Sexta-feira, 23 de Maio de 2014

 O Convento de Santa Teresa de Jesus, junto ao Penedo da Saudade, é o único convento de clausura que  existe atualmente na nossa cidade. Pertence à Ordem das Carmelitas Descalças e ficou conhecido por ter acolhido a Irmã Lúcia, uma das videntes de Fátima. Em setembro do ano passado, foi inaugurada uma estátua em bronze dessa religiosa, da autoria do escultor Alves André. Foi por aqui que chegámos ao convento, depois de autorizados pela Irmã Maria Celina a visitar a igreja. A Irmã correspondeu amavelmente ao nosso pedido, mas não nos recebeu pessoalmente, pois vive em clausura, deixando essa tarefa para uma outra religiosa, autorizada a manter contacto com os visitantes.

A Ordem dos Carmelitas foi criada no século XII no Monte Carmelo, na Terra Santa, território hoje israelita. Aí viveram as primeiras comunidades, tomando como modelo de vida o Profeta Elias. Alguns sócios do nosso clube com boa memória lembram-se certamente da visita ao Convento do Carmo, na Rua da Sofia, onde admirámos os painéis de azulejos alusivos à vida de Elias. Ao longo do século XIII, os carmelitas instalaram-se na Europa, principalmente depois de os muçulmanos conquistarem a Terra Santa, tentando manter o modo de vida isolado e de clausura, entregando-se à meditação, sempre afastados dos centros populacionais. Diz-se por isso que eram eremitas. Posteriormente, por exigência papal, vários conventos foram fundados em núcleos urbanos, tentando adaptar o seu modo de vida ao ambiente das cidades, isto é, ao estudo e às atividades assistenciais.

Em Portugal, os Carmelitas começaram por se instalar em  Moura, no séc. XIV, aproveitando uma doação dos Hospitalários. O mais famoso dos frades carmelitas foi o Condestável D. Nuno Álvares Pereira que, em 1423, depois de  enviuvar, ingressou na ordem, no Convento do Carmo em Lisboa, que ele próprio fundou. Frei Nuno de Santa Maria, tal era o seu nome religioso, iniciou a comunidade com alguns companheiros vindos de Moura e em cumprimento de uma promessa. Frei Nuno, que foi recentemente canonizado, viveu nesse convento até à morte, em 1431, dando um grande impulso à propagação de conventos desta regra. Nos dois séculos seguintes, há fundações de mosteiros carmelitas em todo o território, como por exemplo, em Évora, Coimbra (1537), Torres Novas, Setúbal e Horta, nos Açores (1652). Outros conventos femininos foram fundados em Beja, Lagos e Tentúgal. No Brasil, houve fundações em Olinda, Santos, Rio de Janeiro e Baía. 

Um dos momentos mais importantes na história desta ordem religiosa deu-se em Espanha, quando se processou a grande reforma carmelita, no séc. XVI. Na verdade, a Igreja Católica conheceu nessa época um cisma protagonizado por Martinho Lutero que, entre outras coisas, criiticava o luxo e o desregramento das ordens religiosas. Foi então que a reação católica se deu, na chamada Contra-Reforma, cujas linhas estratégicas foram esboçadas no Concílio de Trento. Foi neste contexto que surgiram os chamados Carmelitas Descalços, tentando regressar à pureza original dos carmelitas, renovando o espírito de pobreza e o isolamento. Este movimento foi encabeçado por Santa Teresa de Ávila e expandiu-se por toda a Península Ibérica. 

Santa Teresa, cujo nome é evocado neste convento, nasceu em Ávila (Espanha), em1515. Desde pequena teve uma educação dedicada aos livros e à vida religiosa. Em criança, ficou órfã da mãe, pelo que o desgosto a levou a intensificar a devoção religiosa. Depois de uma passagem por um convento, uma estranha doença conduziu-a de regresso a casa. Foi a doença que a levou a refletir a optar por uma vida de retiro, contrariando o pai, pelo que teve que refugiar-se num convento carmelita. Aí fez o noviciado, apercebendo-se dos desvios das freiras, dedicando-se então à reforma da ordem. A suas orações intensas, o fervor e as suas visões tornaram-na célebre, bem como os livros que escreveu. A partir de Ávila fundou dezenas de mosteiros em Espanha, vindo a morrer em 1582, sendo canonizada em 1622. Já no séc. XX, o papa Paulo VI declarou-a Doutora da Igreja, sendo a primeira mulher a receber essa honra.

O convento de Santa Teresa de Coimbra pertence às Carmelitas Descalças e data do século XVIII. A fundação deste convento foi muito desejada por figuras da cidade, destacando-se frei Luís de Santa Teresa que abandonou a carreira académica para ingressar na ordem. Foi ele que, depois de entrar no colégio de S. José dos Marianos, o atual Hospital Militar que nos já visitámos, se empenhou na fundação de um convento feminino. Tal aconteceu em 1737, quando a Câmara autorizou a instalação das Carmelitas na cidade. O local escolhido foi a chamada Quinta do Chantre, pois os terrenos foram doados por Manuel Moreira Rebelo, chantre da Sé, que era o responsável pela direção do coro da catedral.

Em 1739, o rei D. João V autorizou a fundação do convento e  poucas semanas após chegaram 11 freiras para iniciar a comunidade, ficando instaladas no convento vizinho de Sant’Ana, que nós já conhecemos, e na zona da Arregaça, por onde andámos na semana passada, enquanto não se concluíam as obras. O projeto é de Frei Pedro da Encarnação, frade carmelita. O edifício é modesto, à exceção dos portais da entrada, decorados ao gosto barroco. A planta é de uma só nave retangular, destacando-se a cúpula. Não visitámos o claustro, pois a igreja é a única dependência acessível ao público, além do memorial da Irmã Lúcia. No entanto, se quiserem ter uma ideia podem ir espreitar ao Google Earth! 

As freiras inauguram o convento em 1744 e aqui viveram sossegadamente até ao século XIX quando, primeiro com as invasões francesas e depois com a guerra civil entre Absolutistas e Liberais, passaram por grandes perturbações. Principalmente em 1834, ano em que foram extintas as ordens religiosas e nacionalizados os seus bens. Foi proibida a entrada de noviças e o edifício deveria ser devolvido ao Estado após a morte da última freira. A verdade é que, contrariamente aos outros mosteiros e conventos da cidade e arredores, este sobreviveu a todas estas vicissitudes, merecendo a proteção da sociedade local, bem como das autoridades eclesiásticas e da própria rainha D. Maria II.

O mesmo não aconteceu em 1910, na sequência da revolução republicana. Nessa altura, o convento foi ocupado pelos soldados, acabando as freiras por ser expulsas e o edifício entregue ao Estado e ocupado pelo Ministério da Guerra que aqui instalou um Hospital Militar. Em 1933, já no Estado Novo, as freiras são autorizadas a regressar do exílio em Espanha e, em 1947, reocupam o seu antigo convento. Desde então, e porque de acordo com as regras das carmelitas as comunidades não podem exceder 21 membros, daqui saíram freiras para fundar outras comunidades em Braga, Viana do Castelo e Guarda.

 Em 1948, este convento acolheu a irmã Lúcia, a famosa vidente de Fátima, que aqui viveu até 2005, data da sua morte. Numa das dependências do mosteiro foi construído um memorial que recorda a sua vida, com destaque para a visita que lhe fez o Papa João Paulo II que teve um papel importante na projeção do culto de Fátima. Lúcia foi sepultada aqui, até que o seu corpo pudesse ser trasladado para Fátima, em 2006. Em 2008, foi declarada beata da Igreja.

 

Para a redação deste texto foi usado o artigo de Gracinda Maria Ferreira Guedes («O Convento de Santa Teresa de Jesus de Coimbra: inventário do acervo documental»), publicado no Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra e disponível no seguinte endereço eletrónico: http://iduc.uc.pt/index.php/boletimauc/article/view/1515 [consultado em 22 de maio de 2014]

 



publicado por CP às 22:19
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