Sexta-feira, 24 de Março de 2017

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   A capela de Santa Comba é um dos mais antigos e esquecidos monumentos de Coimbra. Está em avançado estado de degradação e quase ninguém sabe onde se situa. Não é o nosso caso, aqui no Clube do Património, pois em maio de 2013 fizemos aqui uma visita. Basta seguir esta ligação e ler o nosso relato. Não é o caso também da arqueóloga Sónia Filipe, a mãe do nosso Tomás que, muito amavelmente, nos conduziu neste regresso ao recinto do Polo III, junto aos Hospitais da Universidade.

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   A capela foi implantada em tempos muito antigos, pelo menos no séc. XI, nesta zona muito afastada da cidade de Coimbra. Hoje, é muito difícil imaginar a paisagem original, pois tudo está cercado de prédios e estradas. No entanto, com algum esforço, podemos imaginar a excelente exposição deste local, rodeado de oliveiras e com vistas a perder no horizonte.

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   A mãe do Tomás ofereceu-nos uma pagela com uma fotografia de uma escultura de Santa Comba, exposta no Museu Machado de Castro, atribuída à escola de escultura do Mestre Pêro. Outra pagela contava a lenda desta santa Virginis et martir, como refere uma inscrição à entrada, isto é, virgem e mártir. A Inês leu a história que reproduzimos de seguida, recordando que são várias as lendas que se contam.

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   Comba era uma menina rica, filha de uma família ilustre nos tempos da dominação árabe. Como era costume na época, foi educada por uma ama, que a iniciou na fé cristã. É necessário recordar que Coimbra era uma cidade moçárabe, situada na zona de fronteira entre o norte cristão e o sul islâmico, pelo que aqui conviviam comunidades  com tradições religiosas diferentes. O pai de Comba não gostou e, com o passar dos anos, tornando-se a menina numa bela donzela, foi necessário casá-la. Não tardou, um príncipe mouro apaixonou-se por ela, sendo acordado o casamento. Comba recusou, considerando-se noiva de Cristo e desejando preservar a sua virgindade.

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    Ninguém compreendeu a sua recusa e Comba viu-se forçada a fugir para fora de portas, para aqui, para esta zona, muito afastada da cidade, com boas águas e denso matagal. O príncipe procurou-a, acabando por encontrá-la numa gruta. Persistindo na recusa do casamento, Comba - nome que vem de colomba, que em latim significa pomba - foi açoitada e morta junto ao tronco de uma oliveira, sendo o seu corpo sepultado neste local. Mais tarde, a população encontrará o cadáver e, junto a ele, uma nascente de águas límpidas, fonte que ainda hoje existe nas proximidades e que até há bem pouco tempo conservava uma escultura antiga que foi roubada.

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    Da capela original já quase nada resta, pois foram muitos os acrescentos e os danos. Ao longo dos tempos, a capela foi muito transformada, foram vários os donos e as utilizações, servindo inclusivamente como palheiro. Os azulejos, datados do séc. XVI, foram roubados e recolocados em casas e jardins de gente importante da nossa cidade! Longe iam os tempos da devoção e das romarias. A fotografia que reproduzimos abaixo, retirada da página do facebook de um grupo dinamizado pela nossa guia e que se dedica à preservação da memória e recuperação da capela, mostra como era no séc. XIX.

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   No interior, para evitar mais saques, conservam-se as colunas que, outrora, sustentavam um telheiro, conforme se observa na fotografia. No interior, visitámos a parte mais curiosa, rara e preservada da capela, a cripta, onde se julga que terão sido depositados os restos mortais da mártir, antes de serem, no século XII, levados para a antiga igreja de Santa Justa, já desparecida, localizada no atual Terreiro da Erva. Mais tarde, as ossadas da santa foram trasladadas para a igreja de S. João das Donas, atual café de Santa Cruz, e só no século XIII são depositadas na igreja de Santa Cruz, onde hoje se conservavam numa pequena e discreta urna.

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   Os pais do Tomás recriaram-nos um cenário muito propício, pois iluminaram tudo com velas, tentando reproduzir o ambiente medieval, e colocaram mesmo uma réplica da escultura de Santa Comba, impressa em cartão a partir de uma fotografia, no altar construído sobre a cripta. Esta mostra sinais de vandalização, pois foi profanada, sendo quebradas as lages da cobertura, apesar de nada se encontrar no local. Descer à cripta foi uma experiência emocionante, pois é um espaço muito exíguo, subterrâneo e que, apesar dos estragos, conserva uma memória muito forte dos tempos remotos em que foi alvo de peregrinações e profunda devoção.

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   Nas paredes conservam-se ainda inscrições a lápis de peregrinos que assinalam com rabiscos, ainda legíveis, a sua passagem por esta ermida.

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   Regressados ao piso térreo, a Sónia mostrou-nos algumas fotografias da capela, bem como dos trabalhos de prospeção, os estudos e as atividades já desenvolvidos, desde que a Universidade de Coimbra adquiriu estes terrenos para aqui instalar os edifícios das Faculdades de Medicina e de Farmácia, bem como outras infraestruturas de apoio aos estudantes, sendo que a recuperação deste monumento é uma prioridade. O pai do Tomás contou-nos como se processam os trabalhos de prospeção com uma geringonça que permite ver o que está enterrado no solo, permitindo assim orientar a escavação.

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   Demos ainda uma volta pelo exterior para constatar como se observam ainda algums frestas, bem como vestígios de outras aberturas e que foram tapadas com a construção de uma dupla parede interior. Aos arqueólogos compete "ler" estes sinais com o objetivo de estabelecer limites da reconstrução e restauro.

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   Muitas coisas mais foram ditas. Porém, este texto já vai longo. Resta-nos convidar todos os nossos leitores a visitar esta ignorada ermida, bem como a participar nas festividades que, todos os anos, no dia 20 de julho, são organizadas para manter vivas as tradições deste local.



publicado por CP às 22:42
Blogue oficial do Clube do Património da Escola Básica Eugénio de Castro - Coimbra
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