Sexta-feira, 15 de Maio de 2015

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Mirleos é o título do mais recente livro de poesia de João Miguel Fernandes Jorge. É um título estranho, mas o autor explica, numa nota prévia, que é uma «palavra composta de dois elementos latinos: mirus, com o sentido de maravilhoso ou surpreendente, e letum, que significa ruína. Admiráveis ruínas será um dos seus sentidos.» Ora, olhando para a capa, reconhecemos logo o criptopórtico romano do Museu Nacional Machado de Castro, pelo que o título e a explicação começam a fazer sentido. Na verdade, o Museu está construído sobre as antigas ruínas do forum romano de Aeminium, integrando ainda as ruínas da antiga igreja de S. João, do séc. XI.

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Este livro de poemas nasceu de um desafio lançado ao autor pela Dr.ª Adília Alarcão, antiga diretora do Museu Machado de Castro, depois de o poeta ter lançado um livro dedicado ao Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. João Miguel Fernandes Jorge, poeta nascido no Bombarral em 1943 e já com uma extensa e reconhecida obra publicada, empenhou-se então na redação deste conjunto de poemas inspirados em obras do Museu. De entre os muitos poemas, selecionámos 18, tantos quantos os sócios que participaram nesta atividade. Depois, cada um teve que encontrar a peça do seu poema e, no fim, percorremos o museu, tendo como fio condutor os poemas de João Miguel Fernandes Jorge. Quem começou foi a Joana, com um poema inspirado num capitel românico:

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CAPITEL LEÕES JUSTICEIROS

Nomeiam 

os leões atlantes 

grave justiça

suportam o peso do templo

dividem com outros felinos a

transparência da treva, correm o 

negro das fendas. Da goela, ramos da videira.

 

A evasiva sereia

sem motivo de ciúme de quem ou de quê

nu lago rodeado de montes tão altos quanto é o céu

vive a íntima água do sonho.

Seres de catecismo culposo habitaram a cidade.

Seguem o desenho que

em Santa Cruz se escreveu

e em S. João, à

humana figura, o desejo - clarão tão escuro

poder tão forte quanto a pedra impura do vivo.

 

Leões justiceiros elevam-se , laceram entre as garras.

Archotes, a negridão

não é apenas raptora

o deus do visível desce à cidade.

 

Como vêem, a poesia de Fernandes Jorge não é fácil. Mas, com algumas explicações, lá fomos tirando alguns sentidos. O mais divertido foi, porém, estabelecermos relações entre as palavras e as formas das peças museológicas. Como são muitos poemas, iremos publicando vários posts ao longo dos próximos dias. Para já, fiquem com o poema lido pelo Guilherme Castanheira:

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AGNUS DEI

No recesso escalvado

 

liames de parreira, cachos de uva.

Em lugar estranho entoa,

   a lã do cordeiro

desce sobre o

o homem. Vem do reino medievo, desce nas lágrimas

de hoje - miserere nobis

 

em balanceio de magoado passo

sobre um prado de narcisos amarelos.

 

 

 

O poema refere-se a uma lápide de calcário dos finais do séc. XII, representando um anho sacrificial, o cordeiro de Deus (Agnus Dei), isto é, o símbolo do sacrifício de Jesus Cristo, necessário para salvar a Humanidade. «miserere nobis» é outra expressão latina dita antigamente na missa, integrada numa oração, e que apela ao perdão dos pecados e à piedade divina.

Por hoje é tudo, amanhã publicaremos mais dois ou três poemas.



publicado por CP às 21:33
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