Sábado, 06 de Dezembro de 2014

CIMG5710.JPGAté aos inícios do século XX, a cidade de Coimbra pouco extravasou dos limites da cerca medieval. Algumas das zonas da nossa cidade que hoje são densamente habitadas não passavam de arredores distantes do centro urbano. Havia uma primeira periferia formada por conventos. Alguns, como o de Celas ou o dos Olivais, formavam mesmo burgos, ou pequenos povoados, que não se integravam na cidade. Depois, para lá desse limite, e ainda mais afastadas, havia muitas quintas, distantes do núcleo central da cidade e onde, por entre extensos campos agrícolas, se erguiam belas casas que serviam de residência aos proprietários abastados.

CIMG5728.JPGOs terrenos dessas quintas estendiam-se pelos campos férteis que hoje estão ocupados por prédios de habitação e outras infraestruturas, como escolas, campos desportivos, estabelecimentos comerciais, igrejas, etc. Já quase nada resta dos extensos olivais, vinhas e pomares, pastagens e campos de cultivo. De algumas dessas quintas já não resta nenhuma memória. De outras, ficaram apenas os nomes que se aplicam agora a modernas urbanizações, como por exemplo a Quinta de Voimarães ou a Quinta de S. Jerónimo. Algumas casas subsistem ainda, mais ou menos escondidas pelos modernos edifícios ou atrás de grandes muros e sebes, como por exemplo a Vila Marini ou a Quinta da Portela.

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Outras dessas grandes casas, no entanto, foram adquiridas por organismos do Estado, que as recuperou, para aí instalarem os seus serviços, dada a enorme despesa, quase sempre incomportável para os herdeiros, que implica a manutenção destas grandes habitações. Foi o caso da Quinta dos Loios, situada no cimo da ladeira com o mesmo nome, onde atualmente está sediada a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) 

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Foi esta Quinta que nós visitámos na sexta-feira. Fomos recebidos pela Isabel Maranha que nos guiou pelo edifício, muito bem conservado, da Quinta dos Loios. Logo à entrada, não pudemos deixar de admirar o belo portão de ferro com motivos Arte Nova. O portal é guardado por duas cabeças monstruosas inspiradas nos motivos escultóricos da arquitetura românica medieval. Nesses tempos, os portais das igrejas ostentavam estas cabeças de animais ferozes e mitológicos, assinalando-se assim a entrada no espaço interior do templo. Agora, estas cabeçorras ameaçadoras já não delimitam o exterior profano do interior sagrado das antigas igrejas, mas sim a entrada no espaço privado da antiga quinta.

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Esta Quinta, sobre a qual é muito difícil encontrar documentação, foi construída nos inícios do século XX, altura em que em Portugal, e muito especialmente em Coimbra, estava muito em voga um gosto revivalista. Quer dizer, a burguesia endinheirada da cidade, quando construía as suas casas, seguia o gosto que então estava na moda, recuperando modelos decorativos antigos, fazendo-os reviver, e daí a designação revivalismo. Podemos, por isso, falar em neo-mourisco, neo-gótico, neo-manuelino ou neo-renascença para nos referirmos às construções das últimas décadas dos século XIX e inícios do seguinte que recuperaram elementos arquitetónicos e escultóricos dos tempos antigos.

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Neste caso da Quinta dos Loios, o revivalismo é de inspiração românica, pelo que podemos considerá-lo neo-românico. Em alguns casos, como no da fotografia acima, é muito fácil identifica a Sé Velha como modelo. inspirador. Essa inspiração pode-se observar ainda nos sólidos volumes geométricos da construção, ou nos arcos de volta inteira, nos capitéis, ora decorados com monstros ora com motivos geométricos e vegetalistas. Todos estes motivos surgem mesclados com outras temas decorativos, como grades de ferro forjado, azulejos quer geométricos quer figurativos no interior, vitrais coloridos, arcos ultrapassados à maneira mourisca, etc. Quer dizer, é uma espécie de "caldeirada" decorativa em que se misturam notas de diversas correntes, épocas e movimentos. Tal facto constitui também uma característica deste movimento revivalista.

capela.jpgEstas casas ricas tinham normalmente uma capela privativa, destinada às orações particulares e às cerimónias familiares. A capela desta quinta já não está dedicada ao culto, mas exibe ainda um altar onde se conserva uma pintura  de Nossa Senhora, emoldurada por uma talha ao gosto baroco. Todo o conjunto é anterior à construção da quinta, sendo possível que tenha sido reaproveitado de uma outra capela mais antiga.

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No interior da habitação, o átrio principal é a  parte mais imponente, destacando-se a bela escadaria em madeira, os vitrais coloridos que coam a luz dando ao ambiente uma luminosidade muito especial, os azulejos a compor motivos geométricos no lambril das escadas, e o excelente trabalho dos mestres pedreiros que, usando a famosa pedra de Ançã, produziram, arcos, colunas e capitéis, sempre esculpidos a partir de modelos românicos.

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Percorremos a casa toda, aproveitando o facto de a Professora Ana Abrunhosa, atual Presidente da CCDRC, estar ausente.  Andámos pela sala de reuniões e apreciámos os tetos de madeira, as caixilharias e as janelas envidraçadas. Subimos a todos os andares, onde atualmente se alojam gabinetes de trabalho. Antes, a moradia estava dividida em várias áreas, incluindo uma reservada para os proprietários e uma outra para os serviçais, com acessos separados e, claro está, com acabamentos completamente distintos.

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A parte que gostámos mais foi a varanda exterior, de onde se usufruiu de uma excelente vista. Do varandim, contemplámos todo o vale, desde o Penedo da Saudade até às serras mais longínquas. O Bairro Norton de Matos aprecia-se numa perspetiva rara, sendo possível identificar a sua planta quadriculada. O Estádio Cidade de Coimbra centrou a atenção dos rapazes, como é natural. O José Carlos, que ficou tão maravilhado com a casa que até sonha ser um dia presidente da CCDRC, prometeu que a sua primeira decisão será demolir um prédio fronteiro que lhe impede a vista integral do relvado! Espero que a profª. Ana Abrunhosa não seja assim tão fanática por futebol quanto o nosso futuro presidente! 

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Depois de percorridas todas as divisões da casa antiga, passámos ao edifício novo através de um passadiço que mais parece saído de um filme de ficção científica. Na verdade, foi necessário construir instalações para todos os serviços da CCDRC que, naturalmente, não cabiam na casa da Quinta. O projeto da adaptação foi do arquiteto Santiago Faria. Aqui, nesta Comissão de Coordenação, apreciam-se, aprovam-se, fiscalizam-se e comparticipam-se com verbas da União Europeia os diversos projetos apresentados pelas autarquias da Região Centro. Desde parques infantis, escolas, hospitais, zonas verdes, lares, estradas e todo o tipo de equipamentos públicos, tudo é apreciado e aprovado na CCDRC. Por isso, existem aqui muitos os gabinetes técnicos: juristas, engenheiros, arquitetos, economistas, orçamentistas, etc.

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Por fim, concluimos a nossa visita no auditório, onde se fazem as sessões públicas, como congressos, apresentações e até outras cerimónias, como as festas de Natal de todas as pessoas que aqui trabalham. Resta-nos agradecer à Isabel Maranha toda a simpatia com que nos acolheu e desejar-lhe um Feliz Natal, extensível a todos os que trabalham na CCDRC. 

 



publicado por CP às 21:46
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