Sábado, 01 de Março de 2014

 A coleção de cerâmica do Museu Nacional Machado de Castro inclui louças de uso doméstico, bem como mosaicos e azulejos que foram fabricados para revestir paredes e pavimentos e que agora se encontram aqui expostos. As peças mais antigas da coleção datam do século XV, havendo exemplares que ilustram a evolução dos diversos materiais ao longo dos tempos, praticamente até à atualidade. A arte do azulejo, em particular, tem tradições muito antigas, remontando aos tempos da ocupação muçulmana do território peninsular, se bem que, desses tempos, não exista nenhum exemplar em exposição.

  

 No reinado de D. Manuel I (1495-1521), a arte portuguesa conheceu um período em que os motivos de inspiração islâmica, provenientes da Andaluzia que tinha sido recentemente reconquistada, foram muito apreciados, particularmente após uma viagem do rei ao sul de Espanha em 1498. Os azulejos hispano-mouriscos são então importados de Sevilha para revestir as paredes de palácios e igrejas (imagem acima à esq). Nos inícios do séc. XVI, o nosso já conhecido D. Jorge de Almeida, cujo brasão de armas podemos ver na imagem da direita, mandou adquirir uma grande quantidade desses azulejos para revestir a Sé Velha que então, por sua ordem, conhecia profundos trabalhos de remodelação.

 

A partir dessa altura, as cerâmicas começam a tornar-se populares um pouco por toda a Europa e as famílias mais abastadas da nobreza procuram peças para enfeitar as suas mesas e os seus salões. Esta nova moda divulga-se especialmente a partir de Itália de onde se difundirá para o norte de continente e daí para todos os reinos, criando um mercado que os comerciantes portugueses saberão aproveitar para fazer grandes negócios.

 

 Na verdade, quando os navegadores chegaram ao extremo oriente, as porcelanas constituíram um dos principais produtos procurados pelos comerciantes portugueses, dada a sua grande procura na Europa. Tal facto induziu os fabricantes chineses a aumentarem a produção e a utilizarem motivos decorativos e formas mais conformes ao gosto europeu. Os portugueses acabam assim por introduzir um novo gosto, rompendo com a antiga tradição das faianças europeias e generalizando a moda, ainda hoje detetável, das porcelanas em azul e branco.

 

No século XVII, nomeadamente a partir de 1630, assitimos a uma nova mudança de gosto, adotando-se composições com várias cores, como o amarelo e os tons de castanho. No nosso país afirma-se uma tendência para revestir as paredes e os tetos com belos e exuberantes painéis de azulejos, quando na decoração dos palácios e das igrejas europeias se recorria mais frequentemente às pinturas murais a fresco, aos mármores e aos vitrais.

    

Um dos expositores mais interessantes desta secção do museu é aquele onde se guardam os designados azulejos didáticos provenientes dos colégios dos jesuítas, particularmente do desaparecido e famosíssimo Colégio de Santo Antão, em Lisboa. Estes azulejos eram uma espécie de powerpoint  da época, pois era com base nestes desenhos que os mestres ilustravam as suas lições de matemática, geometria e astronomia, matérias muito abstratas que assim os alunos podiam visualizar e entender mais facilmente.

 Durante o governo do Marquês de Pombal, numa tentativa de desenvolver economicamente o país e diminuir as importações, promove-se uma política de fomento industrial, nomeadamente de fábricas cerâmica, destacando-se a famosa Real Fábrica de Louça do Rato, em Lisboa, fundada em 1767. No Porto, merecem igualmente referência as fábricas de cerâmica de Massarelos, de Santo António do Vale da Piedade e do Cavaquinho. Viana do castelo foi também um importante centro produtor. 

Foi igualmente durante o último quartel do século XVIII que a produção cerâmica conheceu um enorme desenvolvimento na nossa cidade, vindo a tornar-se célebre a designada louça de Coimbra, merecendo referência a atividade de Manuel da Costa Brioso, ao ponto de os estudiosos se referirem, quando estudam a história da produção de louça e cerâmica em Coimbra, a uma época pré-Brioso e a outras fases da produção posteriores ao surgimento da atividade deste industrial: Brioso - 1ª época e Brioso - 2ª época!

Ainda nas últimas décadas do século XVIII, mais precisamente em 1784, Domingos Vandelli, o famoso mestre italiano que o Marquês de Pombal convidou para colaborar na reforma dos estudos da Universidade, fundou uma fábrica de louça no Rossio de Santa Clara, na margem esquerda do Mondego. Esta fábrica tornou-se famosa pela qualidade da sua louça, que ficou conhecida por louça vandel, tendo adquirido grande popularidade pela sua qualidade e baixo preço, concorrendo com a produção da fábrica do Rato.

Concluímos do nosso percurso, prestando alguma atenção aos painéis de azulejos que reproduzem os edifícios universitários da reforma pombalina, nomeadamente o nunca edificado Observatório Astronómico e o Laboratório de Química onde atualmente está instalado o Museu da Ciência.



publicado por CP às 17:13
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