Sexta-feira, 05 de Fevereiro de 2016

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   O Instituto Missionário Sagrado Coração localiza-se na rua Padre Manuel da Nóbrega, próximo da escola Martim de Freitas, na zona de Celas. Foi até há bem pouco tempo um seminário dos padres dehonianos. Embora na atualidade ainda pertença a esta ordem missionária, já não é usado como escola. Esta congregação foi fundada por um padre francês chamado Léon Dehon (1843-1925) e dedica-se a várias atividades de teor social e religioso, destacando-se a sua ação missionária de apoio aos mais desfavorecidos nas regiões mais pobres do globo. À entrada da igreja que fomos visitar, inserida no espaço interior do Instituto Missionário, encontrámos um busto do fundador desta congregação.

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   Esta igreja é muito mal conhecida pelos conimbricenses, embora seja avistável de quase todo o perímetro urbano, uma vez que é uma capela privada, localizada, como já se disse, num espaço interior, murado e anexo ao Instituto Missionário. No entanto, tem uma grande importância do ponto de vista arquitetónico e da história das construções religiosas no nosso país, uma vez que foi a primeira igreja a ser edificada de acordo com as conclusões e orientações do concílio de Vaticano II, conforme nos explicou o Padre Eduardo, que muito amavelmente nos acolheu nesta visita.

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   Um concílio é uma reunião de todos os bispos da Igreja, que se encontram para debater questões religiosas que podem estar relacionadas com assuntos de doutrina, da fé ou da organização da Igreja Católica. Ao longo da história, principalmente nos momentos de crise do Catolicismo, têm-se organizado importantes reuniões conciliares. Alguns ainda hoje são estudados pelos estudandes de história, como o concílio de Trento.  O último concílio realizado, e um dos mais importantes, foi o do Vaticano II, que decorreu entre 1962 e 1965. Foi assim designado para se distinguir de um outro, o de Vaticano I, que se realizara no mesmo local na segunda metade do século XIX.

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   Nessa reunião discutiram-se assuntos muito importantes. O mundo vivia uma época de grande transformação e a Igreja não conseguia acompanhar o ritmo dessas transformações. Foi preciso adaptar uma instituição tradicionalista, com quase dois milénios, a um mundo muito diferente. Por outras palavras, abrir o Catolicismo ao mundo moderno. Para isso, reformou-se a liturgia, isto é, o modo de celebrar a missa, abandonando-se o latim na celebração, por exemplo. Por outro lado, o padre passou a oficiar a missa virado de frente para a assembleia dos crentes, valorizando-se assim a presença dos leigos. Estas alterações, apenas algumas de entre as muitas decisões, causaram imensas polémicas. 

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    A nova definição da igreja como uma comunidade de crentes, e não como uma hierarquia de poder, foi a maior novidade deste concílio. O Padre Eduardo lembrou-nos que, na origem, a palavra Igreja significa exatamente isso, uma assembleia de pessoas reunidas com um interesse comum. O Salvador lembrou que temos estado a estudar isso na disciplina de História. Na verdade, Eclesia era o nome dado na Democracia ateniense à assembleia de todos os cidadãos. Ora, este novo conceito exigia uma nova arquitetura que expressasse esta nova ideia. Já não fazia sentido aquele espaço das igrejas antigas, de planta retangular, dividida ou não em naves, como na Sé Velha ou na Sé Nova, em que os crentes estavam todos virados para o altar mor, focados num ponto central. Essas igrejas, tal como numa sala de aula, hierarquizam o espaço, isto é, quanto mais próximo do altar, maior a importância social do crente. Ou seja, não havia uma igualdade entre todos, em rigor, não se tratava de uma comunhão perfeita, pois não existia uma equidistância (quer dizer, uma distância igual) ao ponto central, o sacrário, no altar mor. 

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   Foi então que, por todo o mundo católico, os arquitetos tinham um problema para resolver. Sempre que há um problema há um desafio à criatividade. Em Itália, tal como em outros países de maioria católica, já há alguns anos que se ensaiavam diferentes soluções. Nessa altura, os padres dehonianos, que se tinham instalado em Coimbra com o objetivo de aqui fundarem a sua sede, estavam a pensar construir uma capela para o seu Instituto Missionário, onde formavam os jovens estudantes destinados às missões. Para o efeito, contactaram o arquiteto local Francisco Ramos de Carvalho. Depois de algumas viagens a Itália, onde se inspirou para o traçado deste templo, começaram as obras.

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    O curioso é que as obras decorreram ao mesmo tempo que se desenrolavam os trabalhos conciliares! Por isso, os projetos e as ideias não podiam ser mais atuais e sofreram até algumas alterações, ditadas por discussões que aconselhavam mudanças, ou por causa escassez de meios financeiros. Também por esta razão, esta igreja foi a primeira a ser construída no nosso país seguindo as conclusões e as novas conceções saídas do Concílio de Vaticano II. Tem por isso um grande interesse.

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   Do exterior, observámos logo a sua forma muito peculiar. Trata-se de um cone truncado de onde se projetam até ao topo dez pilares de betão que se unem para suportar uma cruz. O betão, os ladrilhos,  o ferro e o vidro são os materiais modernos usados ao serviço de uma nova espiritualidade para uma Igreja milenar. A convergência dos pilares e a coroação com a cruz têm uma grande carga simbólica, uma vez que apregoam a mensagem universal do catolicismo: a união de todos em Cristo.

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  No interior, confirmamos a planta circular com o altar ao centro. Desta forma, todos se olham em plano de igualdade, e o padre está ao meio, no altar, equidistante de todos e celebrando a missa de frente para todos. É uma nova disposição arquitetónica que reflete as orientações conciliares. Não há altares laterais, nem santos nem elementos distrativos, toda a atenção e todos os olhares se dirigem para o altar, feito de um só bloco de mármore preto e polido. Material raro e valioso, é a peça mais valiosa da igreja e representa a centralidade de Deus, reforçando a ideia monoteísta, como que regressando à essência do Cristianismo.

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   Em redor do círculo, sustentando a cúpula e as paredes, distribuem-se dez colunas revestidas com tijoleira, simbolizando os Dez Mandamentos. Evocam também a Casa de Deus, já que nos tempos primitivos, as tribos nómadas do deserto não tinham templos permanentes, pois andavam sempre de um lado para o outro. Por isso, para adorarem a Deus, montavam uma tenda com umas poucas de estacas e uma cobertura de pano, tal e qual como se fosse uma tenda de campismo. É exatamente esse aspeto de tenda, como se fosse uma Casa de Deus originária e humilde, que o arquiteto quis reproduzir.

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   Quanto à decoração interior, os elementos são reduzidos. Não existem capelas laterais, nem dourados, nem vitrais coloridos, nem pinturas. O que existe é o essencial e disposto ao nível do olhar: um crucifixo atrás do altar, uma escultura da Virgem, ambas em madeira, descoloridas e delicadas, com detalhes muito realistas. Além disso, um conjunto de altos-relevos representando a Via Sacra, dispostos aos pares ao longo da parede. Disse-nos o Padre Eduardo que são da autoria de uma freira italiana, cujo nome não se conseguiu lembrar, e que se caracterizam por uma grande modernidade artística.

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   Já perto do final da nossa visita, tivemos ainda tempo para umas fotografias e para admirar os bastidores da sacristia, bem como o sacrário, que reproduz, em miniatura, o aspeto exterior da igreja. Despedimo-nos do Padre Eduardo, agradecendo a sua hospitalidade, e convidando os nossos leitores a visitar esta igreja. Talvez consigam chamar a atenção para a necessidade de recuperação das paredes exteriores, pois os ladrilhos estão a soltar-se, caídos no chão. Adeus, bom carnaval e até à próxima visita!

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publicado por CP às 22:24
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