Sexta-feira, 07 de Fevereiro de 2014

 O dia 17 de abril de 1969, adivinhava-se em Coimbra, seria especial. Estava anunciada a vinda do almirante Américo Tomás, Presidente da República da ditadura, para presidir à inauguração do edifício das Matemáticas. O ambiente era tenso, os estudantes e os portugueses andavam insatisfeitos, a repressão era insuportável. Salazar já não mandava, morreria no ano seguinte e fora substituído por Marcelo Caetano, mas a esperança numa abertura democrática já desaparecera. A guerra colonial absorvia as energias da nação e condenava os jovens a uma existência incerta e injusta. O país era pobre, milhares emigravam, a censura era incompatível com os novos ventos da mudança que atravessavam a Europa e o Mundo. Em suma, vivia-se um clima irrespirável e os jovens estudantes assumiam-se como os protagonistas dessa insatisfação. Faltava Liberdade!

 

 

Os estudantes viram na inauguração do novo edifício uma oportunidade para se manifestarem e protestarem. Exigiam participar na cerimónia e na vida universitária, queriam ser ouvidos, queriam, numa palavra, Democracia. O Reitor, no entanto, negou-lhes o direito à palavra na cerimónia, levando os estudantes a reunir à pressa e a combinar uma estratégia. Distribuiram tarefas entre todos, cada um tinha a sua missão no desenrolar dos acontecimentos do dia seguinte. Chegado o dia 17, a ansiedade era grande, todos sabiam que algo ia acontecer, mas não sabiam o quê nem qual seria a reação das autoridades. A multidão juntou-se à entrada do edifício, aguardando a chegada das personalidades e o desenrolar dos acontecimentos, empunhando cartazes e faixas de protesto. O ambiente estava quente!

 

 

 

Juntou-se muita gente e o entusiasmo foi crescendo. Quando chegaram as altas personalidades - o presidente da República, vários ministros, entre eles José Hermano Saraiva, ministro da educação, o reitor e o bispo - os ânimos exaltaram-se e Celso Cruzeiro, um dos dirigentes associativos, convidou a multidão a entrar. A sala onde estava prevista a cerimónia inaugural ficou apinhada e o ambiente que se vivia era um verdadeiro barril de pólvora, todos aguardavam que Alberto Martins, o presidente da AAC, desafiasse as proibições e pedisse a palavra que não lhe queriam dar. Quando isso aconteceu, conforme combinado, os jovens explodiram de alegria. O poder da ditadura fora humilhado e não soube reagir prontamente.

 

Alberto Martins pede a palavra em nome dos estudantes de Coimbra (17 de abril de 1969; foto da esq.). Alberto Martins na atualidade 

 

Antes de prosseguirmos o nosso itinerário pelos acontecimentos da crise académica de 1969, atentámos nos belos frescos de Almada Negreiros no átrio do edifício. Do lado esquerdo de quem entra, sobre um fundo vermelho, estão representadas algumas das personagens mais importantes da história da matemática, desde os egípcios antigos até Albert Einstein, passando pelos sábios gregos, Descartes, Leibniz e Newton.

No lado oposto, sobre um fundo azul, o tema são os Descobrimentos portugueses e a importância que a matemática teve na planificação das viagens, na cartografia, na observação astronómica e na ciência náutica. Destacam-se as figuras do Infante D. Henrique, de Pedro Nunes e de Fernão de Magalhães.

 

José de Almada Negreiros foi um dos mais importantes artistas portugueses do séc. XX. Nasceu em 1893 em S. Tomé e Príncipe e morreu em 1970, tendo sido estes frescos a sua última obra. Foi uma figura multifacetada, manifestando o seu génio criativo como pintor, bailarino, poeta, escritor, ensaísta ou dramaturgo. Foi autodidata e conheceu algumas das personalidades mais importantes da cultura nacional e internacional do seu tempo, como Fernando Pessoa ou Pablo Picasso.

 

Regressando aos acontecimentos de 1969, depois de toda aquela agitação, os estudantes dirigiram-se para os jardins da Associação Académica, onde conviveram, descomprimiram e combinaram estratégias futuras. Estes jardins estão atualmente num estado lamentável de abandono, degradação, desleixo e sujidade. É inacreditável o ponto a que o património da cidade e da academia chegaram. As instalações da AAC foram inauguradas em 1961, seguindo um projeto dos arquitetos Alberto Pessoa, Norberto Correia e João Abel Manta que é o autor dos painéis de azulejos da fachada e do jardim.

 

 

 Saindo dos jardins e rumando à Praça da República, onde nas semanas seguintes se concentraria a polícia de choque e a repressão sobre os estudantes, pudemos admirar os painéis de azulejos que, na continuação da fachada do Teatro Académico Gil Vicente, ilustram os estudantes de vários períodos, enquadrados por pares trajados à época e alguns elementos arquitetónicos. Lamentamos, mais uma vez, o estado degradado destes azulejos, estando muitos estalados e danificados a pedir urgente intervenção.

 

      

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Na sequência destes acontecimentos, a tensão aumentou, levando os estudantes a radicalizar a contestação. Foram convocadas várias assembleias, sempre muito participadas, que decretaram o luto académico e a greve às aulas. Ao longo dos meses de maio e junho, agravou-se o conflito com a polícia que reprimiu severamente as ações estudantis. A cidade foi ocupada, levando os estudantes a promover ações simbólicas pacifistas, como a distribuição de flores à população e a largada de balões, que culminaram no dia 22 de junho no Estádio do Jamor, durante a final da Taça de Portugal, disputada entre a AAC e o Benfica. O almirante Tomás, temendo as manifestações, não compareceu, a RTP não transmitiu o jogo mas, ainda assim, os estudantes transformaram-no numa memorável jornada de protesto e luta contra a ditadura.

 

  

No rescaldo dos acontecimentos, e depois de muita violência repressiva nas ruas com espancamentos e cargas policiais, os dirigentes associativos são destituídos e presos, são alvo de processos disciplinares, interrogados e incorporados nas forças militares que combatem na guerra colonial.

Na denúncia dos estudantes que se destacaram na contestação, participaram os agentes da PIDE/DGS. A polícia política, agora chamada Direção Geral de Segurança (DGS), tinha agentes infiltrados que se intrometiam nas assembleias e fotografavam e denunciavam os estudantes mais ativos. Os inspetores da delegação de Coimbra da PIDE/DGS enviavam relatórios para Lisboa analisando a situação, indicando responsáveis e denunciando o que consideravam a indisciplina da juventude como causa da revolta e da desordem vividas.

 

 

 A sede da PIDE era numa vivenda na rua Antero de Quental. Foi aqui que estiveram presos os dirigentes estudantis, entre eles Alberto Martins, tendo-se realizado uma grande manifestação dos estudantes exigindo a libertação do seu companheiro. Aqui estiveram presos, nas celas da cave, muitos opositores ao regime, não apenas estudantes. Aqui esteve instalada a comissão de extinção da PIDE/DGS, passando depois a funcionar, durante alguns anos, os serviços regionais do Ministério da Educação. Atualmente, o imóvel foi vendido a particulares e está a ser remodelado, apesar de alguns antigos resistentes defenderem a preservação deste espaço para manter viva a memória da oposição ao Estado Novo, nomeadamente a luta dos universitários.

 

Na pequena praceta fronteira ao prédio, foi erguido, em 2001, um monumento ao 25 de abril da autoria da escultora conimbricense Ana Rosmaninho. Trata-se de uma esfera prateada abraçada por dois braços estilizados em bronze, onde estão gravados versos de poetas que celebram a conquista da Liberdade. Foi aqui que concluímos o nosso passeio de hoje.

 

As fotografias a preto e branco foram retiradas de uma apresentação em powerpoint facultada pelo Centro de Documentação 25 de abril da Universidade de Coimbra. O texto foi redigido com base no livro de Celso Cruzeiro, dirigente associativo à época dos acontecimentos, intitulado «Coimbra, 1969. A crise académica, o debate das ideias e a prática. Ontem e hoje» (Porto; Edições Afrontamento; 2010; pp. 127 e ss)

 



publicado por CP às 22:53
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