Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014

 

Chegámos à Sé Velha descendo a Rua do Cabido desde o Largo de S. Salvador. O nosso objetivo esta semana era conhecer melhor a Porta Especiosa, uma das obras-primas do Renascimento em Portugal, construída na fachada norte da velha catedral românica. Pelo caminho, tivemos oportunidade de ver o estado de degradação de algumas casas e ruas da Alta de Coimbra, recentemente classificada como Património da Humanidade. Lamentamos igualmente o vandalismo, a destruição gratuita, a sujidade e os grafítis que dão uma péssima imagem desta zona histórica. Alguma coisa tem que mudar, nem que seja quando o nosso amigo João, daqui a uns anos, for Presidente da Câmara!

 

 

Não se conhece muita documentação sobre esta porta e mesmo a designação por que é referida levanta algumas dúvidas, embora se aceite que resulta de um cântico - Speciosa est Maria - que, na Idade Média, acompanhava as procissões em honra da Virgem. A porta foi construída na década de 30 do século XVI, por ordem do bispo D. Jorge de Almeida, um homem muito culto que viveu uma larga temporada em Itália, familiarizando-se aí com os valores artísticos do Renascimento. Normalmente, atribui-se a autoria desta construção ao grande arquiteto e escultor João de Ruão, embora se admita a colaboração de Nicolau Chanterenne, outra grande referência do Renascimento em Coimbra e no país.

 

 

 

A composição segue um esquema muito racional e geométrico, completamente enquadrado no espírito renascentista, respeitando as regras da simetria e da proporção geométricas. A estrutura compreende três andares que vão estreitando, acentuando o eixo vertical. Falta um último andar, que seria um frontão triangular, desparecido nos finais do séc. XIX, restando apenas duas pequenas bases cilíndricas.

No nível inferior, encontramos o portal enquadrado por arcos de volta inteira e rodeado por uma profusa decoração ao gosto da época. No tímpano, podemos apreciar um belo medalhão com a Virgem e o Menino.

 

 

Nos nichos laterais, estão esculpidos S. João Baptista (à esquerda), o amigo de Cristo que o batizou nas águas do rio Jordão. S. João é representado com os seus atributos habituais: longos cabelos e barbas de eremita, vestindo uma túnica de pele de ovelha, tendo nas mãos um livro e um cajado em forma de cruz. Uma tarja atravessa o corpo, contendo a seguinte inscrição: ecce agnus dei, que significa «Eis o Cordeiro de Deus». No nicho do lado direito, está representado o Profeta Isaías.

 

 

 

No segundo andar destaca-se o varandim muito equilibrado e as duas guaritas laterais que fazem lembrar o Jardim da Manga. Há autores que aproveitam para referir a inspiração destes elementos na arquitetura militar, pois as guaritas, nas fortalezas, servem precisamente para proteger as sentinelas durante as suas vigílias. O Último andar exibe ao centro uma figura de Santa Ana, mãe da Virgem, ladeada por duas imagens, sendo uma de S. Miguel vencendo o demónio. Por cima, estão dois evangelistas, S. João e S. Lucas.

 

 

Ao lado, está a chamada Porta de Santa Clara, já em adiantado estado de degradação, tal como muitos elementos escultóricos da Porta Especiosa. Esta é uma das características deste calcário de Ançã em que estão construídas estas obras: por um lado, dada a sua macieza, permite um trabalho de grande detalhe, mas, por outro lado, sofre uma erosão  muito acelerada, tanto mais quanto está exposto à poluição, às condições atmosféricas, aos dejetos dos pombos e à falta de respeito de muitos transeuntes e frequentadores dos bares das redondezas da Sé.

 

 

  

É claro que o nosso objetivo de conhecer a Porta Especiosa não nos impediu de atentar no edifício da Sé, seguramente um dos melhores exemplos da arquitetura românica no nosso país. Recordámos as características essenciais destes edifícios, salientando as especificidades da variante regional do românico de Coimbra, muito marcado pela influência moçárabe. A provar isto mesmo, achámos muito interessante uma inscrição árabe numa das pedras colocadas entre a Porta Especiosa e a Porta de Santa Clara:

 

 

Escrevi isto como recordação permanente do meu sofrimento. A minha mão perecerá um dia, mas a grandeza ficará

 

Despedimo-nos com a promessa de um regresso em breve, pois temos que visitar o interior da Sé, com o seu magnífico altar, bem como o claustro e o túmulo de D. Sesnando. Claro que não nos podíamos ir embora sem antes tirar uma fotografia no pórtico principal, depois de observarmos a belíssima decoração dos colunelos e das arquivoltas que, apesar do restauro realizado no século XIX, seguiram escrupulosamente os modelos originais e atestam bem a especificidade do românico de Coimbra.

 

 

 

O desenho foi retirado do livro de Maria de Lurdes Craveiro, «A Sé Velha de Coimbra»; Coimbra : Direção Regional de Cultura do Centro, 2011 



publicado por CP às 21:56
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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