Segunda-feira, 18 de Maio de 2015

Santa Catarina foi uma mártir cristã, falecida no séc. IV, que viveu em Alexandria, no Egito. Famosa pela sua inteligência e capacidade argumentativa, distinguiu-se, segundo a lenda, por converter à fé cristã, todos aqueles que a escutavam. O poema que a Bárbara leu alude a um episódio em que Catarina recebeu na cela em que foi aprisionada 50 sábios para discutirem consigo as questões da fé, confrontando os deuses pagãos com as revelações da doutrina cristã. Diz-se que os sábios sairam convertidos e vergados à argumentação da santa que seria depois martirizada numa roda que se quebrou no momento decisivo. Por isso, Santa Catarina é sempre representada com uma roda quebrada. No poema referem-se também Diotima de Mantineia e Hipathia de Alexandria, duas sábias mulheres seguidoras da filosofia platónica.

CIMG6783.JPG

 SANTA CATARINA

Com descuido

Catarina de Alexandria

laçõ não bem atado marca

a cita e os seus passos.

No singelo do rosto

o grau de tudo exagera - 

  o de converter 50

à nascente religião, em entrega

obsessiva. Sentada no toro, no

pátio varrido pelo bem e o mau

tempo falou, inspirada em

Diotima e na conterrânea

Hipathia, que lhe seria futura.

Os onceiros espiavam e

um cachorro aguardava festa

de suas mãos.

Um resto de roda pode ver-se.

Roda ponteada a ferros em que

foi martirizada - raio

divino a quebrou. Por último, a

espada cortou-lhe cerce a raiz do

pescoço - em vez de

sangue, leite. E o mancebo no

devagar da ligeireza do golpe, o

pobre num imaginar desarazoado

- escutador, quem sabe, de

muito do seu saber -

calou, lamentoso, num arrepio

- A última rosa do verão

 

CIMG6784.JPG

 

O Guilherme Ribeiro leu um poema intirulado «Cristo atado à coluna». A obra está colocada sob a famosa Capela do Tesoureio e forma um conjunto com uma escultura de Maria Madalena. As obras em calcário estão já muito corroídas pelo tempo, facto a que o poeta se refere logo nos primeiros versos.

 

Desfazem-se

Em drama e corrosão. A par, Jesus,

Madalena. nem uma nuvem

no céu de maio.

 

A colheita do outono

serviu de alimento, terminou há muito

se houvesse sobejo fazia um vestido

camisa de linho

 

Para onde olha Maria Madalena, quem

ouve o olhar do falcão?

Não quero molestar-te com

desrazão, será justo o cobrador

levar-me em impostos

vestido, camisa de linho, o trigo

que nem sequer sobrou da colheita do outono?

O mais árduo

é a conquista ao mar e à terra

da história por cultivar

 

fácil, perdê-la

o frio cai entre os ombros

escorre das costas pelo corpo todo

enfiada de corda, zunidode arame que solta

no ar, um ar de temor um rilhar de mandíbula

 

CIMG6786.JPG

 

 

Descemos depois a um dos pisos inferiores, à sala da escultura em madeira, para ouvor a Tália ler o poema consagrado a duas esculturas em madeira, datadas dos inícios do séc. XVII. Desconhece-se o seu autor, foram originalmente coloridas mas depois foram pintadas de brancos, parecendo que são de pedra. No poema cita-se o pintor espanhol do séc. XVII Francisco de Zurbarán, famoso pelas suas pinturas de santos. Podes explorar um pouco sobre este pintor, pois vale a pena.

 

SÃO PEDRO E SÃO PAULO

Não há acordo sobre o dia

exacto em que foram erguidos

Erguer é o verbo que

elevou as figuras de

esquálida alvura. Nem o

nome do escultor que

os compôs -

  Pedro e Paulo, apóstolos,

sombras movem na

parede as mãos, cabeças,

longos dedos. Zurbarán,

gostaria de os tomar por

modelo, julgá-los-ia

gente viva se os visse

num pueblo estremenho, dir-

-lhes-ia: «Que quereis? Por

ali vai o caminho.»

Pedro e Paulo, numa voz

branda e branca

«Dá-nos guarida em tua casa

Não temas o aspecto nosso. O

que sofre desperta sempre

suspeita. Oxalá pudéssemos

dizer-te que espécie de gente

somos. Dá-nos

trapo de linho para sarar os

pés que sangram.»

Nunca se cruzou com eles

em qualquer ermo da vida.

Por isso Francisco de

Zurbarán não pintou S. Paulo,

em isolada tela no seu

Apostolado, nem

os terá alguma vez

percebido, em miragem, em

dia em que

as feras fogem do

braseiro do sol -

  no âmago das formas ficou

esquecida uma data, 1603

  - é sempre demasiado

tarde para escutar os vivos, a

morte está a caminho, por

palavras, por pedras

por palavras.

 



publicado por CP às 07:55
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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