Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2016

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 Coimbra deve ser a cidade do país com mais património que já não existe. Claro que isto não constitui uma razão de orgulho para os conimbricenses. Pelo contrário, todos sentimos uma profunda indignação pela destruição sistemática dos monumentos da nossa cidade ao longo dos últimos séculos. Para reavivar a memória dos espaços e edifícios destruídos,  delineámos um trajeto que começou na Praça Heróis do Ultramar e acabou junto ao Jardim da Manga, percorrendo algumas zonas da cidade, incidindo especialmente na Alta. Equipados com um computador, o nosso objetivo foi confrontar os espaços atuais com a memória de outros tempos, evocados através de fotografias digitalizadas a partir de livros antigos ou retiradas da internet. Em cada paragem, um dos nossos jovens sócios segura o computador, como se assim se presentificasse um passado esvanecido, trazendo o tempo e os espaços desaparecidos à memória da nova geração.

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2011-01-06 22.13.21.jpg   O nosso objetivo não foi lá muito bem alcançado, pois estava um agradável mas inconveniente dia ensolarado, o que impediu que as fotografias mostrem com clareza a imagem exibida no monitor. De qualquer modo, reproduzimos a fotografia antiga em cima e, em baixo, podemos ver o espaço atual. A Mariana esconde-se atrás do computador, pois pensava que estava a tapar o monumento aos Heróis do Ultramar, enquanto a Ana olha não sei para onde e o estiloso do André impede que se veja  o que queríamos que se visse: o monumento!  Enfim, uma desorganização completa! O nosso percurso iniciou-se pois junto ao monumento aos Heróis do Ultramar, na praça que conserva o mesmo nome. A primeira fotografia mostra a localização do monumento, da autoria de Cabral Antunes, antes das obras de remodelação por ocasião dos trabalhos de construção do novo estádio. Inicialmente estava colocado de costas para a fachada da Escola Infanta D. Maria no meio de um espaço ajardinado com lagos redondos dispostos em socalco até à entrada norte do Estádio. Hoje está tudo muito diferente, foi destruído o jardim, os passeios circundantes do Estádio, bem como os lagos. No meio da Praça foram construídos o pavilhão multiusos e o complexo das piscinas municipais.

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   Foi aí que apanhámos o autocarro até aos Arcos do Jardim. Depois, seguimos a pé até ao Largo D. Dinis. Um pouco antes, a Laura mostrou-nos uma fotografia antiga do Colégio de S. Bento, que acolhe na atualidade as instalações do Instituto Botânico e do Instituto de Antropologia. Está tudo mais ou menos na mesma, apenas com duas alterações. Por um lado, o último dos arcos do aqueduto foi destruído durante a construção da cidade universitária, nos meados do século XX, e, por outro, o postal antigo tem uma legenda curiosa, que poderão ver se clicaram e ampliarem a imagem: «Estudantes do Lyceu». Na verdade, aqui funcionou o Liceu Masculino D. João III até à inauguração do novo edifício que hoje se chama Escola Secundária José Falcão.

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   O castelo de Coimbra erguia-se no sítio atual do edifício das Matemáticas. Foi destruído no século XVIII pelo Marquês de Pombal que projetou para o local um observatório astronómico. É uma pena, pois era um excelente castelo, com uma planta irregular e duas enormes torres. A mais antiga foi construída no tempo de Afonso Henriques e dominava toda a cidade, sendo avistável dos arredores. Tinha 22 metros de altura e era o símbolo da importância da cidade. A outra torre era chamadaTorre de Hércules, tinha uma planta pentagonal e foi mandada construir por D. Sancho I, em 1198. O castelo começou a ser demolido em 1773 para a construção de um Observatório Astronómico. Porém, só nos meados do século XX, quando da construção da atual Cidade Universitária, é que os últimos vestígios despareceram definitivamente. Recentemente, o professor Jorge de Alarcão publicou um livro muito interessante sobre a fundação e a evolução da cidade desde o tempo dos romanos, dedicando um capítulo à muralha e ao castelo. Aí, surge uma ilustração da autoria de José Luís Madeira, que reproduzimos à esquerda, e que reconstitui o castelo desaparecido. A fotografia do lado direito mostra o estiloso do André a olhar para o castelo, exatamente no sítio onde outrora se erguiam as suas torres imponentes. 

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   No Largo D. Dinis, a Ana mostra-nos a imagem superior que infelizmente não se consegue ver no monitor. Trata-se do aspeto geral da praça, ao cimo das Escadas Monumentais, antes do arranjo atual. Como podem ver, havia um arco, designado como Arco do Castelo, que foi destruído durante o Estado Novo quando se edificaram as faculdades da atual cidade universitária. Quando por lá passarem, reparem com atenção na parede do antigo Colégio de S. Jerónimo, pois ainda é visível o arranque do arco e as marcas onde assentava a estrutura. Resta dizer que este antigo colégio alberga atualmente vários departamentos da universidade, incluindo o Museu Académico que um dia visitaremos, depois de aqui se terem localizado, durante muitos anos, os Hospitais da Universidade de Coimbra.

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   A Joana mostra-nos o edifício da antiga Faculdade de Letras. Atualmente, esta Faculdade situa-se no outro lado do Largo da Porta Férrea mas quando foi fundada, em 1911, ocupou as instalações  onde atualmente está a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC). Antigamente, no séc. XVI, estava aí o Real Colégio de S. Paulo que foi extinto em 1834, tendo sido o edifício entregue à Universidade, que instalou aí a Faculdade de Letras.

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   A Bia mostra uma fotografia antiga onde se pode ver a Porta Férrea tal e qual como é na atualidade, pois não houve alterações. No entanto, do lado direito, onde está hoje implantada a Faculdade de Letras, existia um jardim. Se repararem bem, no meio estava um monumento de homenagem a Luís de Camões. Este monumento teve uma história muito agitada, pois foi inaugurado em 1880, por ocasião do tricentenário da morte do poeta. Porém, como essas comemorações ficaram associadas ao nascimento do ideal republicano, este monumento ficou com essa conotação. De tal modo que, quando a Faculdade foi construída e houve necessidade de o remover, ele ficou guardado num armazém, esquecido. Só muito mais tarde é que foi colocado num sítio discreto, junto à atual sede do Instituto Justiça e Paz, num cantinho muito pouco digno. Por isso, alguns anos depois, foi novamente deslocado, desta vez para o separador central ao fundo da avenida Sá da Bandeira, onde o podemos ver hoje e onde captámos a fotografia com que abrimos este texto.  

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   O Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra tem igualmente uma história agitada. De início, durante a reforma pombalina da Universidade, quando pela primeira vez se pensou na construção de um observatório, o local previsto foi, como já vimos, o castelo da cidade, onde é hoje  o Largo D. Dinis. Contudo, surgiram vários problemas na projeção e execução da obra, chegando mesmo a demolir-se o castelo. O facto é que a construção não passou dos alicerces e durante anos o observatório funcionou em instalações improvisadas. Após longos debates, e sentindo-se muito a falta de instalações apropriadas para os estudos científicos, decidiu-se construir um observatório no topo sul do Pátio das Escolas. Aqui funcionou então desde os finais do séc. XVIII até meados do séc. XX, quando foi demolido, passando para a margem esquerda do Mondego, na zona de Santa Clara, onde ainda hoje se encontra. 

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   Do Pátio das Escolas descemos até ao Museu Machado de Castro. Aqui se localizava, como sabemos, o antigo forum da cidade de Aeminium. Durante séculos foi a residência dos bispos de Coimbra, até que, na sequência da revolução republicana de 1910, os bens da Igreja foram nacionalizados, o bispo teve que sair e foi aqui criado o Museu, em grande parte com o espólio nacionalizado nos conventos e casas religiosas da cidade e dos arredores.  Depois de umas longas e profundas obras de remodelação, o Museu reabriu há três ou quatro anos, sendo um dos mais importantes museus nacionais.

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   O nosso amigo Gonçalo saiu um bocado desfocado na fotografia, o que é uma peninha. Por isso não se consegue ver lá muito bem o fundo da rua da Couraça dos Apóstolos para se poder comparar com a fotografia do lado esquerdo. De qualquer modo, quando lá passarem, lembrem-se da imagem antiga e reparem, olhando para a parede lateral da Sé Nova, na falta de reboco no espaço que corresponde ao local onde encaixava um passadiço que ligava a residência episcopal, o atual museu, à Sé, para que o bispo  passasse de casa para a igreja sem sair à rua. Esse arco era conhecido como o Arco do Bispo e dava ao local um aspeto muito pitoresco. Infelizmente foi demolido. Resta a memória das fotografias e a marca nas paredes.

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   Na avenida Sá da Bandeira, chegámos ao local onde nos finais do séc. XIX foi inaugurado o Teatro Avenida, a maior sala de espetáculos de Coimbra durante décadas. Era dos poucos exemplares da designada arquitetura do ferro, pois tinha uma cúpula e um gradeamento neste material tão típico das construções dessa época. Na nossa cidade são raros os exemplares desse estilo. Além do desaparecido Teatro Avenida, refira-se o Edifício Chiado, atual Museu Municipal, ou o Mercado D. Pedro V. Esta sala acolheu, ao longo de quase todo o século XX, inúmeros espetáculos de teatro, cinema, dança, variedades, récitas, saraus e até comícios políticos, como o do general Humberto Delgado, em 1958. Aqui se realizaram igualmente concertos memoráveis e episódios marcantes da vida estudantil, nomeadamente os de José Afonso, na década de 60, que mobilizaram os estudantes para as lutas académicas. Era uma sala enorme, com camarotes e plateia, inspirada no coliseu de Lisboa. Nos meados dos anos 80, o edifíco foi demolido, dando lugar ao atual centro comercial Avenida. É um espaço desinteressante, labiríntico e deserto, sem movimento, nem atividade comercial relevante. A sala de cinema encerrou. 

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   Ao descermos a avenida na direção da Baixa, pudemos comparar a atual artéria com uma fotografia de 1979 retirada da internet. Nota-se ao fundo o mercado D. Pedro V. A principal diferença é o elevador que liga a zona baixa à Alta da cidade. Um pouco mais abaixo, detivemo-nos em frente ao mercado.

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   A Tália mostra-nos a fotografia da esquerda no local aproximado de onde foi captada, há muitos anos atrás, embora os reflexos não deixem ver a imagem. O Mercado Municipal D. Pedro V foi construído na antiga horta do mosteiro de Santa Cruz. Esta localização não foi consensual, pois discutiram-se outros locais para a edificação deste espaço comercial que pretendia reunir diversos mercados que se faziam, muitas vezes em más condições, em várias ruas e praças da cidade, como no Largo da Feira, em frente à Sé Nova, ou na Praça do Comércio. Em 1868 concluiu-se a construção deste mercado, ainda que só mais tarde, já no séc. XX, tenha sido inaugurado o mercado do peixe. Este espaço foi durante décadas um dos principais locais de comércio da cidade, até ao aparecimento dos modernos supermercados e centros comerciais. Desde então, tem-se assistido ao seu declínio, apesar dos esforços da câmara para o modernizar. O atual espaço resulta da remodelação empreendida já nos inícios deste século. Apelamos a todos os conimbricenses para que não deixem morrer este local, adquirindo produtos locais, fazendo as vossas compras no Mercado D. Pedro V.

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      No local onde hoje se encontram as escadarias de Montarroio, existiu até 1935 um dos mais imponentes e grandiosos monumentos da cidade, a torre de Santa Cruz. Fazia parte do complexo de construções anexas ao antigo, rico e importantíssimo mosteiro. Era  maciça, robusta e austera, sendo encimada por um conjunto de sinos imponentes. Ao longo das décadas, por falta de trabalhos de manutenção, a torre foi-se degradando e algumas pedras se foram desprendendo, ameaçando a segurança dos transeuntes. Por isso, em 1935, tomou-se uma decisão simples e radical: demolir a torre! Foi assim que, ao que parece com a ajuda dos bombeiros, foi injetada água nos alicerces de modo a causar a sua derrocada controlada! Convém lembrar que poucos anos antes, em 1933, tinha sido assinada em Atenas a primeira carta internacional para a preservação das cidades e do seu património. Em Coimbra, as autoridades não devem ter ouvido falar disso!

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    Fiquem com a Ana Francisca e com a Joana a prestarem uma homenagem ao património desaparecido de Coimbra. A fotografia, mais uma vez, vê-se mal, ao fundo deveriam ver uma torre medieval, mas veem umas escadas. Para a semana, continuaremos o nosso percurso sobre o património destruído.



publicado por CP às 21:30
Que dia maravilhoso!
Coimbra com sol de Inverno.
Os meninos "À Descoberta do Património"
Estou com saudades do Clube.
Parabéns Fernanda e António, a planificação deste ano está óptima,
Beijos para todos.
Conceição Fernandes
Mª Conceição Fernandes a 20 de Fevereiro de 2016 às 18:09

Olá, Conceição! Serás sempre bem-vinda, afinal és a nossa Presidenta Honorária!
CP a 21 de Fevereiro de 2016 às 09:22

Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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