Quarta-feira, 20 de Maio de 2015

Este é o último post de uma série dedicada a uma visita realizada na passada sexta-feira ao Museu Nacional Machado de Castro. Nessa ocasião, realizámos um itinerário concebido a partir de uma seleção de 18 poemas de João Miguel Fernandes Jorge, escritos a partir das obras do Museu e reunidas num livro recente intitulado Mirleos (Lisboa, Relógio d'Água; 2014). Hoje concluímos a publicação dos poemas lidos pelos membros do clube. Começamos pelo Simão que leu um poema sobre a «Assunção de Maria Madalena», da autoria de Manuel Vicente, um dos representantes da chamada escola de pintura de Coimbra do séc. XVI.

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ASSUNÇÃO DE MARIA MADALENA

Também Madalena subiu a

um céu de amarrotado papel

cimos de densa floresta

já não tem sinal de quem

a pisou. Os cabelos, abrigo casa morada.

Quis demorar mais um dia?

Abraça um Cristo atendimento e repouso

amava o que era seu

e Ele nem sequer no sossego da terra

sonoridade de abandono

espalha cal viva sobre a carne da memória

lenha molhada sobre fogo.

Os cabelos rompem a nudez

flrescem verão inverno, a aranha desce

a janela do peito

do ventre

das pernas - Como te

tratou a vida meu amigo? Madalena

atrai de novo lábios à

presença do que esconde por detrás de

uma nuvem por detrás de uma pedra

em negrume de policromia.

 

 

Sabemos que a poesia de Fernandes Jorge não é fácil. No entanto, devidamente enquadrada, permitiu-nos construir um jogo de sentidos cruzados entre as obras do museu e as palavras poéticas, construindo um itinerário que nos ajudou a conhecer as coleções de outra maneira. Leiamos agora o poema que a  Laura declamou, defronte de uma tela de Garcia Fernandes, datada da década de 30 do séc. XVI:

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SÃO COSME E SÃO DAMIÃO

Cosme e Damião, S. Sérgio e S. Baco - não

escondo estes pares humanos

  - Cosme e Damião, a natureza

morta da medicina

no fundo nada se esconde, lodo que se exila no ar

árduo combate imerso na água

madeira cravada de bolor

eleva-se um insecto

sob os seus élitros descobre-se um par de asas.

Cosme e Damião a faca a maçã prato de estanho jarro

tigela restos de geleia - mesmo às portas da morte

geleia de marmelo - colher de prata

os santos togados de doutor

regressa a natureza-morta ao escoadouro da vida

que é sempre de amarelo antepassado.

 

S. Cosme  e S. Damião são dois santos da Igreja que viveram no séc. II d. C. e foram martirizados nos finais dessa centúria, inícios da seguinte. Eram irmãos gémeos e foram padroeiros da cidade de Lisboa, antes de S. Vicente.  Ainda hoje são objeto da devoção, pois são os padroeiros dos médicos. Como curiosidadade, que atesta bem a popularidade destes santos curadores, basta lembra que o fundador do Benfica, antigo órfão da Casa Pia de Lisboa, chamava-se justamente Cosme Damião! O poema refere S. Sérgio e S. Baco, dois nobres romanos do séc. IV que foram mortos por se negarem a participar em rituais pagãos, uma vez que eram cristãos. A amizade que os unia era tanta, que os consideravam amantes e é ssa união que o poeta evoca para assinalar a ligação igualmente estreita entre Cosme e Damião. Diz a lenda que operaram diversos milagres, sendo fácil aceitar que a sua prática clínica enquanto médicos, mesmo que a medicina naqueles tempos fosse muito incipiente, se pudesse tomar como milagreira. O poema refere-se ainda a um conjunto de objetos e mezinhas que estão pousados no banco junto à cabeceira de um doente. Atrás, os dois santos togados, isto é, vestidos com uma toga.

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A Inês Alexandra apresentou-se um poema defronte do célebre cálice de prata dourada proveniente do mosteiro de Refojos, no Minho. Esta obra, uma das mais importantes da ourivesaria medieval (séc. XII, dos tempos da fundação de Portugal) que se conservaram, é uma das peças mais emblemáticas do Museu. Foi oferecida ao mosteiro por um nobre chamado D. Gueda Mendes, pelo que é vulgarmente designado como cálice de D. Gueda. Na base, tem lavradas quatro figuras que refpresentam os evangelistas. É o motivo do tetramorfo: o leão de S. Marcos, o anjo de S. Mateus, o touro de S. Lucas e a águia de S. João.

 

CÁLICE

Deixou os dedos perderem-se

no tempo que foi o da taça

na juba do leão de Marcos

na asa do anjo que figura Mateus

no ouro que desprende mais brilhos nos cornos do touro de Lucas

para depois sentirem a lonjura na águia de João.

 

D. Gueda Mendes, Senhor que foi

em Terras de Basto nos anos primeiros do reino

ao Abade do Mosteiro de S. Miguel de Refojos, o cálice

fez em oferenda. Quando o vaso doou

ecoaram no Capítulo -

            nenhum santo nenhum sábio

            pode evitar o céu

            desde tempos antigos

            a terra dános um destino

            visto haver vida há que morrer

 

E os dedos demoraram no relevo da prata dourada.

 

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Para concluir, a Inês de Maria leu-nos um poema sobre uma naveta de prata dos finais do séc. XVII. Era um objeto utilizado nas cerimónias religiosas que remetia diretamente para a vivência marítima dos descobrimentos.

NAVETA

Nau de prata que navega

perdida que foi há

muito a figura de proa.

Queriam então os

portugueses o mar? Um

acto justo que não fosse

malquisto? Queriam?

Conhecimento. A visão

de uma forma, um

sentido que com o tempo

se perdeu: terra

numa figura num

corpo numa voz.

Segredo saudade uma

vida

meia morte quando

a fortuna cava no mar a

vela do regresso

desafia ainda

em descabida fúria e

vagarosa

tristeza homem e

mancebo a embarcar.



publicado por CP às 07:51
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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