Sábado, 13 de Fevereiro de 2016

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   Esta semana fomos ao Centro de Artes Visuais (CAV) visitar uma exposição de um artista australiano chamado Sam Smith, sob a orientação da Catarina. A exposição intitula-se Forma Lenta e é a primeira deste artista em Portugal. Smith nasceu na Austrália em 1980, embora resida e trabalhe em Londres. O seu trabalho incide sobre vários géneros e utiliza diferentes formas para se expressar, como o video, a fotografia, a escultura, a instalação e a performance.

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   Este artista explora, muito especialmente nesta exposição, as relações entre o cinema, a escultura e o espaço arquitetónico. A primeira instalação deste circuito é uma espécie de chave introdutória e explicativa. Uma grelha feita com retângulos que seguram uma fotografia e um aro circular são as formas básicas para abordar a exposição. Deste modo se oferece ao espetador uma ferramenta concetual que lhe vai permitir emoldurar o espaço e os trabalhos que vai visitar, explorando ao mesmo tempo a relação entre a realidade tridimensional e a sua representação fotográfica, naturalmente bidimensional. Afinal, é este mesmo processo que utilizamos quando vemos um filme.

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   Nos filmes, a realidade aparece-nos projetada numa tela bidimensional. Ao longo da história do cinema a moldura da tela não foi sempre a mesma. Ou seja, as proporções entre a altura e a largura do écrã formam diferentes molduras que interferem no modo como o nosso olhar capta a realidade representada no filme. É uma primeira forma de manipulação da realidade. Simplifiquemos: imagina uma fotografia. Se a puseres numa moldura oval dourada ou numa outra moldura retangular com desenhos geométricos berrantes isso não é indiferente pois, ainda que a imagem seja a mesma, o modo como a percebemos é muito distinta, uma vez que as relações que estabelece são diferentes.

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    Ao longo da história do cinema, utilizaram-se telas de projeção (molduras) com diferentes proporções. O primeiro filme que usou atores a desempenhar um papel foi rodado em 1893 por um cineasta chamado Wiiliam Dickinson. Essa cena ficou conhecida como Blacksmith Scene e foi exibida numa tela com uma proporção entre a altura e a largura que foi usada até meados do séc. XX. Esse formato era quase quadrado e tinha a relação de 1.33:1.

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   Desde então até aos nossos dias usaram-se mais três formatos, acentuando sempre o aspeto retangular da tela. Sam Smith apresenta-nos impressões de imagens retiradas dos filmes que pela primeira vez usaram esses diferentes formatos. Aparentemente, elas são totalmente negras mas, quando nos aproximamos e observamos com muita atenção, reparamos em sombras subtis, silhuetas que se descobrem para lá da escuridão. Isto é, há uma realidade não percetível ao primeiro olhar que só se revela quando nos obrigamos a olhar mais detalhadamente. Quer dizer que a nossa vontade manipula o olhar e que os olhos manipulados descobrem realidades ocultas. A realidade muda não só conforme a máquina e a técnica de representação, mas também conforme o enquadramento e, descobrimos agora, conforme o nosso olhar.

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   Na sala seguinte, damos mais um passo nesta viagem proposta pelo artista. Vemos uma máquina que projeta um filme, com aproximadamente 5 minutos de duração, que mostra a máquina que filmou o filme! Confusos? Realmente isto está a ficar um bocado complicado, mas não é mais do que a máquina a filmar-se a si própria, usando para o efeito um espelho colocado à sua frente. A máquina de filmar quase que se personifica, é o protagonista egocêntrico deste filme e nós observamo-la como se ela nos observasse. De vez em quando, aparece um senhor, que deve ser o artista, a manipular a lente da câmara, ajustando a lente e desligando-a.

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   A realidade que nós vemos depende então de uma série de mecanismos e manipulações, não tem existência própria. É como se fosse um jogo de espelhos colocados em frente um do outro e que se refletem permanentemente até ao infinito, construindo novas realidades. Logo o Gonçalo teve uma ideia brilhante: «E se eu fotografar a imagem que a câmara filmou?» É verdade, não fiquem confusos, mas o facto é que a teia se  tornaria ainda mais complexa, pois juntaríamos o Gonçalo, o olho do Gonçalo, a vontade dele e a sua câmara fotográfica a toda esta confusão e, no final, a realidade que obteríamos não seria exatamente aquela que a câmara deveria ter filmado no início disto tudo! Uffff!!

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   Slow Fragmentation é o título de um filme em que o autor manipulou as imagens filmadas de um cenário de um outro filme muito famoso de um importante cineasta francês chamado Alain Resnais. Smith, ao visitar o cenário original do palácio barroco onde esse filme foi rodado constatou que a realidade não correspondia às imagens mostradas na película, ou seja, a realidade tinha sido manipulada. Por isso, utilizando as modernas tecnologias digitais, o artista manipulou as imagens, introduzindo elementos como mãos e um olho gigante, além de uma série de captações por satélite desenhadas sobre uma quadrícula,o  que remete para os processos da cartografia aeroespacial. O olho gigante, sem corpo e colocado no espaço, mostra como é o olhar que produz a paisagem. Na atualidade, as diferentes formas de olhar tecnologicamente, recorrendo ao satélite e já não apenas às máquinas fotográficas e de filmar, produzem realidades e mundos diferentes.

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    Além disso, existe uma estrutura colocada defronte da tela em que o filme é projetado que recorre às mesmas formas básicas daquela instalação inicial, ou seja, um círculo e uma grelha geométrica. Agora podemos ter a experiência real de observar o filme através desta grelha que nos emoldura o olhar e delimita o campo de visão. Demonstramos assim, na prática, que o olhar se submete a muitas circunstâncias e condicionalismos que ajudam a determinar a realidade que olhamos.

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   Negatives 2 é o título de um filme exibido num aparelho de televisão que mostra  um conjunto de estranhas formas escultóricas produzidas apenas para filmar e que foram depois destruídas. Aparentemente simples, este é o processo inverso da escultura clássica. Quer dizer, os escultores, antigamente, representavam uma imagem de uma pessoa em bronze ou em pedra de forma a que a imagem dessa pessoa se tornasse durável, isto é, subsistisse para lá da morte da personagem. Deste modo, na atualidade, conhecemos o rosto dos imperadores romanos de há 2000 anos, por exemplo, uma vez que as suas estátuas em pedra chegaram até nós.

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    Smith faz ao contrário, isto é, produz esculturas não duráveis, uma vez que as destrói, apenas para as filmar, sabendo que o filme digital é imaterial. No entanto, as imagens que ele destruiu perduram no filme que ele filmou e assim penetram na nossa memória de espetadores através do nosso olhar e aí se tornam duráveis. Tal é o poder da fotografia, do cinema e do video!

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   Assim, esta aproximação da fotografia e do video à escultura torna-se muito interessante, tanto mais que no momento seguinte do nosso percurso vemos um conjunto de objetivas de máquinas fotográficas - o tal olho tecnológico que tudo vê e produz novas realidades - que se torna ele próprio durável, ou seja, escultura! É muito engraçado seguir o processo criativo de Sam Smith: eis que temos agora o instrumento usado para olhar feito objeto do nosso olhar! E já repararam no Gonçalo a olhar para a câmara? E lá ao fundo, reparam na grelha sempre presente desde o início?

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   Subimos ao piso superior do CAV para concluir a nossa visita, assistindo a um filme intitulado Form Variations. É um exercício a partir de um plano inicial de um filme de um famoso cineasta italiano chamado Michelangelo Antonioni. Tudo aqui é produzido como se fosse um filme autêntico: tem um realizador, uma banda sonora, um diretor de fotografia, personagens, tudo! Só não há diálogos. E lá nos aparecem os objetos em diferentes situações, emoldurados de maneiras distintas, alguns que vimos na exposição surgem agora colocados em situações novas, as mesmas formas básicas, o círculo, a esfera, as grelhas geométricas como se fossem auxiliares de composição ou linhas organizadoras do nosso olhar. O filme é lento, em câmara lenta, os objetos ganham assim uma forma intrigante, pois que é difícil articular o plano bidimensional do ecrã com a tridimensionalidade que as peças adquirem no jogo de sombras e luz, bem como na combinação dos volumes entre si. Variações da Forma é uma tradução literal do título. Forma Lenta  é o título da exposição. Fiquem com a reportagem da esectv:

 

Nota: este texto foi redigido a partir de um prospeto / guião facultado pelos serviços pedagógicos do CAV. O texto baseou-se ainda na intervenção da Catarina Portelinha que nos guiou e a quem agradecemos a competente preleção. 



publicado por CP às 15:09
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