre o gesto e o traço, o que permitie identificar vários estilos, uma vez que cada artista possuía uma forma individualizada de riscar os caracteres, conforme os movimentos de pulso que apurava. O ideograma da esquerda representa a neve e o outro rio.

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   A este propósito vale a pena contar a história de Wang Xizhi, artista que viveu no séc. IV. Este desenhador é ainda hoje lembrado pelo seu passatempo favorito, a criação de gansos. Reza a lenda que Wang Xizhi aprendeu o segredo da sua arte de movimentar o pulso e assim criar o seu estilo caligráfico inconfundível, observando o modo como os gansos moviam o pescoço. Infelizmente, nenhum dos seus trabalhos chegou aos nossos dias, apenas cópias e a sua fama de artista inexcedível.

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   Duas das obras que mais admiração causaram foram dois rolos em papel folheado a ouro, representando um pássaro pousado num tronco  com bagas e uma belíssima garça. Ao lado, um outro rolo de pendurar de seda, representando uma corça e um gamo. esta pintura, abaixo reproduzida, foi executada pelo pintor Sun Kehong que se notabilizou pela pintura de pássaros e flores, bambus, rochas e paisagens. Além de pintor, Kehong era também poeta e calígrafo, tendo vivido entre 1533 e 1611, durante a Dinastia Ming.

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  Esta exposição ocupa apenas uma sala, parece pequena, contudo, a qualidade das peças e os pormenores que nos detêm em cada uma, obrigam o nosso olhar a uma atenção demorada, pelo que o tempo passa sem que o notemos. Apesar disso, ainda tivemos tempo para brincar e saltar no pátio exterior, e ler uns poemas do Camilo Pessanha que a professora Fernanda levou.

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publicado por CP às 13:55
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