Sexta-feira, 17 de Abril de 2015

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Hoje fomos ao Centro de Artes Visuais (CAV) visitar uma exposição de obras da coleção de fotografia, filme e vídeo do Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian. A exposição teve a curadoria de Ana Anacleto  e reune  30 obras de diversos autores contemporâneos: Nuno Cera, Gérard Castello-Lopes, Rui Calçada Bastos, Helena Almeida, Jorge Molder, Paulo Nozolino, Daniel Blaufuks, ou Pepe Diniz, entre outros de quem adiante falaremos.

CIMG6458.JPGUm curador é um profissional que concebe uma exposição, selecionando peças de entre uma ou várias coleções,  de acordo com um critério ordenador. O curador, também chamado comissário, estuda as obras que seleciona, dispondo-as depois num espaço expositivo, definindo um percurso e estabelecendo relações entre as peças. Normalmente, o curador é também o responsável pela promoção da exposição, redigindo a folha de sala que orientará os visitantes, colocando placas identificativas das peças e, quando existe, organizando a produção de um catálogo. A exposição que visitámos intitula-se Usine de Rêve, expressão francesa que significa Fábrica de Sonhos

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Fomos muito simpaticamente guiados pela Teresa que começou por nos explicar como é que o título nos remete para uma reflexão sobre a relação entre a realidade e a memória de um passado esgotado, ou seja, algo que existiu mas já não existe. Por outras palavras, como é que o tempo atua sobre a realidade, ou como é que o passado que se perdeu perdura na nossa memória e interfere no nosso presente e na nossa identidade. A primeira obra do nosso circuito é uma fotografia de Nuno Cera mostrando um espaço dominado por um tom azul-verde muito intenso e brilhante. É um espaço interior, como a nossa memória, que conduz o nosso olhar para um ponto de fuga, construindo uma perspetiva fotográfica que nos dá a ilusão de profundidade. É intrigante, pois a ausência de pessoas e a luz estranha que enche o corredor vinda das portas laterais sugere uma viagem ao passado ou a um mundo imaginário. Está dado o mote para a nossa viagem!

CIMG6459.JPGPassámos depois por duas fotografias de Gérard Castello-Lopes e Victor Palla, mas foi o filme de Rui Calçada Bastos que mais prendeu a nossa curiosidade. Trata-se de um filme datado de 2004, intitulado The Mirror Suitcase Man, que se pode traduzir por O Homem da Pasta-Espelho.

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 Em aproximadamente 4' 30'', vemos uma sucessão de imagens a preto e branco em que uma pasta de executivo é transportada pela mão de um homem cujo rosto nunca se vê. É uma viagem, pois o filme começa numa estação e nós vamos reconhecendo os subterrâneos do metropolitano, um autocarro, uma estrada, ou um caminho. A pasta vai sendo transmitida de mão em mão, tal como as memórias e os conhecimentos de geração em geração. Muito curioso é que o interior da pasta, e o que lá é transportado, não nos suscita qualquer curiosidade, pois a pasta é revestida por uma superfície espelhada que reflete constantemente a realidade exterior que, essa sim, é que prende a nossa leitura.

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 Vamos então acompanhando o olhar da câmara de filmar e a teia que vai urdindo com a realidade filmada em fundo, o cenário refletido e o nosso próprio olhar, de tal forma que nos integramos no percurso e na viagem, tornando-nos, por assim dizer, transportados pela própria mala, pois ao fixarmos o nosso olhar no filme as imagens entram na nossa memória e passam a fazer parte de nós, moldam a nossa identidade. Ou seja, nós passamos a ser mais um dos muitos que transportam esta misteriosa pasta de reflexos e memórias! Fomos apanhados!

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O outro filme da exposição também nos interessou muito. É de Fernando José Pereira, intitula-se The man who wanted to collect Time e foi filmado na Islândia. Em 10 minutos, mostra-nos os escombros de uma fábrica de congelados de peixe que foi destruída por uma avalanche. A encosta da montanha, poderosa e imune ao tempo, contrasta com os destroços da fábrica. As marcas do tempo e da destruição são visíveis em todo o lado, incluindo no rosto de uma personagem que deambula enigmaticamente pelo espaço.

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O curioso é que, depois da catástrofe, a ruína, em vez de ser reconstruída e a fábrica restaurada, foi adquirida por dois jovens irmãos que se dedicaram a preservá-la! Há lá coisa mais estranha do que preservar uma ruína? A ruína evita-se, o que se preserva é a construção, pelo que esta atitude dos dois irmãos parece inverter a lógica do tempo. Mas, contou-nos a Teresa, ainda mais curioso e fortuito é que, durante as filmagens, uma nova avalanche arruinou a ruína! 

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Desenho Habitado é o título de uma obra de Helena Almeida que agradou especialmente à Francisca. Esta artista é uma das mais consagradas e cotadas artistas portuguesas contemporâneas e um dos temas recorrentes da sua produção estética é a relação entre a realidade representada e a própria realidade. Neste caso, uma série de 12 fotografias em que uma mão empunha uma caneta que desenha um risco. O traço desenhado vai, ao longo da sequência, "libertando-se" das duas dimensões, tornando-se real, e parece querer passar do mundo representado para o nosso mundo, levando-nos a questionar acerca do modo como a arte estabelece relações entre a realidade e a representação. 

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José Luís Neto apresenta-nos uma série de fotografias impressionante. Quem não conhecer a história do processo criativo que conduziu à conceção e realização deste trabalho, não consegue medir o seu alcance. Na verdade, só depois de a Teresa nos contar a história que está por trás desta obra é que nós ficámos profundamente sensibilizados. Em primeiro lugar, devem clicar nesta ligação para conhecer uma fotografia de Joshua Benoliel, um dos pioneiros da fotografia em Portugal. A foto foi tirada em 1913 na Penitenciária de Lisboa e mostra a cerimónia, se é que assim se pode chamar, da abolição do capuz nesse estabelecimento prisional. Até então, os presos tinham que andar com a cara tapada por um pano que lhes escondia o rosto, impedindo-os de se conhecerem. Procurava-se assim evitar que se gerasse uma identidade de grupo. Imaginam o que seria se, na vossa turma, fosse obrigatório andar de cara tapada? Como conheceriam os vossos colegas? Como construiriam relações de amizade e cumplicidade? Seria terrível, nem é bom pensar nisso...

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Ora, José Luís Neto, a partir dessa foto, trabalhou em laboratório cada um dos rostos encapuzados, destacou-os da foto coletiva, individualizou cada uma das cabeças, ampliou as fotografias e dispô-las numa série. Parece que o efeito assim gerado aproximou as pessoas de monstros. Afinal, o que é uma pessoa sem rosto, sem identidade e sem individualidade senão um pobre ser desamparado? Ou então, se olharem de outro modo, será que, por detrás da cortina do capuz, conseguimos vislumbrar uma leve expressão individualizadora?

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Em frente, na outra parede, está um díptico (duas obras) de Paulo Nozolino representando os últimos instantes de vida da sua mãe. Mais uma vez somos levados a refletir, de uma forma muito emotiva e extrema, sobre a questão da memória como forma de negar o desaparecimento, neste caso, a morte. A Teresa explicou-nos que, à semelhança dos romanos antigos que faziam máscaras de cera dos seus entes queridos falecidos para assim preservarem a imagem e manter viva a memória, também este fotógrafo usou a fotografia com esse fim, captando o rosto da sua mãe falecida, alimentando assim a sua memória e prolongando a sua existência.

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A obra preferida da Joana foi um conjunto de duas fotografias da autoria de duas irmãs: Jane & Louise Wilson. Este trabalho dialoga com outro conjunto de duas fotografias de Daniel Blaufuks que está próximo. Todos versam sobre os arquivos e as bibliotecas que são formas de as sociedades organizadas preservarem a memória. O que seria dos países e das culturas, dos povos e das civilizações sem arquivos, sem bibliotecas, sem livros e sem memória do passado?  Seria como um pessoa amnésica, como um computador sem capacidade de armazenar informação e usá-la. É impossível, é inconcebível, tal como não se pode imaginar cultura sem biblioteca, ou uma civilização sem arquivos.

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 Claro que vimos muitas outras obras que nos interessaram e cativaram, sempre ajudados na nossa viagem pelas explicações da Teresa. Mas não podemos falar de todas! Lembramos apenas que o Guilherme Ribeiro inventou uma narrativa muito engraçada sobre uma série de trabalhos do Jorge Molder e o Salvador adorou as imagens super slow motion da Rosângela Rennó. Para acabar escolhemos um excelente ponto final:

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Trata-se de uma fotografia tirada por Pepe Diniz ao grande escritor argentino Jorge Luis Borges que teve neste assunto da memória, dos livros e das bibliotecas um dos seus temas mais obsessivos. Borges era cego, pelo que é irónico que uma lente fotográfica, que é um olho artificial, capte o rosto e o olhar de um cego. Mas o  Borges que nos é oferecido não é o de um cego, pois tem uma força interior e uma dimensão espiritual que é muito inquietante, parece ver muito para além da realidade física. Um dia, quando se iniciarem na leitura deste grande escritor, talvez se lembrem desta fotografia, ... se a souberem guardar na memória.



publicado por CP às 22:26
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