Sábado, 28 de Fevereiro de 2015

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O antigo Colégio de Santo António da Pedreira foi fundado em 1602 pelos frades franciscanos de Santo António da Observância. Foi construído no lugar da antiga pedreira da Alta de Coimbra, daí derivando a sua designação. Atualmente, alberga a Casa de Infância Elísio de Moura e é um dos edifícios mais desconhecidos da cidade, sendo poucos os que o conhecem. Por isso, e uma vez que foi incluído na classificação de Património da Humanidade, decidimos visitá-lo.

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 Fomos recebidos e guiados pelo professor Milton Pacheco, docente e investigador do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras que amavelmente nos conduziu. 

Mal chegámos, e ainda antes de nos concentrarmos no edifício, fomos logo atraídos pelas magníficas vistas panorâmicas que se podem desfrutar da varanda das traseiras. São das melhores vistas de Coimbra! Normalmente, contemplamos a cidade em sentido inverso, isto é, da margem esquerda do Mondego, centrando o olhar na Torre da Universidade, pelo que é muito curioso apreciar o curso do Mondego deste ângulo, vendo o Seminário, a Quinta das Lages, a Quinta das Lágrimas, o Convento de Santa Clara-a-Velha, o Convento de S. Francisco e Santa Clara-a-Nova.

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 Depois, já mais serenados, iniciámos o nosso percurso pela Sala dos Benfeitores. O professor Milton explicou-nos que já pouco resta do edifício original, pois as obras de adaptação feitas ao longo dos séculos, alteraram muito o edifício original. Logo após a extinção das ordens religiosas, em 1834, o Colégio ficou ao abandono, sendo mais tarde reformado. Em 1836, instalou-se aqui o Asilo da Infância Desvalida que viria a dar origem à Casa de Infância atual.

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Esta sala é onde se fazem as reuniões dos corpos gerentes desta instituição benemérita, exibindo-se nas paredes retratos dos seus principais benfeitores. Ao longo dos séculos XIX e XX, muitos indivíduos abastados, movidos por razões filantrópicas, foram doando os seus bens a esta organização assistencial que tem por fim acolher e educar meninas desvalidas e abandonadas. Esta sala presta homenagem a esses benfeitores.

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 Daqui passámos ao refeitório. Esta cantina é, juntamente com a capela, a divisão que melhor conserva a sua traça original, pois não só continua a servir de refeitório às raparigas que aqui vivem e estudam, como se preservam nas paredes belíssimos painéis de azulejos do século XVII, retratando cenas da vida quotidiana campestre: caçadas, pescarias, a ceifa, momentos de lazer e descanso, etc.

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Esta capela, ainda hoje aberta ao culto, atrai pela riqueza artística, principalmente dos painéis de azulejos que  ilustram cenas da vida de Santo António e de outras personalidades da história da Ordem Franciscana. É certo que os azulejos apresentam alguns sinais de degradação, mas são ainda muito bonitos, podendo considerar-se dignos exemplares da azulejaria portuguesa do período barroco.

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 A igreja tem uma nave única, destacando-se o coro alto, o púlpito onde os pregadores proferiam os seus sermões e os dois altares laterais, cujas talhas e imagens de devoção já foram alteradas, não sendo as originais.

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 A capela-mor possui um retábulo com uma pintura a óleo sobre tela que representa a Última Ceia de Cristo, não havendo a certeza de se tratar de uma tela originalmente produzida para este local. A parte mais interessante é, no entanto, a abóbada que exibe uma bela pintura em trompe l’oeil, datada do século XVIII. Esta técnica, muito típica do barroca e rococó, dá a ilusão de formas e dimensões que não existem. Olhando para o teto, vemos a Ascensão da Virgem aos Céus, protegida por Deus Pai, o Filho e a Pomba do Espírito Santo. Ressalta a ideia de que a abóbada não existe como limite físico e que os nossos olhos contemplam o universo infinito. É esta afinal a ilusão criada pelo trompe l'oeil que, literalmente, se traduz por enganar o olhar.

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 Daqui, saímos pela sacristia e dirigimo-nos ao pequeno claustro. É este espaço muito típico da arquitetura conventual, denunciando pela sua existência a origem religiosa deste edifício. O claustro simboliza o recolhimento da vida monacal e a obrigação dos frades, devotos e estudiosos, se dedicarem à reflexão espiritual e à vida interior. Este claustro, particularmente, é muito pequeno, estando conforme com a modéstia exigida pela ordem franciscana, mas não perde a sua graciosidade, apesar de atualmente já estar fechado por uma cobertura envidraçada.

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Do claustro, e já a caminho da saída, não podíamos deixar de nos confrontar com um busto do Dr. Elísio de Moura. Este professor catedrático de Medicina da Universidade de Coimbra, natural de Braga, faleceu em 1977, com quase 100 anos de vida. Foi uma figura notável, não apenas pelo seu mérito académico e clínico, mas também pela ação benemérita na defesa das meninas desvalidas que acolheu, inicialmente na sua própria residência, e depois nesta instituição que impulsionou e que hoje conserva o seu nome.

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 Antes da despedida, uma menção ainda para a pequena capela no átrio, consagrada à Nossa Senhora dos Aflitos. Um painel de azulejos transcreve um pequeno texto onde se promete a indulgência e perdão dos pecados a todos os passantes que se confessem e rezem as suas orações neste local. Vem mesmo a calhar, para lavar a alma aos membros do nosso clube que, embora sem gravidade, lá devem ter os seus pecadilhos a necessitar de perdão. Aproveitem! 

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publicado por CP às 10:35
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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