Sábado, 16 de Dezembro de 2017

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   Após uma interrupção de duas semanas por causa dos feriados de 1 e 8 de Dezembro, regressámos aos nossos passeios, visitando o Colégio das Artes, onde está patente um dos núcleos da Anozero - Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra, ainda que registando a ausência de muitos sócios, devido às férias antecipadas e às festividades que, um pouco por todas as escolas, assinalam o encerramento das atividades do 1º período. Já visitámos o núcleo mais importante deste evento, no mosteiro de Santa Clara-a Nova e, porque gostámos tanto, decidimos conhecer este pólo. Prometemos regressar brevemente por causa deste edifício, mas desta vez ocupámo-nos apenas da exposição.

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   Logo no átrio, uma estranha instalação chama a atenção de todos. Trata-se de uma obra do artista angolano Gustavo Sumpta, intitulada Levantar o Mundo. A partir de uma frase atribuída ao sábio da Antiguidade Arquimedes, Gustavo Sumpta concebeu este projeto que deveria ter sido cenário para uma performance. Um dia, Arquimedes terá dito que se lhe dessem um ponto de apoio ele seria capaz de levantar o Mundo, tentando demonstrar assim os princípios da Física através do uso de uma alavanca. Este projeto deste autor, nascido em 1970 em Luanda e residente em Berlim, foi adiado, pelo que os nossos leitores ainda podem assitir ao evento no Convento de S. Francisco, no próximo dia 17 de janeiro.

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   Depois, já no interior do Colégio das Artes, deparámo-nos com uma instalação da artista norte-americana Jill Magid, integrada numa série que designou Ex-Voto, onde pesquisa a vida e o legado de Luis Barragán. Este arquiteto nasceu no México em 1902, falecendo em 1988, tendo produzido uma obra muito marcada pela tradição mediterrânica, nomeadamente do sul de Espanha e do norte de África, por onde viajou. Barragán teve uma vida agitada, obtendo o reconhecimento mundial no fim da vida com a atribuição de importantes prémios. Os seus trabalhos como arquiteto paisagista e a sua relação com os cavalos são uma das marcas mais identificáveis das suas obras.

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   Os arquivos pessoais do arquiteto mexicano têm sido objeto de grande polémica e discussão, pois foram comprados por um empresário suiço que não faculta o acesso aos estudiosos na obra de Barragán. Por isso, Jill Magid concebeu esta instalação, onde um conjunto de miniaturas de cavalos colocados em vitrinas com bases coloridas chamam desde logo a atenção, numa evocação direta do trabalho de Barragán.

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   Na sala contígua, vimos um pequeno filme que regista a exumação das cinzas do arquiteto no cemitério de Jalisco, no México. Assistimos à recolha de algumas cinzas da urna onde foram depositados os restos mortais, sendo lá colocado um pequeno cavalinho prateado que, vemos depois, parece ter sido retirado de uma vitrina vazia que se encontra na sala. Esta cena tem uma relação direta com a discussão que decorre sobre a propriedade e acesso aos arquivos do mexicano.

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   Depois, passamos a uma série de projeções do artista francês de origem argelina Kader Attia. Este trabalho debruça-se sobre a forma como o modernismo artístico europeu se inspirou na arte indígena africana. A partir daqui, o artista estuda as relações entre colonizador e colonizado. Numa das paredes projetam-se diapositivos de revistas antigas, onde vemos ilustrações de missionários a evangelizar os territórios da África. Muitos desses missionários, tal como exploradores, cientistas e outros colonos, saquearam os objetos arísticos dos povos nativos, transportando-os para as coleções e museus da Europa, nomeadamente para o Museu do Vaticano. Deste modo, o artista franco-argelino mostra-nos objetos desinseridos do seu contexto cultural, deslocalizados e com o seu poder simbólico inutilizado.

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  Jonathan Uliel Saldanha é um artista que tem dividido a sua atividade pela música e pela produção de ambientes sonoros, bem como pela criação de imagens em movimento. Para esta bienal, o autor concebeu uma instalação video a partir de filmagens realizadas no Convento de São João Novo, no Porto, que albergou o Museu Etnográfico, dirigido, na última parte da sua existência, pelo artista e arquiteto portuense Fernando Lanhas.

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   Fernando Lanhas é o autor de um friso cronlógico sobre a evolução da Humanidade, que serve também de base para uma instalação de som e de luz de Saldanha. Este painel suscitou grande curiosidade entre os nossos sócios, porque permite estabelecer comparações surpreendentes entre a escala do tempo histórico e do tempo geológico, além de sugerir, no seguimento aliás da sala anterior, relações entre a estrutura neurológica do cérebro humano e as paisagens cósmicas.

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   Ernesto de Sousa (1921–1988) foi um dos mais importantes artistas plásticos portugueses do séc. XX em Portugal, com uma forte ligação à nossa cidade e ao Círculo de Artes Plásticas. Como o Estado Novo, na década de 40, procedia a uma recolha de artistas populares, com o objetivo de fundamentar nessa pretensa tradição uma mitificada identidade nacional, Ernesto de Sousa procedeu a uma recolha alternativo, dando a conhecer artesãos e temas que não se articulavam com essa manipulação ideológica promovida pela propaganda do Estado Novo, dando a conhecer uma outra tradição popular, mais pagã e profana. Com o material recolhido organizou uma exposição na Galeria Divulgação, em Lisboa, em 1964, que intitulou Barristas e Imaginários: quatro artistas populares do Norte. Aí incluiu obras da depois famosa artesã Rosa Ramalho, além de Franklin Vilas Boas. É deste artista popular, natural de Esposende, falecido em 1968, que agora vemos alguns trabalhos, juntamente com fotografias suas com objetos dos artistas por ele estudados.

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   Ernesto de Sousa procurava aproximar a arte erudita da arte popular, que foi alvo de um grande interesse em Portugal desde os últimos anos da década de 1950. Franklin, que era engraxador de profissão, não tinha qualquer formação académica e utilizava troncos e ramos de madeira com formas sugestivas, trabalhando-as depois, seguindo a sua imaginação e as sugestões das formas naturais que recolhia. Como resultado, esculpia figuras fantásticas, monstros estranhos, expressando um imaginário que tinha tanto de ingénuo, como de pagão. Foi essa ingenuidade e espontaneidade que os artistas modernos encararam como fonte de inspiração para a renovação da arte moderna.

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   Na última sala, vimos um trabalho do artista brasileiro Jonathas de Andrade. É um exercício a partir da destruição de uma casa modernista, documentada através de uma maquete e de imagens fotográficas. Esta obra é uma crítica dura às demolições causadas pela especulação imobiliária e aos efeitos da ânsia do lucro sobre o património arquitetónico. Saldanha inverte o sentido comum de uma maquete, pois esta é normalmente executada pelos arquitetos como projeto de futuro, isto é, antevisão de uma construção a realizar. Ora, aqui, Jonathas faz a maquete de uma casa destruída, sendo que, assim, o sentido da maquete já não é antever uma construção a realizar, mas o de preservar a memória de uma casa destruída.

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   Por fim, na mesma sala, vimos uma instalação do jovem artista português Henrique Pavão. Com ela nos despedimos, desafiando todos os nossos leitores a visitarem esta exposição, desejando ainda a todos um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

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Este texto foi redigido a partir do catálogo da Bienal Anozero e das informações da folha de sala.



publicado por CP às 19:09
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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