Sábado, 19 de Novembro de 2016

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  «Passage» é o título de uma exposição de Pedro Pascoinho que fomos visitar na sede do Círculo de Artes Plásticas (CAPC), na rua Castro Matoso. Este artista, natural da Figueira da Foz, não tem formação académica, quer dizer, não estudou em nenhuma escola de Belas Artes, é um autodidata, aprendeu por si próprio. Por isso, a qualidade do seu desenho surpreende ainda mais.

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   A exposição inicia-se numa sala escurecida com uma instalação de quatro videos muito curtos projetados continuamente, em cada uma das paredes. A imagem a preto e branco, sem qualquer som, mostra uma senhora, sentada a uma secretária, como se estivesse a trabalhar, com uma série de objetos à sua frente. Os nossos olhos observam incessantemente esta cena, para onde quer que nos viremos. Quando o filme chega ao fim, logo recomeça, numa estranha monotonia que o Salvador associou ao mito de Sísifo.

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  Um pouco à frente, num recanto do corredor, encontramos uma banca de trabalho, onde reconhecemos alguns dos objetos do filme. A mesa parece retirada do ateliê de um pintor. Um placar colocado na parede exibe uma série de  fotografias recortadas de revistas antigas. Viemos a saber que é este o ponto de partida do processo criativo do artista, pois é aí, nessas revistas que coleciona há muitos anos, que Pesdro Pascoinho colhe a inspiração para o seu trabalho. Dois objetos saltam à vista: um fio que atravessa a banca de uma parede à outra e uma tesoura, o instrumento indicado para o cortar. Se o fio, que será uma constante ao longo de toda a exposição, pode ser lido como um símbolo da continuidade e da vida, a tesoura que o corta está fácil de ver o que pode ser!

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   Na sala contígua, onde viríamos a ter uma animada conversa, lá encontramos outra vez o fio, cortando um recanto e atravessando a parede. Este fio acompanhará toda a exposição, tal como o som, uma música monótona permanente, composta pelo próprio artista, é como se fosse um fio sonoro. Ao conversarmos, retomámos a ideia do trabalho de Sísifo. Foi o próprio Salvador que contou a história desse rei mitológica condenado pelos deuses, para toda a eternidade, a transportar um pedregulho até ao cimo de uma montanha, Aí chegado, a pedra soltava-se e tudo se reiniciava, incessantemente. Impôs-se então uma pergunta: é preferível a eternidade repetitiva ou a mortalidade criativa? O João ficou um bocado surpreendido pela questão, mas não hesitou na resposta: prefere ser mortal e ter direito a uma vida livre e criativa!

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  Partimos depois para uma visita às várias salas que constituem o circuito expositivo nos dois pisos da sede do CAPC. Os desenhos são muito realistas e causaram uma grande impressão. Tal como as pinturas a óleo sobre papel. Os modelos estão sempre numa atitude estranha, parece que suspensos no tempo e surpreendidos pelo nosso olhar.

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   Os desenhos feitos a carvão sugerem uma antiguidade que reconhecemos inspirada naquelas fotografias retiradas de revistas antigas. Em todos os trabalhos aparece pintado um fio, o tal fio que nos acompanha desde o início, concretizando a ideia de continuidade. De sala em sala, tal como nas diferentes etapas da vida, o fio, tal como a nossa memória, garante uma continuidade essencial. E, por isso, tornou-se uma espécie de jogo na nossa visita procurar, em cada uma das obras, o desenho, mais ou menos explícito, de um fio. 

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   Encontrado este fio condutor para a nossa visita, foi quase uma confirmação chegar à última sala e confrontarmo-nos com uma estranha instalação: de uma fenda da parede jorrava uma espécie de cinza, um pó de carvão, que se acumulava no chão. Pareceu-nos uma metáfora da morte!

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  Foi sem surpresa que confirmámos esta nossa suspeita numa placa identificativa desta instalação intitulada «continuity», que quer dizer «continuidade», colocada na parede ao lado. Aí se transcreve um excerto de um texto de William Shakespeare, retirado de Hamlet:

 

Morto, César imperial é só barro agora;
Serve p’ra vedar o vento lá de fora.
O que outrora foi do mundo pesadelo
Calafeta muros, poupa-nos do gelo.

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  Se a banca de trabaho do artista marcou o início da nossa visita, esta fenda, evocando a morte e a redução a cinza mesmo dos mais poderosos como Júlio César, assinala o termo óbvio e simbólico do itinerário expositivo. Mas não da nossa visita, pois havia tempo ainda para desanuviar e apreciar simplesmente as pinturas de Pedro Pascoinho.

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publicado por CP às 10:48
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