Sexta-feira, 28 de Março de 2014

 A igreja de Santa Justa localiza-se no fundo da rua da Sofia, implantada num socalco preparado na meia encosta da Conchada. É uma das mais imponentes e desconhecidas igrejas da cidade, que visitámos graças à amabilidade do sr. Padre Anselmo Gaspar, pároco de Santa Cruz, que gentilmente nos facultou o acesso à igreja, pois que ela se encontra habitualmente encerrada, abrindo apenas para a missa dominical. É este um sinal da progressiva desertificação desta zona da Baixa, cada vez mais degradada e abandonada.

A fachada da igreja, em estilo dito maneirista, é um bom exemplo da transição do modo renascentista para o barroco, datando dos inícios do século XVIII, do reinado de D. João V, o Magnânimo.

Inicialmente, havia uma primitiva igreja fundada no século XII, ainda antes da independência, no Terreiro da Erva, tendo sido doada à Ordem de Cluny por D. Maurício Burdino, bispo de Coimbra entre 1099 e 1109. D. Maurício era um monge beneditino, de Limoges, em França, que chegou à Península Ibérica em 1095, sendo designado Bispo de Coimbra em 1099, atestando a influência de Cluny e do condado da Borgonha no processo de independência de Portugal. O mosteiro de Cluny era a mais importante abadia medieval naqueles tempos, tendo mantido uma forte influência no território português, principalmente durante o governo do conde D. Henrique de Borgonha, sobrinho do célebre abade Hugo de Cluny.

 Nos meados do século XII, essa igreja original passou a ser sede de paróquia, debatendo-se com um gravíssimo problema. Na verdade, o rio Mondego transbordava frequentemente do seu leito, provocando cheias regulares que causavam grandes estragos e incómodos. Ao longo dos séculos, apesar das sucessivas obras de restauro e das vãs tentativas de lutar contra as cheias, foi tomada a decisão de abandonar a igreja na zona baixa e construir outra num local mais elevado, a salvo das cheias. Deste modo, em 1710, dois anos após umas cheias que causaram graves danos, iniciaram-se os trabalhos de construção do novo templo, consagrado igualmente a Santa Justa.

A nova igreja foi sagrada em 1724, inserindo-se já no estilo barroco do reinado de D. João V, época em que, como é sabido, o desafogo financeiro resultante da exploração das minas de ouro brasileiras permitiu estas grandes edificações. A fachada é ainda maneirista, assemelhando-se a um retábulo, destacando-se os janelões e as torres sineiras, bem como quatro nichos que acolhem esculturas de São Francisco, Santa Rufina, Santa Justa e um  Bispo.

 

 Mal entramos na igreja, o enorme altar em talha dourada impõe-se pela sua monumentalidade e imponência. Grandioso, conserva ainda o brilho do ouro, tornado ainda mais brilhante pela incidência dos raios do Sol que, pela tarde, penetrando pelo janelão da fachada, reforçam a espetacularidade do cenário. Ao centro, uma escultura policromada de Cristo Majestático, ressuscitado e reinando sobre o Universo, sentado no trono do Juízo Final com uma mão sobre o Globo e outra levantada em sinal de poder e autoridade. Sobre o trono celestial, a pomba do Espírito Santo, tendo de cada um dos lados uma escultura de Santa Rufina e outra de Santa Justa. No cimo do escadório, temos a figura de Cristo crucificado, completando a Santíssima Trindade.

 A planta da igreja é de nave única e longitudinal, isto é, tem como eixo mais comprido o que vai da porta ao altar, na capela-mor. A nave está dividida em tramos por pilastras, tendo váriosretábulos laterais, em estilo barroco e rococó, dedicados a vários santos, destacando-se S. Francisco de Assis e Santo António, pois esta igreja albergou, desde o século XIX, os frades Capuchinhos franciscanos até que em 2008, a casa foi encerrada, ficando a igreja também encerrada, abrindo, como já foi dito, apenas aos domingos para a celebração eucarística.

 



publicado por CP às 17:31
Sexta-feira, 14 de Março de 2014

Vasco Barata  é um artista plástico português, nascido em 1974, em Lisboa, cidade onde vive e trabalha. Licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa, estudou ainda fotografia e desenho. Expõe desde 1994, ano em que iniciou os estudos na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. Os seus trabalhos apresentam-se em diversas formas, privilegiando a fotografia, o vídeo e o desenho, entre outras formas de linguagem, nomeadamente as instalações. O seu gosto pelo cinema transparece nas suas obras, bem como são frequentes referências à cultura popular.

 

Vasco Barata está representado em diversas coleções particulares em Portugal e no estrangeiro, tendo participado em muitas exposições, principalmente em Lisboa e no Porto, podendo destacar-se as Bienais Internacionais de Jovens Criadores, Microart (2000), Habitar o Hábito (2003) ou Dressing up Nature (2004), entre muitas outras. Recebeu o 2º Prémio de Pintura Ariane de Rothschild (2005). Esta exposição no Centro de Artes Visuais (CAV), em Coimbra, intitula-se «Um peso fantasma» e é da responsabilidade de Albano da Silva Pereira.

Esta mostra tem como ponto de partida o tema da violência que serviu de base a um projeto recente do artista intitulado Les Apaches. É para este universo violento que nos remetem três flechas colocadas na parede formando um triângulo. Os Apaches eram um bando de marginais parisienses dos finais do século XIX e inícios do seguinte que se caracterizava pela sua grande agressividade e desprezo pela sociedade do seu tempo. Reconheciam-se pelo vestuário e pela utilização de armas fabricadas por eles e pelos seus códigos gestuais e de linguagem. Logo no início do percurso, reparamos numa fotografia cravada com uma navalha, o que nos dá o tom para o resto da exposição.

Os jornais e os intelectuais franceses daquela época deram uma grande notoriedade ao gangue e o nome de Apaches surge como comparação com os nativos norteamericanos, os índios, considerados bárbaros e violentos. Assim, através do confronto entre a sociedade civilizada parisiense e os indígenas americanos, somos obrigados a refletir sobre os valores do progresso e da civilização, da violência e da organização social.

 

 

Dedicámos especial atenção a um video de 34 minutos intitulado Os Nossos Ossos: Ariadne, produzido no âmbito da Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura. Neste video mostra-se simbolicamente o espaço das ruínas da Citânia de Briteiros, povoado da Idade do Ferro, cujas ruínas se podem visitar nos arredores de Guimarães. O video mostra ainda o moderno cemitério de Monchique, nos arredores da cidade, que, pela sua ousadia arquitetónica, chocou os habitantes locais. Inevitavelmente, somos conduzidos a uma reflexão sobre o sentido da vida, os valores do progresso, o nosso percurso histórico e cultural, bem como o valor da arte e da modernidade. Numa outra parede, deparámo-nos com uma instalação constituída por um retroprojetor de transparências que lançava na parede branca uma mancha negra que se desfazia em pó pelo chão, deixando recortadas as letras de um poema intitulado «Vim porque me pagavam», de Golgona Anghel, uma poetisa romena.

De todas as peças a que mais sensação causou foi uma instalação que o artista chamou Caveat lector. Trata-se de uma expressão latina muito usada nas edições inglesas e que, segundo a Wikipedia, pode ser traduzida como "alerta ao leitor". Deste modo, o visitante é diretamente interpelado durante o seu percurso e convidado não apenas a deter-se na contemplação de uma sugestiva imagem, como a ler um poema transcrito no verso do poster. Para completar esta interação, o visitante é autorizado a levantar um exemplar e a levá-lo consigo. Foi isso que fizémos, ficando assim com uma bela recordação deste dia.



publicado por CP às 18:07
Sábado, 01 de Março de 2014

 A coleção de cerâmica do Museu Nacional Machado de Castro inclui louças de uso doméstico, bem como mosaicos e azulejos que foram fabricados para revestir paredes e pavimentos e que agora se encontram aqui expostos. As peças mais antigas da coleção datam do século XV, havendo exemplares que ilustram a evolução dos diversos materiais ao longo dos tempos, praticamente até à atualidade. A arte do azulejo, em particular, tem tradições muito antigas, remontando aos tempos da ocupação muçulmana do território peninsular, se bem que, desses tempos, não exista nenhum exemplar em exposição.

  

 No reinado de D. Manuel I (1495-1521), a arte portuguesa conheceu um período em que os motivos de inspiração islâmica, provenientes da Andaluzia que tinha sido recentemente reconquistada, foram muito apreciados, particularmente após uma viagem do rei ao sul de Espanha em 1498. Os azulejos hispano-mouriscos são então importados de Sevilha para revestir as paredes de palácios e igrejas (imagem acima à esq). Nos inícios do séc. XVI, o nosso já conhecido D. Jorge de Almeida, cujo brasão de armas podemos ver na imagem da direita, mandou adquirir uma grande quantidade desses azulejos para revestir a Sé Velha que então, por sua ordem, conhecia profundos trabalhos de remodelação.

 

A partir dessa altura, as cerâmicas começam a tornar-se populares um pouco por toda a Europa e as famílias mais abastadas da nobreza procuram peças para enfeitar as suas mesas e os seus salões. Esta nova moda divulga-se especialmente a partir de Itália de onde se difundirá para o norte de continente e daí para todos os reinos, criando um mercado que os comerciantes portugueses saberão aproveitar para fazer grandes negócios.

 

 Na verdade, quando os navegadores chegaram ao extremo oriente, as porcelanas constituíram um dos principais produtos procurados pelos comerciantes portugueses, dada a sua grande procura na Europa. Tal facto induziu os fabricantes chineses a aumentarem a produção e a utilizarem motivos decorativos e formas mais conformes ao gosto europeu. Os portugueses acabam assim por introduzir um novo gosto, rompendo com a antiga tradição das faianças europeias e generalizando a moda, ainda hoje detetável, das porcelanas em azul e branco.

 

No século XVII, nomeadamente a partir de 1630, assitimos a uma nova mudança de gosto, adotando-se composições com várias cores, como o amarelo e os tons de castanho. No nosso país afirma-se uma tendência para revestir as paredes e os tetos com belos e exuberantes painéis de azulejos, quando na decoração dos palácios e das igrejas europeias se recorria mais frequentemente às pinturas murais a fresco, aos mármores e aos vitrais.

    

Um dos expositores mais interessantes desta secção do museu é aquele onde se guardam os designados azulejos didáticos provenientes dos colégios dos jesuítas, particularmente do desaparecido e famosíssimo Colégio de Santo Antão, em Lisboa. Estes azulejos eram uma espécie de powerpoint  da época, pois era com base nestes desenhos que os mestres ilustravam as suas lições de matemática, geometria e astronomia, matérias muito abstratas que assim os alunos podiam visualizar e entender mais facilmente.

 Durante o governo do Marquês de Pombal, numa tentativa de desenvolver economicamente o país e diminuir as importações, promove-se uma política de fomento industrial, nomeadamente de fábricas cerâmica, destacando-se a famosa Real Fábrica de Louça do Rato, em Lisboa, fundada em 1767. No Porto, merecem igualmente referência as fábricas de cerâmica de Massarelos, de Santo António do Vale da Piedade e do Cavaquinho. Viana do castelo foi também um importante centro produtor. 

Foi igualmente durante o último quartel do século XVIII que a produção cerâmica conheceu um enorme desenvolvimento na nossa cidade, vindo a tornar-se célebre a designada louça de Coimbra, merecendo referência a atividade de Manuel da Costa Brioso, ao ponto de os estudiosos se referirem, quando estudam a história da produção de louça e cerâmica em Coimbra, a uma época pré-Brioso e a outras fases da produção posteriores ao surgimento da atividade deste industrial: Brioso - 1ª época e Brioso - 2ª época!

Ainda nas últimas décadas do século XVIII, mais precisamente em 1784, Domingos Vandelli, o famoso mestre italiano que o Marquês de Pombal convidou para colaborar na reforma dos estudos da Universidade, fundou uma fábrica de louça no Rossio de Santa Clara, na margem esquerda do Mondego. Esta fábrica tornou-se famosa pela qualidade da sua louça, que ficou conhecida por louça vandel, tendo adquirido grande popularidade pela sua qualidade e baixo preço, concorrendo com a produção da fábrica do Rato.

Concluímos do nosso percurso, prestando alguma atenção aos painéis de azulejos que reproduzem os edifícios universitários da reforma pombalina, nomeadamente o nunca edificado Observatório Astronómico e o Laboratório de Química onde atualmente está instalado o Museu da Ciência.



publicado por CP às 17:13
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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