Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014

 

A avenida Dias da Silva é uma das zonas residenciais mais bonitas de Coimbra. A rua foi aberta nos primeiros anos do séc. XX, ligando o Penedo da Saudade aos Olivais, urbanizando uma periferia conhecida como Cumeada, uma vez que fica mesmo no cume do monte que para nascente tem o vale que se estende desde a Quinta de S. Jerónimo até à nossa escola e, para poente, tem toda a zona que desce de Celas até ao centro da cidade. Hoje já é difícil imaginar as vistas panorâmicas que daqui se usufruíam, uma vez que está tudo urbanizado com casas e prédios elevados, mas há cem anos atrás esta rua foi rasgada num cume sossegado, isolado e com vistas magníficas.

 

 

Quando este novo eixo foi aberto, com o respetivo projeto de loteamento e urbanização, logo se começaram a construir muitas vivendas da mais destacada burguesia da cidade, especialmente lentes da Universidade e ricos homens de negócios. A família Lima era uma dessas famílias abastadas que aqui decidiu construir a sua residência, daí que o edifício ainda hoje seja conhecido como Casa dos Lima. O projeto de arquitetura data de 1915 e foi encomendado ao arquiteto Augusto Silva Pinto (1865-1938). Nascido em Lisboa e aí formado pela Faculdade de Belas Artes, prosseguiu os seus estudos em Paris, vindo depois a instalar-se em Coimbra, onde chegou a ser Governador Civil. Foi professor na antiga Escola Industrial Avelar Brotero. que nesse tempo se situava junto ao Jardim da Manga, desenvolvendo ao mesmo tempo a sua atividade como arquiteto. A cidade deve-lhe várias obras, destacando-se o projeto de remodelação do antigo Colégio de S. Tomás, na Rua da Sofia. Este antigo Colégio Universitário, que atualmente é a sede do Tribunal da Relação, era uma serração de madeira, até que os Condes do Ameal o compraram para aí  instalarem a sua residência familiar, encomendando nessa altura o projeto a Silva Pinto.

 

 

A empreitada da obra foi adjudicada ao mestre João Machado, famoso pela mestria no trabalho da pedra e por muitos considerado o último grande representante desta arte que conheceu grande esplendor na nossa cidade durante séculos e que hoje está praticamente esquecida. João Machado produziu notáveis trabalhos para edifícios traçados por alguns dos melhores arquitetos do seu tempo, como Adães Bermudes (em breve lhe dedicaremos um passeio), Raul Lino (já conhecemos a sua obra em Coimbra), ou Luigi Manini, um italiano que, embora fosse cenógrafo de formação, foi autor de projetos marcantes em que contou com a colaboração inestimável de João Machado, como a Quinta da Regaleira, em Sintra, ou o Palácio Hotel do Buçaco.

 

 

Na Casa dos Lima podemos igualmente apreciar a excelência do trabalho escultórico de João Machado e dos seus colaboradores, destacando-se naturalmente o belíssimo pórtico principal. Reparámos ainda nas molduras das janelas, nos balcões das varandas e noutros pormenores em que as decorações de pedra conferem ao edifício um aspeto airoso ao gosto da época, colhido nas revistas parisenses que João Machado lia e nas quais se inspirava, enquanto mestre professor na famosa Escola Livre das Artes do Desenho, escola fundada em 1878 e que funcionou na Torre de Almedina e no antigo refeitório de Santa Cruz, marcando profundamente a nossa cidade.

 

 

 

 

 

O palacete está rodeado por belos jardins onde se construiram modernos edifícios da Faculdade de Economia, para alojar as salas de aula, os gabinetes dos professores, a biblioteca e outros serviços. No solar propriamente dito estão instalados os serviços administrativos, a direção e os gabinetes de apoio. 

A Faculdade de Economia foi criada em 1972, sendo uma das mais recentes da Universidade de Coimbra. Atualmente, tem cerca de 2100 estudantes que estudam, além de Economia, Sociologia, Gestão de Empresas e Relações Internacionais. 

 

 

A Casa dos Lima está muito bem conservada, pois foi recentemente recuperada. Possui dois andares sobre uma cave que seria um espaço de armazenamento e serviço. Tem ainda umas águas-furtadas revestidas com placas de lousa preta. Num dos lados, destaca-se um torreão com um miradouro contornado por uma varanda panorâmica. 

 

 

Passeámos em redor da casa e claro que observámos os azulejos estilo Arte Nova bem como os gradeamentos em ferro forjado, quer das varandas, quer dos portões. Ainda tivémos tempo, apesar do dia chuvoso, de passear pelos jardins que ninguém conhecia e que se estendem pelas traseiras da habitação.

 

 

 



publicado por CP às 21:47
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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