Sexta-feira, 08 de Maio de 2015

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Os membros mais "velhos" do clube já conheciam a Paula Moura Relvas, os outros ficaram a conhecer. A Paula é uma amiga do Museu da Cidade que já por diversas vezes nos acompanhou e guiou nos nossos passeios. Desta vez, acedemos ao seu desafio e fomos conhecer o Parque Dr. Manuel Braga, mais conhecido como Parque da Cidade. Começámos o nosso percurso no Largo da Portagem, para lembrar que a ideia de construir um Passeio Público em Coimbra, à semelhança do de Lisboa, era já muito antiga e procurava satisfazer as necessidades mundanas e recreativas da sociedade burguesa.

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O primeiro passeio público foi construído junto ao Cais das Ameias, na margem do rio Mondego, em frente da atual Estação Nova. Aí acostavam as barcas serranas que subiam e desciam o rio desde Penacova até à Figueira da Foz. No dia 8 de maio de 1888, por coincidência no mesmo dia da nossa visita, iniciaram-se as obras do chamado Jardim do Cais, momento assinalado com a presença das autoridades locais. Tocaram bandas filarmónicas e a multidão aplaudiu. Os trabalhos ficaram concluídos em 1903 e incluiram a construção do paredão para conter as águas do rio, bem como uma grade de ferro para proteger os passantes. Os passeios foram calcetados e foram construídos canteiros ajardinados.

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Ainda mal se tinha inaugurado o Passeio Público, no ano a seguir, em 1904, a Companhia dos Caminhos de Ferro apresentou um projeto de construção do ramal da Lousã que deveria partir da Estação Nova e seguir para a Estrada da Beira, o que implicava a destruição do Jardim! 

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A avenida Emídio Navarro prolonga-se desde a Estação Nova até à Ínsua dos Bentos, onde hoje está o Parque Verde. Esta avenida foi assim nomeada naquele ano de 1888 para homenagear o Ministro das Obras Públicas que, ao que parece, patrocionou esta obra. Tornou-se uma das mais importantes artérias da cidade, onde se encontravam os melhores hoteis e alguns serviços públicos.

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 O Parque Manuel Braga acompanha a avenida Navarro e desenvolve-se numa faixa de terreno triangular que se inicia no Largo da Portagem. Limitada à direita pelo rio, estende-se até ao chamado Porto dos Bentos, onde atracavam as barcas que faziam a passagem entre as duas margens. Chamava-se assim porque dava acesso ao Convento de S. Bento, na Alta da cidade, através do atual Jardim Botânico. Os terrenos foram adquiridos pela Câmara Municipal em 1888.

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O projeto do parque deve-se a um jardineiro natural do Porto chamado Jacinto de Matos. Foi um dos mais importantes paisagistas da primeira metade do séc. XX, falecido em 1948. Jacinto de Matos foi responsável pelo traçado de muitos belos jardins, entre eles, o Parque da Curia. Este projeto de Coimbra começou a ser construído nos meados da década de 20 do século passado e foi inaugurado em 1927. Destacam-se várias espécies de árvores, tais como os plátanos, tílias,  olaias, castanheiros-da índia e ulmeiros, entre outras.

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Notáveis são igualmente os belos canteiros ajardinados, onde sobressaem desenhos com buxos e flores compondo o brasão da Rainha Isabel de Aragão, padroeira da cidade, e o escudo de Coimbra, além de um emblema do Clube de Futebol União de Coimbra e um outro da Associação Académica. É certo que os canteiros já não estão tão preservados como antigamente, os lagos já não têm patos nem cisnes, o desleixo nota-se por todo o lado, tal como um certo abandono e desrespeito por parte dos utentes do Parque. Porém, com pouco esforço, ainda é possível apreciar a arte dos jardineiros de Coimbra que, em tempos, fizeram com que a nossa cidade fosse conhecida como Cidade-Jardim! Quem diria!?

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No Parque, destaca-se ainda o coreto central, um belo exemplar da arquitetura do ferro. Era aí que as bandas subiam para dar os seus espetáculos musicais, propiciando aos transeuntes belos momentos de cultura e lazer. Este coreto foi desenhado pelo arquiteto Silva Pinto, com a colaboração de um artesão chamado António Eliseu. Foi inaugurado por ocasião das festas da Rainha Santa, no dia 4 de julho de 1904, com a presença de uma banda filarmónica vinda de Viseu.

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Foi inicialmente colocado no tal Jardim do Cais que há pouco referimos. Como as obras da linha de comboio descaracterizaram esse espaço, vindo as suas funções de passeio público a ser transferidas para esta zona da avenida na margem do Mondego, a Comissão de Iniciativa e Turismo solicitou, em 1934, a deslocação do coreto para o Parque da Cidade.

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 Algumas estátuas de poetas também foram sendo aqui colocadas, homenageando algumas importantes figuras da literatura portuguesa que passaram pela nossa cidade, como Manuel Alegre, que todos conhecem bem, e Antero de Quental, cujo busto de mármore é da autoria do escultor Diogo de Macedo. Este busto tem uma história engraçada, pois foi oferecido por um jornal açoriano, de onde o poeta era natural, à Câmara de Lisboa, que o colocou no Jardim da Estrela. Por razões desconhecidas e pouco claras, em 1941, o busto foi retirado e oferecido à cidade de Coimbra, dado que Antero estudou na Universidade. Em 1958, a Câmara colocou-o neste Parque.

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 Já a escultura do artista galego Armando Martínez que homenageia Florbela Espanca foi inaugurada em 1994, para assinalar o 1º centenário do nascimento desta poetisa. Natural do Alentejo, Florbela teve uma vida muito curta e infeliz, não tendo muitas ligações a Coimbra. No entanto, a verdade é que os grandes artistas não necessitam dessas ligações para serem homenageados e, por isso, o Grupo de Arte e Arqueologia do Centro (GAAC) tomou a iniciativa de dedicar esta estátua a esta grande figura das letras portuguesas.

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Por fim, e para acabarmos com as estátuas e esculturas, deixámos para o final o busto do Dr. Manuel Braga, personalidade que dá nome ao Parque. A obra é da autoria de Cabral Antunes e foi inaugurada em 1958 para prestar homenagem a este cidadão nascido no Brasil em 1868 e falecido na nossa cidade em 1945. Desempenhou vários cargos públicos, destacando-se na presidência da Comissão de Turismo. Foi ele que teve a ideia de adquirir a Ínsua dos Bentos, zona alagadiça e mal cuidada, para aqui construir este jardim. Preocupado com o embelezamento e ajardinamento da cidade, a ele se deve igualmente a valorização de Vale de Canas e o ajardinamento da plataforma central da avenida Sá da Bandeira.

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Passeando pelo Parque, admirámos a alameda central das tílias e a alameda dos plátanos junto ao rio, locais ainda hoje muito procurados por turistas, casais de namorados ou jovens casais a passear as crianças. Em tempos, chegou mesmo a existir aqui um jardim infantil com baloiços e outros divertimentos. Infelizmente, este espaço é também muito procurado por marginais que não só degradam os canteiros, como afastam daqui muitos dos utentes.

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 Os muros que delimitam o Parque têm vários bancos enfeitados com belíssimos painéis de azulejos com motivos florais. Uns são coloridos e outros em azul e branco. A Paula disse-nos que foram fabricados propositadamente para este fim pela fábrica Aleluia, de Aveiro. Ficámos ainda a saber que alguns bancos possuem apenas dois assentos colocados de frente, são as namoradeiras!

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 Para concluir, temos que mencionar o edifício do Museu da Água. Inaugurado em 2007, é um projeto do arquiteto Alberto Lage construído no local onde originariamente estava a estação elevatória e de tratamento de água para abastecer a cidade.

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publicado por CP às 22:46
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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