Sexta-feira, 20 de Abril de 2018

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   Hoje fizemos a nossa viagem mais curta de sempre, nem foi preciso apanhar o autocarro, bastou atravessar a estrada e, logo ali ao virar da esquina, no quarteirão seguinte, chegámos ao nosso destino: a Galeria Sete. Fomos recebidos pelo Eduardo Rosa, o galerista fundador e proprietário deste espaço. Além de galerista, o Eduardo é também um colecionador e um estudioso, é, em suma, um apaixonado pela Arte. De acordo com a página da internet desta galeria, o nosso anfitrião já coleciona obras de arte há mais de 25 anos! Como é vizinho da nossa escola, decidimos convidá-lo a convidar-nos, isto é, perguntámos ao Eduardo Rosa se nos podia convidar a visitar a sua galeria. Ele nem hesitou, respondeu logo afirmativamente, pois um dos seus objetivos é precisamente contribuir para a educação artística dos seus concidadãos, ajudar a criar públicos na cidade. Ora... esse é também um dos nossos objetivos!

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      Uma galeria é uma loja que vende arte. Esta é a definição mais simples e, embora correta, não é totalmente satisfatória, pois não transmite a paixão que o galerista sente pela arte que vende, nem o valor cultural da sua missão. O galerista, antes de vender, promove e valoriza os artistas que representa, produzindo exposições, acompanhando as suas carreiras. no fundo, considerando que o artista produz para o público e o público procura a produção dos artistas, o galerista posiciona-se no meio, é um intermediário que procura servir os interesses das duas partes, sendo esse o seu interesse.

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   Neste momento, a Galeria Sete exibe uma exposição da artista caldense Eduarda Rosa que, apesar da semelhança do nome com o do nosso galerista anfitrião, não tem nenhum parentesco. A mostra intitula-se Formas primitivas e caracteriza-se por uma grande delicadeza e rigor das formas que gera no espectador uma «sensação de beleza fresca...», nas palavras  do catálogo de apresentação.

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  Esta artista nasceu nas Caldas da Rainha em 1949 e tem um percurso muito curioso. Com uma formação académica na área da Farmácia, tendomesmo obtido o grau de Doutorada e sido professora universitária, dedicou-se à produção artística depois de se jubilar. Estudou numa escola superior especializada e, depois de adquirido o novo diploma em 2012, entrou neste mundo da arte contemporânea. 

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   Além deste trabalho, o galerista também ajuda na planificação e promoção de eventos culturais, reunindo obras dispersas de coleções particulares, valorizando-as e estudando-as. Como exemplo, vimos uma pintura do consagrado pintor Jorge Pinheiro intitulada Discurso para uma Mulher da Palestina, produzida em 1988. Este trabalho, que estava coberto e encostado a uma parede, pois não se insere em nenhuma mostra e estava ali simplesmente em trânsito, impressionou-nos profundamente e serviu de mote para uma conversa muito interessante.

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   Os artistas estão inseridos no seu tempo, sentem os problemas da sua época e refletem sobre eles. Não quer dizer que todos os artistas sintam esta preocupação de veicular nos seus trabalhos os problemas políticos e sociais, mas esta obra de Jorge Pinheiro traduz uma visão do problema da Palestina. Nós ainda somos muito jovens, mas já ouvimos falar sobre os problemas do Médio Oriente e os conflitos entre palestinianos e israelitas. Sabendo que este trabalho data de 1988, constatamos que a sua atualidade permanece, infelizmente, e aquele olhar angustiado, que já deveria ser apenas uma memória, ainda existe naquela e noutras regiões do Mundo.

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   Outro trabalho que nos chamou a atenção foi um de Alexandre Baptista sem título, incluída numa série que ele designou assim: Corpo. Twenty-four Drawings about Somebody (1999). Trata-se de um trabalho intrigante, pois sobre a capa e a contracapa de um caderno pré-existente, ligadas através de uma guita entrançada que envolve um pincel e suspende uma etiqueta, o autor lançou uma pasta terrosa que dá um relevo muito marcante ao caderno. Detivemo-nos por ali uns minutos a olhar e dialogar com esta obra.

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   Esta sala da cave da galeria já não é dedicada à exposição de Eduarda Rosa. Além de Alexandre Baptista, contemplámos outros trabalhos afixados nas paredes, destacando os finos e delhados desenhos de Filipe Romão.

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   Por fim, no depósito onde se armazenam as obras em reserva, agora mais ambientados, desenvolvemos alguns temas interessantes. Um dos detalhes que nos impresssionou foi a influência que os títulos que os autores atribuem exercem sobre o público. É que, como realçou o Eduardo, a obra de arte só se completa no olhar do observador. por outras palavras, a nossa leitura faz parte da obra de arte. E, como ficou provado na nossa experiência, o título condiciona o olhar. Tirámos essa prova quando nos confrontámos com uma estranha obra: nada mais do que duas bolas de futebol. Uma com fundo negro e recortes brancos e outra ao contrário, isto é, branca com retalhos pretos. Parecia uma montra de uma loja de artigos desportivos! Depois do Eduardo nos dizer que aquele trabalho fora produzido por ocasião do Euro 2004 e que o título era Europa, África, ouviram-se uma série de aaahhhhhh! e, logo após, sucederam-se, em jorros explicativos, uma série de análises da obra de arte!

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   O Eduardo conduziu-nos depois numa abordagem a diversos trabalhos pendurados pelas paredes, tentando encontrar aquilo que chamou de marcas autorais. Na verdade, tal como quando atendemos um telefonema e ouvimos a voz da pessoa que nos ligou, indentificamo-la imediatamente, pelo tom, pela expressividade, pela modulação da voz. O mesmo ocorre quando ouvimos músicas de bandas, ou seja, há uma série de características que se mantêm de música para música e que, sem que as saibamos apontar, nos permitem reconhecer o intérprete. É exatamente isto que sucede com os artistas plásticos. Com alguma experiência, começamos a reconhecer técnicas, elementos compositivos, temáticas que permanecem nas diferentes produções dos autores. 

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   Algumas obras são abstratas, outras figurativas, umas muito coloridas, outras mais sombrias.... É tão grande a diversidade que catalogar os artistas em movimentos e correntes estéticas é não só impossível como desnecessário. O que é importante é dialogar com as obras de arte. É muito frequente, principalmente no mundo da arte contemporânea, assistirmos a atitudes trocistas e de rejeição imediata. Porque a arte contemporânea não se caracteriza pelos padrões clássicos de beleza, nem exige grandes apuros técnicos, é muito frequente o público desprezar e desvalorizar as obras contemporâneas. A Liberdade, de produção e de interpretação, é a atitude correta neste diálogo entre o artista e o observador. Dialogar, ou pelo menos fazer um esforço para dialogar, é o mínimo que se pode fazer... E não custa nada.

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   Foi a esse exercício a que nos dedicámos de seguida, com a ajuda do Eduardo. Confortavelmente sentados no chão, fomos lançando olhares e perguntas, trocando ideias, afinando repostas, reparando em pormenores, à medida que o nosso galerista ia fazendo desfilar, à frente dos nossos olhos, uma série de quadros. E, do meio daquela tempestade de ideias, lá se foi fazendo alguma luz. Como as palavras são como as cerejas, e como as ideias de uns despertam ideias de outros, acabámos por gerar ali um ambiente estimulante.

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   Por fim, regressámos à sala inicial. Depois de um assalto aos rebuçados, depedimo-nos do Eduardo Rosa, agradecendo o momento que nos propiciou. Antes de irmos embora, lembrámos que a galeria de arte está sempre aberta, pelo que estamos sempre convidados a entrar. Para ver, para admirar, para conversar, para comprar, para olhar apenas. Estão, pois, todos convidados.... sempre que quiserem!

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publicado por CP às 23:09
Sexta-feira, 13 de Abril de 2018

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   No âmbito da Semana Cultural da Universidade de Coimbra, a Biblioteca Geral organizou na Sala de S. Pedro uma exposição sobre o Padre Manuel Faria (1916 - 1983). Além de um conjunto de painéis alusivos à vida deste importante compositor, a mostra exibe ainda uma parte do espólio que os familiares do homenageado legaram à Biblioteca da Universidade. A Dr.ª Isabel Ramires é a técnica responsável pela secção de manuscritos e foi com ela que combinámos esta visita. No entanto, a nossa guia foi a Dr.ª Cristina Faria, professora de Educação Musical na Escola Superior de Educação, responsável pela formação de muitos professores, e estudiosa da obra desta personalidade de grande destaque na vida artística do nosso país no século passado, no domínio da composição musical.

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   Na verdade, a professora Cristina Faria não é só professora e investigadora, ela é também sobrinha do compositor e corresponsável pela organização desta mostra. A ideia era reservar esta surpresa para o final, mas não foi possível, pois os apelidos e a a brincadeira com um trava-línguas logo denunciaram o laço familiar: «O que faria o Faria ao Faria se o Faria fizesse o que o Faria lhe fez?» Foi portanto a sobrinha de Manuel Faria que nos guiou, o que constitui um privilégio raro que agradecemos. Apesar disto, ninguém conseguiu identificar a nossa guia numa fotografia em que a numerosa família dos Farias posava. Ora, vejam lá se a identificam, não é fácil:

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    Manuel Faria era o mais velho de 11 filhos de um casal de condição modesta, caseiros de uma quinta em Ceide, no Minho. Nasceu em 1916, exatamente no ano em que Portugal entrou na 1ª Guerra Mundial. Naqueles tempos difíceis, os rapazes que pretendessem estudar eram encaminhados para o Seminário. Alguns acabavam por sair, pois não sentiam vocação religiosa, foi o caso de um dos irmãos de Manuel, Francisco, o pai da nossa guia, que acabaria por estudar Direito em Coimbra. Outro dos irmãos não entrou sequer no Seminário, não quis estudar e tornou-se sapateiro. Já Manuel, um apaixonado pelos livros e pela música, concluiu os seus estudos no Seminário e enveredou pela carreira eclesiástica. 

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   Concluída a sua formação inicial, foi enviado para Roma, estudar  música sacra, aí concluindo os seus estudos com distinção. Essa estada na capital italiana coincidiu com outro momento trágico da história europeia, pois a guerra atormentou mais uma vez o continente e o Mundo. A 2ª Grande Guerra eclodira em 1939, e a Itália de Mussolini estava diretamente envolvida. Manuel Faria encontrou-se assim no centro desse gravíssimo conflito. Revelando uma sólida formação humanista, empenhou-se na proteção aos perseguidos do nazismo e do fascismo, acolhendo e escondendo muitos refugiados. As cartas que escreveu durante esse período, apesar de censuradas, são importantes documentos desses trágicos tempos. 

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   De regresso ao nosso país, não conseguiu retomar o seu lugar de docente no Seminário pelo que, para prover o seu sustento, deambulou pelas terras do Norte de Portugal, recolhendo músicas, compondo e tocando. Faria era um excelente executante musical, nomeadamente de harmónio, um curioso instrumento em que o ar é insuflado por pedais movidos pelo instrumentista que, ao mesmo tempo, com as mãos sobre um teclado, pressiona as teclas que libertam o ar pelos tubos, vai produzindo os sons musicais. Antigamente, nos harmónios de grandes dimensões, disse-nos a Dr.ª Cristina, os foles era acionados por uns ajudantes do instrumentista, os foleiros.

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   Essa experiência é fundamental para a obra do compositor, pois além de marcar o início da sua atividade artística, denota ainda uma das fontes de inspiração mais importantes do seu trabalho, a recolha etnográfica, à semelhança do que acontecia com outras individualidades que, nessa época, se notabilizaram por terem empreendido um importantíssimo trabalho de recolha, como Fernando Lopes Graça (1906-1994) e Michel Giacometti (1929 - 1990), um italiano que se apaixonou pela música popular portuguesa.

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   As canções populares que recolheu foram submetidas a um processo de arranjo que lhes conferiu um duplo valor patrimonial, pois são simultaneamente testemunho de uma tradição popular e criação de um artista erudito. Muitas das partituras destas canções ao gosto popular constam desta exposição e foram mesmo cantadas há dois anos atrás, na igreja do Convento de S. Francisco, quando se comemorou o centenário do nascimento de Manuel Faria. Ao longo da sua vida, Faria compôs cerca de seis centenas de obras musicais, sendo que apenas uma parte dessa produção, pouco menos de metade, foi doada à Biblioteca Geral.

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   Uma das suas obras mais importantes foi uma ópera, intitulada «O Auto de Coimbra». Este trabalho foi encomendado por ocasião das comemorações do 9º centenário da conquista da cidade aos mouros. A ópera inclui dois atos: um primeiro dedicado à fundação da cidade e o outro celebrando a conquista pelo rei Fernando Magno, em 1064. Composta em 1963, só foi executada  em 2003, quando a nossa cidade foi a sede da Capital da Cultura em Portugal.

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   Em 1961, Manuel Faria regressou a Itália, agora como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. O objetivo era aprofundar os seus estudos de Composição. Nos anos seguintes, desenvolveu uma intensa atividade, compondo, tocando, ensinando, mas também escrevendo e promovendo importantes eventos culturais. Como reconhecimeto por esse esforço, recebeu o 1.º Prémio do Concurso Nacional de Carlos Seixas, em 1972, troféu que se exibe nesta mostra. É assim uma espécie de Óscar português da música, brincaram os nossos colegas. A verdade é que não andam muito longe da verdade....

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 Em 1983, foi agraciado postumamente com o grau de Comendador de Santiago de Espada, condecoração honorífica concedida pela Presidência da República a personalidades de grande destaque. Esta honra ocorreu já depois do seu falecimento, pois, pouco tempo antes, Manuel Faria não resistiu a uma doença incurável que o vitimou. A Dr.ª Cristina confidenciou-nos um pormenor tocante que revela a paixão deste homem pela música: nos últimos momentos da sua vida, no hospital e já muito doente, ele nunca deixou de compôr, de tal maneira que, com um lápis e uma pauta, passou para o papel, até ao fim, as notas que lhe enchiam a cabeça na esperança de as ouvir tocadas e cantadas.

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   Esperemos que tenham gostado de ler este texto tanto quanto nós gostámos de escutar a Dr.ª Cristina Faria e conhecer a vida e a obra desta personalidade do mundo da Música.  Resta-nos agradecer à nossa guia e aos responsáveis da BGUC que promoveram esta exposição e nos autorizaram esta visita.



publicado por CP às 17:30
Sábado, 24 de Março de 2018

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   No último dia de aulas do segundo período, decidimos rumar ao Penedo da Meditação. A ideia era, para além de chamar a atenção para a degradação deste espaço outrora tão aprazível, saudar a chegada da Primavera e das férias da Páscoa com um dia ao ar livre. Porém, a chuva persistente que tem caído nestes dias, estragou-nos os planos. Não totalmente, pois não é uma chuvita qualquer que nos impede de passear. Não pudemos correr e saltar pelo jardim, como prevíramos, mas não foi por isso que deixamos de assinalar este dia.

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   O Penedo da Meditação, sobranceiro ao vale de Souselas, foi em tempos, juntamente com a Mata do Choupal, a Lapa dos Esteios, o Penedo da Saudade, e mais alguns jardins da cidade e arredores, um espaço escolhido pelos estudantes para se inspirarem, para namorar, estudar e para descontrair. Hoje, o espaço está tão esquecido e degradado que se torna difícil compreender a preferência dada pelos jovens estudantes a este penedo. 

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   Para percebermos como era tão encantador este miradouro, recorremos à leitura de um pequeno excerto de um guia turístico clássico, o célebre Guia de Portugal. Foi uma obra publicada em vários volumes, planeada pelo escritor Raul Proença. A ideia era produzir um roteiro turístico sobre as belezas naturais e artísticas do nosso país. No entanto, o autor faleceu prematuramente em 1941, pelo que os seus amigos assumiram o encargo de concluir o plano da obra. Esse grupo era constituído pelos escritores Afonso Lopes Vieira, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Câmara Reys, Ferreira de Castro, Samuel Maia e o arquiteto Raul Lino, além de Reynaldo dos Santos e Sant'Anna Dionísio. Foi este último que concluiu a obra, que seria publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian. O 3º volume é dedicado à Beira Litoral, incluindo portanto os locais de interesse que os viajantes devem visitar na cidade de Coimbra. Na página 313, encontramos a descrição do Penedo da Meditação. Ouvir, ou ler, este excerto, no local, produz um contraste que não deixe de ser chocante, pois o que foi este miradouro na década de 40 do século XX não tem correspondência com o que é na atualidade. Ora leiam a trasncrição e imaginem-se no lugar do Manuel a meditar no varandim do Penedo:

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    «Ao norte do mosteiro [de Celas], a 30 minutos de passei sem pressa, visita-se o Penedo da Meditação, por um caminho cheio de pitoresco, entre olivais, silvados, muros altos e majestosas árvores. É um dos lugares de solitária romagem dos estudantes mais românticos de cada geração. E o sítio tem, na realidade, o seu quê de wertheriano [uma personagem de obra literária do grande poeta alemão Goethe, normalmente apontada como iniciadora do romantismo literário, caracterizado, entre outras coisas, pelo sentimentalismo e pelo desenvolvimento de uma sensibilidade que se extasia no contacto com a Natureza, como o Manuel na fotografia de cima, uma espécie de Werther do séc. XXI! ] (apesar do alpendre de mau gosto sensível e da fontezinha posta a gotejar de uma rocha, com o indiscreto contador ao lado). Ao fundo, no sombrio e verdejante valezinho, prende-nos a infantilidade da voz murmurosa de um regato enquanto, em volta, o olhar se perde nas sucessivas linhas dos montes dos pinhais bravios que precedem a montanha mal visível do Dianteiro e a profundidade côncava e perene do azul. O acesso ao recolhido lugar está em vias de ser facilitado. Um troço da estrada, em construção, dirige-se em linha reta, em homenagem ao turista que não tem tempo a perder, através da pacífica paisagem das oliveiras, despedindo-se do caminho velho junto do solar do Conde de Fijó. Se se fizer a visita de carro, sempre será aconselhável deixá-lo neste ponto e seguir a pé pelo caminho rústico!»

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    Quão diferente é tudo isto agora! Nem parece o mesmo local. O espaço está votado ao esquecimento, em redor já não se contemplam árvores de porte, nem regatos, nem fontezinhas. Não se escutam murmúrios gotejantes, pois o ruído dos carros em aceleração na autoestrada que rasga o vale, abafa tudo o mais e impede qualquer meditação. As paredes estão grafitadas, os canteiros sujos e adesleixados, o caminho enlameado,.... Ao longe, o monte do Dianteiro ainda se avista, mas os pinhais foram substituídos por construções recente dispersas sem qualquer ordenamento e os eucaliptos, omnipresentes, tomaram conta da paisagem. Nos caminhos, agora asfaltados, os automóveis estacionam de qualquer maneira! Restam duas lápides com dois poemas que testemunham a beleza inspiradora de outrora. Um poema de António Nobre e outro de José Régio inscritos em dois painéis de azulejos é o que resta da beleza idílica que se perdeu!

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   Uma pesquisa breve na internet informa-nos que o nosso patrono, Eugénio de Castro, também por aqui andou em busca de inspiração, tal como Alberto de Oliveira, um outro poeta da geração chamada neogarreistta que, nos finais do séc. XIX e inícios do seguinte, prolongaram o romantismo na literatura portuguesa. É dele o poema que transcrevemos:

 

No Penedo da Meditação

Aprende-se até morrer...

Mas eu fui mais refratário:

Morrerei sem aprender,

vida, o teu abecedário!

 

Nem a Dor, nem o Prazer,

no seu vaivém arbitrário,

Souberam dar ao meu ser

As regras do seu fadário.

 

O céu transborda de estrelas,

Mas é cifrado e secreto

Para mim, que não sei lê-las.

 

Cego, surdo, analfabeto,

De nada entendo o motivo,

Nem quem sou, nem porque vivo...»

 

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    E foi assim, com a alma cheia de poesia mas também com alguma revolta pelo estado de abandono em que encontrámos este local, que rumámos à nossa escola. resta dizer que o dia ainda nos reservava uma surpresa pois, após 20 minutos de espera na paragem do autocarro, fomos informados que os motoristas dos SMTUC se encontravam reunidos num plenário sindical, pelo que as carreiras estavam suspensas! Tivemos pois que regressar a pé! Valeu-nos que a chuva deu uma folga e assuim ficámos com exercício físico para uma semana!

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publicado por CP às 22:40
Sexta-feira, 16 de Março de 2018

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   A palavra Património deriva do latim Patrimonium, termo que, na antiga Roma, se referia aos bens herdados por via paterna. Essa herança, recebida dos antepassados, confere uma responsabilidade a quem a recebe, pois os herdeiros assumem assim o dever de a preservar e acrescentar, passando-a depois aos vindouros. Por este mecanismo de transmissão da memória se assegura a identidade dos grupos, das instituições, das nações e também.... dos clubes como o nosso! 

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    O nosso Clube, com o atual formato e com os atuais responsáveis, já existe há quase uma década, conforme podem comprovar fazendo uma pesquisa no arquivo do blogue. A fotografia que acima reproduzimos data de 2010, ano em que o João Aveiro, o terceiro a contar da esquerda no 1º plano, se juntou ao nosso clube. Ao seu lado direito está o João Tiago e, no plano superior encostado à coluna, podemos ver o Raúl. Foram estes três antigos membros do Clube, atualmente estudantes universitários, que nos receberam hoje à tarde para uma visita às secções da AAC. Observem bem as fotografias de baixo e vejam as diferenças.

 

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  Desde o dia em que esta ideia foi apresentada, os atuais sócios ficaram todos muito excitados, aguardando o momento de conhecer os nossos amigos mais velhos. Mal foram contactados, todos os antigos sócios se mostraram disponíveis. Outros, como o Vítor, o Duarte Silva e o David, também manifestaram vontade em participar nesta visita mas, porque tinham outros compromissos, não puderam estar presentes. Além destes, outros ainda, como o Alberto ou o Duarte Mendes, estudam em universidades fora de Coimbra, pelo que foi de todo impossível a sua participação.

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   Feitas as apresentações e apresentado o plano da visita, a Laura apressou-se a colocar uma questão pertinente ao João Tiago que nos recebeu nas escadas do Teatro Académico Gil Vicente: «Gostas de gatos?»

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   Os "velhos" sócios, que afinal não são tão velhos assim, aceitaram fazer a passagem de testemunho à nova geração num edifício muito simbólico: a Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra. Esta instituição centenária tem um conjunto de secções que completam a formação universitária dos estudantes. Porque ser estudante não é só estudar, a AAC oferece um variado leque de atividades culturais e desportivas, que vão desde o teatro ao cinema, da fotografia ao fado, ou dos desportos ao jornalismo. Os nossos guias pretenderam familiarizar os atuais sócios com este ambiente e com o verdadeiro espírito académico. Por isso, guiaram-nos num breve passeio por alguns departamentos da Associação Académica.

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   O João Tiago é estudante de Matemática, além de praticante de Badminton, o Raúl frequenta o curso de Bioquímica e o João Aveiro estuda Física, sendo ainda colaborador técnico da RUC, a Rádio Universidade de Coimbra. Foi ele que nos guiou. Primeiro fomos à sala d' A Cabra, jornal da Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra. Este jornal tem uma edição em papel, além da edição eletrónica. Tem colaboradores de diversos  cursos e Faculdades, e não só da licenciatura em Jornalismo embora, naturalmente, estes deem uma colaboração especial.

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   Recebidos na sala da redação, ouvimos uma breve apresentação sobre a história e  funcionamento deste jornal. Depois, antes da despedida rumo a outra secção, convidaram-nos a colocar questões. Após uns escassos segundos de hesitação e silêncio, eis que a Laura ergueu o dedo indicador, preparando-se para lançar uma pergunta que promete, doravante, fazer história nas nossas visitas. Na verdade, quando todos esperavam que ela satisfizesse alguma curiosidade ou esclarecesse uma dúvida, eis que, muito séria, a nossa jovem sócia, com uma vozinha muito firme, indagou: «Gostas de gatos?»

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   De seguida rumámos aos estúdios da RUC. Esta rádio da AAC foi fundada em 1986, embora as suas origens mais remotas recuem até aos anos 40 do século passado.  Depois de um período em que as transmissões regulares se faziam apenas à noite, em 1988 a RUC começou a emitir 24 horas por dia na frequência 107.9 FM, onde ainda hoje a podem sintonizar. As emissões da RUC também podem ser seguidas através da internet.

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   A foto da esquerda que publicamos acima é muito curiosa. Foi tirada no dia 28 de outubro de 2011, quando visitámos a delegação da Radio e Televisão de Portugal (RTP) em Coimbra. Se repararem bem, o mais alto dos visitantes, olhando de frente para a máquina fotográfica, sobre o lado direito, é o João Aveiro! Quem diria que, quase sete anos após, o mesmo João Aveiro nos haveria de receber nos estúdios da RUC, sentado na mesa do estúdio principal, na qualidade de diretor técnico! Digam lá que não é engraçado....

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   Antes de irmos embora, a Laura ainda teve tempo de colocar, mais uma vez, a sua pergunta preferida. Desta vez a uma estudante que se preparava para entrar em estúdio: «Gostas de gatos?»

   Depois de mais umas voltas pelos corredores do edifício, ouvimos uns acordes dos guitarristas da Secção de Fado que ensaiavam para a Serenata Monumental que se aproxima, antes de passarmos ao largo do estúdio do CITAC e rumarmos aos jardins exteriores. Atualmente, apresentam-se muito degradados, o que é uma pena, pois este local assistiu a momentos históricos muito importantes na vida da Academia.  Um dia voltaremos aqui para falar dessa crise de 1969. Por hoje, despedimo-nos, agradecendo aos nossos anfitriões a excelente visita que nos propiciaram. Esperemos que, daqui a uma década, os atuais sócios guiem uma visita semelhante aos que agora acabaram de nascer e que, daqui a dez anos asegurarão a continuidade do nosso Clube do Património! Para já, fiquem com uma foto antiga e adivinhem onde estão o Raúl e o João Tiago.

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publicado por CP às 20:54
Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018

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   Monsenhor Nunes Pereira nasceu na aldeia de Fajão, concelho de Pampilhosa da Serra, em dezembro de 1906. O seu pai era escultor de santos e faleceu quando Augusto, era esse o seu nome próprio, tinha apenas 9 anos: "Dele herdei este jeito para as artes e um razoável conjunto de ferramentas, com as quais iniciei a minha aprendizagem manual: plainas, serras, formões, goivas e o mais da arte". Foi nessas serranias distantes de tudo que ele viveu até à adolescência, contactando com a vida dura dos camponeses, com as suas tradições ancestrais, os seus hábitos e costumes que tanto o marcariam.

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   Optando pela vida eclesiástica, em 1919 entrou no Seminário de Coimbra, sendo ordenado sacerdote dez anos após. Foi pároco em Montemor-o-Velho, Coja e na igreja S. Bartolomeu, em Coimbra, até se aposentar. Entre 1952 e 1974 foi chefe de redação do jornal Correio de Coimbra, onde foram publicados muitas das seus trabalhos. Monsenhor Nunes Pereira desenvolveu uma atividade muito intensa e diversificada, dirigiu o Museu de Arte Sacra do Seminário, preocupou-se com o património cultural, produzindo muitos estudos e promovendo a sua valorização, investigou especialmente sobre a sua paróquia de S. Bartolomeu, assim como sobre os túmulos e o púlpito da igreja de Santa Cruz, tendo colaborado ainda no inventário cultural de Arte Sacra da diocese de Coimbra.

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   Fundador do Movimento Artístico de Coimbra e da Sociedade Cooperativa de Gravadores de Portugal, foi também sócio da Sociedade Nacional de Belas Artes. Possui numerosos artigos, poemas e ilustrações em jornais, catálogos, opúsculos e monografias. O seu espólio, constituído por centenas de objetos, senão mesmo milhares, segundo nos informou a Dr.ª Cidália Santos que nos conduziu nesta visita, estão depositados no Seminário. Devidamente catalogados e inventariados, estão agora expostos num pequeno museu que foi criado na cave do Seminário.

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 Nunes Pereira, apesar de nascido no interior recôndito do país, era um homem viajado. Andou pela Itália, foi a Paris, conhecia a Alemanha e a Holanda. Essas viagens marcaram-no profundamente, quer do ponto de vista pessoal e espiritual, mas também sob o ponto de vista artístico. No regresso dessas viagens, foi experimentando novas técnicas de expressão artística, como o desenho à pena, a escultura em madeira, a pintura, a gravura em metal, a xilogravura ou a monotipia.

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   Um dos aspetos mais marcantes deste pequeno museu é a exposição das máquinas e das ferramentas utilizadas pelo padre-artista na produção dos seus trabalhos. Na parede, podemos ver algumas fotografias ampliadas de Monsenhor a trabalhar. Nunes Pereira morreu no dia 1 de junho de 2001, aos 94 anos de idade. Disse-nos a nossa guia que, no dia em que faleceu, ainda dedicou alguns momentos à sua arte, podendo afirmar-se que trabalhou quase até ao último suspiro. Assim se entende a enorme obra que nos legou, a exigir um estudo por parte dos especialistas em História da Arte. A Drª. Cidália lamentou o desconhecimento que envolve esta ilustre personalidade, pois não são muitos os que reconheceu o seu nome, apesar de o seu nome ter sido atribuído a uma rua da nossa freguesia, mais precisamente a artéria que passa mesmo em frente ao supermercado do Corte Inglês.

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   A xilogravura foi a técnica de reprodução preferida por Monsenhor Nunes Pereira. É uma espécie de carimbo em que o gravador, utilizando objetos cortantes como um formão ou uma goiva, produz diversos entalhes numa superfície de madeira de forma a obter um desenho. Pode fazer os entalhes em negativo, para que a imagem seja impressa numa folha de papel depois de embebida a madeira em tinta, ou em positivo, para a gravura ser contemplada diretamente. Segundo os historiadores, esta técnica é muito antiga, e terá as suas origens na China, conhecendo grande divulgação no Ocidente a partir do séc. XVIII.

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   Monsenhor Nunes Pereira andava sempre com um pequeno caderninho e um lápis, desenhando constantemente, em qualquer circunstância. Na rua, num autocarro, numa sala de espera, ocupava o seu tempo morto a desenhar e, não raras vezes, surpreendia as pessoas, oferecendo-lhe os desenhos que produzia. Noutras ocasiões, aproveitava pequenos calhaus, ramos e troncos, plaquinhas de osso ou marfim, para, com um canivete ou outra ferramenta afiada, produzir objetos artísticos. Nesta mostra, numa vitrina central, podemos ver alguns desses surpreendentes objetos.

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   Além destas técnicas, Monsenhor destacou-se também à arte do vitral. As suas obras estão espalhadas por várias terras da região. Em Coimbra, na clínica de Santa Filomena, podemos apreciar o seu primeiro trabalho desta arte tão antiga. Quem visitar a igreja de S. José, pode ver o seu derradeiro trabalho e porventura o mais importante.

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   Interessou-se também pela recolha de contos tradicionais da sua região natal, que publicou e ilustrou. O painel que reproduzimos acima ilustra os diversos contos tradicionais que publicou com o título Contos de Fajão, que o Seminário de Coimbra se prepara para reeditar. Achámos particularmente engraçada uma das cenas em que a comunidade aldeã recebe a visita do sr. bispo, uma figura muito importante, ainda mais naqueles tempos e naquele lugarejo. O bispo ia montado numa mula que, ao parar para receber os cumprimentos populares, calcou o pé de um aldeão. Este, muito incomodado e contendo a dor, mas com vergonha de se dirigir à autoridade religiosa de forma menos respeitosa, terá desabafado de forma educadíssima: «Senhor Bispo, Vª. Exª. ainda se demora aqui muito tempo? ... É que a mula de Vª. Exª. tem um pé em cima da minha pata...»

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   Estas xilogravuras dos Contos de Fajão, a par de gravuras de Jesus, de Santos e do culto mariano, constituem o valioso espólio etnográfico e de Arte Sacra do Museu do Seminário Maior de Coimbra que convidamos todos os nossos leitores a visitar, conhecendo uma das mais interessantes personalidades da vida cultural e artística da nossa cidade e região.

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publicado por CP às 19:06
Domingo, 18 de Fevereiro de 2018

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   Postais de Coimbra, Partilha de Lugares e Passagens é o título de uma exposição patente na Sala da Cidade, até ao dia 24 de março, que nós visitámos esta semana. Trata-se de uma coleção privada de postais que a Câmara de Coimbra adquiriu recentemente, integrando-a no acervo da imagoteca municipal e que nos remete, antes do mais, para a função do postal ilustrado. Antigamente, quando se visitava uma cidade ou uma terra estrangeira, era hábito comprar estas fotografias impressas em cartão com imagens de monumentos locais, paisagens ou figuras típicas e escrever uma breve mensagem no verso. Este costume vulgarizou-se na segunda metade do século XIX, quando as classes médias começaram a viajar com mais frequência, sendo uma forma simples e económica de comunicar, transmitindo sentimentos que iam desde a saudade ao enamoramento. Ao longo dos tempos, os postais foram objeto de interesse dos colecionadores que viam nessas imagens, mais do que a mensagem escrita, um documento histórico e um objeto artístico. 

 

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  Atualmente, quase ninguém envia postais, pois os modernos meios de comunicação, como o telemóvel e a internet, alteraram os nossos modos de comunicar uns com os outros. Hoje, enviamos sms e mensagens eletrónicas, usamos o WhatsApp, o Snapchat ou o Messenger, mas infelizmente já ninguém envia postais ilustrados! Nem os namorados!

   Esta exposição distribui por uma série de mesas dezenas e dezenas de postais, organizados por diversos assuntos relacionados com a história de Coimbra, os seus lugares, personagens e figuras típicas. Numa primeira mesa, dispõem-se os postais sobre as festividades da Rainha Santa, a padroeira da cidade. O dia 4 de julho, dia da sua morte, é mesmo o nosso feriado municipal. As festas há já muito que, nos anos pares, se realizam nessa semana, com celebrações religiosas e culturais. Podemos apreciar alguns postais onde é possível documentar a grandiosidade dessas festas nas primeiras décadas do século passado, bem como o fervor e devoção que as populações dedicavam, e dedicam ainda, à memória de Isabel de Aragão.

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    Nesta secção podemos ver figuras da etnografia coimbrã, como a tricana, o futrica, o estudante, a lavadeira, o bedel ou o lente da universidade. Quanto à tricana, ela vestia normalmente uma saia comprida, um pequeno avental, um chambre (uma pequena blusa), um cachené (um lenço que cobria a cabeça e se atava sob o queixo) e um xaile sobre os ombros. A tricana era uma mulher do povo, normalmente representada com um cântaro a caminho da fonte ou do rio, onde ia buscar água. Eram famosas as paixões que suscitava entre os estudantes, bem com as cenas de ciúmes sentidas pelos futricas. Ao fundo da Rua do Quebra-Costas existe uma escultura em bronze que homenageia esta figura outrora tão típica do meio coimbrão. Em baixo, reproduzimos alguns postais que vimos na exposição.

 

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   A mesa seguinte era dedicada às tradições académicas. Destaca-se uma série de postais dedicados ao Centenário da Sebenta, em 1889. Esta festa parodiou as comemorações que, desde 1880 em que se assinalou o tricentenário da morte de Camões, eram frequentes na vida cívica e política do país. Os estudantes lançaram então uma paródia a essas festas cívicas, escolhendo a sebenta como pretexto para a realização de cortejos e saraus. A sebenta era uma compilação das lições dos professores da Universidade. Nessa ocasião, os estudantes começaram a queimar as fitas, como forma de assinalar a proximidade do final do curso.

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   Em 1905, realizou-se o Enterro do Grau , na sequência de uma reforma dos cursos universitários que mantinha os graus de licenciado e doutor, abolindo o grau de bacharel. Esta festa, tal como o Centenário da Sebenta, podem considerar-se os antecedentes da Queima das Fitas.

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   Do Choupal até à Lapa é o título de um conhecido fado de Coimbra e é também o tema de uma secção dedicada ao rio Mondego, carinhosamente tratado pelos habitantes de Coimbra como Basófias, pois no verão, ainda que sendo o rio mais extenso do país, levava muito pouca água, apesar da sua fama de rio caudaloso que, no inverno, transboradava as margens, causando grandes inundações.

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   O assoreamento do rio resultou do entulhamento ao longo de décadas e décadas, obrigando a água a correr em pequenos fios que se ramificavam pelas margens, então ainda não emparedadas. O leito tornava-se então um grande areal, aproveitado como praia pelos habitantes e pelas lavadeiras que aí lavavam a roupa recolhida nas casas dos estudantes e a estendiam depois para secar, compondo um cenário que, durante muito tempo, foi uma imagem muito divulgada de Coimbra.

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   As pontes do rio Mondego são também motivo para muitos cartões postais. Principalmente a chamada ponte de ferro, construída entre 1873 e 1875, com projeto de Matias Heitor de Macedo, e a atual ponte de Santa Clara, projetada pelo conhecido engenheiro Edgar Cardoso, inaugurada em 1954 e ainda hoje ao serviço. Os postais antigos mostram ainda as pontes ferroviárias do Choupal e a da Portela, bem como a ponte rodoviária também neste último local, ainda hoje existente mas já sem trânsito.

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   Na viragem do século XIX para o século XX, a cidade beneficiou de uma série de novos equipamentos, como bancos, escolas, museu ou hospitais. No atual Largo da Portagem, outrora Largo Miguel Bombarda, foi construída a nova sede do Banco de Portugal, da autoria de Adães Bermudes. A Escola Prática Central de Agricultura instalou-se, em 1887, na Quinta do Bispo, dando origem à atual Escola Superior Agrária. Igualmente nos inícios do século XX foi a criação do Jardim Escola João de Deus, com traço de Raul Lino. O Portugal dos Pequenitos, do igualmente famoso arquiteto Cassiano Branco e promovido pelo Professor Bissaya Barreto, é outra das novidades. Na Quinta dos Vales, num terreno cedido pela colónia de emigrantes portugueses do Brasil, e também graças à iniciativa de Bissaya, surge um sanatório masculino para tuberculosos, inaugurado em 1935, e que é hoje o chamado Hospital dos Covões. 

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   Os vários mosteiros e igrejas da cidade, bem como alguns equipamentos e ruas, foram captados em postais, circulando pelo país e pelo mundo. As impressões dos turistas e viajantes, tanto nacionais como estrangeiros, contribuíram para a divulgação de Coimbra e do seu património. Alguns desses locais, pelo seu simbolismo, mereciam uma atençao especial, como o Mosteiro de Santa Clara com o túmulo da Rainha Santa, a Sé Velha, o Seminário, ou a igreja de Santo António dos Olivais.

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   Entrando pela cidade vindo do sul, pelo Largo da Portagem, percorria-se a principal artéria da cidade, formada pelas atuais ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz, chegando ao Largo de Sansão, ou Praça 8 de Maio, onde se encontra a Igreja de Santa Cruz, um dos mais importantes monumentos da cidade do país e um dos mais represantados nos postais de Coimbra. Pegado à fachada da igreja está o edifício da Câmara Municipal que, no século XIX foi edificado para acolher os órgãos do poder concelhio.

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   A Universidade, com os seus edifícios e as suas tradições, os lentes e os estudantes, foram naturalmente das realidades mais fotografadas e divulgadas. São inúmeros os instantâneos do Paço das Escolas, dos Gerais, da Sala dos Capelos e da Torre da Universidade, bem como dos edifícios pombalinos. 

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   Coimbra foi outrora conhecida, embora hoje possa não parecer, como a Cidade-jardim, tantos, tão belos e tão cuidados eram os seus espaços verdes: o Choupal, a Lapa dos Esteios, o Parque da Cidade, a Quinta das Lágrimas, a Mata de Vale de Canas ou o Jardim Botânico. O ambiente romântico da cidade era propiciado pela beleza idílica das margens do Mondego, onde os pares amorosos passeavam e namoravam. Muitos suspiros de amor devem ter sido transportados no versos destes postais!

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publicado por CP às 18:23
Domingo, 11 de Fevereiro de 2018

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   As regras eram simples: 1- Não correr; 2 - Não gritar e 3 - Não tocar em nada. Depois, cada um tinha que escolher uma peça da coleção de escultura do Museu Machado de Castro e manter segredo. O objetivo era, no final e já no pátio central, representar por gestos a figura escolhida, para que os companheiros pudessem adivinhar. Todos tinham ainda que lançar um olhar sobre as etiquetas identificativas das restantes peças para poderem ter uma ideia do que os colegas estavam a tentar traduzir por mímica. Ora vejam lá se conseguiam adivinhar a representação do António e do Tiago?

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   A Laura também se esforçou com o Cavaleiro Medieval. Trata-se de uma escultura do cavaleiro Domingos Joanes, proveniente da Capela dos Ferreiros, de Oliveira do Hospital, da autoria do famoso Mestre Pêro. A Laura insinuou um ligeiro trote, como se montasse a cavalo, e ninguém hesitou, era mesmo o Cavaleiro, uma das obras mais conhecidas do Museu.

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   Também não foi difícil adivinhar a escolha do Canelas. Proveniente do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, o Cristo no Túmulo data dos finais do séc. XIV ou do início do seguinte. É um excelente trabalho, pois não é fácil esculpir um corpo morto. O jacente, tal é o nome dado às figuras representadas deitadas, é uma das melhores peças da nossa escultura medieval. Em baixo, vemos três soldados adormecidos com espadas e escudos. Mas o Canelas fez de Cristo! Ora vejam lá as semelhanças:

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   O João Sobral e o Afonso, meio a sério e meio a brincar, optaram por uma representação de Cristo atado à coluna. É uma obra da autoria do famoso João de Ruão, da primeira metade do século XVI, que pertenceu ao Mosteiro de Celas. Está muito danificada, pois é produzida em calcário de Ançã, como quase todas as obras desta coleção. Este material se por um lado é muito fácil de trabalhar, por outro degrada-se facilmente. Quanto ao quadro feito pelos nossos amigos, nem o Sobral se parece muito com Cristo, nem o Afonso tem cara de coluna, mas enfim, um gesto vale por mil palavras e aquele abraço permitiu uma fácil identificação.

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 A Ana Eduarda foi dos melhores desempenhos e foi o mais difícil de adivinhar. Não por falta de talento, pois a sua gesticulação foi rica e muito sugestiva. Até pedimos para ela repetir no final e, mesmo assim, não conseguimos acertar, pois ela selecionou uma imagem tão discreta que nem me lembrei de tirar uma foto. Uma pena, mas é um bom pretexto para visitarem o Museu e procurarem o Amaro! Para já, fiquem com a Ana!

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   A figura de S. Miguel é originária da igreja com o mesmo nome, em Montemor-o-Velho. Foi provavelmemnte encomendada pelo Infante D. Pedro, regente do trono e irmão do Infante D. Henrique, conhecido pela sua devoção a este santo. Vemos o arcanjo a trespassar um dragão, símbolo do mal, faltando-lhe já a lança. Na outra mão segurava uma balança destinada a pesar as almas, isto é, a comparar as boas com as más ações cometidas por cada um em vida. A imagem é um bocado efeminada, apresentando muitos detalhas requintados, como o diadema que tem na cabeça, o cinto e o debruado do manto. O seu autor foi Gil Eanes, escultor fomado na oficina do mosteiro da Batalha e que não se deve confundir com o navegador homónimo. Os nossos amigos Afonso e Tomás não tiveram muita dificuldade em reproduzir o cenário e o gesto que permitiu uma identificação imediata!

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   O Tomás optou por uma imagem menos teatral e por uma mímica menos exuberante. Foi muito discreto e optou por se centrar no gesto de leitura, pois a imagem que tinha em mente, Santo André, exibe um ar muito concentrado, ostentando um livro aberto na mão esquerda. Ora avaliem lá as semelhanças! A Susana apresentou uma figura com um gesto parecido. Julgo que não era o Santo André, mas sinceramente também já não me lembro qual era a imagem. Fica o registo.

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   O Arthur, sempre meio tímido e distante, não se escusou ao exercício que lhe propusemos e apresentou uma das peças mais impressionantes da coleção do Museu, nada mais do que o famosíssimo Cristo Negro, de todos conhecido. No entanto, e infelizmente, só já o consegui apanhar na fotografia quando ele descia os braços. Fica, apesar disso, o registo da sua prestação.

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   Penso que a Alice figurou a estátua de Santa Luzia, mas já não tenho a certeza. Esta obra deve-se igualmente ao Mestre Pero e mostra a mártir a exibir os seios, uma vez que lhes foram cortados como castigo por não renegar a fé cristã. Esta estátua veio de uma capela de Avelãs de Caminho, localidade próxima de Anadia. O culto de Santa Ágata foi muito popular na Idade Média, tal como outras mártires do Cristianismo primitivo, como Santa Comba, que tem uma estátua mesmo ao lado desta.

 

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   A Madalena teve muita graça, limitando-se a encolher os braços e a esconder a cabeça entre os ombros, pois a obra que selecionou está danificada e não tem cabeça!

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   A Constança, que nos apareceu neste dia mascarada de camponesa do séc. XIX, em parceria com a Sofia simularam o retábulo da Nosa Senhora da Misericórdia, mostrando que retiveram a lição do Raúl Moura Mendes que nos guiou numa visita ao Museu da Misericórdia, há poucas semanas atrás. Nessa ocasião, ensinou-nos que, iconograficamente, A Senhora da Misericórida surge sempre com um manto que protege os diversos representantes do clero, da nobreza e, por vezes, até do povo. A primeira fotografia desta publicação mostra esta cena. Além disso, e porque a Constança é uma das nossas sócias mais diligentes, ainda representou outra imagem. Ora tentem adivinhar qual que eu já não me lembro, pois, por esta altura, já começava a ficar baralhado!

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  Já o Francisco e o Tiago, sempre muito entusiastas, julgo que ficaram impressionados com a história da lactação de S. Bernardo e parece que, com alguma liberdade e desvio iconográfico, encenam o quadro que a todos sensibilizou pelo ineditismo meio bizarro dessa lenda que procurava justificar o brilhantismo intelectual de S. Bernardo de Claraval.

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   Tenho que pedir desculpa à Carlota pois, com toda a sinceridade, já não me lembro qual foi a peça que ela evocou com a sua gesticulação. Fica o desafio: visitem o Museu Nacional Machado de Castro, tentem adivinhar e, se vos apetecer, enviem os vossos palpites!

 

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publicado por CP às 21:12
Sábado, 03 de Fevereiro de 2018

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   Hoje não fomos a lado nenhum, ficámos na escola onde recebemos a Inês, coordenadora do Grupo da Amnistia Internacional de Coimbra (GAIC). O nosso Clube tem como principal objetivo conhecer, divulgar e contribuir para a preservação do Património Cultural. Sejam museus, monumentos, sítios, peças e objetos moveis, bens materiais ou imateriais, tudo nos interessa e preocupa Ao longo destes anos em que existimos, temo-nos esforçado por cumprir esse objetivo, conhecendo monumentos e museus da cidade, visitando exposições e galerias, participando em eventos e conferências, observando esculturas e apreciando pinturas, aprendendo como se restauram livros antigos ou como se colecionam selos. Basta fazer uma pesquisa no nosso blogue e logo se verá que nos temos orientado em diversos sentidos. Tudo isso, e muito mais, é Património e mereceu a nossa atenção. No entanto, há que lembrar, o bem mais importante que temos que preservar é o Homem e os seus Direitos! É tudo muito bonito e muito importante, mas nada do que acima referimos e que constitui a nossa herança patrimonial é mais importante do que os Direitos e Dignidade dos Homens, de todos os homens. Por isso, e porque esse bem é muito ameaçado, em todos os cantos do Mundo, decidimos convidar a Inês para nos dar a Conhecer a Amnistia Internacional (AI) e para nos falar dos Direitos Humanos (DH).

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  A Amnistia Internacional foi fundada em 1961 por um advogado Inglês chamado Peter Benenson. Curiosamente, Portugal está associado à sua criação, pois nessa altura vivia-se sob a ditadura salazarista. Benenson leu num jornal que dois jovens estudantes portugueses tinham sido presos por terem feito um brinde à Liberdade! Isso hoje parece-nos incrível e nem conseguimos imaginar como é que no nosso país isso aconteceu há tão pouco tempo. Foi o mesmo pensamento que atravessou o espírito do fundador da AI e o levou a criar esta organização. Embora a AI tenha os seus escritórios centrais em Londres, está espalhada por todos os países do Mundo, exceto a Coreia do Norte. Foi por aqui que prosseguimos a nossa conversa, pois não só este país tem estado no centro das atenções e dos telejornais por causa do conflito com a Coreia do Sul e os EUA, como se trata de um país muito fechado, em que os cidadãos estão privados de quase todos os direitos. Nem sequer, recordou a Inês, podem cortar o cabelo como lhes apetece!

   De seguida, visonámos um filme que serviu de mote para a nossa conversa. Foi uma conversa animada, deve dizer-se, até falámos demais! A Inês, como é muito simpática e não podia limitar o nosso direito à liberdade de expressão, lá se encheu de paciência, ouvindo e moderando as nossas intervenções. Algumas foram assim um pouco para o disparatado, todos queriam falar e relatar as suas experiências, acabando por fugir ao tema. Mas também não é menos verdade que escutámos opiniões e comentários muito interessantes.

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   Abordámos seguidamente o tema dos Direitos Humanos. Embora a primeira declaração dos Direitos Humanos remonte ao século XVIII e aos tempos da Revolução Francesa, atualmente, quando se fala da Declaração Universal dos Direitos Humanos referimo-nos aos tempos que se seguiram à 2ª Guerra Mundial e ao texto aprovado em 1948 pelas Nações Unidas, compreendendo 30 artigos. Esse documento não tem força de lei, isto é - explicou-nos a Inês -, nenhum país pode ser castigado por o desrespeitar! Isto pode parecer disparatado, mas a verdade é que os países, mesmo os mais ditatoriais, temem que a sua imagem e o seu prestígio internacional sejam afetados por campanhas que denunciem violações. É com isto que a AI conta quando promove campanhas contra abusos dos DH.

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   É o que se passa  atualmente na Turquia, onde o presidente nacional da AI, Taner Kiliç, se encontra preso. Como não podia deixar de ser, a AI desenvolve uma campanha, apelando à libertação deste seu dirigente e ativista. É importante divulgar este caso, para tal podem os nossos leitores aceder a esta página eletrónica e assinar uma petição. Basta um clic e pode-se salvar uma vida! Por favor, divulguem esta iniciativa junto dos vossos pais, familiares e amigos. É assim que a AI trabalha e desenvolve as suas ações.

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   Além de abaixo-assinados e petições públicas, a AI promove muitas outras ações de denúncia e sensibilização, como manifestações, envio de cartas apelando à libertação de presos e condenados, sessões de esclarecimento como esta, ciclos de cinema e até festas. O Grupo de Coimbra da AI também tem lançado muitas ações, como a simulação de um campo de refugiados na Praça da República, reuniões onde se denunciaram violações dos DH em Angola com a presença do conhecido ativista Luaty Beirão, ou marchas contra qualquer forma de discriminação sexual. Afinal, a grande luta é pelo direito à diferença, pela Liberdade, e isso implica que não se aceite nenhum tratamento diferenciado com base na religião, na raça, na cultura, no sexo, na orientação sexual, ou o que quer que seja. O interessante é que os nossos jovens sócios têm mais facilidade em aceitar isto do que muitos adultos que, contra todas as evidências, têm por vezes dificuldade em aceitar o direito à diferença das minorias.

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(fotografias retiradas da página do facebook do GAIC)

   Uma das razões que nos levou a convidar a Inês para este encontro, foi a questão dos DH na China. Na verdade, dedicámo-nos nas últimas semanas a conhecer um pouco melhor a história e a cultura deste enorme país. Visitámos uma exposição no Museu Machado de Castro e tivémos um encontro no Instituto Confúcio. Achámos que era importante mostrar a outra face da China. Na verdade, trata-se de um  país ancestral, um dos maiores do mundo em área geográfica e o mais populoso do planeta. A China tem uma cultura muito sofisticada e uma história milenar. É fácil sentirmo-nos fascinados pela sua cultura e pelos seus costumes. Mas que isso não nos faça esquecer que é um país que desrespeita sistematicamente os DH. Todos os anos são aí executadas milhares de pessoas, e isto é inadmissível. A situação é preocupante em todo o Mundo, particularmente na Ásia, onde países como o Paquistão, o Irão, o Iraque, a Arábia Saudita ou a China apresentam números assustadores!

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   A situação no Tibete é um dos assuntos habitualmente apresentado pela AI. Nessa região, a violência repressiva tem-se vindo a intensificar, face ao alheamento internacional, pelo que as ações da AI adquirem uma importância ainda maior. O Tibete é um território nos Himalaias com uma cultura e uma identidade próprias. Nos meados do séc. XX, as tropas chinesas anexaram o Tibete, obrigando à fuga do Dalai Lama, o chefe político e religioso dos tibetanos. Desde então, as violações dos DH e a recusa da autodeterminação têm sido as orientações do governo chinês, que despreza qualquer negociação ou apelo da comunidade internacional. Para nos sensibilizar melhor para esta questão, a Inês passou-nos um filme que abaixo reproduzimos.

 

    Para concluir este nosso encontro, entregámo-nos a um curioso exercício. Imaginámos que vivíamos num planeta inteiramente novo. Demos-lhe um nome e criámos uma lista de Direitos, uma espécie de carta fundacional onde cada um teve oportunidade de apresentar um artigo. Foi muito interessante, pois sentimo-nos como uma espécie de pioneiros de um novo mundo imaginário, e pudemos verificar que muitas das nossas propostas correspondiam a direitos já consagrados, mesmo os incluídos na chamada 3ª geração, ou seja, os que se prendem com preocupações ambientais e que constituem direitos da comunidade, ou da sociedade, não sendo propriamente direitos individuais. Alguns exemplos da nossa Carta: art. 1º: Direito à não guerra; art. 2º: Direito a um só país no Planeta Património; art. 3º: Direito à Escola; art. 4º: Direito a um ambiente limpo e puro; art. 5º: Direito à Cultura,.... (e outros que eu não consegui registar, eram para aí uns 15!  )

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  Para acabar, a Inês deixou-nos os contactos do Grupo da Amnistia Internacional de Coimbra. O objetivo é que todos se envolvam, utilizando as redes sociais, que participem e divulguem, pois ninguém pode ficar indiferente! Aqui ficam então os contactos:

website: http://grupoaicoimbra.wixsite.com/gaic

facebook: https://www.facebook.com/grupoaicoimbra

twitter: https://twitter.com/AmnistiaCoimbra

instagram: https://www.instagram.com/amnistiacoimbra/

youtube: https://www.youtube.com/channel/UCAbVycGpgSrcdpxpctw9VEQ/videos

gmail: nucleoaicoimbra@gmail.com

telefone: 913988392

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(No final, cada um levou uma fitinha da Amnistia Internacional para colocar no pulso) 



publicado por CP às 17:24
Domingo, 28 de Janeiro de 2018

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   Esta semana fomos ao Museu da Misericórdia de Coimbra, um lugar pouco conhecido dos conimbricenses e que merece ser divulgado, pois possui um preciosíssimo espólio acumulado ao longo de séculos de atividade, além de se situar num local privilegiado, partilhado com a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, e que, por si só, merece uma visita prolongada. Já não é a primeira vez que aqui vimos pois, em 2011, conforme se pode ler nesta ligação, já tínhamos visitado este museu.

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    Desta vez fomos recebidos pelo Raúl Moura Mendes, um velho amigo do nosso clube que já nos guiou numa visita pela cidade que tinha por tema os azulejos. O Raúl, o atual responsável por este núcleo museológico, convidou-nos para uma visita que nós não podíamos recusar. Fomos recebidos na Sala das Sessões onde escutámos algumas breves palavras sobre a história das Misericórdias. Fundadas no final do séc. XV, por iniciativa da rainha D. Leonor, viúva de D. João II, numa altura em que o Estado ainda não cuidava dos mais fracos e desvalidos, estas instituiçãos tinham como objetivo as mesmas 14 obras que ainda hoje devem ser praticadas pelos seus membros. 7 dessas são coroporais e as outras 7 são espirituais. Entre elas, conta-se a obrigação de enterrar os mortos, principalmente os indigentes. Por isso, eram normalmente os irmãos da Misericórdia os responsáveis por dar sepultura aos condenados à morte, tal como aprendemos numa das primeiras visitas que fizémos este ano, quando fomos ao Colégio da Trindade ver uma exposição sobre os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal.

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   A primeira Misericórdia foi a de Lisboa, fundada ainda sob iniciativa da rainha D. Leonor. As outras foram sendo criadas já no reinado de D. Manuel I, como esta Misericórdia de Coimbra, fundada nos ano de 1500. Embora inspiradas nos ideais cristãos, estas irmandades são formadas por leigos e possuem estatutos aprovados pelo rei que lhes fazia doações, no que era imitado por outros súbditos que, normalmente em testamento, legavam muitos bens, desde terras e casas, até joias, dinheiro, mobiliário e obras de arte, constituindo valiosíssimos fundos usados na prática das 14 obras há pouco mencionadas. Muitos desses benfeitores foram retratados em pinturas colocadas nas paredes desta sala solene.

   O Museu está instalado no Colégio Novo dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho. Chama-se Colégio Novo porque o antigo era o mosteiro de Santa Cruz, na Baixa da cidade.

   Este edifício foi construído nos finais do século XVI e durante os primeiros anos do seguinte, sob direção de Filipe Terzi, o mesmo arquiteto italiano responsável pela construção do aqueduto a que hoje chamamos os Arcos do Jardim, segundo nos contou o Raúl. Depois de muitas peripécias e vicissitudes, entre as quais um incêndio, o prédio passou para a Santa Casa em 1841, poucos anos após a extinção das Ordens Religiosas, aqui funcionando um orfanato durante muitos anos, pelo que ainda é popularmente referido como Colégio dos Órfãos. O Museu foi inaugurado em setembro de 2000, como forma de assinalar 5 séculos da fundação da Misericórdia de Coimbra.

   Nesta sala, vimos ainda uma exposição de jornais, livros e revistas selecionados do valioso acervo do arquivo desta instituição. Entre todos os volumes exibidos nas vitrinas, o Raúl destacou o número um da Minerva Lusitana, o primeiro periódico publicado em Coimbra em 1808, no quadro da resistência aos invasores franceses. Foi afinal o primeiro jornal da nossa cidade!

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   Na sala seguinte, além de belas pinturas e azulejos, pudemos admirar um retábulo da autoria de João de Ruão, proveniente da antiga igreja da Misericórdia. Esta escultura mostra o conjunto da sociedade quinhentista sob a capa protetora de Nossa Senhora da Misericórdia. De um lado, os representantes do clero, com o papa, um cardeal e um bispo,  e, no outro lado, o rei e membros das nobreza. Por vezes, nestas representações da Nossa Senhora da Misericórdia, aparecem também representantes das classes populares. Essa antiga igreja, hoje desaparecida, situava-se por cima, autenticamente, da atual igreja de S. Tiago. Antes do restauro, promovido nos meados do séc. XX, existiam ali duas igrejas, uma em cima da outra! Pela Praça do Comércio entrava-se num dos templos e, pela rua Visconde da Luz, desnivelada em relação à Praça, acedia-se à igreja da Misericórdia!

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   Nesta sala, porém, o que mais impressionou os nossos jovens visitantes foi uma ambulância, se é que assim se pode designar, utilizada no século XIX para o transporte de doentes. Trata-se de uma padiola, equipada com uma cabine fechada, onde eram colocados os doentes, protegidos dos olhares exteriores por uma cortina. Dois homens, um de cada lado, pegavam na cadeira e levavam o enfermo até ao hospital.

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 O nosso percurso contiunuou até à capela da Misericórdia. É uma construção do século XVII, com uma única nave, construída ao gosto barroco. Destaca-se a abóbada de berço profusamente decorada com caixotões rendilhados. Mas, o que mais nos impressionou foi uma passagem secreta que, atrás do retábulo do altar-mor, dá acesso a um esconderijo!

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   Passando pela sacristia, revestida com azulejos seiscentistas. acedemos a um espaço onde se reconstitui um scriptorium medieval. Assim se tenta recriar o ambiente onde os monges copistas se dedicavam à arte da escrita, preparando as tintas e os suportes da escrita, como o pergaminho. Vimos como rasuravam os erros lixando o pergaminho com a pele de um peixe e ficamos a saber como preparavam as penas para escrever.

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   No andar superior, num pequeno patamar, vimos um presépio que foi oferecido por um amigo da Misericórdia. O Raúl contou-nos a história dos presépios. Gostámos particularmente da história dos Reis Magos, cada um representando um dos continente conhecidos à época, bem como o papel de S. Francisco de Assis na valorização destas representações. 

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   Para concluir a nossa visita, fomos desafiados a subir à Torre da Misericórdia, através de uma escada interior em caracol que dá acesso a um varandim, no topo da torre sineira, de onde se podem desfrutar umas vistas únicas sobre a cidade. É um bocado assustador para quem padece de vertigens, mas, com cuidado e sem correrias, não há qualquer risco. Vale a pena! Ora vejam lá as fotografias:

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publicado por CP às 12:56
Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018

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   Na sequência do nosso passeio da semana passada ao Museu Machado de Castro, onde visitámos uma exposição sobre a escrita e a caligrafia chinesas na coleção do poeta Camilo Pessanha, decidimos, esta sexta-feira, complementar essa visita com uma outra ao Instituto Confúcio, onde frequentámos uma oficina de escrita chinesa.

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 Este instituto está instalado na ala nascente do antigo Colégio de Jesus, colado à Sé Nova, um edifício que não podia ter sido mais bem escolhido para acolher este departamento, pois foi aqui que se formaram, no séc. XVI, os missionários jesuítas que partiram para o Oriente, nomedamente para a China, protagonizando os primeiros contactos dessas civilizações com o Ocidente. As coleções dos museus da Universidade conservam, por isso e ainda hoje, uma grande quantidade de objetos e documentos de grande valor. Alguns estão aliás expostos numa vitrina colocada no interior deste Instituto. 

   O Instituto Confúcio, que tomou o nome do famoso sábio e filósofo chinês que viveu nos séculos VI e V a. C., foi inaugurado em julho de 2016, tendo como missão a divulgação da língua e cultura chinesas, bem como o ensino e reconhecimento da Medicina Tradicional Chinesa em Portugal, aprofundando as relações seculares entre Portugal e a China.

  Fomos logo simpaticamente acolhidos pelo Professor Doutor João Corrêa-Cardoso, docente da Faculdade de Letras e diretor deste Instituto, juntamente com a Dr.ª Wei Ming, a responsável chinesa. Ainda no exterior, o Professor João dirigiu-nos umas palavras de boas-vindas. Entrados no edifício, conhecemos a Dr.ª Maria José Margalho, técnica superior com quem agendámos este encontro e, já devidamente sentados, eis que chegou o professor Sūn Lǎo Shī. Ele seria o nosso professor de chinês!

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   O nosso jovem professor encontra-se em Portugal a estudar e, como voluntário, desenvolve estas ações de divulgação, uma vez que se especializou no ensino da língua chinesa a públicos infantis e juvenis. Estávamos na mão de um especialista! A sessão que viemos frequentar, com uma duração de aproximadamente 90 minutos, tinha um plano ambicioso e uma promessa: no fim ficaríamos a perceber um bocadinho mais de chinês! Bom, na verdade não era assim tão difícil, pois de chinês ninguém percebia nada!

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   Em primeiro lugar, há que saber o que é um caracter chinês. Trata-se de um ideograma, isto é, a partir de elementos naturais, como o Sol, a água, o cavalo, a árvore ou o pássaro, a civilização chinesa desenvolveu desenhos que, depois de estilizados e simplificados, constituem signos que se referem a essas realidades naturais que representam. O ponto de partida é assim muito diferente da nossa escrita fonética ocidental! Assistimos a um video que nos explicava esta origem da língua e da escrita chinesas.

 

   Depois, e após mais algumas explicações, ficámos a saber que os caracteres se organizam de uma forma especial, podendo distinguir-se duas partes, uma esquerda e outra à direita. De seguida, aprendemos concentrámo-nos no desenho de cada um dos traços, retendo algumas técnicas básicas, conforme o sentido e a direção do gesto. A folha que apresentamos abaixo mostra os gestos mais importantes. Nós, como somos apenas iniciados, ficámo-nos pelos cinco primeiros: dian, heng, shu, pie, na, ti.

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    Ensaiámos entusiasticamente, sempre com os braços no ar, os gestos correspondentes a cada um dos traços e, a pouco e pouco, não sem alguma estranheza, lá nos fomos familiarizando com algumas palavras que o professor Sūn desenhou no quadro. Ao mesmo tempo íamos pronunciando os sons correspondentes às palavras apresentadas. Se, de repente, um desavisado visitante nos ouvisse, até era capaz de pensar que éramos uma turma de chineses. Bom, talvez não tão disciplinados!

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   Chegados a esta fase, passámos à prática, desenhando os caracteres no quadro. Já mais confiantes, dividimos o grupo em duas equipas e realizámos uma pequena competição. O professor Sūn mostrou-nos, durante uns escassos minutos, quatro palavras escritas em chinês projetadas no projetor. A nossa missão era memorizá-las para, de seguida, tentar reconstitui-las, em conjunto. Não foi fácil! Parece fácil, mas não é, pois são muitos riscos e rabiscos muito diferentes da caligrafia a que stamos habituados. A verdade, porém, é que, com a ajuda de todos e após várias tentativas, fomos capazes de atingir o objetivo do jogo.

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   Por fim, confirmámos o que já sabíamos da visita da semana passada: a caligrafia chinesa é uma arte. Além da sua função utilitária, de comunicar por escrito, o desenho dos caracteres e das palavras, tradicionalmente em suportes delicados, a escrita chinesa reveste-se de um carácter quase sagrado, é um ritual de fixação e perpetuação das mensagens. Por isso, os autores chineses desenvolviam um estilo próprio, apuravam a sua técnica, sofisticando os gestos e os traços, conferindo aos seus textos uma dimensão artística que os tornava muito valiosos e apreciados.

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   O prof. Sūn ofereceu-nos uns blocos de apontamentos e umas cópias de uns manuscritos tradicionais chineses para comprovarmos exatamente o que ficou dito. As cores, a delicadeza dos traços, os alinhamentos dos caracteres, a preparação dos suportes, os desenhos e ilustrações, enfim, tudo se harmoniza de uma forma atraente e digna de admiração.

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   Aproximava-se a hora de irmos embora. Antes, contudo, ainda tivemos tempo para tirar uma fotografia de conjunto na escadaria exterior. Vale ainda lembrar que o Instituto Confúcio oferece, em regime de frequência livre, vários cursos de Língua e Cultura Chinesas. É uma oportunidade para os familiares e amigos mais velhos dos nossos sócios se iniciarem neste mundo fascinante da cultura chinesa. Para os alunos do nosso Agrupamento, levantamos um bocadinho a ponta de um véu: será que para o ano a nossa escola terá um Clube de Chinês? Talvez.... quem sabe....

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publicado por CP às 21:43
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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