Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2016

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    Hoje foi aquele dia por que tanto ansiámos! Foi tão falado, foi tão prometido que se tornou desejado. Conhecemos o Rui Chafes! Ou melhor, conversámos longamente com ele. Como sabem, nas últimas semanas, temos andado envolvidos na dinamização de uma visita guiada à exposição de Rui Chafes e Pedro Costa no Museu Machado de Castro. Quem segue o nosso blogue sabe ainda que, na última semana, a Magda nos acompanhou numa visita pelas galerias do criptopórtico onde estes dois artistas contemporâneos montaram a mostra que intitularam Família. Nessa ocasião, ficámos a saber que havia a possibilidade de Rui Chafes se deslocar a Coimbra para se encontrar connosco. Ficámos radiantes! Hoje foi esse dia!

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   Antes do encontro, passeámos pelo Jardim da Sereia, admirando as obras do escultor por aqui dispersas. São muitas e intrigantes: umas, penduradas nas árvores, tanto se confundem como se destacam das ramagens e dos troncos, são objetos indecifráveis que pairam no ar, como se resistissem ao tempo, vindos de outra dimensão; outros, anéis gigantes de ferro, abraçam as árvores, definindo um círculo interior que nos atrai tanto que dá vontade de saltar lá para dentro. Foi o que fizemos e, uma vez no interior do perímetro de ferro, até parece que assumimos uma nova identidade, construída pela inclusão no espaço traçado por aquela estranha cintura metálica.

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    O que mais nos perturbou, no entanto, não foi o mistério criado pelas obras do artista. Essa característica é, como viríamos depois a saber, um dos efeitos intencionais do Rui Chafes. O que mais nos incomodou foi o facto de estas obras de arte estarem tão mal tratadas! Sujas, abandonadas, grafitadas,..... Decidimos logo ali que este seria um dos temas a levar à nossa conversa com o autor. Descobrimos depois que ele guarda uma mágoa grande pelo desleixo a que estão votados os seus trabalhos. Fazemos aqui um apelo às autoridades municipais: olhem pelas obras do Rui Chafes! Ele até recebeu o prémio Pessoa 2015! Que ao menos isso sirva para lhe darem um pouco mais de atenção!

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   Claro que os primeiros responsáveis pela degradação são os autores destes atos de vandalismo. Isto é imperdoável! Só por ignorância é que se pode fazer uma coisa destas. Discutimos longamente este assunto: todos concordámos que o grafito é uma forma de expressão artística, isso não está em causa. No entanto, há que distinguir a arte do grafito - ainda na semana passada nos encantámos com alguns trabalhos de Banksy - desta rabiscada destrutiva, poluidora e desrespeitadora! É preciso educar, punir e preservar. Quem pode fazê-lo que o faça!

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   Já nas instalações do CAPC no Jardim da Sereia, muito bem acompanhados pela Magda, pela Catarina e pelo Carlos Antunes, falámos de muitas coisas com o Rui Chafes. Inicalmente o ambiente estava assim um pouco frio porque a vergonha não nos libertou. Mas, a pouco e pouco, lá fomos colocando as nossas questões. Além dos temas já referidos, conversámos sobre o conceito de património, sobre a importância da educação artística e sobre a exposição Família. O Rui falou-nos do criptopórtico romano, da relação daquele espaço com a exposição. Percebemos que não é indiferente uma peça ser exibida num local com quase dois mil anos de história, carregadinho de memórias, ou num local como a galeria do CAPC, moderno, aberto e iluminado.

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   Conversámos sobre a importância dos títulos nas obras de Rui Chafes. São sempre tão estranhos! Explicou-nos que evita uma correspondência direta entre as formas e os títulos, achando que assim introduz uma carga poética acrescida nos seus trabalhos. O artista não deve, ainda segundo Chafes, explicar a sua arte pois, se o fizer, ela torna-se desnecessária. Cada um tem direito a dialogar à sua maneira com as obras de arte. Ainda discutimos o que é que se deve entender por obra de arte. Bom, é um assunto complicado! Não é fácil estabelecer uma fronteira entre o que é ou não é arte. O Rui Chafes explicou-nos que, antigamente, os académicos faziam uns desenhos e umas estátuas ("nunca fiz uma estátua" - disse) muito direitinhas e bonitinhas. Mas, a modernidade foi demolidora, autênticamente demolidora, para esses critérios, pelo que a questão de saber o que é que define uma obra de arte se tornou central.

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   Quer isto dizer que tudo pode ser arte? Que qualquer um pode ser artista? Não, respondeu o Rui, não vamos tão longe. Arte, em grego, dizia-se techné, o que remete para uma técnica. Ser artista exige trabalho, muito trabalho, estudo, reflexão, um percurso biográfico ("trabalho nisto há mais de 20 anos"), reconhecimento, tentativas, experiências. "Por que é que não somos todos engenheiros civis?" - perguntou provocatoriamente. Ser artista é exercer um ofício com alguma coisa especial mas que também tem exigências comuns a todos os ofícios. Exige estudo, aprendizagem, trabalho, rigor, como todas as profissões. Mesmo quando o artista evita qualquer primor técnico, pondo uns rabiscos numa tela por exemplo, não se deve equiparar esses rabiscos aos de uma criança. Aquelas pessoas que, num museu de arte contemporânea, comentam esse despojamento técnico dizendo que o filho de meia dúzia de meses também era capaz de fazer aquilo, não apenas desprezam o conceito e o caminho que levou o artista até àquela realização como, mais grave, se fecham ao diálogo com a obra de arte e rejeitam o universo simbólico que o autor pretendeu levar até elas!

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   De seguida, falámos do percurso individual do Rui Chafes. Ficámos a saber que na infância queria ser veterinário e que, aí pelos 17 anos, decidiu ser escultor. Inspira-se em tudo. Está sempre atento, observa tudo. Vê, ouve, lê, escuta, olha, anota, fixa, memoriza, repara e regista. É um ladrão, reconheceu. Calma! Antes de chamar a polícia é melhor perceberem o que ele quer dizer com isto de ser um ladrão! O Rui colhe a sua inspiração nas pequenas observações do quotidiano e guarda tudo no seu "armazém dos roubos", disse ele apontando para a cabeça. Lá dentro, guarda todas as memórias e todos os registos que serão depois a matéria-prima dos seus trabalhos.

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   Depois, confidenciou-nos as suas preferências artísticas. Um artista tem que ser um bom conhecedor da história da arte e é natural que possua os seus períodos e autores prediletos. O Rui declarou um favoristismo pela arte gótica, especialmente no espaço germânico, e avançou mesmo o nome de um dos seus escultores preferidos: Tilman Riemenschneider. Vão ao Google, pesquisem e maravilhem-se. Quem quiser conhecer melhor as suas preferências e o seu percurso de formação artística pode ler o texto de uma conferência que, há uns anos, proferiu sobre este assunto. O texto foi publicado e está disponível em qualquer livraria com este belíssimo título: Entre o Céu e a Terra

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   Falámos de outras coisas, nem nos queríamos ir embora. O tempo passou e nós ainda tínhamos perguntas. Mas tínhamos mesmo que ir. Arranjámos ainda uns minutos para uns autógrafos e umas fotografias e despedimo-nos do Rui Chafes. Foi uma conversa excelente. Ele é simpático, inteligente, simples e disponível. Obrigado! 

   Resta lembrar que quem quiser visitar a exposição do Rui Chafes e do Pedro Costa ainda o pode fazer no Museu Machado de Castro. Amanhã de manhã lá estaremos para receber quem nos quiser acompanhar na nossa última visita performativa. Fica o convite: apareçam!



publicado por CP às 18:31
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