Sábado, 09 de Janeiro de 2016

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   Nesta primeira semana do novo ano de 2016, voltámos ao Museu Machado de Castro para visitar a exposição de Rui Chafes e Pedro Costa intitulada Família. Durante o 1º período ensaiámos e apresentámos uma pequena visita guiada performativa a esta exposição e, no próximo dia 16 de janeiro, faremos ainda uma terceira e última apresentação. Já conhecemos muito bem este espaço mas desta vez, conduzidos pela Magda, tivemos oportunidade de conversar mais demoradamente e visitar a exposição com mais atenção.

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   Começámos o nosso diálogo a partir da projeção de uma imagem do célebre quadro de Théodore Géricault (1791-1824) intitulado A Jangada de Medusa, que está exposto no Museu do Louvre, em Paris. A Magda contou-nos a história que serviu de inspiração a esta famosa tela e, a partir daqui, demos um salto para uns grafítis de um artista contemporâneo muito conhecido e enigmático, pois que não se sabe quem é, que assina os seus trabalhos com o nome de Banksy. De entre os vários trabalhos que o celebrizaram, espalhados um pouco pelas paredes de todo o mundo, analisámos uns que produziu recentemente na cidade francesa de Calais, onde se têm acolhido muitos milhares de refugiados a aguardar autorização de entrada no Reino Unido.

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   O confronto entre as duas obras levou a nossa conversa para rumos surpreendentes. Por um lado, não conseguimos evitar a comparação entre os dois momentos em que os trabalhos foram produzidos, mostrando que o nosso tempo não se pode desligar do passado e que, por isso, a arte contemporânea estabelece pontes com os tempos idos, obrigando-nos a refletir de forma mais aprofundada acerca do nosso mundo e das relações entre o passado e o presente. À medida que a nossa conversa se foi desenrolando, alguns de nós iam selecionando, de entre um monte de cartões contendo diversas palavras, as que se enquadravam com a nossa reflexão: Contemporâneo, Presente, Trabalho, Passado, Vida, Atenção, Ver, Olhar. Vendo bem as coisas, e considerando as palavras escolhidas, a nossa conversa não andou muito desviada das preocupações do nosso tempo e ajudou-nos mesmo a compreendê-lo um bocadinho melhor. Afinal, a arte não é uma coisa inútil, nem é uma relíquia dos museus!

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   Chegados aqui, ainda mais perturbados ficámos quando a Magda nos mostrou outro dos grafítis de Banksy em Calais que retrata o célebre Steve Jobs (1955-2011). Inicialmente ficámos surpresos, tanto mais que alguns de nós nem sabiam quem era este senhor, mas quando a Magda nos disse que era o fundador da Apple, a empresa que criou os iphones, os ipads e tantos outros aparelhos tecnológicos que são símbolos do nosso tempo, logo nos interrogámos: «mas o que é que isto tem a ver com a nossa conversa?» Tudo parecia meio absurdo até que a Magda nos revelou que este senhor era filho de um refugiado sírio! Assim, de repente, tudo ganhou sentido, um sentido perturbador! Ou seja, um dos homens mais influentes do nosso tempo tem um passado de refugiado o que permite analogias óbvias com a atualidade e suscita interrogações perturbadoras acerca da crise dos refugiados e dos preconceitos com que muitas vezes olhamos para essas pessoas que, tentando escapar à morte na Síria, buscam proteção na Europa.

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   Percebendo a complexidade das relações entre o passado e o presente na construção da nossa identidade, analisámos de seguida uma magnífica escultura de Bernini (1598-1680), intitulada Apolo e Dafne. Segundo a lenda da Grécia antiga, o deus Apolo, famoso pela sua beleza, foi enfeitiçado e condenado a perseguir uma  ninfa chamada Dafne que, por sua vez, também fora condenada a repudiar o amor de Apolo. Temos então uma situação estranha: Apolo a perseguir Dafne e Dafne a fugir de Apolo! Foi então que a rapariga, vendo-se alcançada pelo deus, suplicou ao seu pai que a socorresse. Este, que também era um deus, vendo que Apolo já tocava os cabelos da filha, enfeitiçou-a, transformando-a num loureiro no exato momento em que Apolo a tocava. É esse instante que Bernini esculpiu em mármore quando tinha somente 24 anos!

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    Esta obra de arte é uma das preferidas de Rui Chafes que sobre ela escreveu: «Bernini dedicava-se à ousada realização do impossível: captar o segundo mágico em que um corpo jovem e quente se transforma numa árvore imóvel. (...) só houve, até hoje, um artista capaz do assombro de captar esse preciso segundo da transformação da pedra em vento: Bernini.» Conhecida esta admiração de Chafes por Bernini, e sabendo como o escultor considera a importância do passado na definição da sua identidade artística, podemos apreciar de outro modo as relações formais entre a escultura de Bernini e a de Chafes que a Magda nos apresentou de seguida e que se intitula Quero Tudo de ti.

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   Após esta conversa, descemos aos subterrâneos do criptopórtico, onde está patente a exposição, que nós já conhecemos, de Rui Chafes e de Pedro Costa intitulada Família. Este é o espaço ideal para prosseguirmos a nossa reflexão, já que a memória dos tempos se romanos cruza com a intervenção dos artistas contemporâneos. Mais uma vez, passado e presente tecem uma malha que nos lança muitos desafios interpretativos. Na parede, Rui Chafes colocou uma espécie de farrapos esvoaçantes, feitos de chapa negra de ferro. Parece que sentimos um vento que não existe e que faz drapejar um material que não drapeja! E tudo fica mais inquietante quando ouvimos o título deste trabalho: Murmúrio... 

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   Nas galerias do criptopóritco sobre o qual há aproximadamente dois milénios se edificou o forum da antiga cidade romana, começa a construir-se na nossa imaginação uma vaga memória feita de formas, sons, silêncios e escuridão. Rui Chafes confessa que, durante a conceção e montagem desta exposição, teve sempre presente a ideia das crianças a correr e a brincar na praça central da cidade. Restam as sombras, os murmúrios, a memória,... Mas restamos também nós, porque afinal somos os herdeiros, os sucessores, das crianças desse tempo! Somos diferentes, este espaço é diferente, mas não existiríamos sem esse passado!

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   Sussurro foi o título que Chafes deu a este outro trabalho, constituído por uma placa ondulada de ferro que parece balouçar, empurrada por uma ligeira brisa (lembram-se de Bernini?). A sugestão suave do vento a percorrer estas galerias tão antigas parece que prolonga a existência desses tempos e das pessoas que aqui viveram. A escuridão, o silêncio e a aragem tornam-se assim parte desta experiência estética. Por isso, foi essencial manter o silêncio durante o percurso, se bem que alguns meninos tenham muita dificuldade em satisfazer este pedido...

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 Cheiras a Guerra é o estranho título desta escultura que parece uma cotonete gigante, como disse o Tomás. Está muito tenuemente iluminada, apenas com um feixe muito fraco, exigindo um esforço de adaptação à escuridão para que possamos distinguir as formas e os contornos. Ao cabo de alguns segundos, começamos então a captar as estranhas impressões que nos marcam o olhar. A esfera superior parece um capacete? Uma bola? A cara de uma formiga? E se olharmos para baixo? Vemos tudo igual só que ao contrário: uma esfera inferior igual à outra! Que estranho!

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   Nas celas do corredor central do criptopórtico, com o ambiente dominado pela escuridão, visionámos um conjunto de fotografias do cineasta Pedro Costa, selecionadas a partir do seu último filme intitulado Cavalo Dinheiro. Na verdade, são sequências de imagens de alta definição projetadas em movimento muito lento. São tão expressivos estes rostos que parecem reais! O relevo da parede em que as imagens são projetadas reforça o realismo de tal modo que, no meio daquela escuridão tão espessa que quase se sente na pele, parece que o sofrimento das figuras nos envolve. 

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   Percorremos depois a galeria do criptopórtico onde estão expostas as peças de maior dimensão. São novamente esculturas de Rui Chafes. Enigmáticas, misteriosas, atraentes,... Parece que chegaram de um tempo e de uma dimensão diferentes e forma postas ali para nos inquietarem. «Parece um par de baquetas gigantes!» - exclamava um. 

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  «Uns suspensórios!». «Nada disso! É uma daquelas coisas que se mete nos cavalos!» «Uma corda esquisita!» «Um caixão!» Enfim, foram muitas as tentativas para identificar estas esculturas de Rui Chafes, mas todas em vão. Não é que esteja mal pois, como disse a Magda, desde que o nosso esforço para dialogar com as obras de artes seja sincero e genuíno, todos os caminhos são possíveis, todos estão certos. Na arte não há caminhos certos e caminhos errados, e muito menos na arte contemporânea!

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    E assim nos despedimos do Rui Chafes. Não é ainda a despedida final, pois que, para a semana, na sede do CAPC no Jardim da Sereia, temos agendado um encontro com o artista! Vai ser inesquecível, o culminar de todo o nosso trajeto com o vencedor do Prémio Pessoa 2015, um dos mais importantes galardões culturais instituídos no nosso país e que o nosso artista venceu no anom que acabou há poucos dias. O facto de ele se disponibilzar para se encontrar connosco enche-nos de orgulho. Até lá, conforme prometemos, temos que pensar numa pergunta para lhe fazer,.... Ah! E não esquecer que, no dia 16 de janeiro, pelas 10:00, temos que estar outra vez no Museu para a última apresentação! Até para a semana!

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publicado por CP às 18:25
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