Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

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   Hoje fomos ao Museu Machado de Castro apreciar dois raríssimos tapetes! «Trata-se de dois excecionais tapetes persas do século XVI que integram um exclusivo grupo de 16 tapetes existentes em Museus e coleções de todo o Mundo, saídos de oficinas da cidade de Kashan», cidade da Pérsia, atual Irão. «De pequeno formato, ainda que com ligeiras variações, todos foram fabricados em seda, usando o nó assimétrico [ver a imagem} e apresentando um colorido vivo (...), obtidos a partir de corantes de origem animal e vegetal.»

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    Dos 16 tapetes existentes em todo o Mundo, dois estão em Portugal, estes que hoje visitámos. Um pertence à coleção da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo sido propositadamente emprestado para esta iniciativa chamada Tesouros Partilhados, e o outro pertence à coleção do nosso Museu. Normalmente, as secções de artes decorativas dos museus, nomeadamente as de têxteis, recebem pouca atenção por parte dos visitantes, o que é injusto. Na verdade, esta foi uma excelente oportunidade para nos sensibilizar para estas valiosíssimas peças.

   «Os tapetes mais caros e apreciados foram sempre os turcos e os persas. Usavam-se, na Europa, para cobrir o chão, as paredes e os móveis ou ainda para adorno das janelas em dias de procissão ou festas de rua.

De tudo isso nos deixaram fantásticos registos os pintores que, entre os séculos XV e XX, reproduziram esses tapetes e orgulhosamente os exibiam para afirmação do elevado estatuto social e da riqueza de quem os possuía.

Os ambientes do exótico e longínquo Oriente também seriam captados nas telas de alguns pintores europeus.» 

  Abaixo, apresentamos alguns exemplos de tapetes representados com grande destaque e pormenor, em pinturas de grandes artistas europeus:

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esq.: Josefa de Óbidos: Lactação de S. Bernardo; séc. XVII; MNMC; Coimbra

dir.: Gabriel Metsu; Homem escrevendo uma carta; séc. XVII; National Gallery of Ireland, Dublin

 

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A Conferência da Casa de Somerset

[Tapete de padrão ‘Holbein’ de origem turca | Anatólia]

Século XVI

  

   «Nos tapetes de nós a teia é, em geral, de algodão e a trama é feita com lã, algodão ou seda, por vezes enriquecida com fios de ouro e prata. O desenho é feito com nós, formados por um fio atado em torno de um ou dois fios da teia, em fileiras apertadas pelos fios da trama.»

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Mulher tecendo um grande tapete numa armação vertical. Oficina de Iṣfahan | Irão

   «Regra geral, os motivos decorativos são geométricos, florais e caligráficos, mas no séc. XVI a Pérsia criou esplêndidos desenhos de animais domésticos e selvagens. Na estrutura do tapete distinguem-se o campo, que apresenta o desenho principal; as barras; as cercaduras; os cantos; o padrão. A cor base dominante é a que se encontra no campo.»

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Tapete com medalhão central 

Séc. XVI [2ª metade]

Oficina de Kashan, Pérsia

New York, The Metropolitan Museum of Art

 

  «O tapete do Museu Gulbenkian é uma obra de arte extraordinária e singular, empregando no campo do tapete um modelo de medalhão central, ilustrado com motivos florais e cenas zoomórficas de combates entre diversos animais. Especialmente bem delineados são esses grupos de diferentes felinos caçando as suas presas, bem assim como as sinuosas linhas da colorida plumagem de faisões dourados nas barras.»

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   «Já no tapete do Museu Machado de Castro dominam os motivos de carácter floral. Nesse jardim eterno, o quadrilobado medalhão central é enquadrado por uma moldura ondulada, de onde se destacam grandes e estilizadas palmetas. A cada um dos cantos do campo surgem medalhões fragmentados preenchidos por nuvens. Palmetas e pequenas flores, juntamente com inúmeras nuvens chinesas (tchi), povoam o espaço da barra de maiores dimensões.»

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   «Muito apreciadas por todas as cortes europeias, estas dispendiosas obras de arte eram importadas pelos portugueses com o objetivo de embelezar palácios, igrejas e outras habitações de ricos mercadores. Com toda a probabilidade, os tapetes datam do reinado do xá Tahmsap I [1524-1576] e, se não forem tidos em consideração alguns pormenores, ambos apresentam semelhanças com exemplares descritos no inventário do 5º Duque de Bragança, D. Teodósio [1520-1563].»

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  Resta-nos recomendar uma visita ao Museu Machado de Castro, onde estes tapetes permanecerão expostos até ao dia 26 de fevereiro. No próximo mês, anuncia-se já uma conferência de Jessica Hallet, uma estudiosa da tapeçaria, nomeadamente dos tapetes persas. Por fim, agradecemos ao Dr. Pedro Ferrão, conservador do Museu Nacional Machado de Castro, que nos forneceu todas as informações que serviram de base à redação deste texto.

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publicado por CP às 18:11
Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

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   Depois de nos finais do primeiro período termos visitado uma exposição no Arquivo Municipal sobre o foral que o rei D. Manuel concedeu à cidade de Coimbra em 1516, prosseguimos agora, no início deste novo período, este pequeno ciclo dedicado a esta efeméride histórica, visitando a Torre de Almedina onde está patente uma exposição que complementa a do Arquivo. Fomos recebidos e guiados pela Dr.ª Raquel que amavelmente nos guiou pela mostra, fornecendo importantes informações, curiosidades e respondendo às nossas questões.

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   Antes porém de nos concentrarmos na exposição, não pudemos deixar de ouvir uma breve lição sobre o núcleo medieval da nossa cidade, destacando particularmente a muralha que, embora já desaparecida em grande parte, conserva alguns troços dignos de estudo e atençao. Aproveitámos para o efeito uma excelente maqueta que os estudantes do Departamento de Arquitetura da Universidade de Coimbra, sob a orientação do Professor Walter Rossa, fizeram da antiga cidade. Ouvimos as explicações da Drª. Raquel e ficámos a saber muito sobre a muralha. Fica prometida uma visita seguindo a sinalética informativa colocada nas ruas da cidade e que acompanhada o traçado.

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   Depois, subimos ao piso superior. Aqui seguimos um circuito expositivo sobre os forais de Coimbra e sobre a cidade no tempo do rei D. Manuel, isto é, no primeiro quartel do século XVI. 

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    «O primeiro documento regulador dos usos e costumes de Coimbra foi conferido pelo governador da cidade, D. Sesnando, e confirmado, em 1085, pelo rei Afonso VI de Leão e Castela. Neste documento, asseveram-se os poderes do governador de povoar e organizar o território, de definir as normas de justiça e de nomear juízes e alvazis. Validaram-se igualmente direitos dos moradores e reconheceram-se as doações feitas por D. Sesnando de terras, vinhas, vilas e casas aos povoadores e o seu carácter hereditário.»

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   «O segundo documento foi concedido pelo conde D. Henrique [em 111} e teve como objetivo sanar conflitos entre os nobres da cidade e os seus representantes francos. Este foral concedeu amplas liberdades para a época, garantindo que a administração da cidade fosse entregue apenas a pessoas da terra. Os vizinhos de Coimbra viram garantida a plena propriedade dos seus bens e o julgamento dos seus crimes pelo concilium, evitando arbitrariedades. Ficaram também estipulados os foros e rações a pagar pelos habitantes da cidade e arredores, acautelando eventuais abusos dos governantes. Nas primeiras cláusulas, foram referidos os proveitos atribuídos aos intervenientes nas missões guerreiras, comprovando o interesse militar deste território.»

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   Em 1179, Coimbra recebe novo foral. Desta vez doado por D. Afonso Henriques, a par de Lisboa e Santarém. «As três cartas de foral (...) eram iguais e reconheciam as liberdades e costumes das suas vilas, em posição chave para a exposição do território. Este foral outorgou que os homens-bons do concelho, proprietários e expçoradores da terra, assim como os mercadores, elegessem os seus governantes para superintender todos os setores da vida citadina.»

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   «Para além de garantir o poder do concelho, o foral regulava as normas da vivência comunitária. Foi assegurada a inviolabilidade do concelho, exigindo-se que nenhum estranho nele entrasse para perseguir um homem da cidade. Todas as infrações criminais estavam taxadas, de forma a evitar a justiça privada. Ficaram estabelecidos os tributos a pagar pelos homens do concelho, evitando o livre arbítrio do senhorio. O foral de 1179 foi o culminar de um processo de autoadministração por parte da comunidade de Coimbra.»

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   Por fim, o foral manuelino, cujo original já conhecemos. «Este documento foi entregue à cidade na Torre de Almedina em 22 de agosto de 1517. A reforma manuelina dos forais ficou concluída em 1520 (...). Entre outros direitos e deveres foram revistos e/ou confirmados: a portagem (...), a jugada (imposto sobre a produção agrícola); o relego (período em que a venda do vinho eram monopólio do monarca, entre 2 de novembro e 2 de fevereiro); a almotaçaria (imposto sobre a venda de carnes); o "carneiro real" (espaço demarcado com estacas, situado junto à ponte do Mondego, cuja pescaria era considerada um direito real (...))»

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   D. Manuel, em 1499, já tinha procedido a uma reforma dos pesos e medidas, tentando acabar com a confusão que existia neste domínio, pois cada terra tinha os seus pesos e medidas, dificultando imensamente o comércio. Para essa reforma, o rei mandou fixar múltiplos e submúltiplos em relação a uma unidade padrão. Esses padrões foram fundidos em bronze e encaixavam-se uns nos outros para facilitar o transporte, ostentando as armas reais. Esta exposição mostra esses exemplares pertencentes à cidade de Coimbra, estando conservados no Museu Machado de Castro.

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    A exposição exibe ainda alguns painéis com textos e fotografias alusivos à cidade manuelina: o pelourinho, o Paço Régio, os portais, os palácios da arquitetura civil, os túmulos e o cadeiral de Santa Cruz, o antigo Hospital, etc. Vale a pena visitar esta mostra e depois passear pela cidade, seguindo essas sugestões. É um itinerário a realizar, quem sabe brevemente: Coimbra Manuelina.

 

Os excertos colocados entre aspas foram transcritos dos painéis da exposição.

 



publicado por CP às 20:21
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