Sábado, 04 de Novembro de 2017

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   «Por um Fio» é o título dado pela equipa pedagógica do Convento de S. Francisco à visita guiada e dramatizada que percorre as instalações deste grandioso edifício, dando a conhecer a longa e rica história do Convento. A Catarina foi a nossa brilhante e simpática anfitriã, acolhendo-nos no átrio da bilheteira de forma inesperada, trazendo um novelo que foi lançando pelas galerias e que nós seguimos sempre embrenhados nas suas histórias. Este fio é afinal o fio da História e da Memória que importa preservar e transmitir. 

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   Não se sabe exatamente qual o ano da chegada dos frades franciscanos à nossa cidade, mas foi nas primeiras décadas do séc. XIII, poucos anos após a fundação da ordem, em Itália. 

   A Catarina contou-nos uma breve biografia desta estranha personagem, uma das mais marcantes da História da Europa. Nascido em Itália, nos finais do séc. XII, era filho de um rico comerciante de tecidos, facto que terá, como veremos, uma curiosa relação com a história deste convento. Após uma juventude de aventuras e boémia, combateu como soldado e teve uma vida muito intensa. Até que, a dado momento da sua vida, parece que setiu um chamamento interior que o levou a mudar de vida, dedicando-se aos leprosos, aos pobres e miseráveis, fazendo votos de pobreza. A sua vida e o seu exemplo alcançaram um enorme impacto por toda a Europa, colhendo numerosos seguidores.

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   Portugal não ficou alheio à difusão dos ideais franciscanos e, nos meados do séc. XIII, temos notícia da existência de um núcleo em Coimbra, uma pequena comunidade instalada junto à atual ponte de Stª. Clara, num desaparecido Convento que ficou na memória da cidade como Convento de S. Francisco da Ponte. A presença destes frades associa-se normalmente ao episódio dos chamados Mártires de Marrocos, que tanto impressionaram Fernando de Bulhões que, abandonou os estudos em Santa Cruz e abraçou o ideal de vida franciscano, passando a ser conhecido como Santo António.

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   As cheias do Mondego obrigaram os frades a mudar para um novo edifício no sopé da colina de Santa Clara, sendo o Convento abandonado nos finais do século XVI, acabando demolido nos meados do século seguinte. 

   Os franciscanos instalaram-se neste local nos inícios do século XVII, ainda que as obras a decorressem durante algumas décadas. Os corredores que atravessámos foram rasgados na sequência de obras de adaptação do Convento a outras funções, sendo destruídas as antigas celas, das quais só já restam alguns vestígios.

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No refeitório, uma das mais bonitas salas do edifício  e uma das mais bem preservadas, a Catarina contou-nos como, no âmbito das invasões napoleónicas, nos inícios do século XIX, a história do Convento conheceu um dos seus momentos mais conturbados. Na verdade, os franceses instalaram-se aqui, transformando estas salas num quartel onde os feridos descansavam, recebendo tratamentos e aguardando transporte. O saque e a devastação causada pelas tropas invasoras deixou marcas ainda hoje muito visíveis no património português e muito especialmente na nossa região, onde se travaram combates decisivos. Após a Batalha do Buçaco, foi a vez dos ingleses se instalarem na cidade. Arthur Wellesley, o Duque de Wellington, comandante das tropas luso-britânicas, alojou-se na Quinta das Lágrimas, enquanto as suas tropas acamparam nos terrenos próximos do Convento, zona da cidade ainda hoje conhecida como Guarda Inglesa.

   Durante os trabalhos de recuperação e reabilitação do edifício, recentemente empreendidas, foram detetados vários vestígios arqueológicos na zona onde atualmente se localiza a bilheteira. Chamados os arqueólogos, os rabalhos de escavação acabaram por identificar um espólio diverso que deve ter pertencido aos soldados franceses (medalhas, fivelas e botões), para além de diversas ossadas que estão atualmente a ser estudados pelo Departamento de Antropologia da Universidade.

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   O claustro é um dos espaços mais emblemáticos e belos do Convento. Foi muito bem recuperado pela equipa liderada pelo arquiteto Carrilho da Graça. Em 1986, o edifício foi comprado pela Câmara, iniciando-se as obras em 2010, sendo ainda notório que decorrem ainda trabalhos, bem como se discute a ocupação a dar aos diferentes espaços.

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    Antes, a nossa guia já nos tinha contado como é que o Convento se transformara numa fábrica de lanifícios. Na verdade, na sequência da extinção das Ordens Religiosas, em 1834, o espaço foi ocupado para outros fins. A igreja foi desanexada, sendo aí instalada uma fábrica de bolachas e massas alimentícias. Hoje, já resolvido o conflito com a Igreja, é uma sala de espetáculos onde se fazem concertos musicais, além de outras sessões solenes, como quando o Presidente da República aqui recebeu o chefe de Estado da Grécia. É uma bela igreja que nós contemplámos a partir do coro alto.

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   Quanto ao Convento propriamente dito, foi adquirido em 1842 por um industrial chamado José Mello Soares Albergaria que aqui instalou uma fábrica a vapor para a fiação, torcedura, tecelagem e tinturaria de algodão, lã e seda. Era a Companhia de Fiação e Tecidos de Coimbra. Porém, teve pouca duração esta empresa, já que poucos anos após se extinguiu e mudou de dono.

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   Em 1888 foi criada nova unidade têxtil - a Fábrica Planas - que laborou praticamente até aos nossos dias. Os seus tecidos eram de grande qualidade e apreciados em todos os mercados. Os últimos trabalhadores da fábrica viram os seus rostos pintados pelo artista Samina numa das paredes, a pedido da Câmara Municipal. É assim que podemos contemplar o retrato de Vitorino Planas, filho do fundador, ou da D. Ana Cruz, uma das cerzideiras, ou ainda do sr. Armando Guimarães, o debuxador, responsável pela tecelagem. A Catarina contou-nos uma história de uma contabilista que, quase a entrar em trabalho de parto, não abandonou o seu posto enquanto não processou os salários dos trabalhadores para que pudessem receber o dinheiro. Só depois de concluído esse trabalho, já em estado muito avançado, esta zeloza funcionária foi transportada para a Maternidade!

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   O auditório do Convento de S. Francisco é uma das melhores e mais modernas salas de espetáculo do país, estando preparado para receber todo o género de eventos. Aqui se realizam congressos científicos, concertos musicais, teatro, bailado ou outro tipo de eventos. O auditório tem uma grande versatilidade, além de características únicas que a Catarina destacou, antes de se despedir. Claro que adorámos esta visita, não apenas porque ficámos a conhecer o edifício, como as histórias empolgantes da Catarina. Obrigado!

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publicado por CP às 20:59
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