Sábado, 07 de Fevereiro de 2015

Esta semana regressámos ao Museu Nacional Machado de Castro com o objetivo de conhecer a coleção de escultura. Coimbra foi o principal centro da escultura portuguesa desde o Gótico ao Renascimento e, embora essa arte já tenha praticamente desaparecido, a verdade é que, pelas ruas da cidade e das vilas das redondezas, ainda é possível apreciar importantes produções desses tempos. O Museu Machado de Castro guarda muitas esculturas de vulto, baixos-relevos e retábulos que testemunham o virtuosimo dos escultores que por aqui viveram e trabalharam.

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A cidade já tinha uma tradição que vinha desde o tempo dos romanos e que se justifica pela sua posição geográfica no centro do território e com fáceis acessibilidades, quer terrestres quer fluviais e marítimas, o que era muito importante pois grande parte da produção escultórica era destinada a ser exportada para outras regiões da Península Ibérica. Por outro lado, a cidade foi sempre muito importante do ponto de vista político e administrativo, sendo mesmo sede de residência de reis e altos senhores do clero e da nobreza. Por isso, muitas encomendas eram destinadas ao mercado local.

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A existência, nas redondezas da cidade, de matéria-prima de excelente qualidade, o calcário de Ançã, constituía igualmente uma razão válida para que aqui se fixassem muitos artesãos da pedra e escultores. Os estudiosos costumam assinalar dois grandes períodos na história da escultura de Coimbra: um primeiro que resulta do desenvolvimento da tradição local e nacional e que culmina com os belíssimos capitéis historiados de Celas e um segundo período que se inicia  com a chegada de um escultor chamado Mestre Pêro, que veio a acompanhar a rainha Isabel de Aragão com o encargo de conceber e esculpir o seu túmulo.

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O objetivo da nossa visita foi então conhecer a história  da escultura de Coimbra através das peças do Museu. Desta vez optámos por uma abordagem diferente: formámos pares, tendo cada um que escolher uma peça, obter informações e depois apresentar ao grupo as razões da sua preferência. 

Foi assim que a Francisca e a Laura (1ª imagem) optaram pela magnífica Deposição no Túmulo, de João de Ruão, datada do segundo quartel do séc. XVI e proveniente do Mosteiro de Santa Cruz. Esta obra é considerada uma das grandes obras-primas deste artista, apresentando José de Arimateia e Nicodemos a colocarem o corpo de Cristo no túmulo, depois de retirado da cruz. É uma cena de grande emoção em que a Virgem contém a custo o seu sofrimento, sendo consolada por Maria Madalena e outras santas mulheres que, segundo os relatos bíblicos, acompanharam o sofrimento da mãe de Cristo. S. João consta também da composição.

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O José Carlos, o André e o Rodigo ( 2ª imagem), optaram por uma cena mais repelente, pois escolheram um conjunto que ilustra o suplício de S. Bartolomeu, apóstolo de Cristo que, segundo a lenda, foi esfolado vivo. Esta peça, igualmente da oficina de João de Ruão, terá sido concebida para a igreja do santo que ainda hoje existe, embora já muito transformada relativamente à original, na Praça do Comércio.

A Joana e a Margarida (3ª imagem) posam junto a um retábulo com cenas da vida da Virgem, como se fosse uma história aos quadradinhos. Este retábulo provém da igreja da Misericórdia e deve-se também a João de Ruão. Está organizado em dois trípticos sobrepostos, num total de 6 cenas, apresentando ainda vestígios da pintura original. As cenas representadas são as seguintes: Adoração dos Magos, Adoração dos Pastores, Visitação, Virgem da Misericórdia, Apresentação do Menino no Templo, Fuga para o Egito.

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As Ineses (4ª imagem) escolheram um painel policromado, proveniente do Mosteiro de Santa Clara e datado dos finais do séc. XVI, representando uma história bíblica, a de Tobias e o peixe. Este retábulo deve-se ao escultor António Gomes, discípulo de João de Ruão. De acordo com o Antigo Testamento, Tobias tinha a missão de salvar o pai da cegueira. Para isso, foi ajudado pelo arcanjo Rafael que o aconselhou a guardar o fel e as vísceras de um peixe que tinha capturado, pois seriam o remédio necessário para devolver a visão ao pai e derrotar os demónos causadores da desgraça. Esta cena é recordada pelo famoso Padre António Vieira no Sermão de Santo António aos Peixes que os alunos estudarão no 10º ano.

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O Cavaleiro Medieval foi escolhido pelo Salvador e Ana Margarida, bem como pelo Simão e Bárbara. É uma das peças mais famosas do Museu. É da autoria de Mestre Pêro e data do séc. XIV. Representa o cavaleiro Domingos Joanes, sepultado na Capela dos Ferreiros de Oliveira do Hospital. O nobre fez-se representar com a sua montada preparada para a guerra, empunhando as armas e estando vestido com cota de malha, elmo e escudo com o seu brasão.

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Os Guilhermes, bem como a Maria e a Camila, escolheram a única das peças deste percurso que não é produzida em pedra. Trata-se do Cristo Negro, feito em madeira e proveniente do Oratório das Donas do Mosteiro de Santa Cruz. É uma peça de grandes dimensões, poderosa pelo sofrimento que exibe, mostrando Cristo crucificado, mas ainda vivo, em grande sofrimento, com o corpo martirizado, os ossos atravessando a pele e o sangue escorrendo das feridas. A cabeça pende num último esgar de vida e os espinhos cravam-se na fronte de Jesus, marcando ainda mais a sua dor. Esta imagem é já do período gótico e contrasta com as imagens românicas, em que o Filho de Deus é normalmente representado sentado no trono majestático no dia do Juízo Final. Aqui, é um Cristo mais humano e sofredor que parece partilhar a dor dos que, nesta época em que esta imagem foi produzida, viviam momentos muito difíceis marcados pela peste, pela fome e pela guerra.

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publicado por CP às 15:55
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