Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2015

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   A Torre de Anto está integrada na cerca da muralha da cidade de Coimbra. Durante a Idade Média foi um posto de vigia construído sobre uma zona elevada, o que permitia uma vista sobre o vale do rio Mondego. A Torre está muito próxima de uma outra designada da Contenda que, no séc. XVI, foi convertida em Palácio. Hoje, esse Paço, chamado de Subripas, acolhe o Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras.

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   No século XV, viveu aqui Martim Domingues, Prior do Ameal, que adaptou a Torre às novas funções residenciais. No século XIX, efetuaram-se novas e profundas remodelações, rasgando-se as janelas ao gosto revivalista e acrescentado-se um novo piso, aproveitando as paredes das ameias. O ocupante mais famoso da Torre foi o poeta António Nobre (1867-1900), autor do livro de poemas intitulado , que se referiu à Torre no seus versos, daí derivando o nome por que hoje é conhecida: Torre de Anto. Uma lápide de pedra evoca a memória dos poetas que por aqui passaram, destacando naturalmente António Nobre.

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 Quando, em 1965, a Toore passou para a propriedade da Câmara Municipal, o edifício foi novamente reconvertido. Primeiro, instalou-se aqui a Casa do Artesanato da Região de Coimbra e depois um núcleo do Museu da Cidade intitulado Memória da Escrita até que, em 2013, se fizeram obras muito profundas para se instalar o atual Núcelo da Guitarra e do Fado de Coimbra. A Torre de Anto é monumento nacional desde 1935.

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    Foi este Núcleo que nós visitámos, guiados pela Elisabete que nos conduziu pelos três pisos da Torre, através dos quais se procura reconstituir a história do fado e da guitarra de Coimbra. A Elisabete explicou-nos que, ao contrário do que se diz em alguns livros, as investigações mais recentes negam que o fado de Coimbra seja uma derivação do de Lisboa. Na verdade, reforçou a nossa guia, em Coimbra havia antigas tradições associadas às festividades populares. É natural que os estudantes que aqui chegavam, vindos das zonas mais diversas, trouxessem os seus versos e as memórias musicais das suas terras de origem, adaptando-os ao gosto e às tradições conimbricenses.

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   Desde o século XVIII que está documentada a existência de muitas oficinas de mestres violeiros dedicados ao fabrico dos instrumentos associados ao fado de Coimbra. A célebre guitarra terá evoluído a partir de uma chamada viola toeira, mas só fixou a sua forma no séc. XIX, distinguindo-se da guitarra de Lisboa. Nesses tempos antigos, os fadistas cantavam poemas e quadras populares pelas ruas da cidade, dedicando serenatas às suas apaixonadas, motivando frequentes queixas dos moradores. A Elisabete contou-nos que já no reinado de D. João V se podem documentar queixas feitas por causa do ruído das serenatas.

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    Logo à entrada deste núcleo museológico está exposta uma guitarra do mais famoso de todos os tocadores da guitarra de Coimbra: Carlos Paredes. Este músico nasceu na nossa cidade em 1925, filho de um outro grande executante, Artur Paredes. Quando faleceu, em 2004, doou em testamento três guitarras à cidade, entre elas esta que foi construída para o seu pai pelo grande violeiro João Pedro Grácio Júnior. Era a preferida de Carlos Paredes.

 

    Na década de 20 do século passado, o fado e a guitarra de Coimbra conheceram um grande desenvolvimento, em grande parte por causa da difusão permitida pelo uso da telefonia. Essa geração de compositores e cantores ficou conhecida como "Geração de Oiro" e foi responsável pela renovação dos temas e das formas de cantar. A guitarra foi alterada na sua estrutura, afinação e forma de tocar. Nos anos seguintes, assistiu-se a uma certa decadência da qualidade artística. Foram os tempos da Grande Depressão económica, da Segunda Guerra Mundial e da afirmação do Estado Novo.

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   Só na década de 40 é que surgiu o modelo atual da Guitarra de Coimbra, sendo maior do que a de Lisboa. Tem uma afinação diferente, mais adaptada à balada, facto que viria mais tarde a suscitar algumas críticas, pois os jovens músicos achavam-na demasiado lamuriosa. A maneira mais fácil de a reconhecer é pela forma oval da extremidade deo braço, parecendo uma lágrima.

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    Nos anos 50 surge a chamada "Segunda Geração de Oiro" que incute uma nova sonoridade com cantores e instrumentistas mais criativos e virtuosos. Verifica-se um novo impulso na divulgação do Fado de Coimbra, graças à gravação discográfica. Realizam-se, por essa razão, muitas digressões internacionais, bem como participações em programas de rádio e televisão. Merece ser recordada uma história passada quando da inauguração da RTP em 1957. Para a ocasião foram convidados alguns estudantes para cantar o fado. No entanto, recusaram-se a cantar no interior dos estúdios, pois achavam que isso traía a tradição estudantil de só cantar ao ar livre! Exigiram por isso cantar num olival que existia nas cercanias do estúdio televisivo, obrigando à emissão a partir do exterior.

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    Nos anos 60, o país vivia um período particularmente complicado. A Ditadura do Estado Novo arrastava-se, aumentando a repressão policial aos opositores, entre os quais se destacavam muitos estudantes. Por outro lado, a Guerra Colonial veio criar o clima propício ao aumento da contestação estudantil que conheceu o seu ponto mais crítico em 1969. É nessa altura que, nos meios estudantis, se começa a utilizar a música como forma de contestação ao regime. É a chamada Canção de Intervenção, destacando-se figuras como José Afonso e Adriano Correia de Oliveira. Estes jovens músicos rejeitam as lamúrias da guitarra chorosa que canta males de amor, preferindo usar a sua arte para criticar a ditadura. O momento marcante é a canção escrita por Manuel Alegre intitulada Trovas do vento que passa:

   Na sequência dessas crises académicas, as tradições académicas foram interrompidas. A Queima das Fitas deixou de se realizar, tal como o uso dos trajes académicos, pois achava-se que eram manifestações associadas ao regime do Estado Novo. Só nos anos 80 é que se assistiu a um retomar dessas tradições, surgindo um novo movimento de reabilitação do fado e da guitarra de Coimbra. Surgem novos músicos e novas instituições se dedicam ao ensino, como por exemplo os Conservatórios de Coimbra e do Porto.

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   Surgem então novos grupos e novos praticantes, desafiando as sonoridades tradicionais num esforço de renovação e experimentação. Os espetáculos não se limitam já aos ambientes estudantis e desenrolam-se em espaços novos, cativando novos públicos. A função deste núcleo museológico é exatamente essa. Por um lado, manter viva a memória do fado e da guitarra e, por outro, atrair a atenção das novas gerações, desafiando-as a renovarem e a perpetuarem esta arte. Para já, parece que o desafio produz efeitos, pelo menos a avaliar pela compenetração da Laura. 

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publicado por CP às 18:46
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