Sábado, 25 de Abril de 2015

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Regressámos ao Círculo de Artes Plásticas (CAPC), na Sereia, para visitar uma exposição de Cristina Mateus, uma artista plástica que é também professora na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Alguns ainda se lembravam de aqui termos começado as nossas atividades, no já distante mês de outubro, visitando uma exposição do João Queiroz. Desta vez, fomos recebidos e orientados pela Magda. Travámos uma conversa inicial para nos conhecermos melhor e ultrapassarmos as reservas naturais quando se encontra alguém pela primeira vez. Falámos do nosso Clube, das razões que nos levaram a dedicar as tardes de sexta-feira a passear pela nossa cidade e a conhecer a arte e o património.

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 O título da exposição é Répétion, palavra francesa que pode ser traduzida para português como repetição ou, se preferirmos um significado menos imediato e literal, como ensaio, ou treino, no sentido em que um artista ou um desportista, por exemplo, repetem os seus gestos e exercícios com o objetivo de os apurar e de se aperfeiçoarem. Por um lado, esta ideia remete-nos para o quotidiano maçador, para a monotonia dos dias sempre iguais, para aqueles horários que temos que cumprir diariamente, as rotinas que enchem os nossos dias e que surgem logo ao amanhecer para se repetirem na manhã seguinte. 

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 Tudo na vida, na natureza e no universo é, de alguma maneira, repetitivo e cíclico: a sucessão dos dias e das noites, dos anos e das estações, a substituição das velhas gerações pelas novas, a órbitra dos planetas, o desabrochar das plantas na primavera ano após ano, enfim, tudo parece obedecer a esta lei do Universo. O tempo que se repete é então o mote do nosso percurso, bem simbolizado numa fotografia, que pode ser entendida como um bom ponto de partida, de um metrónomo colocado à cintura de um torso feminino que, disse-nos a Magda, é a própria artista. Um metrónomo é um aparelho utilizado no ensino da música que marca o tempo do andamento musical, definindo o ritmo mais lento ou mais acelerado que deve orientar os músicos. Sob a fotografia, uma superfície duplamente espelhada reflete a nossa imagem e, assim, convoca-nos para esta experiência. Nós afinal, e não apenas a artista, também temos as nossas rotinas diárias.

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Acordamos sonolentos, lavamo-nos e vestimo-nos, tomamos o pequeno-almoço, saímos para a escola, cumprimos um horário e regressamos a casa. No manhã seguinte, lá repetimos estes gestos e percursos, dia após dia, até chegar o fim de semana que, também ele, se repete ciclicamente, tal como as férias de verão, o Natal ou o dia do nosso aniversário. Todos os dias, repetimos conversas matinais com os nossos pais, amigos, familiares e colegas. Também a Cristina Mateus tem as suas rotinas comuns e as suas conversas matinais de que nos deu conta, transcrevendo alguns excertos nas paredes da galeria, bem como exibindo uma fotografia de uma casa de banho que, podendo ser a sua, exibe alguns espaços em branco, umas falhas perturbantes que nos introduzem interrogações: qual o lugar da novidade na rotina diária? Como podemos quebrar este quotidiano, impedindo que se torne ameaçador? Onde está a originalidade que nos caracteriza? Somos ou não criativos? Estamos condenados a andar aos círculos, sempre e sempre iguais, como tigres enjaulados?

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 Antes de responder, pensemos de outra maneira: o que é que leva um violinista, por exemplo - perguntou-nos a Magda - a repetir diariamente, durante horas e horas intermináveis, os mesmos gestos, a produzir os mesmos sons, a aperfeiçoar os mesmos ritmos? Se o treino é tão monótono, tão maçador, tão repetitivo, como é que se explica que haja tanta gente a entregar-se a estes exercícios? E o mesmo vale, noutro exemplo, para um desportista - insistiu a Magda: que é que leva um ginasta, ou um futebolista, a treinar diariamente aquelas sequências, aqueles gestos e jogadas sempre iguais?

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 É que, descobrimos nós ensaiando uma resposta, a repetição tanto pode conduzir à monotonia desinteressante como nos pode levar a descobrir pequenos pormenores, a aprefeiçoar gestos que nos conduzem a efeitos diferentes, imprevistos, mais perfeitos, surpreendentes até. E se fôssemos um pouco mais além? Vamos repetir, uma vez e outra vez para descobrir detalhes ocultos ou produzir efeitos novos. Como quem passeia, a pé, por uma cidade que frequenta há tantos e tantos anos, mas de automóvel, apreciando a mesma realidade de modo distinto. Tão distinto que parece outra realidade. É que há «olhar», «ver» e «perceber», concluiu a Magda, remetendo-nos para uma obra de Antoni Montadas que abaixo reproduzimos.

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Depois de toda esta conversa, revisitámos a exposição, isto é, repetimos a visita. E não é que, aquilo que antes tínhamos olhado, agora nos surge de forma distinta! Não diríamos nova, mas tão diferente, tão diferente.... como se tivéssemos mudado as lentes dos óculos. Ou seja, imaginem que olhamos o mundo através de umas lentes verdes e que mudamos para outra cor.... Será que é a mesma realidade? É a nossa atenção que mudou? Ou a realidade que se transformou? E aquele detalhe em que nunca tínhamos reparado?

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Colorindo as palavras, por assim dizer, elas ganham sentidos diferentes, mesmo que as repitamos indefenidamente. A partir daqui, podemos indroduzir outras variáveis, como decompor as palavras em segmentos diferentes, conjugá-los de modo diferente, pintá-las comcores diferentes e então, abre-se um leque infinito de possibilidades. De tal maneira que a repetição deixa de ser monótona e torna-se um exercício sobre a diferença, a originalidade, ou seja, um ato criativo! Foi assim que, numa segunda passagem, desta vez PERCEBENDO, olhámos para a parede onde a palavra Répétition surge pintada em sequências, cortes, conjugações e cores nunca repetidas:

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 Razão tem a Magda quando diz que a arte não se deve explicar demasiado, pois isso limita a descoberta. Mas a verdade é que, sem a Magda, também não teríamos percebido e gostado tanto desta exposição. 

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publicado por CP às 17:14
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