Sábado, 21 de Março de 2015

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 Para acabar o 2º período, realizámos um itinerário  que intitulámos «Coimbra Republicana». O objetivo era identificar na toponímia, no urbanismo e nos monumentos da cidade, marcas da ascensão e afirmação do poder republicano que se implantou em 1910. Começámos o nosso roteiro na Praça da República e concluímos o passeio no Largo da Portagem, junto à estátua de Joaquim António de Aguiar. Na verdade, o percurso deveria ter sido realizado no sentido inverso, para respeitarmos a sequência cronológica do processo histórico que, iniciado com o triunfo dos liberais no séc. XIX, culminaria com a proclamação da República.

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No entanto, daquela maneira teríamos que subir a avenida Sá da Bandeira, pelo que optámos por fazer o roteiro a descer, mesmo que sacrificando a sequência dos factos históricos, começando então na Praça da República.

Este local, antes da extinção das ordens religiosas, pertenceu ao Mosteiro de Santa Cruz, tal como toda a extensão que se prolonga desde a Praça 8 de Maio até ao Jardim da Sereia, ainda hoje designado Parque de Santa Cruz.  Em 1889, na sequência do falecimento do rei D. Luís, a Câmara Municipal decidiu homenagear o falecido rei, atribuindo a esta praça o seu nome. Alguns vereadores republicanos, entre eles Abílio Roque, de que adiante falaremos, votaram contra esta decisão.

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No dia 20 de outubro de 1910, apenas duas semanas após a proclamação da República, a Câmara Municipal deliberou que a Praça passasse a chamar-se Praça da República.

Os primeiros ecos dos acontecimentos do 5 de outubro em Lisboa chegam a Coimbra no próprio dia, embora a vida na cidade prosseguisse rotineiramente, sem grandes agitações e estando as tropas de sobreaviso. No dia seguinte, confirmados os rumores, a população saiu à rua, repicando os sinos, hasteando as bandeiras  do Centro Republicano e soltando os primeiros vivas à República. Seguiram-se manifestações de alegria e entusiasmo, cantou-se A Portuguesa e realizaram-se cortejos que culminaram com a proclamação da República nos Paços do Concelho. Todos esperavam que o novo regime resolvesse os males do país.

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Daqui seguimos pela Avenida Sá da Bandeira. Esta avenida, que homenageia uma das grandes figuras do Liberalismo, é ainda hoje uma das maiores e mais largas artérias da nossa cidade, pois tem mais de 60 metros de largura, com um belo jardim central entre as duas faixas. Foi traçada sob inspiração dos modelos urbanísticos de Paris, os célebres boulevards, para ligar a zona da Baixa à Praça D. Luís, abrindo um novo eixo para o crescimento da cidade. A esta Avenida central afluem outras ruas secundárias. O projeto foi apresentado e realizado nas duas últimas décadas do séc. XIX, vindo a ser inaugurado em 1906, pouco antes da Proclamação Republicana.

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 A toponímia é o estudo dos nomes dos lugares, considerando a sua origem e evolução. Estuda os nomes das cidades e povoações mas também os das ruas, praças e avenidas. Naturalmente, os nomes dados às ruas de uma cidade como a nossa refletem um dado ambiente histórico. Por isso, é natural que encontremos em Coimbra o nome de muitas das personalidades e acontecimentos relacionados com a República atribuídos a ruas e avenidas. Procurava-se, desta maneira, homenagear e consagrar no espaço público a memória de certas individualidades que contribuiram para a afirmação dos ideais republicanos.

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É o caso, por exemplo, de José Falcão ou Jaime Cortesão, vultos republicanos cujos nomes foram atribuídos a Escolas Secundárias. Outras personagens profundamente relacionadas com a República têm o seu nome atribuído a ruas da cidade: Afonso Costa, António José de Almeida, Guerra Junqueiro, Miguel Bombarda ou Teófilo Braga.

Um dos casos mais interessantes é o da atual Rua Padre António Vieira. Antes de 1910, esta artéria era chamada Rua da Cerca dos Jesuítas, pois conduzia ao Colégio dos Padres da Companhia, na zona Alta. Após o 5 de outubro, os Jesuítas foram expulsos, pois os republicanos nutriam por eles uma grande aversão. Por isso, a rua foi rebatizada com o nome de Abílio Roque, um revolucionário maçon  e anticlerical, profundamente empenhado na difusão das ideias republicanas, que faleceu em 1898. Mais tarde, já no Estado Novo, com o objetivo de reabilitar a memória dos Jesuítas, a rua foi renomeada Padre António Vieira. Sendo um padre jesuíta, esperava-se que o seu nome não fosse contestado por causa do seu valor literário. Por isso, após a revolução de 25 de abril de 1974, a designação não foi alterada, numa época em que, como em todas as revoluções, normalmente se procede a uma revisão dos topónimos.

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Voltando à Avenida Sá da Bandeira, dirigimo-nos ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra. A participação das tropas portuguesas na  Guerra Mundial de 1914-1918 foi uma decisão dos governos republicanos. Procurava-se, por um lado, defender as possessões ulramarinas e, por outro, afirmar no plano internacional a jovem República Portuguesa proclamada poucos anos antes. A verdade é que, se esses objetivos foram alcançados, muitos foram os portugueses feridos e mortos em combate, quer em África, quer nas trincheiras da Flandres. Por isso, pouco depois do armistício, surgiram um pouco por todo o país movimentos espontâneos que pretendiam homenagear os mortos da guerra. Muitas ruas e avenidas foram batizadas com o nome de combatentes individuais, outras, como a Rua dos Combatentes da Grande Guerra, evocam a memória de todos os soldados.

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Em Coimbra, a iniciativa de lançar uma subscrição pública para a edificação de um monumento, coube a um jornal, a Gazeta de Coimbra. Organizou-se uma campanha de recolha de fundos, lançando-se um concurso público. Escolheu-se um projeto concebido pelo escultor Luís Fernandes e pelo arquiteto António Varela. Depois de se discutir a colocação do monumento na Praça da República, acabou por se decidir pela atual localização, sendo inaugurado em 1932.

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Um pouco mais abaixo, parámos num outro monumento relacionado com a República. Trata-se do monumento dedicado ao poeta Luís de Camões e inaugurado, pela primeira vez, em 1881. À primeira vista pode parecer muito estranho como é que um memorial inaugurado 30 anos antes da proclamação republicana e dedicado a um poeta do séc. XVI pode ter qualquer relação com a República.

Na verdade, em 1880, comemorou-se por todo o país o tricentenário da morte de Camões. Esta efeméride foi aproveitada pelo Partido Republicano, que tinha sido recentemente fundado, para lançar uma vasta campanha de propaganda, associando o seu ideal aos tempos áureos de Portugal, simbolizados no poeta. Camões tornou-se portanto, 300 anos depois da sua morte, um dos símbolos republicanos!

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 Este monumento foi idealizado por António Augusto Gonçalves, o primeiro diretor do Museu Machado de Castro, e foi originalmente colocado na Alta da Cidade. Foi desmantelado em 1948, na sequência das obras da Cidade Universitária, tendo sido arrumado e esquecido, sinal de que o Estado Novo não nutria grandes simpatias pelos ideais simbolizados neste monumento. Em 1983, já depois da Revolução de Abril, foi recolocado num pequeno recanto na Alta, junto à Couraça de Lisboa, e só em 2005 foi aqui finalmente posto, num sítio mais digno e visível. Diga-se que, da obra original, só resta o Leão.

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Rumo à nossa próxima paragem, fomos por dentro do Mercado D. Pedro V, com o objetivo de ver a cobertura do mercado do peixe. Trata-se de uma estrutura de ferro e vidro dos primeiros anos do séc. XX, sendo um dos raros exemplos, juntamente com o Edifício do Chiado que adiante veremos, da designada Arquitetura do Ferro na nossa cidade. A caminho da Câmara Municipal ainda notámos como é que as antigas dependências do Mosteiro de Santa Cruz, transferidas para a posse do Estado na sequência da extinção das ordens religiosas, albergaram novos serviços, como escolas, instalações militares, o posto dos correios ou a polícia.

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 No patamar da escadaria principal da Câmara Municipal de Coimbra está colocado um busto da República da autoria do mestre João Machado. Este busto alegórico foi inaugurado em 1919 e diz-se que teve por modelo a filha do artista, Preciosa Machado. Há outro busto no edifício do Tribunal, da autoria do filho deste escultor.

O rosto feminino, inspirado nos modelos revolucionários franceses, retrata a República sob a forma de uma mulher com o barrete frígio, símbolo da Liberdade conquistada, com uma coroa de louros, alusão à vitória.  A imagem está envolta na bandeira republicana e o pedestal exibe o brasão de Coimbra.

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Aproximando-nos já do final do nosso itinerário, parámos em frente do atual Museu Municipal, instalado na antiga filial de Coimbra dos Grandes Armazéns do Chiado. Por isso, este belo exemplar da arquitetura do ferro e do vidro é ainda hoje conhecido por muitos conimbricenses como Edifício do Chiado. Foi inaugurado em 1910, no mesmo ano da proclamação da República.

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 Concluímos o nosso passeio junto à estátua de Joaquim António de Aguiar. É certo que muitos locais e ruas ficaram por visitar, nomeadamente o busto dedicado a António José de Almeida, uma das mais importantes figuras republicanas, na zona da Conchada, ou o monumento aos mortos da Grande Guerra no cemitério da Conchada, mas não podemos visitar tudo e esses locais ficavam um pouco desviados do nosso roteiro.

A estátua dedicada ao chamado Mata Frades resultou da iniciativa de algumas personalidades republicanas ainda nos anos finais da monarquia, destacando-se Martins de Carvalho e Bernardino Machado. Pretendiam assim colocar-se sob a inspiração dos ideais liberais, com o objetivo de combaterem a monarquia agonizante e fazerem a propaganda da República.

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A estátua em bronze é da autoria do escultor Costa Mota (tio), sendo o grande pedestal do arquiteto Silva Pinto. Joaquim António de Aguiar empunha na mão direita a pena com que se prepara para assinar o decreto de expulsão, gesto considerado como fundador da política anticlerical da República que tinha como um dos seus grandes objetivos a separação do Estado das Igrejas. O monumento começou a ser lançado em 1911, estando concluídos dois anos após, pelo que a evocação desta figura histórica marca o início da era republicana em Coimbra. 

 

Para a redação deste texto recorremos ao livro de Lia Ribeiro e António Ribeiro «Coimbra. Roteiros Republicanos»  (QuidNovi; 2010)



publicado por CP às 21:14
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