Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

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Esta semana dedicámos o nosso passeio ao Marquês de Pombal. Sebastião José de Carvalho e Melo (1699 - 1782), Conde de Oeiras e Marquês de Pombal, é uma das figuras mais polémicas da história de Portugal. Ao longo dos tempos foi odiado por uns e idolatrado por outros. Na verdade, a sua ação como ministro do rei D. José I marcou profundamente o país. A nossa cidade sofreu especialmente a sua ação política, pois um dos campos principais do seu esforço modernizador foi o ensino, nomeadamente o universitário. Por isso, Coimbra foi muito marcada pelas reformas pombalinas. Fomos então à procura das marcas do governo de Pombal na nossa cidade.

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Para bem entendermos a figura do Marquês, temos que perceber que no seu tempo, e pelo menos desde o século anterior, vigorava uma prática política baseada no poder ilimitado do rei. Esse poder era considerado como tendo uma origem divina e, por isso, deveria impor-se a qualquer outro. Era a monarquia absoluta. Os reis deste período, entre eles D. José I, não toleravam a interferência de outros poderes intermédios. Nem sequer admitiam colocar-se sob a autoridade do Papa, quanto mais sentirem-se desafiados por um bispo!. Os conflitos foram muitos, as lutas contra os bispos, os jesuítas ou as famílias mais importantes da nobreza, devem ser entendidas neste enquadramento.

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D. Miguel da Anunciação (1703-1779) foi bispo de Coimbra e uma das figuras que mais se opôs ao Marquês de Pombal, pagando caro por essa ousadia. D. Miguel foi nomeado para o cargo em 1741, ainda no tempo de D. João V. Em 1768 emitiu uma carta pastoral proibindo a todos os dicesanos a leitura e a posse de livros de certos autores franceses, considerando-os contrários à doutrina cristã. Ora, a Real Mesa Censória, organismo dirigido pela coroa a quem competia a proibição de livros, sentiu-se ofendida, pois o bispo proibia livros aconselhados pelo rei e aconselhava outros que o rei não recomendava. O Marquês de Pombal, que se sentiu pessoalmente atingido, deu ordem de prisão a D. Miguel da Anunciação, conseguindo mesmo a sua condenação à morte. Felizmente que a sentença não chegou a ser executada, mas o bispo não se livrou de ficar preso durante nove anos! Sob o pretexto de comemorar o 2º centenário da abertura do seminário, foi inaugurado em 1958 um busto em bronze desta personagem, da autoria do escultor José dos Santos, que foi colocado nos belos jardins envolventes do seminário, local onde iniciámos o nosso passeio.

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Seguimos depois para o Jardim Botânico, obra realizada no âmbito da Reforma Pombalina dos estudos. Os novos Estatutos da Universidade foram publicados em 1772 e a reforma universitária foi orientada sob o comando do bispo-reitor, D. Francisco de Lemos, bispo de Coimbra que sucedeu a D. Miguel da Anunciação, homem da confiança de Pombal, colocado à frente da Universidade neste período tão importante.

As obras foram conduzidas por Guilherme Elsden, sob a direção científica dos sábios estrangeiros Domingos Vandelli e Giovanni Dalla-Bella que escolheram este terreno que pertencia aos monges do Colégio de S. Bento.

CIMG5686.JPGFoi feito um aterro, utilizando os escombros do castelo demolido e do Colégio dos Jesuítas. A construção foi sendo feita por fases. Depois do aterro, construiram-se as escadarias de pedra e o quadrado central que está rebaixado e onde foi tirada a fotografia de cima. As obras foram prosseguindo lentamente, concluindo-se já no séc. XIX. Deve destacar-se o belo gradeado de ferro, encomendado em Estocolmo, na Suécia, tal como o portão principal, mais tardio, da autoria de um tal Mestre Galinha. Este nome tão curioso motivou uma das adivinhas mais conhecidas do meio académico: Qual é a coisa qual é ela que preto é e Galinha o fez?

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Passámos depois pelo antigo Colégio de S. Bento, onde atualmente funciona o Instituto Botânico e o Departamento de Antropologia, em direção ao atual edifício das Matemáticas. Há umas semanas atrás, iniciámos aqui o nosso percurso dedicado à muralha medieval, pois era aqui que se localizava o velho castelo que o Marquês de Pombal mandou demolir para construir um observatório astronómico. Recordamos, da nossa visita ao Museu Nacional Machado de Castro, os desenhos e um painel de azulejos do Observatório que nunca aqui chegou a ser totalmente construído. Seria mais tarde edificado no Pátio das Escolas, acabando por ser demolido na década de 50 do séc. XX e finalmente instalado no alto de Santa Clara, na outra margem do Mondego, onde permanece.

CIMG5643.JPGA próxima etapa foi a Sé Nova que pertenceu, tal como todo o quarteirão envolvente, aos Jesuítas. Os padres da Companhia de Jesus tinham aqui o seu mais importante estabelecimento no nosso país. Inimigos preferenciais do Marquês, foram expulsos em 1759. A igreja foi atribuída ao bispo, passando a ser a nova Sé, enquanto o colégio foi incorporado na Universidade. 

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Os projetos da renovação dos novos edifícios universitários foram, mais uma vez, da responsabilidade de Guilherme Elsden, auxiliado pelo capitão Isidoro Paulo Pereira. Foi então no âmbito da reforma Pombalina, que pretendia reforçar o ensino das ciências exatas e da Natureza, que aqui foi instalado o designado Museu de História Natural, que deveria ser usado pelos estudantes para aprenderem, em aulas experimentais, Física, Mineralogia, Geologia e Zoologia. O edifício foi construído num estilo muito moderno para a época, traçado em linhas geométricas, equilibradas e simétricas,  estilo que se costuma designar como neoclássico.

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Destaquemos a balaustrada que remata o topo do prédio, bem como as belas cabeças de leão colocadas no friso. Muito belo também é o pórtico com colunas encimadas por uma belíssima varanda de ferro com uma janela coroada com um frontão triangular.

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O Largo Marquês de Pombal é o mais pombalino dos sítios de Coimbra!  De um lado desta bonita praça temos a longa fachada clássica do Museu de História Natural, com mais de 100 metros de extensão e 10 de altura. O ritmo geométrico e a  sucessão de janelas e portas encimadas por frontões triangulares são um excelente exemplo dessa arquitetura neoclássica, que alguns historiadores também chamam estilo pombalino.

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A fachada é interrompida por um corpo central onde se destaca um frontão, também triangular com um grande baixo-relevo que representa a Natureza, ao centro, com animais e plantas, aludindo ao estudo do mundo natural. Sete criancinhas nuas e rechonchudas brincam descontraidamente. Este trabalho escultórico é da autoria do mestre António Machado, talvez o último grande representante da outrora famosa, durante séculos, escola de escultura de Coimbra.

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Do outro lado do Largo Marquês de Pombal, podemos apreciar o mais pombalino dos edifícios pombalinos, uma vez que, sendo mais uma vez projetado por Elsden, seguiu de perto indicações do próprio Marquês. Referimo-nos ao atual Museu da Ciência que, antes, fora o refeitório dos Jesuítas, mas que a reforma dos estudos converteu em Laboratório Químico ou, como ainda se lê na fachada, escrito à maneira antiga, Laboratorio Chimico.

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Este laboratório destinava-se ao ensino experimental e laboratorial da Química e, como esta atividade pode ser explosiva, entendeu-se construí-lo fora do edifício central. Como curiosidade diga-se que, durante as invasões francesas, foi aqui que os resistentes fabricaram a pólvora necessária para os combates.

Recentemente, este espaço foi objeto de uma feliz remodelação para aqui se poder instalar o Museu da Ciência, inaugurado em 2006. O projeto foi da autoria dos arquitectos João Mendes Ribeiro, Désirée Pedro e Carlos Antunes. Este último é um conhecido do nosso clube, pois é o diretor atual do CAPC e foi ele que nos guiou numa visita. Quem se lembra?

CIMG5705.JPGO nosso percuro pombalino não devia terminar aqui, pois estava prevista uma passagem pela Imprensa da Universidade, junto à Sé Velha. A imprensa foi uma peça muita importante do projeto pombalino, pois serviu para imprimir os livros escritos pelos professores, e que serviram para os alunos estudarem. A Imprensa da Universidade ainda hoje existe e cumpre essa missão, instalada nas instalações originais e bem conservadas.

Como os nossos sócios já estavam muito cansados, especialmente o João Vítor que passou o passeio todo sentado, dispensámos esta derradeira etapa. Ficamos pois com uma fotografia do projeto original, para poderem compará-lo com o edifício atual quando lá passarem. 

 

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Por fim, despedimo-nos com uma fotografia do João Vítor cansado! Até para a semana!

 

 

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publicado por CP às 21:44
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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