Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2015

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Em 2011, a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde estudaram os professores responsáveis pelo nosso Clube, festejou o seu primeiro centenário. Na verdade, foi em 1911, na sequência da revolução republicana e da prioridade dada às questões do ensino e da instrução pública, que foi criada esta Faculdade. No entanto, foi só em 1951 que passou a ocupar as instalações atuais que nós visitámos.

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Em 1941, foi nomeada uma comissão presidida pelo reitor da Universidade, Professor Maximino Correia, que tinha como arquitecto-chefe Cottinelli Telmo (1897-1948) com o objetivo de elaborar, executar e fiscalizar os projetos de construção da nova cidade universitária na Alta de Coimbra. Os estudiodos referem que estes projetos iniciais são fortemente marcados pela influência alemã, enquanto outros apontam influências da arquitetura fascista italiana. Com a morte de Cottinelli, em 1948, sucede-lhe no cargo Cristino da Silva (1896-1976).

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O projeto deve-se ao arquiteto Alberto José Pessoa (1919-1985), que assinou igualmente o edifício fronteiro da Biblioteca Geral, bem como foi um dos responsáveis pelo edifício da AAC e do Teatro Académico Gil Vicente. Alberto Pessoa nasceu em Coimbra e estudou na Escola de Belas-Artes de Lisboa. O Guilherme notou logo que o edifício é definido por claras linhas geométricas, muito direitas e proporcionadas, apontando ainda a simetria na fachada do edifício. Por outro lado, a robustez austera adequa-se bem à imagem que o Estado Novo queria transmitir de si próprio, isto é, uma ideia de autoridade e solidez do regime. Por isso, é muito comum caracterizar este edifício como um bom exemplo da "estética fascizante".

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No patamar de acesso à Faculdade estão colocadas sobre altos pedestais quatro estátuas da autoria do escultor Salvador Barata Feyo (1899-1900). De todos os edifícios da Universidade, este é o único que possui estátuas de vulto defronte da fachada. Da esquerda para a direita, podemos ver: a Eloquência simbolizada por Demóstenes, um famoso  político e orador da Grécia Antiga; Aristóteles representando a Filosofia; Tucídides, que foi igualmente um historiador da Grécia Clássica, autor de uma "História da Guerra do Peloponeso", obra que se tornaria uma referência da nossa cultura ocidental. Por fim, a estátua de Safo, poetisa grega que viveu no séc. VII a. C. Esta escultura causou imensa polémica, não apenas porque apresenta o peito nu, ainda que sem qualquer carga erótica, mas principalmente porque, ao longo dos séculos, Safo foi considerada uma personagem escandalosa pela mentalidade cristã devido aos rumores que a davam, na Antiguidade, como atraída por outras mulheres. 

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Antes de entrarmos no átrio da Faculdade, é impossível não reparar nos portões. São cinco, exibindo trinta e seis relevos em bronze executados por alunos de Barata Feyo da Esola Superior de Belas-Artes do Porto. O portão da esquerda é dedicado a Gil Vicente e depois, andando para a direita, surge o segundo com cenas da Ilíada de Homero, seguido do portão central consagrado aos poetas portugueses. Os dois últimos ilustram episódios da Odisseia e da obra lírica e épica de Luís de Camões. Claro que reconhecemos várias cenas, como a do Auto da Barca do Inferno, o cavalo de Tróia ou o gigante Adamastor. No entanto, não podíamos deixar de destacar o relevo do poeta Eugénio de Castro que, para além de ser o patrono da nossa escola, foi um grande poeta, bem como professor e diretor da Faculdade de Letras. Por isso, em forma de homenagem, reproduzimos abaixo o medalhão que o evoca.

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No átrio, deparamo-nos com dois enormes frescos, com mais de seis metros de altura. Do lado direito de quem entra, está uma "Alegoria da Glorificação do Génio Português", da autoria de Severo Portela Júnior. Trata-se de uma obra de profundo cunho nacionalista, bem ao gosto do Estado Novo, identificando-se muitas figuras históricas como Camões, Almeida Garrett, Alexandre Herculano, o Marquês de Pombal, o Infante D. Henrique, Nun'Álvares Pereira, entre outros, além de uma representação da Custódia de Belém, da fachada da Sé Velha, ou um esboço dos Painéis de S. Vicente que estão no Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa, ou ainda as inscrições de Ielala que Diogo Cão gravou nas margens do rio Congo.

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 No lado oposto, da autoria de outro pintor, Joaquim Rebocho, está outro fresco alegórico dedicado à Antiguidade Clássica. Aqui, podemos descortinar o arco de Tito, imperador romano que conquistou a Judeia; a Loba do Capitólio que amamentou os gémeos fundadores de Roma, o templo do Pártenon, Penélope com a sua aia a tecer a mortalha que desfazia à noite, a Vitória de Samotrácia, ou Ulisses, entre muitas outras figuras relacionadas com a história e a literatura da Antiguidade.

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Ainda na entrada principal, podemos admirar duas esculturas de Numídico Bessone, artista açoriano que já conhecemos do pórtico do Instituto de Medicina Legal. Uma representa a Inspiração (do lado esquerdo) e a outra a Criação.

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Num local muito escondido e praticamente desconhecido de todos, incluindo os próprios estudantes da Faculdade de Letras, podemos encontrar outros dois baixos-relevos do mesmo Numídico. Um dedicado à Leitura e outro à Escrita. Situam-se no átrio que deveria ser a entrada secundária do edifício que daria acesso à Biblioteca Central da Faculdade. No entanto, como esta porta está desativada, este pátio está transformado numa arrecadação, fazendo-se o acesso à biblioteca por um dos corredores. Nós conseguimos encontrar estas esculturas e desafiamos os nossos leitores a tentarem encontrá-las.

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E assim chegámos ao fim de mais uma visita. Quem sabe se, daqui a uns anos, não muitos, quando um de nós estudar na faculdade de Letras, não estaremos a recordar este dia... Para a semana cá estaremos para uma nova visita.

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Para a realização desta visita e para a redação deste texto, servimo-nos do livro de Marco Daniel Duarte, intitulado Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra: ícone do Poder. Ensaio iconológico da imagética do Estado Novo, publicado em 2003 pela Câmara Municipal de Coimbra.



publicado por CP às 23:40
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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