Domingo, 04 de Junho de 2017

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   Após um interregno de várias semanas por causa da greve, do ensaio para o sarau e ainda por causa da visita do Papa, regressámos às nossas atividades com um safari fotográfico no Museu Nacional Machado de Castro. A ideia foi aproveitada a partir de uma sugestão da Dr.ª Fernanda Alves, técnica superior do Museu. Nós pusemos em prática uma versão simplificada dessa sugestão, com poucas regras: 1. Os alunos organizam-se em pares e cada par deve fotografar o maior número de animais  nas diversas coleções do Museu; 2. Cada "tiro" vale um ponto; 3. Se uma foto apanhar mais do que um animal, só conta um ponto. 3. Animais mitológicos não contam, pois se são imaginários não se caçam; 4. Quem for apanhado a gritar ou a correr nas galerias do Museu sofre uma penalização de 2 pontos; 5. Quem tocar nas peças perde 5 pontos.

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   Organizados os pares, telemóveis em riste, lá iniciámos a nossa caçada. À partida, deram-nos logo uma ajuda preciosa: não vale a pena descer ao criptopórtico, aí não há bichos! Trata-se de uma informação valiosa, pois, além de todas as regras, havia um limite de tempo: às 16:00 ninguém poderia disparar nem mais um tiro, todos se deveriam concentrar no pátio central para proceder à contagem dos troféus! Quem somasse mais pontos seria o grande campeão do Safari.

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   Alguns animais são fáceis de apanhar, como os bois e as vacas, por exemplo. Não só porque são muito grandes e se avistam facilmente, como se encontram em sítios previsíveis. Ou alguém ignora que não há presépio sem boi? Assim, identificada uma Natividade - pintada, esculpida ou gravada, tanto faz - caça-se logo um bovino, um asinino e, com sorte, três ou quatro ovelhas, sem contar com as aves que os artistas muito gostam de acrescentar aos cenários para melhor adornar a cena. Apesar de tudo, há surpresas agradáveis, como uma manteigueira em forma de vaca que caçámos na coleção de porcelanas.

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   Outro "inocente" muito fácil de capturar é o manso cordeirinho. Pudera, o S. João Batista está sempre abraçado a um anho, e como ele é uma das figuras mais representadas na iconografia cristã, não surpreende que o vejamos em todo o lado, esculpido, pintado, repuxado em prata dourada, ou esmaltado. O Cordeiro de Deus, ou Agnus Dei como se diz em latim, é igualmente um símbolo de Cristo e, também por isso, imensamente representado e fácil de fotografar.

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   Outros animas metem-se mesmo a jeito para levar um tiro, como esta terrina em forma de cabeça de porco, enormíssima, que encontrámos ao virar uma esquina, toda sorridente na vitrina iluminada. 

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   De resto, esta secção é o paraíso dos caçadores. Há animais em todo o lado, basta apontar e ficamos logo com um bicho na mira. Seja caça ligeira, como os patos e cisnes, papagaios e pavões, coelhos e outros que tais; seja caça grossa, como os elefantes e javalis.

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   É necessário estar sempre como o olhar atento e não é por ser uma atividade perigosa que nos organizámos em pares, mas sim porque quatro olhos vêem melhor do que dois. É que, por vezes, há animais que se escondem no emaranhado decorativo, estando completamente camuflados, como o pássaro que mostramos abaixo. Já o leão deve ter pensado que escaparia assim estilizado, mas não. Frágeis passarinhos camuflados ou ferozes leões estilizados, nada escapa aos tiros dos nossos caçadores.

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  Às vezes, é preciso pousar a espingarda e usar outras armas para capturar certos animais, como por exemplo, este peixe que também não escapou às malhas estreitas da nossa concentração de exploradores experimentados.

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   Com o papo já cheio por estas paragens, partimos para outros territórios com os olhos bem abertos. Nas salas de pintura, os cavalos são os mais fáceis de apanhar, não oferecem resitência nenhuma, estão em todo o lado e às manadas. Há cavalos de todas as cores e tamanhos, raças e arreios. Basta apontar e apanhar:

 

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   Às vezes, há uns disparos que sabem melhor do que outros. Por exemplo, quando vislumbramos no topo superior de uma pintura, muito disfarçado entre a moldura e o fundo nevoento, um cisne com contornos difusos. «Olha ali um pato, apanha-o!», grita o nosso parceiro. E logo um disparo certeiro capta o indefeso pato. Mais um troféu! Ora vejam lá se conseguem identificar o "pato":

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   Observem agora a perícia do nosso caçador, de telemóvel em punho, no exato momento em que apanhou o "pato" que afinal era um cisne, com a sua "arma" sem flash, claro:

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  As pombas são as mais fáceis de capturar, pois como a iconografia cristã representa o Espírito Santo sob a forma de pomba, elas estão em todo o lado, como neste óleo da grande pintora Josefa de Óbidos, um famoso Pentecostes, cena religiosa em que o Espírito Santo desce sobre os apóstolos e sobre a Virgem.  Nós apanhámos a pomba, bem gorduchinha, diga-se:

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   Uma tábua de Vicente Gil, o mais importante representante da escola regional de pintura de Coimbra no século XVI, escondia, num dos cantos inferiores, este enigmático mocho que poucos notaram. Reparem como nos fita frontalmente, parecendo que nos questiona, ou censura o nosso comportamento:

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    No segundo plano dos quadros, encontramos muitos bichos. Alguns parecem surpreendidos pelo nosso olhar, pois estão tão desenquadrados relativamente às cenas centrais que não é fácil entender o que fazem ali, discretos, senão quase ocultos. Parece mesmo que estão à espera de ser apanhados pelo nosso olhar. Normalmente, evidenciam um desenho bem traçado, atestando a qualidade dos artistas, ou dos seus ajudantes ansiosos por mostrar o seu talento. Reparem neste galgo que brinca com um cavalo no meio de uma floresta, posta a servir de pano de fundo a uma cena sagrada:

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   Na coleção de escultura, além dos habituais cavalos e ovelhas, pombas e outros que tais, encontramos surpresas interessantes, como este passarinho, tão gracioso, pintado num friso de um retábulo:

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   Na escultura, encontramos os bichos mais expostos ao olhar dos visitantes. Na maior parte das vezes, os animais assumem um lugar importante, como o cão que lambe a ferida no joelho de S. Roque, ou a ovelha que salta para o colo de Santa Inês. São tão evidentes que não escaparam a ninguém. No retábulo de Tobias, um peixe enorme disputa mesmo o lugar central. Foi boa a caçada por estas paragens. Para atestar a nossa pontaria, deixamos uma bela águia em pedra de Ançã que se escondia numa esquina discreta:

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   Os desafios maiores, no entanto, surgiram na secção de ourivesaria. Num corredor escurecido, só os olhares mais atentos, e foram tão poucos, conseguiram apanhar os animais camuflados nas filigranas e nos rendilhados das pratas repuxadas e lavradas. Claro que não falamos dos leões postos na base do relicário da Rainha Santa Isabel, esses todos caçaram, não passam despercebidos a nenhum visitante:

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    Referimo-nos sim a estes que reproduzimos de seguida. São tão discretos que nenhum caçador os viu. Desafiamos mesmo os nossos leitores, apenas a título de exemplo, a pôr à prova a acutilância do seu olhar de caçador, identificando os animais nas figuras. Se não os conseguirem ver nestas fotos, talvez não seja má ideia visitar o museu e fazer o teste in loco. Se, no local, não conseguir vislumbrá-los, aconselhamos uma ida ao oftalmologista:

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   Um dos animais mais fáceis de apanhar, mas um dos mais surpreendentes, foi o caranguejo que agarra uma cruz nas suas pinças. Aqui, vale a pena contar a história associada a esta peça, pois está relacionada com um presumível milagre de S. Francisco Xavier no Oriente, mais precisamente nas ilhas Molucas. Conta-se que o padre jesuíta, missionando nessas longínquas paragens, confrontou-se com uma enorme tempestade. No navio em que seguia, todos os tripulantes se viraram para si, exigindo-lhe que apaziguasse a fúria dos elementos que ameaçava naufragar a embarcação. Foi assim que Francisco, posto à prova pelos gentios, apontou a cruz que trazia às ondas do mar e logo elas se acalmaram. Porém, deixou escorregar a cruz que se perdeu nas profundezas oceânicas. Alguns dias após, já com todos a salvo, passeando na praia, eis então que um caranguejo emerge das águas trazendo nas pinças erguidas ao céu a cruz que o Santo deixara escorregar.

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   Nas salas reservadas aos têxteis e mobiliário, encontrámos igualmente muita matéria para fotografar: galos e cães, lobos e lagartos, pássaros e muitos outros. Ficam alguns exemplares:

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    Um dos momentos mais empolgantes do nosso safari foi exatamente na sala dos têxteis, onde pudemos apreciar uma magnífica colcha chinesa com lindíssimos pássaros bordados. Ainda bem que os bichos que caçamos são obras de arte e as nossas "espingardas" são máquinas fotográficas digitais, caso contrário seríamos péssimos caçadores, pois seríamos incapazes de disparar! Será que algum dos nossos leitores dispararia sobre pássaros destes? A colcha foi recentemente doada por particulares e foi acrescentada ao espólio do Museu Machado de Castro.

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      E que dizer desta lindíssima corça? Alguém seria capaz de disparar sobre esta colcha sem se lembrar do Bambi?

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    Aproximando-nos do final da nossa expedição, ainda houve tempo, na sala das coleções orientais, para caçar mais uns insetos (ainda não tinham aparecido!), uma tartaruga, patos e outros que tais!

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   No final, reunidos no pátio central, conforme combinado, fizemos o balanço final. Foi muito positivo: ninguém gritou, não houve correrias e nenhum caçador tocou nas obras expostas. Nenhum usou o flash e não houve penalizações. Procedemos à contagem dos bichos capturados e.... os grandes vencedores, com uns incríveis 173 pontos, foram.... o Heitor e o Lima! Parabéns!

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publicado por CP às 20:47
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