Sexta-feira, 04 de Novembro de 2016

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   Esta semana fomos visitar uma República. As Repúblicas de estudantes são residências comunitárias típicas da nossa cidade, quase todas fundadas no século passado, embora as suas origens remotíssimas remontem aos tempos medievais e à fixação da própria universidade. Viver numa República é uma forma económica e muito gratificante de viver a vida académica, pois aqui se geram laços de amizade que perduram para toda a vida. As Repúblicas acolhem especialmente os estudantes oriundos das zonas mais recônditas do país. Estas comunidades de estudantes universitários constituem um símbolo da Academia e foram incluídas, enquanto património imaterial, na recente decisão da UNESCO que classificou a Universidade de Coimbra, incluindo os edifícios da Alta e da Rua da Sofia, como Património da Humanidade. 

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    Foi uma destas Repúblicas, a «República da Praça», que nós decidimos visitar esta semana. Embora localizada na Rua João de Deus, que liga as ruas Antero de Quental e Lourenço de Almeida Azevedo, o seu nome indica a sua origem e o local onde foi criada: a Praça da República, um pouco mais abaixo. O trocadilho é muito engraçado, pois a República da Praça foi criada na Praça da República, como residência de estudantes, nos meados do século passado. Só posteriormente, em 1989, a residência foi considerada Solar, classificação prévia à sua constituição como República, em 1996.

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    Fomos recebidos e guiados na nossa visita pelo Rui, pelo Tiago e pela Inês, três dos atuais repúblicos - assim se chamam os residentes - que amavelmente acederam ao nosso pedido e nos contaram a história, já longa e repleta de peripécias, desta comunidade estudantil. Neste momento são sete os residentes, sendo que a Inês é a única rapariga. Além dos repúblicos há que contar com os comensais, isto é, aqueles que aqui tomam as suas refeições, mas não residem. Há ainda os amigos e os antigos moradores. O Tiago contou-nos que todos são bem-vindos e que, mesmo depois de concluirem os estudos e abandonarem a cidade, têm sempre a porta aberta quando quiserem fazer uma visita, levando mesmo uma chave de casa. Na verdade, os laços que aqui se forjam durante o período de vida em comum são tão fortes que nunca se perdem.

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   A «República da Praça» está instalada nesta moradia, que foi uma antiga vivenda particular antes de ser uma clínica médica, há muito pouco tempo, há um ano sensivelmente, depois de terem sido desalojados das suas instalações originais num prédio na Praça da República. Há uns anos atrás, o proprietário decidiu desalojar os estudantes, recorrendo a uma ação judicial de despejo, já que o acordo não foi possível. O processo foi muito agitado e arrastou-se durante muito tempo, gerando-se mesmo alguns conflitos, como numa ocasião que que o proprietário decidiu cortar a água aos estudantes, tentando assim que eles saíssem da casa. Porém, eles resistiram e recusaram-se a abandonar a sua República, daí resultando o lema que orgulhosamente pintaram numa parede da casa atual: «Os que por falta de água nunca passaram sede.»

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    Na sequência desta disputa, os repúblicos, sempre com o auxílio de amigos e antigos residentes mais velhos que os ajudaram na condução deste processo, exigiram uma indemnização compensatória. A decisão do tribunal acabou por lhes ser favorável e os estudantes, para demonstrarem que não estavam interessados numa recompensa material, exigiram 1 € apenas! É essa moeda que exibem numa moldura colocada em local bem visível na sala principal da residência.

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    Depois de debatido o caso nos tribunais, e apesar da indemnização obtida, os estudantes foram obrigados a largar as instalações na Praça da República, tendo necessidade de encontrar um novo espaço. Foi aí que a solidariedade entre  atuais e antigos residentes deu uma prova impressionante de vitalidade, pois todos juntaram esforços para reunir o dinheiro necessário à aquisição desta casa. A Reitoria da Universidade ajudou com uma quantia importante, mas ainda assim foi necessário recorrer a um empréstimo bancário. Muitos antigos repúblicos ofereceram-se como avalistas, outros forneceram apoio jurídicos e todos, cada um conforme as suas possibilidades e disponibilidade, contribuiram para a compra do imóvel. Os nomes de todos eles estão inscritos nas paredes da casa, como sinal de agradecimento e para manter viva a memória deste momento refundador.

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   O brasão da República está presente em todo o lado: no exterior do edifício, pintado na parede da sala principal, ou na placa dedicada aos avalistas. O emblema mostra a Torre da Universidade, uma Sereia e duas máscaras teatrais, aludindo à localização original da República, próximo do Jardim da Sereia e do TAGV (Teatro Académico Gil Vicente). Outro dos objetos simbólicos é uma espécie de corneta, outrora usada pelos comboios para sinalizar a chegada às estações e apeadeiros, e que os estudantes conservam religiosamente na sua sala, saindo apenas nos cortejos académicos. O Rui fez o favor de soprar para exemplificar o ruído ensurdecedor que produz e que assustou alguns de nós!

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    Depois destas explicações, prosseguimos para uma vista aos quartos dos residentes. Vimos o modo como vivem, os locais onde dormem, estudam e convivem, partilhando os espaços e o seu quotidiano, ajudando-se mutuamente. É tão intensa a vida nas Repúblicas que os estudantes consideram que um ano aqui passado corresponde a cem anos de vida no exterior, pelo que, em vez de contarem os aniversários, contabilizam os centenários! Ao longo da visita, os nossos anfitriões contaram-nos histórias antigas e muito divertidas, aproveitando as muitas fotografias afixadas nos corredores e na escadaria, bem como os vários objetos que decoram as instalações. De entre todos, há que destacar o Conde de Aguilar, uma enigmática figura num cartaz, cuja origem todos desconhecem, parece que sempre ali esteve, sendo já um símbolo da casa.

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    O Museu acolhe uma série de objetos, todos estranhos, mas que conservam memórias antigas, histórias divertidas, episódios hilariantes, personagens marcantes e momentos inesquecíveis. Esta divisão interior é, podemos dizer, o santuário da República, o local onde se conservam os objetos que mantêm vivas as memórias que testemunham a história desta comunidade e lhe dão identidade.

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    Depois, vimos ainda o local onde convivem e realizam as festas. Trata-se de uma garagem interior decorada com uma série de objetos "oferecidos" por várias instituições, destacando-se um painel luminoso que os CTT amavelmente "doaram" aos estudantes, bem como um semáforo e muitos outros cartazes e sinais de trânsito. Devem ser muito simpáticos os nossos estudantes, para receberam tantas "prendas"!

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    Por fim, concluimos a nossa visita na sala de jantar. è aqui, à volta de uma pesadíssima e enorme mesa que tanto trabalho deu a transportar desde a antiga morada, que se juntam os repúblicos, os comensais e os convidados para tomarem as refeições. Aqui convivem e comem os pratos preparados por uma cozinheira contratada para confecionar as refeições. Este é o local que melhor demonstra a vida de partilha que aqui levam. Tão forte é a camaradagem aqui construída que, no final da visita, tudo nos parece uma estranha, simpática, acolhedora e enorme família, mais do que uma residência estudantil.

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publicado por CP às 23:31
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