Sexta-feira, 15 de Abril de 2016

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   Esta semana iniciámos os nossos passeios deste 3º período com uma visita à Sala S. Pedro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, onde está patente uma interessantíssima exposição intitulada «O Livro, no princípio era o conhecimento. Upgrading since 1150. Do Manuscrito ao e-book». O título, apesar de longo e bilingue, expressa bem o objetivo desta mostra: documentar, a partir do acervo da biblioteca, a longa história do livro, desde o séc. XII até à atualidade em que os e-readers constituem o mais recente avanço tecnológico na forma de os homens armazenarem e lerem textos, e em que o inglês é a língua mais utilizada no Mundo e na qual se publicam mais livros.

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    Fomos recebidos pelo Professor Doutor José Cardoso Bernardes, Catedrático da Faculdade de Letras que desempenha igualmente as funções de diretor desta biblioteca que é uma das maiores dos países lusófonos. Estão aqui guardados milhões de livros! Se fossem todos colocados numa prateleira contínua preencheriam uma linha com cerca de 30 km! Anualmente, publicam-se em Portugal cerca de 15 000 livros e a Biblioteca recebe-os todos, pelo que tem que dispor de espaço para os armazenar! Imaginem o que é gerir uma casa destas! Se, por desleixo, alguém deixar um livro desarrumado, é praticamente impossível reencontrá-lo, só por puro acaso. Por isso, é necessária muita organização. Por outro lado, uma vez que se guardam aqui exemplares muito antigos, livros únicos, manuscritos e outras raridades, é preciso preservar esse espólio com todo o cuidado.

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   Iniciámos a nossa visita com uma conversa muito interessante com o Professor Bernardes sobre a história do livro e a sua importância na história da Humanidade. O Professor disse-nos mesmo que, na sua opinião, o livro, juntamente com a roda, foi a mais importante invenção do Homem. Não é difícil aceitar esta afirmação se, como fez o Professor, medirmos a importância de uma invenção pelas consequências e efeitos que gerou. A nossa civilização não existiria sem o livro! Por isso, a Universidade de Coimbra decidiu, este ano, assinalar a sua 18ª semana cultural escolhendo como tema O Livro. É neste âmbito que se integra a exposição que visitámos.

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    A lindíssima Sala S. Pedro é assim chamada porque acolheu a biblioteca do antigo Colégio com o mesmo nome que foi extinto, tal como todos os outros colégios universitários da nossa cidade, em 1834. Atualmente, as instalações deste antigo colégio foram ocupadas pela reitoria da Universidade, mesmo ali ao lado, no Paço das Escolas. Esta biblioteca, de entre todas dos antigos colégios, foi a única que se salvou integralmente, talvez porque o Colégio de S. Pedro era uma instituição régia e ninguém ousou dispersar o seu espólio. Foi para aqui transferida integralmente e reúne cerca de 8 000 exemplares, alguns raros, outros únicos.

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    Depois desta contextualização introdutória, passámos então à exposição. Naturalmente que não atentámos em todos os livros, pois isso poderia ser maçador e demorado. Por isso, aceitámos o critério do Professor Doutor José Bernardes e ocupámo-nos de alguns. O primeiro que mereceu a nossa atenção foi o mais antigo, uma Bíblia Atlântica, assim chamada por causa das suas grandes dimensões. Data de meados do séc. XII (é pois contemporânea de D. Afonso Henriques) e é manuscrita em latim com uma belíssima caligrafia e iluminuras muito cuidadas e coloridas. É feita de pergaminho de vitelas que foram sacrificadas à nascença para produzir um material de qualidade superior. Foram necessárias cerca de 400 vitelas para fornecer o suporte de escrita para esta Bíblia! Os monges copistas demoraram muuuuiiiiitos dias a copiar, letra por letra, palavra por palavra, todo o texto, dedicando todas as horas disponíveis a esta exaustiva tarefa, muito exigente mesmo do ponto de vista físico. De tal modo que, quando concluíam a cópia destes livros, os monges deixavam o seu desabafo numa margem: Laus Deo, que é como quem diz, em latim: Graças a Deus que cheguei ao fim!

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    É necessário lembrar que, no séc. XII, as canetas não se compravam na papelaria, nem a tinta. Era preciso prepará-las com pigmentos raros e difícies de encontrar. Havia tintas de escrever, de iluminar e de pintar. Frequentemente, a matéria-prima era importada da Síria, de onde provinham as nozes dos carvalhos de Alepo. A goma arábica era outro ingrediente indispensável e importado de terras distantes. Muitas vezes, as técnicas de preparação eram secretas e nem todos conseguiam obter tintas de qualidade e com as cores vivas. Depois, era necessário preparar as penas, já que não havia esferográficas. Usavam penas de pato e de ganso, que tinham que criar propositadamente. As penas eram arrancadas e cortadas de forma meticulosa, tendo uma duração muito curta. Uma pena chegava apenas para duas páginas, apesar de ser regularmente aguçada. Já imaginaste se fosse assim nos dias de hoje? Quantos gansos precisarias para fazer os trabalhos de casa?

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    Outro livro lindíssimo e valiosíssimo é um Livro de Horas de origem flamenga, datado do séc. XVI. Destinava-se à leitura individual das pessoas da alta sociedade, pois era um bem luxuoso só ao alcance dos mais ricos que o passavam de geração em geração. Continha as orações que se deviam rezar nas diferentes horas do dia ao longo do ano. Pelo meio, era complementado com belíssimas iluminuras, representando cenas religiosas. Desconhece-se como  aqui veio parar, de onde proveio e quem o possuiu. Sabe-se apenas que chegou nos primeiros anos do séc. XIX e que está incompleto. O seu valor é tanto, pelo facto de ser único e muito antigo, que se guarda num cofre e só é exposto muito raramente.

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   Muitos outros livros suscitaram a nossa curiosidade, mas o Professor Bernardes conduziu-nos para uma edição especial d' Os Lusíadas, de 1898, já que ele próprio é um camoniano. Vejam lá que até se inventou uma palavra para designar os estudiosos da vida e obra de Luís de Camões! A Biblioteca Geral guarda um exemplar da 1ª edição do poema de Camões, de 1572, mas não tem nenhum documento manuscrito pelo poeta. Ninguém tem. Há muitas edições d' Os Lusíadas, mas esta é especial porque, nos finais do séc. XIX, o editor desafiou 1102 personalidades para passarem à mão uma estância. O primeiro foi o rei D. Carlos, mas quase todas as individualidades de relevo na vida nacional nos finais do séc. XIX contribuiram para esta original edição.

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   Além destes exemplares, e enquanto nos dividimos para ver a enorme sala de leitura da Biblioteca, apreciámos outros  livros valiosíssimos, como uma Bíblia Poliglota ou uns exemplares dos primeiros livros impressos no nosso país. Muito haveria a dizer, mas a hora já ia adiantada, pelo que tivemos que regressar à escola. Resta agradecer ao Professor Doutor José Bernardes a simpatia com que nos recebeu.

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publicado por CP às 23:12
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