Sábado, 01 de Novembro de 2014

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 Esta semana recebemos na nossa escola o sr. Eliseu Fernandes que nos veio falar de um tema muito interessante: o restauro de livros antigos. O nosso convidado não é um profissional desta área, tendo-se interessado apenas depois de se ter aposentado da sua carreira profissional. Foi então que se inscreveu num curso de formação e, depois de aprender as bases técnicas deste trabalho, ofereceu-se como voluntário na Confraria da Rainha Santa Isabel, no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, para ajudar à recuperação do importantíssimo acervo bibliográfico desta instituição.

CIMG5579.JPG Esta Confraria foi criada no séc. XVI e, ao longo dos tempos guardou e acumulou centenas de livros impressos e manuscritos, quase todos religiosos. O passar do tempo, a incúria e as vicissitudes da agitada história de Portugal no século XIX provocaram a degradação deste espólio livresco e documental.

A título de exemplo, durante as invasões francesas, entre 1807 e 1810, o convento foi utilizado como quartel das tropas napoleónicas. As freiras, temendo o saque e a destruição dos seus bens, entre os quais os livros que eram raros e de grande valor, decidiram escondê-los em arcas e guardá-las nos esconsos arrumos do sótão. Naturalmente que aí as condições de conservação não são as melhores, pelo que a degradação dos livros acelerou consideravelmente. De tal forma que, quando foram reencontrados, há apenas uma escassa década e meia, estavam, na sua maior parte, num estado lastimável. Este é apenas um exemplo das peripécias que a biblioteca sofreu, porque a extinção das ordens religiosas e o posterior encerramento definitivo do convento, bem como a cedência das instalações ao exército na sequência da revolução republicana, tudo contribuiu para a deterioração deste valiosíssimo património.

CIMG5572.JPGRecuperar esta biblioteca foi pois uma prioridade da Confraria. Para isso, estabeleceu parcerias com diversas entidades públicas e privadas, contando ainda com voluntários como o nosso convidado, para, todos juntos, cumprirem a tarefa urgentíssima de salvar os livros antigos. É importante lembrar que esta atividade é muito cara e muito demorada. Em média, um livro não muito volumoso demora um ano inteiro a ser restaurado! 

CIMG5574.JPGPara manusear estes livros antigos é necessário equiparmo-nos previamente com uma série de apetrechos como luvas, para evitar contaminar o papel com os microorganismos que transportamos nas nossas mãos, mas também para evitar que os micróbios que se desenvolvem nas folhas possam atingir-nos. Na verdade, este ambiente do papel velho, envolvido em capas de pergaminho, é muitas vezes propício ao desenvolvimento de micróbios que podem provocar reações alérgicas graves senão mesmo outras doenças. É muito frequente encontrarem-se entre as páginas destes livros velhos insetos mortos, excrementos de ratos e outros roedores, cabelos e pelos, etc. Por isso, além das luvas, exige-se a utilização de uma máscara, de óculos de proteção e de uma bata. Desta vez, porque era apenas uma exemplificação, o sr. Eliseu usou apenas um par de luvas.

CIMG5589.JPGNo verão do ano passado, foi organizado um colóquio-exposição no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, com a participação de diversos estudiosos e especialistas na conservação e restauro de livros antigos. A ideia foi reunir num evento científico todos os que se dedicam a esta tarefa de recuperar e estudar as livrarias monásticas portuguesas. A mostra teve lugar nas galerias do convento. Nós lamentamos o facto de não termos tido conhecimento, pois teríamos visitado a exposição. Restou-nos apreciar o catálogo.

catálogo.jpgDurante o trabalho de restauro, sempre muito minucioso e exigindo muita paciência, os técnicos deparam-se com muitos problemas, desde folhas rasgadas, roídas pelos ratos, páginas manchadas com saliva ou com pingos de cera, capas danificadas, etc. Ainda que nem sempre se consiga reconstituir o original, quase tudo tem uma solução, pois é sempre possível, pelo menos, conservar o existente. Para isso, os técnicos de restauro usam uma série de ferramentas e materiais como bisturis, espátulas, pincéis, folhas de papel japonês para remendar as páginas originais, colas especiais que facilmente podem ser removidas, prensas e até miniaspiradores concebidos para este ofício e pequenos ferros de aquecimento para desdobrar vincos dos cantos das páginas.

CIMG5586.JPGPor vezes encontram-se coisas surpreendentes nas páginas de um livro antigo. Nós vimos alguns exemplos, como um longo cabelo loiro de uma freira, certamente caído durante a leitura, até figuras de santos e cenas bíblicas recortadas e aproveitados de outros livros.Surgem também folhas de plantas e flores colhidas num qualquer jardim e guardadas no meio dos livros durante séculos. Encontram-se igualmente cartas de amor escondidas pelas religiosas, pois era frequente que muitas fossem colocadas nos conventos contra sua vontade para impedir casamentos indesejados pelas famílias. O mais engraçado dos achados foi uma receita afrodisíaca escrita em japonês antigo que foi escondido na lombada de um livro. Quando achada, foi remetida para a Fundação Oriente, em Lisboa, para ser decifrada. Porém, como ninguém sabia ler aquilo, o documento foi foi enviado para o Japão, aguardando-se o resultado da consulta.

CIMG5582.JPGE foi assim, conversando sobre livros antigos, que passámos uma boa tarde com o sr. Eliseu Fernandes, a quem agradecemos a disponibilidade e a lição que nos deu. Esperamos novas iniciativas e prometemos que na próxima exposição lá estaremos a apreciar o fruto deste trabalho tão paciente e tão importante para a preservação do espólio bibliográfico da Confraria da Rainha Santa Isabel. Obrigado e até à próxima! 



publicado por CP às 12:15
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