Sexta-feira, 27 de Novembro de 2015

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   Depois do sucesso obtido na estreia mundial da nossa apresentação no Museu Machado de Castro, retomámos os nossos percursos pedagógicos pela cidade. Lembramos que ainda haverá mais duas oportunidades para assistir à nossa visita guiada performativa Uma pequena História de Coimbra: Entre o presente, o passado e o presente. Para quem não conseguiu assistir no último sábado, ainda é possível marcar reservas para os dias 12 dezembro e 16 de janeiro, bastando enviar uma mensagem eletrónica para o endereço seguinte: linhas.coimbra@gmail.com A Catarina tratará de responder e confirmar os pedidos.

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    Esta semana aproveitámos os últimos dias da Anozero: Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra para visitar algumas exposições, nomeadamente a de Alberto Carneiro e Francisco Tropa que está no Edifício Chiado do Museu Municipal de Coimbra, até este fim de semana. Recomendamos a visita a este e aos outros núcleos, na sede do CAPC, ao fundo das Escadas Monumentais, ou no Jardim da Sereia; bem como no Museu da Ciência, ou no mosteiro de Santa Clara-a-Velha. O programa completo pode ser consultado aqui.

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 Francisco Tropa nasceu em Lisboa, em 1968. Licenciou-se em Escultura na Ar.co, prosseguindo os seus estudos no estrangeiro, antes de se instalar novamente na capital, onde vive e trabalha. Começou a expor nos inícios da década de 90, sendo muito bem recebido pela crítica, podendo considerar-se já um artista consagrado. Participou em várias feiras e eventos artísticos, destacando-se a sua presença na Bienal de Veneza, em 2011, como representante português. As suas obras fazem parte de algumas prestigiadas coleções públicas e privadas, entre elas a coleção AA, uma das mais importantes coleções particulares de arte contemporânea. 

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    Foi precisamente dessa coleção que a organização da Bienal selecionou esta obra produzida em 2006 e intitulada Alegoria do espaço. Um feixe de luz atravessa um objeto de vidro translúcido, parecido com uma garrafa, projetando a sombra e os reflexos brilhantes na parede branca. Os contornos da projeção lembram a entrada de uma gruta, tal como se prenuncia no título da exposição: Encriptar, revelar. Uma gruta e uma clareira.

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    É quase impossível não nos lembrarmos da Alegoria da Caverna de Platão, filósofo grego que viveu nos séculos V-IV a. C. e que, daqui a uns anos, estudarás nas aulas de Filosofia. Para mostrar que, de acordo com o seu pensamento, a realidade não passa de um reflexo do verdadeiro mundo das ideias, Platão contava aos seus discípulos esta história: «imaginem que estão prisioneiros numa caverna, virados de costas para a entrada, por onde entra a luz exterior. Sempre viveram aí e só conhecem o mundo - os animais, as plantas e tudo o resto -  através das sombras projetadas na parede da gruta pelos raios solares vindos do exterior. Todos julgariam que a sombra é a realidade e se, um dia, por acaso, um de vós se libertar e fugir, perceberá finalmente que a realidade não é feita de sombras e que viveu enganado todo aquele tempo. Imaginem agora que o fugitivo, conhecedor do verdadeiro mundo, regressa à caverna e conta a sua aventura aos seus amigos. Acham que eles iam acreditar? Provavelmente não. Quase de certeza que continuariam a achar que as sombras diante deles é que eram a verdadeira realidade.» Ora, para Platão, o mesmo se passa connosco, pois as coisas que vemos no mundo não passam de sombras da verdadeira realidade que existe num outro mundo autêntico e inacessível, o mundo das Ideias!

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   Depois de instalada esta obra de Francisco Tropa, Alberto Carneiro foi convidado pelos curadores da Bienal a instalar um trabalho que se articulasse com esta Alegoria do espaço. Se considerarmos que a projeção de Tropa evoca uma gruta, logo percebemos que a clareira é a resposta de Carneiro.

    Alberto Carneiro nasceu em 1937 e é um dos artistas que abriu novos rumos à arte em Portugal, tendo sido um dos precursores da arte conceptual no nosso país. Tem uma ligação muito especial a Coimbra, uma vez que, entre 1972 e 1985, foi coordenador artístico do Círculo de Artes Plásticas.

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   Para Carneiro, o  valor de uma obra de arte não reside no material de que é feito, nem da habilidade do artista, mas sim da ideia, do conceito. Os seus trabalhos utilizam frequentemente materiais orgânicos, como raízes, troncos, canas, ramos, etc. Este trabalho, concebido para uma grande exposição realizada em 2013 na Fundação de Serralves, no Porto, utiliza um entrançado de canas da Índia de onde se suspendem 21 pequenos espelhos com palavras manuscritas em caneta de acetato, tais como: éter, laranjeira, amendoeira, água, fogo,...

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     O espectador é convidado a participar, embrenhando-se na clareira. O artista pretende que esta instalação seja um espaço habitável que envolva o visitante, o que os nossos sócios perceberam imediatamente pois logo se puseram a rastejar e a percorrer os espaços interiores do emaranhado de canas. A participação do público vai além disto, já que lhe compete elaborar a ideia mental representada nas palavras inscritas nos espelhos, justificando-se assim o título: Os bambus com vinte e uma imagens do teu ser imaginante. Quer dizer, as imagens só constam da instalação se o observador as imaginar a partir da inscrição das palavras inscritas nos pequenos espelhos, pelo que, vendo bem as coisas, a nossa imaginação completa e faz parte desta instalação artística!

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    Daqui seguimos para o Café de Santa Cruz, onde se exibe uma tela do pintor António Olaio, datada de 2003 e intitulada When did the founder of Portugal begin to feel Portuguese? Esta interrogação acerca dos fundamentos da nossa identidade coletiva ganha uma pertinência particular não apenas por ser colocada em inglês como por estar exposta num anexo do Mosteiro de Santa Cruz, atualmente Panteão Nacional, onde estão os restos mortais dos dois primeiros reis de Portugal, D. Afonso Henriques e D. Sancho I. 

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    António Olaio nasceu em 1963 e licenciou-se em Pintura pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto, sendo professor no Departamento de Arquitetura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e diretor do Colégio das Artes. 

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Esta pintura representa o túmulo que o escultor Nicolau Chanterene realizou, a mando do rei D. Manuel I, no século XVI, para receber as ossadas do Fundador, pelo que se impunha uma visita à capela-mor da igreja de Santa Cruz.

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   A obra de António Olaio é uma pintura de uma escultura do rei D. Afonso Henriques. Passados tantos anos sobre a sua morte, é interessante constatar como a arte atualiza a memória do rei, adequando-a aos novos tempos e aos problemas dos novos tempos, levando-nos a colocar questões importantes acerca do que perdura da memória dessa figura histórica e da necessidade de a representar sucessivamente. Além, claro está, de nos interrogarmos sobre os fundamentos da nossa identidade coletiva. Confusos? Não vale a pena, descontraiam e façam como a Margarida: visitem a Bienal! Divirtam-se!

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publicado por CP às 22:35
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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