Sábado, 15 de Fevereiro de 2014

Voltámos à Sé Velha! Depois de há umas semanas atrás termos visitado o exterior do monumento, desta vez quisemos conhecer o interior deste magnífico templo românico, assim como o claustro gótico. Os sócios mais velhos do clube lembram-se certamente de uma visita em novembro de 2009. Vale a pena clicar na ligação e ver as fotografias desse tempo já tão distante! Dessa época em que o clube tinha 7 membros e não tinha meninas, restam o João Tiago e o Duarte Elvas. Voltemos à Sé Velha...

Uma Sé, ou catedral, é uma igreja sede de episcopado, isto é, encabeçada por um bispo. O bispado de Coimbra foi transferido de Conimbriga na sequência das invasões bárbaras e do progressivo abandono daquela cidade. Sabemos muito pouco desses tempos distantes, mas sabemos que Coimbra caiu sob domínio mouro em 714. Mais tarde, o rei Afonso III das Astúrias reconquistou-a em 878 embora, cerca de um século após, tenha caído novamente sob o poderio muçulmano. Só em 1064 foi definitivamente conquistada, como veremos. Nesses tempos da ocupação islâmica, a velha Aeminium romana chamou-se Qulumbriya. Aqui ganhou raízes uma importante comunidade cristã que manteve o culto, com algumas características muito próprias, bem como a organização do bispado. Desses tempos resta uma inscrição encontrada nos finais do séc. XIX com as palavras Mariae Virginis, pelo que aqui deve ter existido uma catedral primitiva, bem como uma mesquita, antes da atual Sé.

 

No séc. XII, Coimbra assumiu um papel importantíssimo no processo de independência de Portugal. Afonso Henriques deu uma especial atenção à cidade a partir da década de 30, destacando-se a fundação do mosteiro de Santa Cruz e a construção desta Sé. O bispo D. Miguel Salomão foi o principal impulsionador das obras que contaram sempre com o empenhado apoio régio que aqui fez a capital do reino, distanciando-se das intrigas e das influências da nobreza do norte. Daqui partiu Afonso Henriques para a conquista do sul e da linha do Tejo.

Mestre Roberto foi o arquiteto de origem francesa responsável pelo traçado e lançamento das obras. Roberto foi depois para Lisboa, conquistada em 1147, chefiar os trabalhos de construção da Sé, pelo que em Coimbra as obras foram dirigidas pelos seus colaboradores, um tal mestre Bernardo que, depois de morrer, foi substituído por mestre Soeiro. O modelo é inspirado nas basílicas romanas, edifícios polivalentes situados no forum  das cidades romanas, pelo que se diz que esta catedral tem uma planta basilical.

A Sé tem uma nave central e duas laterais com as galerias do trifório por cima. A abóbada de berço, muito sólida e imponente, cobre a nave central e faz lembrar, como reparou o Zé Carlos, a grande abóbada da catedral de Santiago de Compostela. Na cabeceira, vemos uma ábside central com a capela-mor, onde brilha há mais de quinhentos anos um belíssimo retábulo dourado, da autoria dos mestres flamengos Olivier de Gand e Jean D'Ypres. Este retábulo é dos finais do séc. XV e inícios do seguinte e é já um exemplar extraordinário do chamado gótico flamejante.

 

Nas ábsides laterais, temos duas capelas. Do lado esquerdo, a Capela de S. Pedro, com um retábulo de Nicolau Chanterenne esculpido em calcário de Ançã e datado do 1º quartel do séc. XVI. Do lado oposto, a Capela do Santíssimo Sacramento, da autoria de João de Ruão e datada de 1566. A ábside, que foi adaptada e alargada para receber esta obra, tem uma cúpula muito bonita e está preenchida com nichos que guardam muitas esculturas em dois patamares. Podemos ver, no andar superior ao centro, a figura de Cristo ladeada pelos Apóstolos e, no nível inferior, a Virgem e os Evangelistas.

  

Percorremos depois os braços do transepto, onde admirámos uma pia batismal da autoria do escultor Diogo Pires-o-Moço. Nas naves laterais estão diversos túmulos, destacando-se o de D. Vataça Lascaris, uma dama bizantina que acompanhou o séquito de D. Isabel de Aragão, da autoria do famoso escultor Mestre Pêro. 

 

A pia batismal (esq.) e o túmulo de D. Vataça (dir.) 

Seguimos depois para o claustro. Construído a sul da Sé, mais elevado e descentralizado, é uma das mais importantes obras da arquitetura portuguesa, pois é a primeira construção gótics no nosso país. Data de 1218 e serviu de modelo para muitos outros claustros que se viriam a construir no reino.

 O claustro da Sé em uma planta quadrangular e os arcos são ogivados, ainda que enquadrando arcos duplos de volta inteira. Foi recentemente restaurado e merecem especial atenção os capitéis. O programa escultórico da Sé Velha inclui 380 capitéis, é o maior do nosso país e encontra-se ao nível das construções francesas deste período. Aqui, no claustro, podemos apreciar com maior proximidade os capitéis, salientando o gosto naturalista e vegetalista.

 

  

 

Para concluir a nossa visita, se bem que não relatando tudo o que vimos, dispensámos especial atenção à arca tumular de D. Sesnando, colocada numa capela escavada na rocha, no corredor do claustro virado a sul. D. Sesnando foi o célebre conquistador de Coimbra no ano de 1064, durante o reinado de Fernando Magno, o pai de D. Afonso VI de Leão e Castela que, como sabem, foi o avô materno de Afonso Henriques.

Sesnando Davides era de provável origem judaica, filho de gente abastada da região de Tentúgal. Em 1026, ainda muito jovem, foi aprisionado pelos muçulmanos e levado para Sevilha, vindo a destacar-se pelas suas grandes qualidades, chegando mesmo a desempenhar cargos de elevada responsabilidade.

Por motivos que permanecem ignorados, Sesnando fugiu da Andaluzia e colocou-se ao serviço de Fernando Magno, incitando-o a tomar a importantíssima cidade de Coimbra. O rei acedeu e, depois de recolhido em oração em Santiago de Compostela durante três dias, avançou com as tropas e conquistou definitivamente a nossa cidade no dia 9 de julho de 1064, após um cerco que durou seis meses. Como recompensa, D. Sesnando foi nomeado conde, ou alvazil como diziam os moçárabes, com a responsabilidade de governar todos os vastos territórios que se estendiam desde o Douro até à região fronteiriça de Penela, a sul de Coimbra, e desde Lamego até ao litoral. D. Sesnando morreu em 1091.



publicado por CP às 08:53
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