Sexta-feira, 01 de Junho de 2018

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   Hoje foi o Dia Mundial da Criança, data escolhida pela Câmara Municipal para inaugurar a Feira Cultural de Coimbra. Por isso, aproveitando o facto de os transportes públicos municipais serem hoje gratutuitos paratodas as crianças, rumámos até ao Parque da Cidade.

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Esta feira, que em tempos foi a Feira do Livro, exibe agora muitos pavilhões que, além dos livros, mostram outras manifestações culturais. Na verdade, além dos livreiros, editores e alfarrabistas, há stands de discos, artesanato, artes plásticas e até gastronomia.

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Iniciámos o nosso percurso pelo pavilhão da Tipografia Damasceno, onde uma senhora muito prestável nos explicou como funcionavam as impressões na era anterior à industrialização. A máquina que vimos funcionava manualmente. Os tipógrafos, tal era o nome dos operários que compunham as páginas, colocavam dentro de uma caixa de madeira os caracteres em chumbo, letra a letra, palavra a palavra, frase a frase. Tudo era colocado de forma invertida, isto é, como se fosse um espelho, para depois, como se fosse um carimbo, as folhas fossem impressas uma a uma. Era assim uma espécie de um bisavô das atuais impressoras dos computadores!

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Um dos locais mais apreciados é sempre o do Dr. Kartoon, livraria especializada em Banda Desenhada. Esta forma de expressão artística e literária atrai a atenção de adultos e principalmente de crianças e jovens. De igual modo, a Bruáá Editora, que tem uma loja no Convento de S. Francisco, exibe uma exposição muito atrativa que não passou despercebida.

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Os alfarrabistas, que vendem livros usados, são outra das atrações destas feiras. Alguns destes livros em segunda mão são muito baratos, pelo que ninguém pode dizer que não lê porque não pode comprar! Há, por apenas 1 €, possibilidade de adquirir livros muito bons, recomendáveis para todas as idades! Outros livros expostos por estes alfarrabistas são verdadeiras preciosidades, muito antigos, muito bem encadernados e muito valiosos. Há bibliófilos, designação dada às pessoas que colecionam livros raros e que gostam muito de livros antigos, são capazes de pagar fortunas por algumas raridades.

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    Além dos livros, vimos também muitos expositores dedicados às mais variadas formas de artesanato: latoeiros, tecelões, oleiros, vidreiros, sapateiros, canteiros, ferreiros, etc. É uma boa oportunidade para recordar os ofícios tradicionais, hoje na maior parte quase perdidos, bem como admirar a criatividade popular. Um dos artesãos que mais gostámos foi um senhor de Arganil que fabricava colheres de pau.

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Apetecia-nos depois parar num daqueles balcões dedicados à gastronomia e à doçaria tradicionais, mas como não íamos preparados, deixámos estas formas de expressão cultural para uma próxima visita, pois a Feira estará aberta até ao dia 10 de junho. Vale a pena convencer os pais e familiares para uma visita! 

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publicado por CP às 17:53
Sexta-feira, 25 de Maio de 2018

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    Este ano, em Coimbra, as exposições distribuem-se por vários locais: o Convento de S. Francisco, o Museu da Ciência, o Museu Municipal, a Casa da Cultura e os dois núcleos do Círculo de Artes Plásticas (CAPC). Foi um destes núcleos, no Jardim da Sereia, que nós visitámos esta semana. Aqui, vimos três exposições: uma de Patrick Baz sobre a minoria cristã no Líbano, outra de Ferhat Bouda sobre a situação do povo berbere nas montanhas do Atlas em Marocos e outra de Niels Ackermann sobre as crianças de Chernobyl que já cresceram e são hoje adultos à procura de uma vida normal.

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    Patrick Baz é um fotojornalista libanês, pertencente à minoria cristã desse agitado país do Médio Oriente, que, depois de se retirar da sua atividade profissional, regressou à sua pátria. Em vez de encontrar um ambiente de paz, Baz testemunhou os massacres de que são vítimas os membros desta minoria religiosa às mãos dos radicais islâmicos. Apesar de perseguidos e maltratados, os cristãos maronitas, é esta a designação desta minoria, exibem ostensivamente os seus símbolos e insistem em praticar os seus rituais. 

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    Na sala contígua, Ferhat Bouda regista cenas chocantes da vida do povo berbere, nomeadamente das crianças. Os berberes são os mais antigos habitantes do Norte de África. Desde tempos imemoriais vivem nos vastos territórios que vão da costa atlântica de Marrocos até aos oásis do deserto do Egipto. Falam a sua própria língua e têm uma identidade cultural muito vincada. Todavia, e talvez por isso mesmo, têm sido vítimas de perseguições, sendo empurrandos para as recônditos e quase inacessíveis montanhas do alto Atlas, zonas muito montanhosas de Marocos.

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publicado por CP às 18:36
Sexta-feira, 18 de Maio de 2018

   Há muito tempo atrás realizámos uma visita pela Alta da cidade com o objetivo de confrontarmos os espaços atuais com fotografias antigas. Chamámos a esse itinerário Coimbra que já não existe. Pretendemos transportar a memória desaparecida da cidade até aos nossos dias para, desse modo, avaliarmos as transformações produzidas e conhecermos o património destruído. Na altura tínhamos prevista a realização de uma segunda visita, incidindo sobre a zona ribeirinha e a Baixa. No entanto, por razões muito variadas, vimo-nos forçados a alterar o nosso plano. Semana após semana, mês após mês, fomos adiando. Agora que os dias andam mais solarengos, decidimos realizar esta segunda etapa da nossa visita. Por azar, apanhámos uma chuvada...

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    Começámos o passeio pela zona do Parque da Cidade, mais exatamente no limite do designado Parque Verde do Mondego. Trata-se de uma das maiores e mais recentes zonas verdes da nossa cidade. Até há poucos meses, aqui existiam muitas esplanadas que, no entanto, foram destruídas pelas cheias do rio. Este parque foi inaugurado em 2004 e resulta de um projeto do arq. Camilo Cortesão. Há aproximandamente um século, existiu aqui um campo de futebol, o Campo da Ínsua dos Bentos, que foi palco de importantes encontros, como um célebre Sporting - Porto.

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   Daqui seguimos pelo Parque Dr. Manuel Braga. Manuel Braga nasceu no Brasil em 1868 e faleceu em Coimbra em 1945. Desempenhou vários cargos públicos, destacando-se na presidência da Comissão de Turismo. Foi ele que teve a ideia de adquirir a Ínsua dos Bentos, zona alagadiça e mal cuidada, para aqui construir este jardim que acompanha a avenida Navarro e se desenvolve numa faixa de terreno triangular que une a Ínsua dos Bentos ao Largo da Portagem. Em tempos não muito distantes, a automotora da Lousã atravessava esta zona da cidade, tomando e desembarcando passageiros na estação de Coimbra-A. 

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    Antigamente, muito antes dos transportes rodoviários e ferroviários, o Rio Mondego era a mais importante via de comunicação da zona centro. Era uma via fluvial que ligava a zona litoral ao interior. As barcas serranas subiam e desciam o rio, entre o Porto da Raiva, um pouco para lá de Penacova, e a Figueira da Foz, desempenhando um papel indispensável no comércio da região, pois abasteciam as populações de produtos como o sal. Os barqueiros conduziam estas barcas, aproveitando os ventos e as correntes do rio. Muitas vezes, eram obrigados, juntamente com os tripulantes que o ajudavam, a puxar o barco à força dos braços. Era uma atividade muito dura. Hoje, resta a memória e uma barca colocada no jardim a recordar esses tempos. Infelizmente, talvez porque estavam a montar os expositores para a Feira do Livro, essa barca foi retirada e não a vimos.

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   Nos anos 50 do século passado foi inaugurada a atual ponte de Santa Clara, segundo projeto do famoso engenheiro Edgar Cardoso (1913-2000). Esta ponte veio substituir uma outra de ferro, inaugurada em 1875, que, por sua vez, fora construída para substituir outra que já datava do século XVI, do reinado de D. Manuel I, e que era designada como Ponte do Ó, porque tinha ao meio do tabuleiro uma rotunda com duas rampas que davam acesso ao leito seco do Mondego.

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   O Largo da Portagem tem tido, ao longo dos séculos, diversas designações. O nome indica de aqui serem cobrados os direitos pelas mercadorias que entravam na cidade para serem transacionadas. Aqui esteve implantado o pelourinho da cidade, demolido em 1836. Aqui existiu igualmente uma cadeia, bem como uma capela onde se dizia missa para os presos e que foi igualmente demolida naquele ano. Ao longo do último quartel do séc. XIX muitos melhoramentos e alargamentos foram feitos. Em 1886, este Largo foi renomeado como Largo do Príncipe D. Carlos, em homenagem ao anunciado casamento do futuro rei com D. Maria Amélia de Orleães.

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   A estátua dedicada ao chamado Mata Frades, Joaquim António de Aguiar,  resultou da iniciativa de algumas personalidades republicanas nos anos finais da monarquia, destacando-se Martins de Carvalho e Bernardino Machado. Pretendiam assim colocar-se sob a inspiração dos ideais liberais, com o objetivo de combaterem a monarquia agonizante e fazerem a propaganda da República. 

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A estátua em bronze é da autoria do escultor Costa Mota (tio), sendo o grande pedestal do arquiteto Silva Pinto. Joaquim António de Aguiar empunha na mão direita a pena com que se prepara para assinar o decreto de expulsão das ordens religiosas, gesto considerado como fundador da política anticlerical da República que tinha como um dos seus grandes objetivos a separação do Estado das Igrejas. O monumento começou a ser lançado em 1911, estando concluído dois anos após. 

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   Este mesmo Largo da Portagem, mas do outro lado, na varanda do Hotel Astoria, foi palco de um outro momento importante da nossa história contemporânea e da oposição ao Estado Novo. Na verdade, conforme assinala uma placa evocativa aí colocada, foi aqui que discursou aos estudantes e ao povo de Coimbra o candidato da oposição, general Humberto Delgado, durante a campanha para as eleições presidenciais de 1958. Recorde-se que o general acabou por sair derrotado dessas eleições fraudulentas, vindo a exilar-se fora do país, sendo assassinado pela PIDE, a polícia política da Ditadura, em 1965. As fotografias da época registam o entusiasmo com que o candidato foi recebido em Coimbra, tal como em outras cidades do país, durante a campanha. 

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   O Cinema Tivoli era uma sala de cinema e teatro moderna que, durante décadas foi uma das mais importantes salas de espetáculo da cidade e da região. Inaugurado nos anos 40 do século XX, viria a ser encerrado já nos finais do mesmo século, instalando-se aqui uma grande loja de roupa, pertencente a uma cadeia internacional. Todo o interior foi demolido, restando apenas a fachada. Atualmente, a loja encerrou e o edifício está desocupado.

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 A Estação de Coimbra-A ou Estação Nova, foi construída entre 1925 e 1931, com projeto dos arquitetos Cotinelli Telmo e Luís Cunha, para servir os passageiros do ramal da Lousã que havia sido inaugurado em 1885. 

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   A Avenida Fernão de Magalhães resultou da união de diversas ruas e artérias da cidade, como a Rua das Tanoarias e a Rua da Madalena ou Madanela. O atual arranjo resultou de uma série de deliberações camarárias dos anos 20 e 30 do século passado que, recorrendo a expropriações e demolições, pretendia dotar esta zona de uma moderna artéria que deveria ligar à Praça 8 de Maio. 

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   Rumámos então à Praça 8 de Maio, passando antes pela Praça do Comércio onde se localiza a igreja de S. Tiago. A construção original deste templo data dos inícios do séc. XII, tendo sido um dos melhores e mais importantes exemplares da arquitetura românica de Coimbra. No séc. XVI instalou-se aqui a Misericórdia de Coimbra com a sua igreja, à qual se acedia pela rua de cima, construída sobre a primitiva! Autenticamente, uma igreja encavalitada em cima de outra! Em 1861, a Câmara decidiu alargar a rua e cortou a cabeceira da igreja de S. Tiago. Nessa altura já a primitiva edificação estava muito transformada, como se pode ver na fotografia. No século XX, entre 1908 e 1932, procedeu-se a uma polémica obra de restauro que passou pela demolição quase total do templo e pela reconstrução, sempre hipotética, da traça original.

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    A Praça do Comércio já foi chamada Praça de S. Bartolomeu e Praça Velha. Aqui se localizou o Hospital Real, atualmente uma loja do chinês, e aqui se realizaram alguns autos-de-fé. Pelo menos desde o séc. XIV aqui se instalavam os açougueiros da cidade. Era aqui também que se realizava a cerimónia da quebra dos escudos. Quando morria um rei, um cortejo saía da Câmara e, passando por esta Praça, quebrava-se um escudo de madeira, simbolizando a morte do rei, cerimonial que se repetia noutros lugares.

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   Subindo as Escadas de Santiago, fomos até à rua Ferreira Borges, assim batizada em 1883. José Ferreira Borges (1786-1838) nasceu no Porto e estudou em Coimbra, sendo uma das mais importantes figuras do Liberalismo, tendo sido um dos responsáveis pela Revolução de 1820. Esta rua foi durante muito tempo o centro de comércio mais importante da cidade. Aqui se instalavam as melhores lojas de moda frequentadas pelas damas da burguesia abastada. Por aqui se encontravam as melhores livrarias e os cafés onde se reuniam as tertúlias em animadas conversas. os bancos tinham as suas agências nesta rua, bem como os advogados mais renomados ou os médicos preferidos da burguesia.

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    A Praça 8 de Maio era originalmente chamada Terreiro de Santa Cruz ou Largo de Sansão. Foi no dia 8 de maio de 1834, no final da guerra civil que opôs os Liberais aos Absolutistas, que entraram na cidade as forças do rei D. Pedro. Por isso, em 1874, os responsáveis pela administração da cidade decidiram fixar essa efeméride atribuindo este nome à Praça. Este local, antes da regularização do leito e das margens do Mondego, era frequentemente afetado pelas cheias, como se pode ver pela fotografia. A configuração atual da Praça resulta de um arranjo empreendido pelo arq. Fernando Távora (1923-2005), nos anos 90 do século passado.

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    Concluímos o nosso passeio com a Igreja do Mosteiro de Santa Cruz, um dos mais emblemáticos monumentos da cidade e do país. Sobre ele, para já, nada mais diremos, não apenas porque é sobejamente conhecido de todos, mas principalmente porque será objeto de uma atenção especial para o próximo ano letivo.



publicado por CP às 17:30
Sexta-feira, 11 de Maio de 2018

 

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   «Mes Dessins. O Museu nos Desenhos da Rainha D. Amélia» é o título da exposição temporária que, desde o dia 16 de março, está patente no Museu Nacional Machado de Castro. Trata-se de uma série de desenhos feitos pela rainha D. Amélia de Orleães, a última rainha de Portugal, entre 1893 e 1906. Os desenhos representam algumas das peças mais importantes da coleção de ourivesaria do Museu, incluindo as que outrora pertenceram à Rainha Santa Isabel, e que foram reunidas num ábum. Estas obras foram recentemente oferecidas ao Museu pela AMIC - Liga de Amigos do Museu Nacional de Machado de Castro.

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   Os desenhos representam peças da coleção permanente do museu, outrora pertencentes ao denominado Museu das Pratas da Sé de Coimbra, reunidas pelo bispo D. Manuel de Bastos Pina, amigo pessoal da rainha D. Amélia, que foi inclusivamente confessor dos seus filhos e padrinho do rei D. Manuel II, o último rei de Portugal. Estes desenhos testemunham o gosto e a sensibilidade da rainha de origem francesa.

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A receita da venda destes álbuns destinava-se ao financiamento da «Assistência Nacional aos Tuberculosos», que a própria rainha fundou em 1899. O primeiro volume intulou-se «Mes Dessins. Mes Endroits Préférés» («Os meus desenhos. Os meus Logares predilectos», ou, com a grafia atual, «Os meus desenhos. Os meus lugares prediletos» e foi publicado em 1926 pela editora Le Goupy, com impressão de Daniel Jacomet. Este volume teve uma tiragem de 250 exemplares e conta com 119 reproduções, acompanhados por poemas de Camões, Homero, Gil Vicente, Baudelaire, Victor Hugo, Alexandre Herculano, entre outros.

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O Conde de Sabugosa que prefaciou o livro apresenta as justificações artísticas da obra: «(...) existiam desenhos que eram ao mesmo tempo testemunho do merecimento de quem os fizera, e a mais linda coleção de objetos de arte religiosa ou profana que o lápis de um artista pode encontrar. Custódias, báculos, pixides, imagens sacras ou históricas, cantos recatados de conventos extintos, impressões de muitos anos de peregrinações através de museus, igrejas e catedrais, tornam essa coleção uma verdadeira maravilha (...).»

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   O segundo volume intitulou-se «Arte e Archeologia» («Arte e Arqueologia») e foi publicado em Londres em 1928 pela editora Maggs Bros, tendo uma tiragem de 350 exemplares, ainda que reunisse somente 100 desenhos.

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As capas destes álbuns, em pergaminho natural, ostentam o monograma «MA» («Maria Amélia») nos cantos e, ao centro, a coroa real, no primeiro volume. No outro, podem ver-se as armas dos Braganças, a família real portuguesa, e dos Orleães. Dois atilhos em pele, abotoados por pequenas bolinhas em marfim, fecham os álbuns.

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   Maria Amélia Luísa Helena de Orleães nasceu em 1865, numa localidade nos subúrbios de Londres, vindo a morrer em 1951, em Versalhes, com 86 anos. Teve uma vida muito infeliz, pois assistiu ao assassinato do seu marido, o rei D. Carlos de Portugal, em fevereiro de 1908, na Praça do Comércio, atentado que vitimou igualmente o seu filho mais velho, o príncipe Luís Filipe, e feriu D. Manuel, último rei de Portugal. Como D. Manuel II morreu em 1932, exilado em Londres, D. Amélia assistiu ainda à morte deste seu filho. Exilada em França, testemunhou ainda os horrores da 2ª Guerra Mundial.

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   Como rainha, D. Amélia teve uma influência grande na corte, desenvolvendo uma importante obra assistencial, como a já referida «Assistência Nacional aos Tuberculosos». Patrocionou uma intensa atividade caritativa, promovendo a criação de sanatórios, cozinhas económicas e creches. Outra marca importante foi o patrocínio que deu à fundação do do «Museu dos Coches Reais».

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   Está sepultada no Panteão dos Braganças, no Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa, onde repousa junto do marido e dos filhos.

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Este texto foi redigido a partir das legendas da exposição.



publicado por CP às 17:44
Sexta-feira, 27 de Abril de 2018

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   O Dr. Telo de Morais é um conhecido médico conimbricense, nascido em 1929, em Viseu. Estudou Medicina na nossa cidade e aqui se radicou, desenvolvendo a sua atividade profissional durante décadas. Além da profissão, o Dr. Telo de Morais, juntamente com a sua esposa D. Maria Emília, sempre teve uma paixão pela pintura portuguesa e pelo colecionismo. Assim, ao longo das suas vidas, juntaram uma coleção de pintura dos mais importantes artistas portugueses da segunda metade do século XIX e das primeiras décadas do século seguinte. Em 1998, decidiram doar à cidade a sua vasta coleção, impondo como condição que as obras fossem depositadas no Edifício Chiado. A Câmara Municipal de Coimbra aproveitou então para reabilitar este histórico edifício, que um dia merecerá uma visita nossa. Depois de recuperado e adaptado, acolheu um dos núcleos do Museu Municipal.

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   Foi esta coleção que visitámos esta semana. Porém, tínhamos uma supresa. O objetivo não era só conhecer a coleção e apreciar os quadros. Na verdade, inspirados num livro de Mónica Baldaque, intitulado «Do Outro Lado do Quadro», decidimos experimentar essa estratégia, inventando histórias a partir de quadros. Esta autora imaginou uma série de pequenas narrativas a partir de oito pinturas e esculturas do Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto. 

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   Foi assim que, organizados em parelhas, devidamente munidos de um pequeno bloco de notas e de um lápis, nos lançámos nesta atividade. As regras eram poucas e simples: em primeiro lugar, passear pela sala, sem correr, sem gritar e sem tocar em nada, apreciando brevemente as pinturas, lendo atentamente as placas informativas dos quadros que mais nos impressionassem e, por fim, eleger um preferido. Depois, pusemos a imaginação a voar. A ideia era inventar uma história a partir do quadro escolhido. No final, juntámo-nos próximo de cada um dos quadros selecionados, para que os pares lessem as suas histórias.

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 A Alice e a Madalena escolheram um óleo do pintor António Carneiro (1872-1930), intitulado Mar da Praia da Foz do Douro, pintado em 1904. Ora leiam:

«Numa tarde de inverno, estava a chover torrencialmente. Nesse dia, encontrei no fundo da gaveta este caderno. Abri-o e escrevi apenas: Não tenho nada para fazer. Não penses que voltarei a escrever aqui. Acho que contar os meus segredos a 120 folhas de papel que qualquer pessoa pode ler é infantil e fútil, principalmente quando se tem a minha idade.

   Hoje passei pela mesma situação: chuva, nada para fazer, .... blá, blá, blá... Só que hoje devia estudar, mas não estou com pachorra para isso.... Foi então que, ao virar a folha, me deparei com uma fotografia da praia onde costumava passar férias. Boas memórias! Lembro-me especialmente do mar... Era azul muito claro e brilhante, as ondas com camadas abundantes de espuma fazem lembrar o céu à noite, pois podiam notar-se pequenos pontos brilhantes que pareciam estrelas. Por cima da bonita paisagem marinha, onde se podiam ver tartarugas e caranguejos, notava-se um ponto luminoso muito forte, era o pôr-do-sol, em tons claros e escuros contrastando com as nuvens brancas e fofas que me faziam lembrar algodão-doce. Ahhhh! Por falar em algodão-doce, acabei de me lembrar que não como há duas horas! Procurar inspiração para esta coisa ocupou-me a tarde. Assim, fecho este caderno e vou comer aquele belo bolo de chocolate que a minha mãe deve estar a fazer. Já me cheira aqui no quadro....»

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    A Laura e a Sofia redigiram uma história que intitularam Curiosos na Floresta, a partir de uma tela da pintora Estrela Faria (1910-1976) chamada Mata e Figuras:

«Nas profundezas nunca exploradas da Amazónia, há uma floresta temida por todos. Até de longe mete medo! O bosque é sombrio e arrepiante. Entre as crianças do bairro, vivia um rapaz muito curioso e atrevido que um dia decidiu espreitar... Ainda não tinha chegado próximo da mata e já estava com vontade de voltar para trás. Mas, uma parte dele queria continuar e, por isso, atirou o medo para as pedras e seguiu em frente. Já entrara na floresta quando olhou à sua volta e percebeu que acabara de cometer um erro: não sabia o caminho de volta! 

   Aflito, pegou no telemóvel para ligar ao pai, quando se apercebeu que não tinha bateria! Meteu o telefone no bolso, andou em frente até avistar uma clareira. Ao seu redor estavam vários animais a brincar e a dormir. Reparou então que, ao contrário dos boatos, a floresta era magnífica. Os animais guiaram-no até casa, e ele contou a sua aventura a todos os seus familiares e amigos.

   Daí em diante, todos fazem passeios pelo bosque, especialmente o menino e o seu pai.»

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José Teixeira Barreto (1763-1810) foi um autor do século XIX, da escola neoclássica, nascido no Porto, que se celebrizou pelos desenhos que produziu mas também pelo seu trabalho como entalhador. Na coleção Telo de Morais existe um seu desenho a tinta-da-china sobre uma história bíblica. A obra tem como título David e Abigail, mulher de Nabão. De acordo com o Antigo Testamento, Abigail era uma mulher muito bela e inteligente casada com um homem muito rico chamado Nabão, que possuía milhares de cabeças de gado, entre cabras e ovelhas. Nabão tinha mau feitio, era muito avarento e tinha uma «natureza ruim». Um dia,  o rei David enviou alguns homens da sua confiança pedir um donativo como recompensa pela proteção que lhe dava. No entanto, foram mal recebidos e insultados. De regresso, David decidiu vingar-se e matar o insolente Nabão. Foi assim que partiu ao seu encontro com um bando de homens armados. Porém, Abigail foi informada do facto e, sem dizer nada ao marido Nabão, juntou as melhores iguarias que conseguiu e dirigiu-se ao encontro de David. Ao chegar junto dele, pediu perdão pela insolência de Nabão, apresentando-lhe as suas valiosas oferendas. O rei aceitou as prendas e as desculpas, ficando muito impressionado com a beleza e inteligência de Abigail. Esta regressou para junto do marido que festejava, embriagando-se. Passados uns dias morreu. David ficou muito satisfeito e aproveitou para casar com Abigail, fazendo-a uma das suas mulheres. 

   Leiamos agora a versão dos nossos amigos. O título é A Boa Senhora. «Era uma vez, na época dos romanos, umas pessoas do povo que passavam muita fome. Apesar de tudo fazerem para obter alimento, eram muito pobres e passavam muita fome. Entre elas, vivia uma senhora que, trabalhando imenso, conseguiu obter muito alimento. Os outros homens, roídos pela inveja, esfomeados e em desepero, apresentaram queixa a um guarda, dizendo que a senhora lhes roubara a comida. Pediam ainda para que o alimento lhes fosse devolvido. E foi isso que aconteceu. A senhora, que nunca fizera mal a uma mosca e que ajudava toda a gente, acabou por morrer. Os homens sentiram-se culpados, mas nunca chegaram a admitir a mentira.»

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   O Tomás e o Falcão escreveram a história mais preguiçosa e mais disparatada de todas a partir de um quadro de Tomás da Anunciação (1818-1879). Até no título hesitaram: depois de pensarem num sugestivo Era uma vez um boi chamado António, acabaram por optar por um título mais comum: O Boi e a Vaca: «Era uma vez um pastor chamado Zacarias que tinha muitas vacas. Uma delas, chamada Josefina, estava grávida de gémeos, e o boi que a engravidou chamava-se Quim (...). Zacarias tinha dado esse nome em homenagem à sua cabritinha que já tinha parido uma cria. Toda a aldeia veio assistir ao nascimento do vitelo, até o Lil Pump, cantou.» 

   Como vêem, a história não tem pés nem cabeça, pois os nossos amigos decidiram armar-se em engraçadinhos... Fica registado o seu sentido de humor...

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    A Ana Eduarda e a Constança escolheram um óleo sobre tela do pintor José Júlio Sousa Pinto (1856-1939), intitulado Apanha do sargaço. Convém explicar que o sargaço é uma alga marítima que as correntes e as marés empurram para as praias, principalmente no norte do país, e que é aproveitada pelos camponeses, que a apanham e secam ao sol, pois é um excelente fertilizante.  A Velha é o título da história das nossas amigas. Ora leiam: «Olá! Eu sou a Ricardina Adelaide e tenho 81 anos. Digo a minha idade para não me perguntarem, pois não é bonita! Eu vivo numa aldeia chamada Bagunça, que tem muito sargaço. Já agora, eu sou sargaceira e todos os dias tenho de ir para a ria apanhar o sargaço com a minha família. Vou contar-vos uma história: uma vez, estava eu na ria, quando deparei com um caranguejo venenoso, que me picou o pé. Pensava eu que as algas me iam curar mas, quando as coloquei sobre a ferida, fiquei com o pé ainda mais inchado. Fui ao hospital, onde tive que pagar 200 escudos. Para minha surpresa, fiquei muito melhor.» 

   Enfim, esta história também saiu um belo de um disparate! O mais intrigante é como é que a velhinha ficou surpreendida com o facto de o tratamento hospitalar ter produzido melhoras! 

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   Continuando com os disparates (mais valia ter chamado à nossa atividade Histórias Disparatadas!), vamos ouvir a história do Miguel e do Sobral, a partir de um belo quadro de Albertino Guimarães (1891-1967): «Era uma vez uma aldeia cheia de pessoas felizes. Aí vivia também uma senhora que era muito má que não se importava com os outros. Um dia, ela acordou e não viu ninguém. Então, pôs-se a rezar e ficou muito infeliz, pois ficou muito doente. Foi então que a solidariedade dos vizinhos se manifestou, ajudando-a até que ela ficou boa. Deste modo, a velha nunca mais foi má para os outros. Até que um dia morreu e ninguém foi ao seu funeral.» Enfim.... quem perceber a história faça o favor de explicar! 

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   Uma Rua em Portugal  é o título de um quadro do pintor Francis Smith, nome artístico de Francisco Smith, pintor português de origem inglesa, nascido em 1881, em Lisboa, e falecido em Paris, em 1961. Eis a história do Manuel e do Tomás, intitulada A Super-Festa: «Certo dia, o senhor Gervásio organizou uma festa que acabou mal. Vamos contar os pormenores. deu-se o caso de o senhor Gervásio bater às portas dos vizinhos, dizendo sempre o mesmo:

- Olá, boa tarde, queria convidá-lo para a festa do ano!

   Todas as pessoas aceitaram. No dia da festa, tocaram música a altos berros. Todas as meninas e todos os rapazes dançaram toda a noite, fazendo muito barulho. Até que chegou um polícia e tudo se complicou. Ele foi falar com o senhor Gervásio que inventou uma desculpa:

- Ó senhor polícia,.... eu estou apenas a tentar vender .... - tentou explicar-se o pobre senhor Gervásio.

- OK, então vou-me embora!

   E assim fez. Mal o viram afastar-se, logo regressaram todos ao baile. Todos à exceção do senhor Gervásio, que foi levado pelo polícia para a esquadra!»

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   Na Serra da Estrela (1932) é o título do guache sobre papel do pintor Thomas de Mello (1906-1990), mais conhecido por Tom. A história do Afonso e do Francisco, à semelhança de quase todas as outras, é um bocado inquietante. Chamaram-lhe O Bem e o Mal: «Hoje em dia, embora não pareça, há duas pessoas que garantem o equilíibrio no Mundo: o Tomás e a Mafalda, que são a reencarnação do Bem e do Mal. Eles vivem na Serra da Estrela, escondidos, pois possuem grandes poderes. Certo dia, decidiram juntar-se aos humanos para ver como era a sua vida. Foi então que o Bem usou os seus poderes para proteger uma pessoa, enquanto o Mal, não querendo ficar atrás, usou os seus poderes para destruir uma casa feita de madeira. Com isto, os aldeãos da montanha queixaram-se às autoridades. uma hora depois, as autoridades chegaram e expulsaram-nos, pois eram uma ameaça para a comunidade, para os humanos que queriam levar uma vida normal. Depois, durante a noite, quando já todos estavam em casa, o Bem e o Mal tiveram uma conversa. Uma semana após, o Mal foi-se embora, para um sítio muito recôndito. O Mal não conseguia esquecer o que o Bem lhe fizera e, por isso, voltou para se vingar. Foi assim que, certa manhã, o Mal, discretamente, foi a casa do Bem e matou-o.»

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publicado por CP às 19:09
Sexta-feira, 20 de Abril de 2018

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   Hoje fizemos a nossa viagem mais curta de sempre, nem foi preciso apanhar o autocarro, bastou atravessar a estrada e, logo ali ao virar da esquina, no quarteirão seguinte, chegámos ao nosso destino: a Galeria Sete. Fomos recebidos pelo Eduardo Rosa, o galerista fundador e proprietário deste espaço. Além de galerista, o Eduardo é também um colecionador e um estudioso, é, em suma, um apaixonado pela Arte. De acordo com a página da internet desta galeria, o nosso anfitrião já coleciona obras de arte há mais de 25 anos! Como é vizinho da nossa escola, decidimos convidá-lo a convidar-nos, isto é, perguntámos ao Eduardo Rosa se nos podia convidar a visitar a sua galeria. Ele nem hesitou, respondeu logo afirmativamente, pois um dos seus objetivos é precisamente contribuir para a educação artística dos seus concidadãos, ajudar a criar públicos na cidade. Ora... esse é também um dos nossos objetivos!

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      Uma galeria é uma loja que vende arte. Esta é a definição mais simples e, embora correta, não é totalmente satisfatória, pois não transmite a paixão que o galerista sente pela arte que vende, nem o valor cultural da sua missão. O galerista, antes de vender, promove e valoriza os artistas que representa, produzindo exposições, acompanhando as suas carreiras. no fundo, considerando que o artista produz para o público e o público procura a produção dos artistas, o galerista posiciona-se no meio, é um intermediário que procura servir os interesses das duas partes, sendo esse o seu interesse.

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   Neste momento, a Galeria Sete exibe uma exposição da artista caldense Eduarda Rosa que, apesar da semelhança do nome com o do nosso galerista anfitrião, não tem nenhum parentesco. A mostra intitula-se Formas primitivas e caracteriza-se por uma grande delicadeza e rigor das formas que gera no espectador uma «sensação de beleza fresca...», nas palavras  do catálogo de apresentação.

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  Esta artista nasceu nas Caldas da Rainha em 1949 e tem um percurso muito curioso. Com uma formação académica na área da Farmácia, tendomesmo obtido o grau de Doutorada e sido professora universitária, dedicou-se à produção artística depois de se jubilar. Estudou numa escola superior especializada e, depois de adquirido o novo diploma em 2012, entrou neste mundo da arte contemporânea. 

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   Além deste trabalho, o galerista também ajuda na planificação e promoção de eventos culturais, reunindo obras dispersas de coleções particulares, valorizando-as e estudando-as. Como exemplo, vimos uma pintura do consagrado pintor Jorge Pinheiro intitulada Discurso para uma Mulher da Palestina, produzida em 1988. Este trabalho, que estava coberto e encostado a uma parede, pois não se insere em nenhuma mostra e estava ali simplesmente em trânsito, impressionou-nos profundamente e serviu de mote para uma conversa muito interessante.

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   Os artistas estão inseridos no seu tempo, sentem os problemas da sua época e refletem sobre eles. Não quer dizer que todos os artistas sintam esta preocupação de veicular nos seus trabalhos os problemas políticos e sociais, mas esta obra de Jorge Pinheiro traduz uma visão do problema da Palestina. Nós ainda somos muito jovens, mas já ouvimos falar sobre os problemas do Médio Oriente e os conflitos entre palestinianos e israelitas. Sabendo que este trabalho data de 1988, constatamos que a sua atualidade permanece, infelizmente, e aquele olhar angustiado, que já deveria ser apenas uma memória, ainda existe naquela e noutras regiões do Mundo.

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   Outro trabalho que nos chamou a atenção foi um de Alexandre Baptista sem título, incluída numa série que ele designou assim: Corpo. Twenty-four Drawings about Somebody (1999). Trata-se de um trabalho intrigante, pois sobre a capa e a contracapa de um caderno pré-existente, ligadas através de uma guita entrançada que envolve um pincel e suspende uma etiqueta, o autor lançou uma pasta terrosa que dá um relevo muito marcante ao caderno. Detivemo-nos por ali uns minutos a olhar e dialogar com esta obra.

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   Esta sala da cave da galeria já não é dedicada à exposição de Eduarda Rosa. Além de Alexandre Baptista, contemplámos outros trabalhos afixados nas paredes, destacando os finos e delhados desenhos de Filipe Romão.

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   Por fim, no depósito onde se armazenam as obras em reserva, agora mais ambientados, desenvolvemos alguns temas interessantes. Um dos detalhes que nos impresssionou foi a influência que os títulos que os autores atribuem exercem sobre o público. É que, como realçou o Eduardo, a obra de arte só se completa no olhar do observador. por outras palavras, a nossa leitura faz parte da obra de arte. E, como ficou provado na nossa experiência, o título condiciona o olhar. Tirámos essa prova quando nos confrontámos com uma estranha obra: nada mais do que duas bolas de futebol. Uma com fundo negro e recortes brancos e outra ao contrário, isto é, branca com retalhos pretos. Parecia uma montra de uma loja de artigos desportivos! Depois do Eduardo nos dizer que aquele trabalho fora produzido por ocasião do Euro 2004 e que o título era Europa, África, ouviram-se uma série de aaahhhhhh! e, logo após, sucederam-se, em jorros explicativos, uma série de análises da obra de arte!

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   O Eduardo conduziu-nos depois numa abordagem a diversos trabalhos pendurados pelas paredes, tentando encontrar aquilo que chamou de marcas autorais. Na verdade, tal como quando atendemos um telefonema e ouvimos a voz da pessoa que nos ligou, indentificamo-la imediatamente, pelo tom, pela expressividade, pela modulação da voz. O mesmo ocorre quando ouvimos músicas de bandas, ou seja, há uma série de características que se mantêm de música para música e que, sem que as saibamos apontar, nos permitem reconhecer o intérprete. É exatamente isto que sucede com os artistas plásticos. Com alguma experiência, começamos a reconhecer técnicas, elementos compositivos, temáticas que permanecem nas diferentes produções dos autores. 

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   Algumas obras são abstratas, outras figurativas, umas muito coloridas, outras mais sombrias.... É tão grande a diversidade que catalogar os artistas em movimentos e correntes estéticas é não só impossível como desnecessário. O que é importante é dialogar com as obras de arte. É muito frequente, principalmente no mundo da arte contemporânea, assistirmos a atitudes trocistas e de rejeição imediata. Porque a arte contemporânea não se caracteriza pelos padrões clássicos de beleza, nem exige grandes apuros técnicos, é muito frequente o público desprezar e desvalorizar as obras contemporâneas. A Liberdade, de produção e de interpretação, é a atitude correta neste diálogo entre o artista e o observador. Dialogar, ou pelo menos fazer um esforço para dialogar, é o mínimo que se pode fazer... E não custa nada.

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   Foi a esse exercício a que nos dedicámos de seguida, com a ajuda do Eduardo. Confortavelmente sentados no chão, fomos lançando olhares e perguntas, trocando ideias, afinando repostas, reparando em pormenores, à medida que o nosso galerista ia fazendo desfilar, à frente dos nossos olhos, uma série de quadros. E, do meio daquela tempestade de ideias, lá se foi fazendo alguma luz. Como as palavras são como as cerejas, e como as ideias de uns despertam ideias de outros, acabámos por gerar ali um ambiente estimulante.

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   Por fim, regressámos à sala inicial. Depois de um assalto aos rebuçados, depedimo-nos do Eduardo Rosa, agradecendo o momento que nos propiciou. Antes de irmos embora, lembrámos que a galeria de arte está sempre aberta, pelo que estamos sempre convidados a entrar. Para ver, para admirar, para conversar, para comprar, para olhar apenas. Estão, pois, todos convidados.... sempre que quiserem!

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publicado por CP às 23:09
Sexta-feira, 13 de Abril de 2018

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   No âmbito da Semana Cultural da Universidade de Coimbra, a Biblioteca Geral organizou na Sala de S. Pedro uma exposição sobre o Padre Manuel Faria (1916 - 1983). Além de um conjunto de painéis alusivos à vida deste importante compositor, a mostra exibe ainda uma parte do espólio que os familiares do homenageado legaram à Biblioteca da Universidade. A Dr.ª Isabel Ramires é a técnica responsável pela secção de manuscritos e foi com ela que combinámos esta visita. No entanto, a nossa guia foi a Dr.ª Cristina Faria, professora de Educação Musical na Escola Superior de Educação, responsável pela formação de muitos professores, e estudiosa da obra desta personalidade de grande destaque na vida artística do nosso país no século passado, no domínio da composição musical.

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   Na verdade, a professora Cristina Faria não é só professora e investigadora, ela é também sobrinha do compositor e corresponsável pela organização desta mostra. A ideia era reservar esta surpresa para o final, mas não foi possível, pois os apelidos e a a brincadeira com um trava-línguas logo denunciaram o laço familiar: «O que faria o Faria ao Faria se o Faria fizesse o que o Faria lhe fez?» Foi portanto a sobrinha de Manuel Faria que nos guiou, o que constitui um privilégio raro que agradecemos. Apesar disto, ninguém conseguiu identificar a nossa guia numa fotografia em que a numerosa família dos Farias posava. Ora, vejam lá se a identificam, não é fácil:

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    Manuel Faria era o mais velho de 11 filhos de um casal de condição modesta, caseiros de uma quinta em Ceide, no Minho. Nasceu em 1916, exatamente no ano em que Portugal entrou na 1ª Guerra Mundial. Naqueles tempos difíceis, os rapazes que pretendessem estudar eram encaminhados para o Seminário. Alguns acabavam por sair, pois não sentiam vocação religiosa, foi o caso de um dos irmãos de Manuel, Francisco, o pai da nossa guia, que acabaria por estudar Direito em Coimbra. Outro dos irmãos não entrou sequer no Seminário, não quis estudar e tornou-se sapateiro. Já Manuel, um apaixonado pelos livros e pela música, concluiu os seus estudos no Seminário e enveredou pela carreira eclesiástica. 

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   Concluída a sua formação inicial, foi enviado para Roma, estudar  música sacra, aí concluindo os seus estudos com distinção. Essa estada na capital italiana coincidiu com outro momento trágico da história europeia, pois a guerra atormentou mais uma vez o continente e o Mundo. A 2ª Grande Guerra eclodira em 1939, e a Itália de Mussolini estava diretamente envolvida. Manuel Faria encontrou-se assim no centro desse gravíssimo conflito. Revelando uma sólida formação humanista, empenhou-se na proteção aos perseguidos do nazismo e do fascismo, acolhendo e escondendo muitos refugiados. As cartas que escreveu durante esse período, apesar de censuradas, são importantes documentos desses trágicos tempos. 

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   De regresso ao nosso país, não conseguiu retomar o seu lugar de docente no Seminário pelo que, para prover o seu sustento, deambulou pelas terras do Norte de Portugal, recolhendo músicas, compondo e tocando. Faria era um excelente executante musical, nomeadamente de harmónio, um curioso instrumento em que o ar é insuflado por pedais movidos pelo instrumentista que, ao mesmo tempo, com as mãos sobre um teclado, pressiona as teclas que libertam o ar pelos tubos, vai produzindo os sons musicais. Antigamente, nos harmónios de grandes dimensões, disse-nos a Dr.ª Cristina, os foles era acionados por uns ajudantes do instrumentista, os foleiros.

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   Essa experiência é fundamental para a obra do compositor, pois além de marcar o início da sua atividade artística, denota ainda uma das fontes de inspiração mais importantes do seu trabalho, a recolha etnográfica, à semelhança do que acontecia com outras individualidades que, nessa época, se notabilizaram por terem empreendido um importantíssimo trabalho de recolha, como Fernando Lopes Graça (1906-1994) e Michel Giacometti (1929 - 1990), um italiano que se apaixonou pela música popular portuguesa.

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   As canções populares que recolheu foram submetidas a um processo de arranjo que lhes conferiu um duplo valor patrimonial, pois são simultaneamente testemunho de uma tradição popular e criação de um artista erudito. Muitas das partituras destas canções ao gosto popular constam desta exposição e foram mesmo cantadas há dois anos atrás, na igreja do Convento de S. Francisco, quando se comemorou o centenário do nascimento de Manuel Faria. Ao longo da sua vida, Faria compôs cerca de seis centenas de obras musicais, sendo que apenas uma parte dessa produção, pouco menos de metade, foi doada à Biblioteca Geral.

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   Uma das suas obras mais importantes foi uma ópera, intitulada «O Auto de Coimbra». Este trabalho foi encomendado por ocasião das comemorações do 9º centenário da conquista da cidade aos mouros. A ópera inclui dois atos: um primeiro dedicado à fundação da cidade e o outro celebrando a conquista pelo rei Fernando Magno, em 1064. Composta em 1963, só foi executada  em 2003, quando a nossa cidade foi a sede da Capital da Cultura em Portugal.

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   Em 1961, Manuel Faria regressou a Itália, agora como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. O objetivo era aprofundar os seus estudos de Composição. Nos anos seguintes, desenvolveu uma intensa atividade, compondo, tocando, ensinando, mas também escrevendo e promovendo importantes eventos culturais. Como reconhecimeto por esse esforço, recebeu o 1.º Prémio do Concurso Nacional de Carlos Seixas, em 1972, troféu que se exibe nesta mostra. É assim uma espécie de Óscar português da música, brincaram os nossos colegas. A verdade é que não andam muito longe da verdade....

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 Em 1983, foi agraciado postumamente com o grau de Comendador de Santiago de Espada, condecoração honorífica concedida pela Presidência da República a personalidades de grande destaque. Esta honra ocorreu já depois do seu falecimento, pois, pouco tempo antes, Manuel Faria não resistiu a uma doença incurável que o vitimou. A Dr.ª Cristina confidenciou-nos um pormenor tocante que revela a paixão deste homem pela música: nos últimos momentos da sua vida, no hospital e já muito doente, ele nunca deixou de compôr, de tal maneira que, com um lápis e uma pauta, passou para o papel, até ao fim, as notas que lhe enchiam a cabeça na esperança de as ouvir tocadas e cantadas.

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   Esperemos que tenham gostado de ler este texto tanto quanto nós gostámos de escutar a Dr.ª Cristina Faria e conhecer a vida e a obra desta personalidade do mundo da Música.  Resta-nos agradecer à nossa guia e aos responsáveis da BGUC que promoveram esta exposição e nos autorizaram esta visita.



publicado por CP às 17:30
Sábado, 24 de Março de 2018

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   No último dia de aulas do segundo período, decidimos rumar ao Penedo da Meditação. A ideia era, para além de chamar a atenção para a degradação deste espaço outrora tão aprazível, saudar a chegada da Primavera e das férias da Páscoa com um dia ao ar livre. Porém, a chuva persistente que tem caído nestes dias, estragou-nos os planos. Não totalmente, pois não é uma chuvita qualquer que nos impede de passear. Não pudemos correr e saltar pelo jardim, como prevíramos, mas não foi por isso que deixamos de assinalar este dia.

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   O Penedo da Meditação, sobranceiro ao vale de Souselas, foi em tempos, juntamente com a Mata do Choupal, a Lapa dos Esteios, o Penedo da Saudade, e mais alguns jardins da cidade e arredores, um espaço escolhido pelos estudantes para se inspirarem, para namorar, estudar e para descontrair. Hoje, o espaço está tão esquecido e degradado que se torna difícil compreender a preferência dada pelos jovens estudantes a este penedo. 

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   Para percebermos como era tão encantador este miradouro, recorremos à leitura de um pequeno excerto de um guia turístico clássico, o célebre Guia de Portugal. Foi uma obra publicada em vários volumes, planeada pelo escritor Raul Proença. A ideia era produzir um roteiro turístico sobre as belezas naturais e artísticas do nosso país. No entanto, o autor faleceu prematuramente em 1941, pelo que os seus amigos assumiram o encargo de concluir o plano da obra. Esse grupo era constituído pelos escritores Afonso Lopes Vieira, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Câmara Reys, Ferreira de Castro, Samuel Maia e o arquiteto Raul Lino, além de Reynaldo dos Santos e Sant'Anna Dionísio. Foi este último que concluiu a obra, que seria publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian. O 3º volume é dedicado à Beira Litoral, incluindo portanto os locais de interesse que os viajantes devem visitar na cidade de Coimbra. Na página 313, encontramos a descrição do Penedo da Meditação. Ouvir, ou ler, este excerto, no local, produz um contraste que não deixe de ser chocante, pois o que foi este miradouro na década de 40 do século XX não tem correspondência com o que é na atualidade. Ora leiam a trasncrição e imaginem-se no lugar do Manuel a meditar no varandim do Penedo:

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    «Ao norte do mosteiro [de Celas], a 30 minutos de passei sem pressa, visita-se o Penedo da Meditação, por um caminho cheio de pitoresco, entre olivais, silvados, muros altos e majestosas árvores. É um dos lugares de solitária romagem dos estudantes mais românticos de cada geração. E o sítio tem, na realidade, o seu quê de wertheriano [uma personagem de obra literária do grande poeta alemão Goethe, normalmente apontada como iniciadora do romantismo literário, caracterizado, entre outras coisas, pelo sentimentalismo e pelo desenvolvimento de uma sensibilidade que se extasia no contacto com a Natureza, como o Manuel na fotografia de cima, uma espécie de Werther do séc. XXI! ] (apesar do alpendre de mau gosto sensível e da fontezinha posta a gotejar de uma rocha, com o indiscreto contador ao lado). Ao fundo, no sombrio e verdejante valezinho, prende-nos a infantilidade da voz murmurosa de um regato enquanto, em volta, o olhar se perde nas sucessivas linhas dos montes dos pinhais bravios que precedem a montanha mal visível do Dianteiro e a profundidade côncava e perene do azul. O acesso ao recolhido lugar está em vias de ser facilitado. Um troço da estrada, em construção, dirige-se em linha reta, em homenagem ao turista que não tem tempo a perder, através da pacífica paisagem das oliveiras, despedindo-se do caminho velho junto do solar do Conde de Fijó. Se se fizer a visita de carro, sempre será aconselhável deixá-lo neste ponto e seguir a pé pelo caminho rústico!»

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    Quão diferente é tudo isto agora! Nem parece o mesmo local. O espaço está votado ao esquecimento, em redor já não se contemplam árvores de porte, nem regatos, nem fontezinhas. Não se escutam murmúrios gotejantes, pois o ruído dos carros em aceleração na autoestrada que rasga o vale, abafa tudo o mais e impede qualquer meditação. As paredes estão grafitadas, os canteiros sujos e adesleixados, o caminho enlameado,.... Ao longe, o monte do Dianteiro ainda se avista, mas os pinhais foram substituídos por construções recente dispersas sem qualquer ordenamento e os eucaliptos, omnipresentes, tomaram conta da paisagem. Nos caminhos, agora asfaltados, os automóveis estacionam de qualquer maneira! Restam duas lápides com dois poemas que testemunham a beleza inspiradora de outrora. Um poema de António Nobre e outro de José Régio inscritos em dois painéis de azulejos é o que resta da beleza idílica que se perdeu!

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   Uma pesquisa breve na internet informa-nos que o nosso patrono, Eugénio de Castro, também por aqui andou em busca de inspiração, tal como Alberto de Oliveira, um outro poeta da geração chamada neogarreistta que, nos finais do séc. XIX e inícios do seguinte, prolongaram o romantismo na literatura portuguesa. É dele o poema que transcrevemos:

 

No Penedo da Meditação

Aprende-se até morrer...

Mas eu fui mais refratário:

Morrerei sem aprender,

vida, o teu abecedário!

 

Nem a Dor, nem o Prazer,

no seu vaivém arbitrário,

Souberam dar ao meu ser

As regras do seu fadário.

 

O céu transborda de estrelas,

Mas é cifrado e secreto

Para mim, que não sei lê-las.

 

Cego, surdo, analfabeto,

De nada entendo o motivo,

Nem quem sou, nem porque vivo...»

 

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    E foi assim, com a alma cheia de poesia mas também com alguma revolta pelo estado de abandono em que encontrámos este local, que rumámos à nossa escola. resta dizer que o dia ainda nos reservava uma surpresa pois, após 20 minutos de espera na paragem do autocarro, fomos informados que os motoristas dos SMTUC se encontravam reunidos num plenário sindical, pelo que as carreiras estavam suspensas! Tivemos pois que regressar a pé! Valeu-nos que a chuva deu uma folga e assuim ficámos com exercício físico para uma semana!

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publicado por CP às 22:40
Sexta-feira, 16 de Março de 2018

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   A palavra Património deriva do latim Patrimonium, termo que, na antiga Roma, se referia aos bens herdados por via paterna. Essa herança, recebida dos antepassados, confere uma responsabilidade a quem a recebe, pois os herdeiros assumem assim o dever de a preservar e acrescentar, passando-a depois aos vindouros. Por este mecanismo de transmissão da memória se assegura a identidade dos grupos, das instituições, das nações e também.... dos clubes como o nosso! 

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    O nosso Clube, com o atual formato e com os atuais responsáveis, já existe há quase uma década, conforme podem comprovar fazendo uma pesquisa no arquivo do blogue. A fotografia que acima reproduzimos data de 2010, ano em que o João Aveiro, o terceiro a contar da esquerda no 1º plano, se juntou ao nosso clube. Ao seu lado direito está o João Tiago e, no plano superior encostado à coluna, podemos ver o Raúl. Foram estes três antigos membros do Clube, atualmente estudantes universitários, que nos receberam hoje à tarde para uma visita às secções da AAC. Observem bem as fotografias de baixo e vejam as diferenças.

 

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  Desde o dia em que esta ideia foi apresentada, os atuais sócios ficaram todos muito excitados, aguardando o momento de conhecer os nossos amigos mais velhos. Mal foram contactados, todos os antigos sócios se mostraram disponíveis. Outros, como o Vítor, o Duarte Silva e o David, também manifestaram vontade em participar nesta visita mas, porque tinham outros compromissos, não puderam estar presentes. Além destes, outros ainda, como o Alberto ou o Duarte Mendes, estudam em universidades fora de Coimbra, pelo que foi de todo impossível a sua participação.

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   Feitas as apresentações e apresentado o plano da visita, a Laura apressou-se a colocar uma questão pertinente ao João Tiago que nos recebeu nas escadas do Teatro Académico Gil Vicente: «Gostas de gatos?»

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   Os "velhos" sócios, que afinal não são tão velhos assim, aceitaram fazer a passagem de testemunho à nova geração num edifício muito simbólico: a Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra. Esta instituição centenária tem um conjunto de secções que completam a formação universitária dos estudantes. Porque ser estudante não é só estudar, a AAC oferece um variado leque de atividades culturais e desportivas, que vão desde o teatro ao cinema, da fotografia ao fado, ou dos desportos ao jornalismo. Os nossos guias pretenderam familiarizar os atuais sócios com este ambiente e com o verdadeiro espírito académico. Por isso, guiaram-nos num breve passeio por alguns departamentos da Associação Académica.

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   O João Tiago é estudante de Matemática, além de praticante de Badminton, o Raúl frequenta o curso de Bioquímica e o João Aveiro estuda Física, sendo ainda colaborador técnico da RUC, a Rádio Universidade de Coimbra. Foi ele que nos guiou. Primeiro fomos à sala d' A Cabra, jornal da Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra. Este jornal tem uma edição em papel, além da edição eletrónica. Tem colaboradores de diversos  cursos e Faculdades, e não só da licenciatura em Jornalismo embora, naturalmente, estes deem uma colaboração especial.

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   Recebidos na sala da redação, ouvimos uma breve apresentação sobre a história e  funcionamento deste jornal. Depois, antes da despedida rumo a outra secção, convidaram-nos a colocar questões. Após uns escassos segundos de hesitação e silêncio, eis que a Laura ergueu o dedo indicador, preparando-se para lançar uma pergunta que promete, doravante, fazer história nas nossas visitas. Na verdade, quando todos esperavam que ela satisfizesse alguma curiosidade ou esclarecesse uma dúvida, eis que, muito séria, a nossa jovem sócia, com uma vozinha muito firme, indagou: «Gostas de gatos?»

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   De seguida rumámos aos estúdios da RUC. Esta rádio da AAC foi fundada em 1986, embora as suas origens mais remotas recuem até aos anos 40 do século passado.  Depois de um período em que as transmissões regulares se faziam apenas à noite, em 1988 a RUC começou a emitir 24 horas por dia na frequência 107.9 FM, onde ainda hoje a podem sintonizar. As emissões da RUC também podem ser seguidas através da internet.

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   A foto da esquerda que publicamos acima é muito curiosa. Foi tirada no dia 28 de outubro de 2011, quando visitámos a delegação da Radio e Televisão de Portugal (RTP) em Coimbra. Se repararem bem, o mais alto dos visitantes, olhando de frente para a máquina fotográfica, sobre o lado direito, é o João Aveiro! Quem diria que, quase sete anos após, o mesmo João Aveiro nos haveria de receber nos estúdios da RUC, sentado na mesa do estúdio principal, na qualidade de diretor técnico! Digam lá que não é engraçado....

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   Antes de irmos embora, a Laura ainda teve tempo de colocar, mais uma vez, a sua pergunta preferida. Desta vez a uma estudante que se preparava para entrar em estúdio: «Gostas de gatos?»

   Depois de mais umas voltas pelos corredores do edifício, ouvimos uns acordes dos guitarristas da Secção de Fado que ensaiavam para a Serenata Monumental que se aproxima, antes de passarmos ao largo do estúdio do CITAC e rumarmos aos jardins exteriores. Atualmente, apresentam-se muito degradados, o que é uma pena, pois este local assistiu a momentos históricos muito importantes na vida da Academia.  Um dia voltaremos aqui para falar dessa crise de 1969. Por hoje, despedimo-nos, agradecendo aos nossos anfitriões a excelente visita que nos propiciaram. Esperemos que, daqui a uma década, os atuais sócios guiem uma visita semelhante aos que agora acabaram de nascer e que, daqui a dez anos asegurarão a continuidade do nosso Clube do Património! Para já, fiquem com uma foto antiga e adivinhem onde estão o Raúl e o João Tiago.

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publicado por CP às 20:54
Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018

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   Monsenhor Nunes Pereira nasceu na aldeia de Fajão, concelho de Pampilhosa da Serra, em dezembro de 1906. O seu pai era escultor de santos e faleceu quando Augusto, era esse o seu nome próprio, tinha apenas 9 anos: "Dele herdei este jeito para as artes e um razoável conjunto de ferramentas, com as quais iniciei a minha aprendizagem manual: plainas, serras, formões, goivas e o mais da arte". Foi nessas serranias distantes de tudo que ele viveu até à adolescência, contactando com a vida dura dos camponeses, com as suas tradições ancestrais, os seus hábitos e costumes que tanto o marcariam.

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   Optando pela vida eclesiástica, em 1919 entrou no Seminário de Coimbra, sendo ordenado sacerdote dez anos após. Foi pároco em Montemor-o-Velho, Coja e na igreja S. Bartolomeu, em Coimbra, até se aposentar. Entre 1952 e 1974 foi chefe de redação do jornal Correio de Coimbra, onde foram publicados muitas das seus trabalhos. Monsenhor Nunes Pereira desenvolveu uma atividade muito intensa e diversificada, dirigiu o Museu de Arte Sacra do Seminário, preocupou-se com o património cultural, produzindo muitos estudos e promovendo a sua valorização, investigou especialmente sobre a sua paróquia de S. Bartolomeu, assim como sobre os túmulos e o púlpito da igreja de Santa Cruz, tendo colaborado ainda no inventário cultural de Arte Sacra da diocese de Coimbra.

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   Fundador do Movimento Artístico de Coimbra e da Sociedade Cooperativa de Gravadores de Portugal, foi também sócio da Sociedade Nacional de Belas Artes. Possui numerosos artigos, poemas e ilustrações em jornais, catálogos, opúsculos e monografias. O seu espólio, constituído por centenas de objetos, senão mesmo milhares, segundo nos informou a Dr.ª Cidália Santos que nos conduziu nesta visita, estão depositados no Seminário. Devidamente catalogados e inventariados, estão agora expostos num pequeno museu que foi criado na cave do Seminário.

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 Nunes Pereira, apesar de nascido no interior recôndito do país, era um homem viajado. Andou pela Itália, foi a Paris, conhecia a Alemanha e a Holanda. Essas viagens marcaram-no profundamente, quer do ponto de vista pessoal e espiritual, mas também sob o ponto de vista artístico. No regresso dessas viagens, foi experimentando novas técnicas de expressão artística, como o desenho à pena, a escultura em madeira, a pintura, a gravura em metal, a xilogravura ou a monotipia.

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   Um dos aspetos mais marcantes deste pequeno museu é a exposição das máquinas e das ferramentas utilizadas pelo padre-artista na produção dos seus trabalhos. Na parede, podemos ver algumas fotografias ampliadas de Monsenhor a trabalhar. Nunes Pereira morreu no dia 1 de junho de 2001, aos 94 anos de idade. Disse-nos a nossa guia que, no dia em que faleceu, ainda dedicou alguns momentos à sua arte, podendo afirmar-se que trabalhou quase até ao último suspiro. Assim se entende a enorme obra que nos legou, a exigir um estudo por parte dos especialistas em História da Arte. A Drª. Cidália lamentou o desconhecimento que envolve esta ilustre personalidade, pois não são muitos os que reconheceu o seu nome, apesar de o seu nome ter sido atribuído a uma rua da nossa freguesia, mais precisamente a artéria que passa mesmo em frente ao supermercado do Corte Inglês.

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   A xilogravura foi a técnica de reprodução preferida por Monsenhor Nunes Pereira. É uma espécie de carimbo em que o gravador, utilizando objetos cortantes como um formão ou uma goiva, produz diversos entalhes numa superfície de madeira de forma a obter um desenho. Pode fazer os entalhes em negativo, para que a imagem seja impressa numa folha de papel depois de embebida a madeira em tinta, ou em positivo, para a gravura ser contemplada diretamente. Segundo os historiadores, esta técnica é muito antiga, e terá as suas origens na China, conhecendo grande divulgação no Ocidente a partir do séc. XVIII.

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   Monsenhor Nunes Pereira andava sempre com um pequeno caderninho e um lápis, desenhando constantemente, em qualquer circunstância. Na rua, num autocarro, numa sala de espera, ocupava o seu tempo morto a desenhar e, não raras vezes, surpreendia as pessoas, oferecendo-lhe os desenhos que produzia. Noutras ocasiões, aproveitava pequenos calhaus, ramos e troncos, plaquinhas de osso ou marfim, para, com um canivete ou outra ferramenta afiada, produzir objetos artísticos. Nesta mostra, numa vitrina central, podemos ver alguns desses surpreendentes objetos.

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   Além destas técnicas, Monsenhor destacou-se também à arte do vitral. As suas obras estão espalhadas por várias terras da região. Em Coimbra, na clínica de Santa Filomena, podemos apreciar o seu primeiro trabalho desta arte tão antiga. Quem visitar a igreja de S. José, pode ver o seu derradeiro trabalho e porventura o mais importante.

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   Interessou-se também pela recolha de contos tradicionais da sua região natal, que publicou e ilustrou. O painel que reproduzimos acima ilustra os diversos contos tradicionais que publicou com o título Contos de Fajão, que o Seminário de Coimbra se prepara para reeditar. Achámos particularmente engraçada uma das cenas em que a comunidade aldeã recebe a visita do sr. bispo, uma figura muito importante, ainda mais naqueles tempos e naquele lugarejo. O bispo ia montado numa mula que, ao parar para receber os cumprimentos populares, calcou o pé de um aldeão. Este, muito incomodado e contendo a dor, mas com vergonha de se dirigir à autoridade religiosa de forma menos respeitosa, terá desabafado de forma educadíssima: «Senhor Bispo, Vª. Exª. ainda se demora aqui muito tempo? ... É que a mula de Vª. Exª. tem um pé em cima da minha pata...»

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   Estas xilogravuras dos Contos de Fajão, a par de gravuras de Jesus, de Santos e do culto mariano, constituem o valioso espólio etnográfico e de Arte Sacra do Museu do Seminário Maior de Coimbra que convidamos todos os nossos leitores a visitar, conhecendo uma das mais interessantes personalidades da vida cultural e artística da nossa cidade e região.

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publicado por CP às 19:06
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