Sábado, 21 de Fevereiro de 2015

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Esta semana recebemos um amigo novo: o Raúl Moura Mendes. O Raúl é um estudioso que se especializou na história dos azulejos, na sua evolução, técnicas e motivos. Amavelmente, acedeu ao nosso convite para nos conduzir num itinerário desde a Sé Velha a Santa Cruz, onde é possível admirar azulejos de diversas épocas, de tal modo que podemos  reconstituir os momentos mais importantes desta arte decorativa.

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 Os azulejos hispano-mouriscos que revestem as paredes da nave central da Sé Velha, edifício do séc. XII,  foram feitos em Sevilha em 1503. A encomenda coube ao bispo D. Jorge de Almeida e a aquisição, aos fabricantes sevilhanos Fernan Martínez Quijarro e seu filho, Pedro de Herrera, foi tratada pelo escultor flamengo Olivier de Gand, autor, juntamente com Jean d’Ypres, do retábulo gótico da capela-mor.

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Os azulejos presentes no interior da Sé Velha destacam-se pelos seus padrões geométricos e vegetalistas (flores e plantas) e pela sua técnica: de aresta. Para impedir que as diferentes cores se misturem, os artífices criavam pequenas elevações, pressionando o barro com moldes, separando assim as figuras geométricas que compõem o padrão e a respetiva cor.

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 Os padrões mudéjares evocam os tecidos da cultura islâmica e os tapetes orientais. As cercaduras, por seu turno, servem para articular o tapete com o espaço arquitectónico.

 Os azulejadores que trabalharam na Sé Velha lançaram assim as bases para o futuro diálogo entre o azulejo e a arquitectura, ‘moda’ que acabou por espalhar-se pelo país, de Norte a Sul.

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A introdução destes azulejos na Sé Velha resultou das obras de embelezamento promovidas pelo bispo de Coimbra, D. Jorge de Almeida, que governou a diocese coimbrã entre 1483 e 1543.

 Anteriormente revestida na sua totalidade, a Sé Velha foi perdendo aos poucos o seu revestimento azulejar hispano-mourisco. Desde o século XVI que os seus azulejos têm vindo a ser retirados, estando actualmente espalhados por alguns dos mais importantes museus portugueses, como o de Lamego, o Machado de Castro e o Museu Nacional do Azulejo, estes dois últimos possuindo o maior número de exemplares provenientes da antiga catedral.

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Em finais do século XIX (1893) foram levadas a cabo extensas obras de alteração do espaço. Querendo ‘restituir’ a original natureza românica da Sé, António Augusto Gonçalves fechou as janelas barrocas que ladeavam o portal axial e mandou retirar grande parte dos azulejos mudéjares que cobriam as superfícies parietais e as colunas.

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 Da Sé Velha rumámos à Igreja de Santa Cruz. A primeira pedra desta igreja foi lançada em 1131. No que respeita aos azulejos, são várias as tipologias encontradas no Antigo Mosteiro de Santa Cruz. A nave central da Igreja, a Sacristia e o denominado Claustro do Silêncio são, de facto, espaços que se notabilizam pelo revestimento azulejar que possuem, todos diferentes no tempo, nos estilos, na iconografia, alguns dos quais únicos no mundo.

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A nave central da Igreja tem as suas paredes decoradas com azulejos figurativos, de azul e branco do século XVIII, com imagens relacionadas com o Evangelho: o pecado original, Moisés e a serpente, Cristo na cruz, o imperador Heraclito e a cruz; a vitória do imperador Constantino pela visão da cruz, a descoberta da verdadeira cruz por Santa Helena e a entrada da cruz em Jerusalém. Os azulejos mostram ainda episódios da vida de algumas das personagens mais importantes de várias ordens religiosas, como o caso de Santo Agostinho ou de Santo António.

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Na Capela-mor encontramos azulejos do século XVIII, de azul e branco, com episódios da vida do primeiro prior do Mosteiro, São Teotónio. Está ainda retratada uma cena com o primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques, a receber o hábito de cónego regrante de Santa Cruz. Recorde-se que tanto Afonso Henriques como o seu filho, D. Sancho I, encontram-se aí sepultados.

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Na Sacristia, destaca-se o azulejo de padrão do século XVII, policromo (azul, branco e amarelo), cujo padrão é o maior do mundo. Com efeito, para formar o padrão central com 12 azulejos de lado, são necessários, ao todo, 144 azulejos!

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Na Capela das Relíquias encontramos o chamado azulejo enxaquetado-compósito, que junta o enxaquetado normal (fundo branco com barras azuis que se cruzam) e azulejo-padrão no centro.

As paredes da Sala do Capítulo encontram-se decoradas (do meio da parede até ao arranque da abóbada) com azulejos enxaquetados, de finais do século XVI.

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Já as paredes do Claustro encontram-se adornadas com lambris com dois tipos de ornamentação azulejar: na parte inferior encontramos um rodapé de azulejo marmoreado; na parte superior encontramos azulejo policromo de finais do século XVIII, inícios do século XIX, onde se destacam molduras ovais com cenas do Evangelho.

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E assim, concluimos a nossa viagem, agradecendo ao Raúl o excelente passeio que nos proporcionou, bem como o texto que aqui publicamos que é da sua autoria. Obrigado e até uma próxima oportunidade.

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publicado por CP às 09:39
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