Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2015

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Diz a lenda que o Jardim da Manga foi assim designado porque o esboço que levou à sua construção terá sido traçado na manga da capa do rei D. João  III. É simplesmente uma lenda que procura arranjar uma explicação para um nome estranho. Há quem diga que o vocábulo manga, em tempos, significou hoste, isto é, um bando, uma multidão indiscriminada de pessoas. Ora, como neste local existia a enfermaria do Mosteiro de Santa Cruz, onde se acolhiam os doentes, mendigos, peregrinos, aventureiros e toda a sorte de pessoas, dizem alguns historiadores que daí provém o nome deste jardim. A verdade é que ninguém sabe e ponto final!

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Com a subida ao trono do rei Piedoso, D. João III, acentuou-se uma profunda mudança cultural na vida da corte e do reino, adotando-se em Portugal a cultura humanista que irradiava a partir da Itália renascentista. Coimbra, pela importância das suas instituições, entre elas a Universidade, os colégios e o Mosteiro de Santa Cruz, foi um dos mais importantes palcos dessa política de modernização. Frei Brás de Barros, também conhecido como Frei Brás de Braga, foi, enquanto prior do Mosteiro de Santa Cruz, uma das figuras centrais deste movimento, procedendo a uma profunda reforma da Ordem, do mosteiro e da cidade.

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Foi neste sentido que, no dia 7 de setembro de 1533, assinou um contrato com três pedreiros de Coimbra, de nomes Pêro de Évora, Diogo Fernandes e Fernão Luís, encomendando a construção, no chamado Claustro da Enfermaria, de uns tanques retangulares e uns edifícios de planta circular, semelhantes a torreões. Esta obra, que hoje conhecemos como Jardim da Manga, é uma das pérolas da arquitetura renascentista em Portugal. Apesar de muito alterada e muito mal tratada pelas autoridades responsáveis, conserva a sua beleza, exibindo o seu caráter erudito. Isto é, não resulta do improviso popular, mas sim de um projeto minuciosamente pensado com base nas modernas correntes de pensamento bebidas dos centros culturais do Renascimento.

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A edificação desta obra contou ainda com a participação de um dos mais famosos e renomados artistas que alguma vez trabalharam na nossa cidade e no nosso país: João de Ruão, escultor e arquiteto de origem francesa que viveu em Portugal no séc. XVI, tendo deixando uma marca profundíssima, muito especialmente em Coimbra, onde se instalou, em grande medida por causa das encomendas régias e do Mosteiro de Santa Cruz. 

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Originalmente, este templete estava inscrito num claustro. Quando, no séc. XIX, as ordens religiosas foram extintas e os seus bens apropriados pelo Estado, boa parte das edificações anexas de Santa Cruz foram aproveitadas para aí se instalarem outros serviços públicos. É o caso da Câmara Municipal, construída onde antes havia um outro claustro, a sede da Polícia, a Escola Jaime Cortesão, o Café de Santa Cruz, o Mercado D. Pedro V ou o edifício dos CTT.  Quanto ao claustro da Manga, os arcos e galerias foram demolidos, permanecendo então o que hoje observamos, chamando-lhe assim Jardim, e não Claustro, da Manga!

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Trata-se de uma construção centralizada, tendo ao meio um pequeno templo central coberto por uma cúpula. A planta geral mostra duas cruzes. A maior simboliza Cristo e a crucificação, e a outra, em X, refere-se ao martírio de Santo André, simbolizando a humildade no sofrimento. O círculo simboliza a perfeição divina, eterna, pois não tem princípio nem fim. Sob a cúpula está uma fonte que atualmente tem apenas uma bacia, mas que outrora teve duas sobrepostas, aludindo à dupla natureza de Cristo, simultaneamente humano e divino. A água tem aqui a simbologia máxima que lhe é atribuída pelo Cristianismo, isto é, fonte da vida e do renascimento espiritual, sendo por isso usada no batismo. Muito interessante é que a cúpula é sustentada por 8 colunas formando um octógono. Esta forma, intermédia entre o quadrado e o círculo, representa a ambição do homem (imperfeito, quadrado) em se tornar perfeito (circular).

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A esta plataforma central acede-se por um conjunto de 4 escadarias, cada uma proveniente de um dos pontos cardeais. Subiam-se sete degraus, sendo que este algarismo era o número da perfeição. Note-se que hoje os degraus são apenas 5, pois os caminhos foram lajeados e alteados. Estes 4 caminhos representam o mundo material e terreno orientado para o desejo de perfeição. Cada um desses caminhos é ladeado por dois tanques, representações dos quatro rios do paraíso: Gehon, Físon, Tigre e Eufrates, conforme se refere na Bíblia, no Livro do Génesis que narra a criação do Mundo. Quatro jardins, hoje já muito degradados, aludem ao Paraíso original, o Éden, a morada perfeita onde vivem os anjos e os justos.

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Cada uma das escadarias é ladeada por um cão, símbolo da fidelidade, e um papagaio, que representa a eloquência, ou seja, a boa propagação da palavra de Deus.  Os quatro torreões, unidos ao templo central através de um conjunto de passadiços em pedra que originalmente eram pontes levadiças de madeira, são dedicados a S. João Batista, Santo Antão, S. Jerónimo e S. Paulo.

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No interior de cada um dos torreões, já muito danificados, encontramos quatro retábulos alusivos à vida dos santos referidos. As quatro obras de arte são baixos-relevos da autoria de João de Ruão. Estão muito estragados não apenas por causa do tempo e do desleixo mas também por serem produzidos em calcário de Ançã, uma rocha muito maleável que permite um trabalho de grande pormenor mas que se decompõe facilmente com o passar dos anos e a agressão da poluição.

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O que nós gostámos mais foi o das tentações de Santo Antão, um eremita do deserto que aspirava à perfeição afastando-se das tentações do mundo. Um dia, segundo reza a sua história, quase cedeu à beleza de uma belísssima mulher que lhe apareceu. Quase rendido a tanta formosura, reparou então que a mulher tinha um pé de cabra, o que é um sinal do Diabo! Aquela dama não era mais do que o demónio a tentar desviar o santo do caminho da virtude!

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O exterior da cúpula, bem como as coberturas dos torreões, são adornados com gárgulas que escoavam as águas e  representam monstros animalescos, feios e diabólicos. Estas criaturas estão impedidas de aceder ao espaço sagrado do interior, mas tentam impedir que os justos atinjam o seu objetivo, fazendo tudo para os afastar do caminho da salvação. É uma referência aos pecados que tentam permanentemente os crentes.

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Mas nós não nos deixámos tentar, até porque já estávamos com fome e fomos comer umas belas de umas castanhas assadas à Praça 8 de maio. É certo que já está um bocado fora de época, pois o S. Martinho já lá vai há muito, mas as castanhas sabem sempre bem!

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Esta visita foi concebida a partir do trabalho de António J. F. Quinteira intitulado O Jardim da Manga e publicado pelo GAAC no ano 2000. 

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por CP às 22:11
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