Sexta-feira, 26 de Setembro de 2014

 

Eis-nos de volta para mais um ano letivo! Esta sexta-feira iniciámos um novo ciclo de atividades com o Clube do Património. Demos as boas-vindas aos "caloiros", que acolhemos com toda a hospitalidade e a quem desejamos as maiores felicidades. Àqueles que não obtiveram vaga este ano, pedimos que não desesperem pois certamente surgirá uma oportunidade. 

 

 

Para inaugurar os passeios deste ano, decidimos visitar o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), no edifício sede, na rua Castro Matoso, ao fundo das Escadas Monumentais. No nosso plano para o mês de outubro, dedicaremos outras visitas a locais onde o CAPC desenvolve as suas atividades. Para já, fomos recebidos pela Mariana, uma jovem e simpática anfitriã que nos contou, em breves palavras, a história deste organismo autónomo da Universidade de Coimbra, fundado em 1958, cujo papel no formação de sucessivas gerações de artistas e na divulgação da arte contemporânea tem sido de uma enorme importância, não apenas na nossa cidade, marcando as últimas décadas das artes plásticas em Portugal. É pois com muito orgulho que o nosso Clube visitou este local, bem como dedicará ao CAPC, e à sua história, uma atenção especial ao longo das próximas semanas.

 

 

 

A exposição RauKoon resulta de um desafio lançado pelo CAPC a uma plataforma formada por diversas instituições culturais da cidade, inspirando-se num episódio ocorrido em 1953 nos Estados Unidos da América, que envolveu dois grandes nomes da arte contemporânea e que foi marcante para a história das artes plásticas. Na verdade, nesse já longínquo ano, um então jovem artista chamado Robert Rauschenberg (1925-2008) propôs ao consagrado Willem de Kooning (1904-1997), aproximadamente duas décadas mais velho e já consagrado pela crítica, um estranho desafio: de Kooning cederia um desenho da sua autoria para que Rauschenberg o apagasse! De Kooning aceitou o desafio e o jovem Rauschenberg gastou várias semanas a apagar meticulosamente a obra, confundindo este apagamento destrutivo com a criação própria dos artistas! É esta, realmente, uma das grandes originalidades deste desafio, pois logrou fazer do apagamento destrutivo um ato criativo.

 

 

O resultado está atualmente em exibição no S. Francisco Museum of Modern Art (SFMoMA), sendo uma das obras mais importantes da arte contemporânea. Foi esta história que inspirou os dirigentes atuais do CAPC, levando-os a lançar um idêntico desafio a outras instituições culturais da cidade, isto é, que colocassem em confronto, num diálogo criativo, dois representantes de duas gerações, um consagrado e um jovem valor emergente, nas diferentes áreas de criação cultural: a música, o teatro, a poesia e, naturalmente, as artes plásticas.

 

 

 

No caso das artes plásticas, um dos artistas desafiado foi o aclamado João Queiroz. Nascido em 1957, conta já com inúmeras exposições realizadas e foi galardoado com alguns dos mais relevantes prémios do panorama artístico nacional, estando representado nas mais importantes coleções portuguesas. O outro desafiado foi o jovem Pedro Vaz, vinte anos mais novo do que Queiroz, podendo considerar-se já um valor seguro, ainda que aguardando a consagração. Têm em comum o facto de terem na Natureza a principal inspiração da sua produção artística. Por isso, o diretor do CAPC, Carlos Antunes, convidou ambos para um passeio pela Serra da Arrábida, já que os dois se podem considerar artistas da paisagem.

 

 

Durante esse passeio, Vaz foi registando as suas impressões através de fotográfias, desenhos e filmes. Depois, no estúdio, pintou uma série de aguarelas sobre papel onde, estranhamente, a paisagem aparece como que apagada, diluída, esvanecida, mais do que pintada ou representada. Se ao pintor de paisagem compete, tradicionalmente, representar a realidade, fixando-a na tela com traços e tintas, Pedro Vaz representou-a quase que a apagando, deixando apenas significativas sugestões de cor e gesto com a finalidade de inspirarem o trabalho posterior de Queiroz.

 

 

Depois, as oito obras de Pedro Vaz, exibindo o seu característico aspeto aguado, como se fosse uma memória diluída, quase apagada, do passeio pela Arrábida, foram afixadas nas paredes da galeria. Entrou então em cena João Queiroz que, durante vários dias, tomando como referência os trabalhos do seu companheiro de viagem, usando o seu traço de carvão muito característico, que conheceremos melhor brevemente quando visitarmos a sua exposição individual,  desenhou nas paredes da casa belas paisagens.

 

 

 

O resultado deste diálogo pode contemplar-se até amanhã, quando encerrar a exposição e quando o trabalho de João Queiroz for irremediavelmente apagado, pois tal foi a condição imposta pelo diretor do CAPC e inerente à natureza do próprio desafio. Quem não puder visitar a exposição, aprecie ao menos as nossas fotografias, pois no domingo, o mais tardar na segunda-feira, quando se começar a desmontar a mostra, os desenhos de João Queiroz serão definitivamente apagados das paredes da sede do CAPC. É uma pena, mas a verdade é que a inspiração para este diálogo foi o ato "apagador" de Robert Rauschenberg. Se não fosse assim, na segunda-feira, lá estaríamos todos a manifestarmo-nos contra esse ato de vandalismo de destruir os desenhos de um dos mais consagrad6s artistas portugueses contemporâneos. É estranho, este mundo da arte contemporânea, mas muito estimulante!

 

 

 

Antes do regresso à escola, ainda tivemos tempo de praxar os nossos "caloiros". Lá fomos todos a subir a passo acelerado os intermináveis degraus da escadaria monumental. Chegámos ao topo ofegantes, mas chegámos e depois descemos!

 



publicado por CP às 22:08
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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